Arte
como forma de revolução
Por
muito tempo se ensinou que Revoluções nascem do assalto aos palácios, da
ruptura institucional e troca abrupta das elites no poder. Mas há outra forma
de revolução, mais profunda e mais duradoura, aquela que se faz no terreno
simbólico. Ela não começa com a tomada do poder e sim pela tomada da palavra e
da arte. Não ocupa quartéis, ocupa imaginários. Arte, nesse sentido, deixa de
ser ornamento para se transformar em motor oculto da história; e irá
impulsionar a revolução quando as desgraças do mundo deixarem de parecer
inevitáveis. Antes da insurreição das ruas e da queda dos regimes, há a
insubordinação da imaginação e a queda das certezas. Quando algo se desloca no
campo do sensível o que parecia eterno revela-se histórico, é nesse ponto que a
arte atua, desfazendo a aparência da inevitabilidade até conquistar dimensão
revolucionária ao operar no território onde se decide o que é pensável, dizível
e desejável.
Não
existimos fora das relações que nos constituem, somos trama de vínculos,
trabalho, memória e conflito. Ocorre que na tensão entre Sistemas Históricos
(Estado, Mercado, Instituições Religiosas, Educação…) e Vida tal qual vivida,
essas relações se cristalizam, instalando a reificação. Reificando processos
sociais e mentais, relações humanas e conceitos abstratos são transformados em
coisa; como decorrência, os seres humanos e suas ideais viram objetos,
instituições abstratas, como “O Mercado”, passam a adquirir personalidade
própria, como uma entidade física real, com gostos e vontades. Reificação, ou
fetichização, ou coisificação, três palavras para dizer o mesmo, que precisam
ser explicitadas, pois nos fazem enxergar o mundo como realidade dada, não como
realidade produzida a partir de relações. É assim que o “Sistema” domina a
vida.
A vida
social coisifica-se, e com ela a nossa percepção. É quando entra a função
revolucionária da arte. Arte só é revolucionária quando rompe essa névoa e
restitui à experiência comum sua espessura histórica, revelando que aquilo que
parece sólido, “desmancha no ar”, conforme o Manifesto escrito por Engels e
Marx. Para tanto é necessário desmanchar a coisificação dos processos sociais,
retomando a categoria de totalidade.
A
tarefa revolucionária da Arte é desfazer o fetiche. No poema Nosso Tempo,
Carlos Drummond de Andrade apresenta essa tarefa em verso:
“São
tão fortes as coisas
mas eu
não sou as coisas
e me
revolto!”.
Arte é
rebeldia em forma de reflexão, sensação e ação. Pela arte é possível retomar a
totalidade como categoria viva e com isso compreender o particular, e cada
experiência individual, como expressão de uma trama contraditória de mediações
e conflitos. Quando o poema, a cena ou a narrativa, reinserem o drama
individual na história coletiva, devolvem movimento ao presente e resgatam o
fio da história. É quando a arte deixa de ilustrar a transformação e passa a
preparar o plano do sensível, restituindo historicidade e revelando as
mediações invisíveis do mundo social. Reificação não é apenas econômica, é
perceptiva. Por isso transforma relações sociais em coisas e naturaliza a ordem
opressiva vigente. Uma arte crítica deve operar o movimento inverso, rompendo o
fetiche que aliena e revelando historicidade com a restituição da dimensão
processual do real. Arte como forma de revolução não é mero evento político,
mas superação da coisificação que captura a subjetividade.
A arte
pode ser conformista, reacionária ou revolucionária, isso depende de como vai
se absorver o particular como expressão de uma totalidade contraditória. É o
sentido que desfaz o fetiche e a reificação da vida, pelo sentido devolveremos
movimento de transformação profunda ao presente. Pela categoria de totalidade
revela-se que cada experiência individual carrega a marca de um sistema de
opressões e dominações e pela arte é possível apreender e desvelar essas
marcas, reabrindo o que parecia fechado. Por ela deixamos de perceber o mundo
como algo dado, imutável, que “sempre foi assim”. A arte só é revolucionária
quando rompe com a reificação/coisificação do mundo, até que a gente, as
pessoas e sociedades se transformem em multitude em ação, deixando de se
adaptar e se conformar.
No
mundo social nada é natural, por isso, não se conformem, não se adaptem.
Revoltem-se e vamos à luta!
