Estudo
mostra efeitos da obesidade na capacidade respiratória de mulheres
A
resistência das vias aéreas é o grau de dificuldade com que o fluxo de ar se
movimenta para dentro e para fora dos pulmões, o que está associado ao diâmetro
do sistema respiratório. Quanto mais resistência, maior a dificuldade durante a
respiração. Alguns estudos já haviam demonstrado que as pessoas com obesidade,
tanto homens quanto mulheres, apresentam esse distúrbio.
Agora,
uma pesquisa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP realizada
com mulheres com obesidade grau 3, considerada a mais elevada, além de
confirmar os resultados anteriores, traz novos dados ao mostrar que, embora
haja um aumento da resistência do sistema respiratório, a maioria das
participantes não reclamaram de falta de ar e nem de limitações importantes
durante os testes de caminhada. Uma possível explicação para isso é que as
mulheres que participaram do estudo se declararam fisicamente ativas.
De
acordo com a professora Ada Clarice Gastaldi, uma das autoras da pesquisa,
mesmo nessas pacientes que não se queixaram durante os exercícios, foi possível
identificar que o aumento da resistência das vias aéreas se relaciona com uma
diminuição da capacidade funcional do exercício e da habilidade na realização
de atividades físicas e diárias. “Isso pode aumentar as chances de complicações
em situações de maior demanda, como no controle da ventilação e nos níveis de
oxigênio no sangue dos pacientes durante cirurgias, nos períodos de restrição
ao leito, ou mesmo com o envelhecimento, e também, em situações críticas, como
a necessidade de intubação”, explica a professora ao Jornal da USP.
Em
casos de obesidade, o menor diâmetro das vias áreas pode ser causado pela
diminuição de volume pulmonar, inflamação no interior das vias aéreas ou
alterações hormonais. “Sabemos que os índices de obesidade estão aumentando na
população em geral. O acúmulo de gordura no corpo pode causar o comprometimento
da respiração, colaborando para insuficiência ventilatória”, diz a professora.
Uma das maneiras de lidar com o problema é por meio de fisioterapia, um
conjunto de técnicas manuais preventivas ou curativas que podem, por exemplo,
melhorar a oxigenação do sangue e reeducar a função respiratória.
Os dados foram publicados na revista PLOS ONE no
artigo Increased airway resistance can be related to the decrease in the
functional capacity in obese women.
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Identificação da resistência das vias aéreas
Participaram
do estudo 37 mulheres em pré-operatório para cirurgia bariátrica do Hospital
das Clínicas da FMRP. “Dentre as pessoas com obesidade, há uma prevalência
maior em mulheres e, além disso, trabalhamos com um grupo vinculado a um
serviço de cirurgia bariátrica [para redução de estômago] que atrai
principalmente mulheres”, explica a professora Ada sobre o porquê de apenas
pessoas do sexo feminino terem participado do estudo.
Além
disso, as voluntárias não eram fumantes e tinham idade entre 18 e 50 anos.
“Temos um grupo bem homogêneo, o que não é observado em muitas pesquisas.
Vários estudos reúnem homens e mulheres ou grupos com diferentes graus de
obesidade”, aponta.
A
fisioterapeuta também explica que quando a resistência do sistema respiratório
de pessoas sem obesidade é analisada, há um valor mais elevado em mulheres, já
considerado nos valores de referência utilizados. Nas com obesidade, isso é
intensificado.
As
participantes foram avaliadas por meio do teste de caminhada de seis minutos,
do teste de espirometria e do sistema de oscilometria de impulso.
No
primeiro, durante seis minutos, o paciente caminha o mais rápido que conseguir
em um corredor de 30 metros. Os níveis de frequência cardíaca, saturação
periférica de oxigênio, frequência respiratória e pressão sanguínea são
monitorados antes, durante e depois do exercício. E os pacientes informam, com
base em uma escala, o nível de desconforto ao respirar e o de cansaço das
pernas. A distância percorrida no teste é um indicador da capacidade funcional
de exercício, que pode afetar o desempenho em atividades mais intensas e também
as diárias.
A
espirometria é o teste funcional pulmonar mais comum na prática clínica. Nele,
é necessário que a pessoa inspire profundamente e expire o mais forte e rápido
possível. A espirometria não fornece diretamente o valor da resistência, mas
mostra o resultado que ela provoca no fluxo de ar.
Já a
oscilometria é mais restrita às pesquisas. A vantagem desse teste é que não
demanda esforço do paciente, que apenas precisa respirar tranquilamente em um
bocal e avalia de forma direta o valor da resistência do sistema respiratório.
“Na oscilometria, podemos medir a resistência inspiratória ou respiratória, a
resistência das vias aéreas centrais ou periféricas”, acrescenta a professora
Ada.
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Avaliação para prevenção
Mesmo
nas participantes que não relataram queixas durante os exercícios foi possível
identificar que o aumento da resistência das vias aéreas se relaciona com uma
diminuição da capacidade funcional do exercício. Ada acredita que seria
interessante ainda adicionar ao estudo um grupo de mulheres com obesidade grau
3 e com queixas de dispneia — falta de
ar —, a fim de identificar se há um comprometimento proporcional da capacidade
funcional.
