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Banco Master e os vendilhões do templo
Como
fé, fanatismo fundamentalista e neoliberalismo estão envoltos no recente
escândalo do Banco Master? O que faz uma igreja evangélica, aparentemente não
pertencente às maiores denominações do Brasil, ter tamanha repercussão em todo
o país?
Ao
longo dos últimos tempos, muito se tem ouvido sobre a Igreja Batista da
Lagoinha (IBL) e sua ligação com a família Vorcaro. Fundada em 1957 em Belo
Horizonte, a Lagoinha integrava a Convenção Batista Brasileira (CBB), mas dela
foi expulsa em 1961, após passar por um “avivamento espiritual” de viés
carismático. Esse processo é recorrentemente classificado como um produto da
segunda onda do pentecostalismo, demarcado como uma vertente carismática dentro
do protestantismo histórico.
Após sua expulsão da CBB, a IBL aderiu à
Convenção Batista Nacional (CBN), uma nova convenção que estava se formando
justamente a partir de igrejas que foram excluídas ou que optaram pelo
movimento carismático entre as denominações protestantes tradicionais.
Atualmente, a Lagoinha, embora ainda mantenha vínculos com a CBN, possui sua
própria convenção para organização interna, chamada Lagoinha Global.
Por
décadas, a IBL foi comandada por Márcio Valadão, chegando ao fim de sua
liderança com cerca de 700 unidades e aproximadamente 120 mil membros
espalhados por diversos países. O que deu notoriedade internacional à Lagoinha
Global foi o ministério de louvor Diante do Trono, liderado por Ana Paula
Valadão, filha de Márcio. Ao longo de décadas, as músicas do ministério
tornaram-se referência para inúmeras igrejas, configurando um fenômeno de
vendas que ajudou a dar respaldo à família Valadão na comunidade evangélica, o
que garantiu uma grande visibilidade para a Família Valadão.
Uma das
marcas da liderança de Márcio Valadão na Lagoinha foi a aproximação da IBL com
a Teologia dos Sete Montes, a ala carismática do neofundamentalismo cristão
estadunidense. Trata-se de uma teologia dominionista (a outra linha teopolítica
é o Reconstrucionismo Cristão). Essa vertente fundamentalista identifica sete
esferas de influência da sociedade (Religião, Família, Educação, Governo,
Mídia, Artes/Entretenimento, Negócios/Economia) que os cristãos devem
“conquistar” ou “invadir” para impor sua dominação teocrática sobre o conjunto
da sociedade.
Uma das
mudanças mais importantes na IBL aconteceu nos últimos anos: Márcio Valadão
passou o bastão da liderança da Lagoinha para seu filho André Valadão, que,
além de ser um consagrado pastor na gestão ministerial do pai, é também cantor
ligado ao conglomerado da Lagoinha. Contudo, o impacto dessa mudança de
liderança revela-se profundo.
Pesquisadores
que acompanham o mundo evangélico percebem que a Igreja Batista da Lagoinha
enfrenta desafios após a ascensão de André Valadão. Não é à toa que várias
congregações estão deixando a IBL. Além de uma briga interna na família Valadão
em torno da liderança da igreja, algumas comunidades locais estão insatisfeitas
com a liderança agressiva de André Valadão. Os conflitos e escândalos
tornaram-se tão volumosos que foi noticiado que pelo menos 70 congregações se
desfiliaram da IBL.
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A luta pelo poder na Lagoinha
Empossado
em dezembro de 2022, André Valadão assumiu a presidência da denominação, mas
seu comando tem sido marcado por intensas polêmicas e rachas internos. Um
exemplo emblemático é a disputa judicial com o cunhado, Felippe Valadão (casado
com Mariana Valadão), sobre o uso da marca “Lagoinha” na unidade de Niterói.
Essa disputa expôs uma divisão pública na família, com Ana Paula Valadão
apoiando a irmã e o cunhado publicamente. Ana Paula foi retirada abruptamente
da transmissão de um culto ao criticar a nova gestão conduzida por seu irmão
André. Outro conflito de grandes proporções foi a “guerra milionária” com o
ex-pastor André Fernandes, da unidade Alphaville, acusado de usar a igreja para
negócios pessoais, como a venda de acesso a áreas VIP e pipoca, além da compra
não quitada de um helicóptero de R$ 4,5 milhões.
Não
deixa de ser revelador como essa disputa nos apresenta um ponto determinante
para entender a relação da Lagoinha com a racionalidade neoliberal. Na ação
judicial contra a unidade de Niterói, a IBL alega que registrou a marca no
Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o que levou a congregação
de Niterói a mudar seu nome para “Novos Começos”, afastando-se definitivamente
da marca “Lagoinha”. Desse modo, é notório como a Lagoinha Global se porta
menos como uma “família da fé”, com irmãos que partilham das mesmas crenças, e
passa a ser conduzida como uma holding. O nome “Lagoinha” não é mais apenas um
local, mas uma propriedade privada. Nesse sentido, o fenômeno acima pode ser
denominado de Neoliberalismo Religioso, onde a mentalidade neoliberal é
aplicada no âmbito de grupos religiosos legitimando uma lógica que sacraliza o
Mercado e suas práticas em comunidades de fé.