Nenhuma
transformação estrutural se consolida sem mutação cultural prévia, sem
revolucionar o modo de pensar, ser e agir. O Renascimento deslocou o eixo do
universo simbólico ao reinscrever o humano no centro da representação; a nova
perspectiva artístico-pictórica que floresceu na península italiana a partir do
século XV não foi mero recurso técnico, foi reorganização da relação entre
sujeito e mundo. O mesmo com o Iluminismo, quando expandiu um novo gesto social
ao formular outra gramática da legitimidade. As pessoas deixaram de se sujeitar
à aristocracia herdeira do Feudalismo e ergueram o sentido da soberania
popular. Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, foram primeiro
imaginados em livros, panfletos, enciclopédias, peças teatrais, para só depois
ganharem a forma institucional da Revolução Francesa. Os costumes, a sociedade,
a política e a economia, seguem primeiro a imaginação e, ato contínuo,
tornam-se reais.
Sob a
Revolução Russa de 1917 ocorreu processo semelhante e a explosão ético-estética
antecipou a ruptura política. Vanguardas artísticas, cinema, poesia e
arquitetura buscaram criar formas compatíveis com uma sociedade que pretendia
romper com a ordem czarista e capitalista. Não se tratava apenas de ilustrar a
mudança, mas de inventar uma nova linguagem para um sujeito coletivo em
emergência. Ainda que posteriormente capturada pelo realismo oficial (realismo
socialista, sob o período de Stálin), aquela experiência revelou que a
transformação social exige invenção formal.
As
lutas anticoloniais do século XX igualmente confirmam essa dinâmica. A
dominação colonial opera não só pela violência material, mas pela captura do
imaginário através da colonialidade do poder. Libertar territórios, portanto,
implica em libertar consciências. O movimento Negritude, os teatros de
resistência, as músicas insurgentes, reconstruíram identidades dilaceradas de
povos colonizados. Há um aspecto lindo nas independências de países africanos
que pouco se comenta, parte significativa das independências na África
aconteceu sob a liderança de poetas. Léopold Senghor, poeta, pensador e um dos
fundadores do movimento Negritude, foi o primeiro presidente do Senegal;
Amílcar Cabral, da libertação de Guiné Bissau e Cabo-Verde, idem; Agostinho
Neto, médico e poeta, foi primeiro presidente de Angola. Como esses, outros
poetas foram fundamentais para a construção da consciência nacional de seus
povos em luta pela libertação: José Craveirinha e Mia Couto em Moçambique,
Manuela Margarido em São Tomé e Príncipe, A palavra tornou-se ato de
desalienação e a estética foi arma de reconquista da natureza do Ser
colonizado; ontológica, portanto, revelando os sentidos da existência e da
realidade. Pela arte venceram exércitos e descolonizaram o imaginário.
Do
Caribe mestiço, especificamente da Martinica, o mundo ganhou a poesia de Aimé
Césaire e as reflexões de Frantz Fanon, dois pensadores fundamentais para
mostrar que a dominação colonial operava no plano psíquico e cultural; para
eles, libertar territórios implicava libertar consciências. Idem na América
Latina, onde música, literatura e teatro tornaram-se espaços de reconstrução
identitária frente à violência imperialista; de Emílio Recabarrén, no Chile, e
José Carlos Mariátegui, no Peru e Astrojildo Pereira no Brasil, sem esquecer de
mencionar Augusto Boal para o mundo. Talvez a mais romântica das revoluções do
século XX tenha sido a Revolução dos Cravos, em Portugal. Em 25 de abril de
1974, uma canção transmitida pelo rádio, “Grândola, Vila Morena”, serviu como
senha para o levante militar que derrubaria a ditadura salazarista. O símbolo
que ficou não foi a arma, mas o cravo vermelho inserido no cano do fuzil. Essa
imagem sintetiza o poder do sensível: uma flor interrompendo a lógica da
violência. Não foi apenas a queda de um regime, foi a instauração de outra
atmosfera coletiva. A música antecedeu o ato revolucionário e o gesto poético
antecipou a transformação política.
Esses
exemplos não são coincidências históricas, revelam um padrão. Antes que as
estruturas mudem é preciso mudar a percepção das pessoas, reorganizando afetos,
redefinindo narrativas, restituindo dignidade simbólica. Arte não substitui
organização, luta e estratégia política revolucionária, mas prepara o terreno
subjetivo que torna possível a ação. Nesse momento a arte deixa de ser
ornamento para tornar-se um dos motores invisíveis da história; o mais
poderoso, imagino, ou melhor, sonho. A política segue a imaginação, não o
contrário. Muito do fracasso político do chamado progressismo de esquerda na
América Latina nas primeiras décadas do século XXI, e mesmo antes disso, na
Europa, é resultado dessa incompreensão. A explosão estética antecipa a ruptura
política, quando ela não acontece, o que se pretendia mudança vira desilusão.