Saber
que o distúrbio pode acontecer sem sinais clínicos é positivo para
identificação e prevenção desse estado, aponta a professora. “É importante
lembrar que estamos trabalhando com avaliação, mas pensando sempre de que forma
essa investigação pode contribuir. Não é só avaliar e identificar, mas é
pensar, a partir do problema identificado, de que forma podemos tratá-lo”,
complementa.
• Autoaceitação não deve ser confundida
com negação da doença da obesidade
xiste
limite para a autoaceitação do corpo? Após a influenciadora Thais Carla iniciar
um debate sobre obesidade e gordofobia – a gordofobia é o neologismo criado
para indicar o preconceito de pessoas que julgam o excesso de peso e a
obesidade como um fator que mereça seu desprezo – na internet, a polêmica
ganhou destaque e dividiu opiniões. A obesidade é considerada uma doença
crônica pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e trabalhar a autoaceitação por
estar fora dos padrões corporais impostos pela sociedade é uma maneira de lidar
com os desafios e preconceitos, mas é preciso cuidado para não relativizar a
doença e colocar pessoas em risco.
A
nutricionista e doutoranda da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de
Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP Paula Victoria Sozza Gulá comenta que a
autoaceitação jamais deve ocasionar uma relativização de doenças. “Aceitar o
próprio corpo promove o contrário, promove um olhar mais cuidadoso para o corpo
que é a nossa casa. É diferente do comodismo ou da falta de aceitação em
relação à saúde e as pessoas obesas que se aceitam podem ser saudáveis e
felizes.”
Da
mesma forma, a estudante de medicina veterinária Julia Cavalin, de 20 anos,
conta que engordou após ser diagnosticada com depressão e começar o uso de
remédios para tratar a doença e, para ela, a autoaceitação não pode ser
confundida com a negação de uma doença séria, que é a obesidade. “Quando você
se aceita você tem mais facilidade para enxergar seus problemas de saúde e se
cuidar”, compartilha a estudante.
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Os riscos da obesidade
Segundo
dados do Ministério da Saúde, através do Sisvan (Sistema de Vigilância
Alimentar e Nutricional), em 2022, a obesidade atingiu mais de 6,7 milhões de
brasileiros adultos. De acordo com o relatório divulgado, do total de pessoas
consideradas obesas, 863 mil estão classificadas no grau de obesidade mais
severa. Já entre as crianças de 0 a 5 anos, o número chegou a 487 mil no ano
passado, o mais alto registrado nos últimos dez anos.
Para
além da gordofobia e dos desafios vividos em uma sociedade construída a partir
de padrões magros, a obesidade traz graves consequências para a saúde das
pessoas. “A obesidade é considerada um fator de risco para doenças crônicas
como diabete, hipertensão e doença cardiovascular”, comenta a nutricionista.
Além disso, pode resultar em baixa capacidade cardiorrespiratória, resistência
à insulina e maior quantidade de marcadores inflamatórios no organismo.
A
especialista esclarece também que, para aquelas pessoas que apresentam o Índice
de Massa Corporal (IMC) elevado, mas não apresentam acúmulo de gordura central
e no fígado, mas sim nos membros inferiores como as pernas, e são fisicamente
ativas, o organismo apresenta uma resposta mais sensível para insulina e não há
marcadores inflamatórios elevados no organismo. Esse grupo de pessoas apresenta
uma resposta metabólica mais saudável, que hoje é conhecida como obesidade
metabolicamente saudável. Por isso, estar acima do peso e fora dos padrões não
é um problema, desde que não haja reflexos na saúde do indivíduo.
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Benefícios da autoaceitação
É certo
que a obesidade pode prejudicar a saúde do indivíduo, mas isso não significa
que ser magro está necessariamente relacionado a uma boa saúde. Viver na era da
internet e se deparar todos os dias com blogueiras, atrizes e influencers que
exibem um estilo de vida quase que inalcançável e que, na maioria das vezes,
exibem um corpo dentro dos padrões definidos como bonito pela sociedade, pode
impactar na autoestima de milhares de pessoas que consomem esses conteúdos.
“A
maioria das mulheres e dos homens, atualmente, sente a pressão social do corpo
ideal”, comenta Julia. A estudante de medicina veterinária conta que ela já foi
vítima dessa pressão, mas percebeu que o seu corpo não precisa ser igual a
essas pessoas para ser bonito. Aceitar o próprio corpo pode trazer grandes
benefícios, não só para a autoestima, mas para a própria saúde. Depois de muito
tempo e apoio, e sabendo que a sua saúde não estava em risco, Julia consegue
aceitar o corpo, ainda que algumas inseguranças prevaleçam.
No
entendimento da nutricionista, é preciso continuar a luta no combate a padrões
de corpos ditos como normais ou ideais. Esses padrões não representam toda a
população, pelo contrário, exclui e reforça atitudes preconceituosas. “Uma
pessoa magra não é sinônimo de saúde, assim como uma pessoa obesa não é
sinônimo de doença”, reforça Paula.
Trabalhar
a autoaceitação deve ser um exercício diário, para todas as pessoas,
independentemente do peso corporal. “Atualmente, trabalhar isso é uma das
técnicas para abordar um tratamento de saúde adequado para bons hábitos de
vida”, conclui a especialista, que é uma das autoras do livro Estigma do Peso:
conceito, consequências e ações de combate, que trata sobre o tema.
Fonte:
Jornal da USP

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