Ao
processar o cunhado, a gestão de André Valadão deixou claro que os laços
sanguíneos ou espirituais não se sobrepõem aos contratos e ao direito de
propriedade intelectual. Nesse sentido, a igreja é tratada como uma “empresa
gospel”, cuja franquia é especializada em mercadejar experiências religiosas.
Sob a ótica da racionalidade neoliberal, a fé e a gestão eclesiástica são
submetidas à lógica do mercado e a financeirização. E enquanto faz da Igreja
uma empresa, o discurso religioso de pastores fundamentalistas com André
Valadão se volta para atacar um suposto “marxismo cultural”, submetido a uma
articulação teopolítica que visa promover um “anticomunismo preventivo”.
Conforme Lincoln Secco, o anticomunismo preventivo utiliza de caricaturizações
e espantalhos com objetivo de imunizar a sociedade contra qualquer discurso que
ameace a hegemonia dos poderosos do sistema capitalista.
As
teologias dominionistas foram historicamente financiadas por corporações
capitalistas estadunidenses, preocupadas com o avanço de teologias cristãs
igualitaristas, como o Social Gospel (Evangelho Social), e de organizações
socialistas nos Estados Unidos. Esse processo é brilhantemente documentado pelo
historiador Kevin M. Kruse no livro “One Nation Under God: How Corporate
America Invented Christian America“. Nesse sentido, enquanto sacralizavam o
modelo capitalista como intrinsecamente alinhado aos “valores cristãos”, os
fundamentalistas cristãos nos Estados Unidos mobilizaram-se contra políticas de
bem-estar social, contra pautas relacionadas à igualdade de gênero e étnica, e
em forte oposição à escola pública.
Recentemente,
organizações religiosas como a Lagoinha e a Dunamis, além de teólogos como
Franklin Ferreira e Yago Martins, têm exportado essas visões teológicas
pró-capitalistas para o contexto brasileiro. Nesse contexto, o envolvimento com
o escândalo do Banco Master parece ser a pá de cal que faltava para o capital
religioso que a família Valadão constituiu ao longo de muitos anos. Conduzida
pelo ideário da Teologia dos Sete Montes, a IBL avançou não apenas na área das
artes com o “Diante do Trono”, mas também investiu em mídia, finanças e
política. Na medida em que André Valadão ganhava notoriedade ao endossar a
família Bolsonaro ou ao fazer declarações homofóbicas, a cúpula da Lagoinha
mantinha, nos bastidores, ligações pouco cristãs com o Banco Master, de Daniel
Vorcaro, conforme demonstram as investigações da CPMI do INSS e da Polícia
Federal sobre laços profundos que vão além da fé, envolvendo negócios, mídia,
política e interesses comuns entre as famílias.
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A Lagoinha e o Banco Master
No caso
do Banco Master, está escancarada a relação com a família Vorcaro, que tem um
histórico de doações à igreja. Um exemplo claro dessa ligação entre os Valadão
e os Vorcaro é que Henrique Vorcaro, pai de Daniel, ajudou a financiar a Rede
Super, emissora ligada à Lagoinha. Um dado importante é que o próprio Daniel Vorcaro atuou como
apresentador do canal da Batista da Lagoinha.
A
relação com a Lagoinha é igualmente demonstrada pelos vínculos familiares com
os Vorcaro. Natália Zettel, irmã de Vorcaro, e seu esposo são pastores da
Lagoinha. Além disso, o empresário e CEO da Moriah Asset, Fabiano Zettel,
também foi preso na Operação Compliance Zero. Apontado como a figura que
interligava os grupos, Zettel é um doador relevante em campanhas políticas de
Tarcísio de Freitas e Bolsonaro. No caso do apoio a Bolsonaro, Daniel Vorcaro
chegou a emprestar seu avião para que políticos bolsonaristas como Nikolas
Ferreira e outros se deslocassem nas eleições de 2022.
Preso
novamente em março de 2026, Daniel Vorcaro é uma peça importante no compadrio
entre as famílias. Além de revelar as conexões de Daniel Vorcaro com o universo
de “sugar babies”, as investigações da Polícia Federal tornaram visível a
existência de um núcleo criminoso financeiro, responsável pelas fraudes na
captação de recursos, e um núcleo encarregado de cooptar e corromper servidores
do Banco Central. Por fim, Vorcaro arregimentava um núcleo de intimidação,
conhecido como “A Turma”, uma espécie de milícia privada para ameaçar,
amedrontar, perseguir e realizar monitoramento ilegal.
O ápice
dessa relação, porém, é a fintech Clava Forte Bank, vinculada à liderança de
André Valadão, que foi retirada do ar em meio às suspeitas de ser usada como
fachada para receber doações e, possivelmente, lavar dinheiro desviado de
aposentados. O fechamento da Clava Forte coincide com a prisão de Vorcaro ainda
em 2025. A CPMI do INSS estima que o prejuízo dos aposentados seja de ao menos
R$ 6 bilhões.