Não se trata de ilustrar a mudança, mas de criá-la sensivelmente. Só assim se
coloca o povo em movimento para uma nova era, a Era da Consciência.
No
Manifesto Surrealista, André Breton proclamou: “A imaginação talvez esteja a
ponto de retomar seus direitos”. Não era metáfora e sim declaração de ruptura,
reestabelecendo a centralidade da imaginação. Libertar o imaginário significa
romper as fronteiras do possível impostas pela ordem dominante, por essas
fronteiras não nos atrevemos ir além, nos conformando e nos formatando. No
Brasil, com o Movimento Modernista, houve igual tentativa de fratura simbólica.
Com seus versos, Mário de Andrade desafiou a adiposidade cerebral no poema “Ode
ao Burguês”:
“Eu
insulto o burguês! O burguês-níquel,
o
burguês burguês!
A
digestão bem feita de São Paulo!
O homem
curva! O homem nádegas!
[…]
Ódio e
insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte
ao burguês de giolhos, [de joelhos]
cheirando
religião e que não crê em Deus!
Ódio
vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio
fundamento, sem perdão!
Fora!
Fu! Fora o Bom Burguês!…”
O
insulto poético de há um século foi gesto estético e político de rompimento com
a subordinação parasita-colonial-burguesa.
A arte estava preparando o país para pensar-se diferente, afirmando uma
outra voz nacional. Mas o presente impõe
um desafio mais complexo. Se de um lado a ideologia dominante e suas
Instituições, incluindo indústria cultural, produz sujeitos ajustados à ordem,
a reprodução das relações sociais sob o hipercapitalismo, ou tecnofeudalismo,
tornou-se difusa, algorítmica, capilar, povoando e direcionando desejos. A
ideologia já não opera apenas por crença ingênua, mas por cinismo esclarecido.
Sabemos das contradições e, ainda assim, agimos como se as injustiças e
desigualdades fossem inevitáveis. No livro “Realismo Capitalista”, Mark Fisher
diagnosticou com acuidade o fato de que nos tempos atuais instala-se a sensação
de que “não há alternativa”, pois o horizonte do imaginável foi colonizado. De
fato Nesse cenário a arte corre dois riscos: neutralização mercantil ou
impotência melancólica. Pode tornar-se produto mensurável por métricas de
engajamento, ou denúncia que não alcança mudanças estruturais, sequer
compreendendo o funcionamento de suas engrenagens. Fica na superficialidade da
crítica, como uma válvula de escape que funciona como catarse, sem alterar o
Sistema. A Indústria Cultural e a presentemente chamada “economia criativa”,
oferece a simulação da ruptura enquanto mantém intacta a lógica que a produz. A
ideologia contemporânea funciona cinismo esclarecido: “sabemos muito bem o que
de mal estamos fazendo, mas ainda assim o fazemos”. Como na linguagem de artes
periféricas a exaltarem a ostentação, reprodução do machismo, individualismo,
misoginia e outras opressões. A arte revolucionária, então, não deve apenas
denunciar ilusões evidentes, ela precisa atingir esse núcleo cínico, onde o
sujeito já não acredita no Sistema, mas continua participando e reproduzindo
seus mecanismos de dominação, e os incorpora.
Arte
não é exterior à ideologia, ela a atravessa. O sentido revolucionário só
acontece quando a arte reconfigura perguntas, restituindo totalidade ao
fragmentado, possibilitando a produção de contra-interpelações. Sua potência
está em criar fissuras na narrativa dominante, abrindo espaço para que o
sujeito se reconheça como agente histórico e não apenas como peça funcional do
Sistema. Contudo, não basta tematizar a injustiça, há que apontar caminhos indo
além da superfície. Permanecer no nível da aparência não alcança a estrutura
nem permite compreender o particular à luz das mediações que o constituem. Uma
estética revolucionária exige consciência de totalidade, sendo preciso repetir.
O poema, a cena teatral, a música, a dança, as histórias narradas, quando
isolam o indivíduo de suas determinações sociais, reforçam a fragmentação
própria da pós-modernidade capitalista, quando reinserem o drama pessoal na
trama histórica, restituem a dimensão coletiva do Ser.