Para
responder às investigações, André Valadão mobilizou um extenso jargão religioso
e místico, classificando o volume de acusações como “perseguição religiosa” e
“mentiras demoníacas”, afiançando que a relação com Vorcaro é estritamente de
cunho religioso.
Os
recentes escândalos em torno do Caso Master são uma extensão da promiscuidade
entre fé e o espírito neoliberal que corrói o tecido social em diferentes
espaços, inclusive nas igrejas. É preciso pontuar que, quando ainda não era o
novo “Papa da Lagoinha”, em 2019, o pastor André Valadão usou o púlpito em um
culto na Igreja Batista da Lagoinha para divulgar o cartão de crédito “Fé”, do
Banco BMG. O produto era um consignado voltado para aposentados e pensionistas,
e um serviço financeiro foi empurrado aos fiéis.
O mais
preocupante não é apenas o caso em si, mas o que ele representa: o espaço
sagrado sendo usado como vitrine do capitalismo e caixa de ressonância do
neoliberalismo. Aos poucos, o culto vira palco para fazer negócio, e os fiéis
viram consumidores. Com Valadão, porém, a coisa vai além do que muitos
considerariam heresia — ele transforma a igreja num balcão de negócios
escancarado, sem pudor, como se vender crédito fizesse parte da missão
espiritual. Se Jesus voltasse novamente, teria novamente que expulsar os
vendilhões neoliberais do templo, na base das chicotadas.
• COAF identifica repasse milionário do
Banco Master a empresa ligada à Lagoinha
Um
relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades
Financeiras (COAF) identificou uma transferência de aproximadamente R$ 3,9
milhões do Banco Master para a empresa Amando Vidas Produtora e Gravadora
Ltda., ligada ao grupo religioso Lagoinha, liderado pelo pastor André Valadão.
A
operação aparece em comunicações de inteligência financeira produzidas pelo
órgão responsável por monitorar movimentações consideradas fora do padrão
esperado no sistema financeiro brasileiro.
De
acordo com os registros analisados, a transferência foi classificada como
movimentação financeira atípica, categoria utilizada pelo COAF quando operações
apresentam características que fogem ao perfil econômico das empresas ou ao
padrão usual de transações financeiras.
Relatórios
desse tipo são elaborados a partir de comunicações feitas por instituições
financeiras, que são obrigadas por lei a informar ao órgão operações que possam
indicar irregularidades ou lavagem de dinheiro.
Sistema
de monitoramento
O valor
da operação e as características da empresa beneficiária teriam sido fatores
que levaram o sistema de monitoramento financeiro a registrar o alerta.
Nos
mecanismos de inteligência financeira, operações classificadas como atípicas
não indicam automaticamente a existência de crime. Elas funcionam como um sinal
de alerta que pode levar à abertura de apurações por autoridades responsáveis
por investigações financeiras.
Esse
tipo de monitoramento integra o sistema nacional de prevenção à lavagem de
dinheiro e ao financiamento de atividades ilícitas.
Instituições
financeiras, corretoras, bancos e diversas outras entidades são obrigadas a
comunicar ao COAF operações consideradas incomuns, especialmente quando
envolvem valores elevados, movimentações incompatíveis com o perfil econômico
das empresas ou estruturas societárias consideradas sensíveis.
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Empresa ligada ao grupo Lagoinha
A
empresa que aparece como destinatária da transferência, Amando Vidas Produtora
e Gravadora Ltda., está vinculada ao ecossistema empresarial e religioso ligado
à Igreja Batista da Lagoinha, organização fundada em Belo Horizonte e que
atualmente possui atuação nacional e internacional.
O grupo
é liderado pelo pastor André Valadão, uma das principais figuras da expansão da
denominação evangélica no Brasil e no exterior.
A
produtora atua na área de produção musical, audiovisual e conteúdos religiosos
ligados às atividades do ministério Lagoinha.
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Contexto do caso Master
O
registro da operação surge em meio ao escrutínio sobre movimentações
financeiras relacionadas ao Banco Master, instituição que tem sido citada em
investigações e apurações envolvendo operações financeiras consideradas
suspeitas por órgãos de controle.
O banco
pertence ao empresário Daniel Vorcaro, que se tornou alvo de investigações
recentes envolvendo suspeitas de irregularidades financeiras.
Relatórios
de inteligência financeira do COAF costumam ser encaminhados a órgãos de
investigação quando identificadas operações que podem demandar análise mais
aprofundada.
Esses
documentos funcionam como instrumentos de inteligência e não constituem, por si
só, prova de crime, mas podem servir de base para investigações sobre lavagem
de dinheiro, ocultação de patrimônio ou outras infrações financeiras.
O
monitoramento dessas movimentações integra a estrutura de prevenção a crimes
financeiros e busca preservar a transparência e a integridade do sistema
financeiro nacional.
Fonte:
Por Caio S. Marçal, em Jacobin Brasil/ICL Notícias

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