O
verdadeiro ato político não é escolha entre opções dadas, é redefinição do
próprio campo das escolhas. Arte é para ir além do estabelecido. Ao criar
formas que não se encaixam na lógica dominante, a arte supera aquilo que não é
plenamente absorvido e produz experiências coletivas. Em um tempo que isola,
apesar do aparente turbilhão das redes socais, é gesto radical. Um sarau
periférico, uma ocupação cultural, uma canção que circula fora das engrenagens
comerciais, não são margens pitorescas, nem a cultura popular é folclórica, são
ensaios de outra sociabilidade. Ali se experimenta o comum como prática, não
como abstração.
Entretanto,
o tempo presente apresenta o desafio específico das relações sociais difusas,
capilares e comandadas pelo algoritmo e alucinações da chamada Inteligência
Artificial, que não é inteligente nem artificial, como bem apontou o eminente
cientista brasileiro, Miguel Nicolelis. Com isso a crítica é rapidamente
absorvida, domesticando a rebeldia, que é convertida em estilo e espetáculo.
Nesse ambiente a contestação vira mercadoria a se comprar e vender nas
prateleiras das redes sociais.
O
capitalismo contemporâneo não apenas organiza a economia, ele coloniza o
horizonte do imaginável ao instalar a sensação de que não há alternativa, como
já dito, e o cinismo conformista é a maior das armas do Capital, pois a
precariedade é apresentada como flexibilidade e a devastação ambiental, como
custo inevitável do progresso, assim como a hiperexploração do trabalho. A
solidão digital amplia a sensação de que tudo é inescapável, reduzindo
pertencimento e participação à conectividade em rede. A naturalização mercantil
transforma toda criação em produto segmentado, mensurável por métricas de
engajamento; e a impotência melancólica impõe limites à denúncia criada
artisticamente, sem reorganizar o campo da transformação profunda.
A arte
revolucionária precisa escapar a ambos riscos. Sua tarefa não é oferecer
respostas simplistas, mas reconfigurar perguntas, tornar visível o que foi
falsamente naturalizado e dar sentido de unidade ao fragmentado. O ser humano
não é entidade abstrata, mas síntese de relações sociais, e a consciência não
paira acima da matéria, ela emerge da prática, da vida realmente vivenciada.
Essa prática é mediada por formas simbólicas, como linguagem, arte e cultura,
que estruturam a experiência. Produzir experiências coletivas em um tempo que
isola, pressupõe desmontar a reificação que separa indivíduo e totalidade. É
quando a criação estética comunitária adquire um significado único, que pode
restabelecer mediações profundamente transformadoras, quiçá revolucionárias, em
gestos que não são marginais, mas ensaios de outra sociabilidade.
A
revolução estética urgente e emergente que proponho, não se anuncia como
explosão súbita, mas como recomposição paciente do comum. Ela começa quando
comunidades retomam a capacidade de narrar a si mesmas e a cultura deixa de ser
consumo, voltando a ser produção compartilhada. Nesse momento o imaginário
coletivo recusa o fatalismo. A história não é herança passiva, mas tarefa,
responsabilidade. Pelo fio da história carregamos desilusões e esperanças,
derrotas e persistências, compreendendo-o teremos condições para retomar
continuidade crítica em processos intergeracionais, e assim sair do labirinto.
É o
sentido de revolução, urgente e emergente, que apresento.
Revolução
para já!
Agora.
Não menos que isso.
O mundo
pode ser bom, belo e justo para todo mundo, só depende de nós. E a arte é o
caminho. Arte reabre o futuro quando este parece fechado. Arte para recordar
que o mundo que nos oprime não é destino. Tudo o que foi construído pode ser
reinventado. Como já dito, arte como
forma de revolução não substitui a ação política organizada, mas a antecede e a
acompanha, impedindo que revoluções se desviem pelo caminho (acontece muito,
mas é tema para outro ensaio). A arte inaugura possibilidades e disputa sentido.
Se o capitalismo pretendeu colonizar o imaginário para formar pessoas
obedientes, a revolução tem início quando a imaginação se recusa a obedecer,
pois toda revolução começa assim: imaginar o impossível até que ele se torne
real.
>>>>
Revolução (um poema)
Revolução
não é grito
(ou
talvez seja),
mas
dela parte um grito,
meio
rouco,
meio
gasto,
um
grito que começa baixinho,
como
quem escava o silêncio com as unhas.
Revolução
é isso:
uma
vontade de pegar o mundo nos braços,
de
arrancar os arames das fronteiras,
de
devolver o rio ao leito,
a chuva
ao campo,
o fruto
à boca.
E se
Revolução não for isso,
que
seja outra coisa,
mas que
seja agora,
porque
a terra cansa,
a fome
pesa,
as
bombas matam,
o
sangue escorre.
E o
tempo não espera.
Fonte:
Por Célio Turino, em Outras Palavras

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