segunda-feira, 16 de março de 2026

Estudo mostra efeitos da obesidade na capacidade respiratória de mulheres

A resistência das vias aéreas é o grau de dificuldade com que o fluxo de ar se movimenta para dentro e para fora dos pulmões, o que está associado ao diâmetro do sistema respiratório. Quanto mais resistência, maior a dificuldade durante a respiração. Alguns estudos já haviam demonstrado que as pessoas com obesidade, tanto homens quanto mulheres, apresentam esse distúrbio.

Agora, uma pesquisa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP realizada com mulheres com obesidade grau 3, considerada a mais elevada, além de confirmar os resultados anteriores, traz novos dados ao mostrar que, embora haja um aumento da resistência do sistema respiratório, a maioria das participantes não reclamaram de falta de ar e nem de limitações importantes durante os testes de caminhada. Uma possível explicação para isso é que as mulheres que participaram do estudo se declararam fisicamente ativas.

De acordo com a professora Ada Clarice Gastaldi, uma das autoras da pesquisa, mesmo nessas pacientes que não se queixaram durante os exercícios, foi possível identificar que o aumento da resistência das vias aéreas se relaciona com uma diminuição da capacidade funcional do exercício e da habilidade na realização de atividades físicas e diárias. “Isso pode aumentar as chances de complicações em situações de maior demanda, como no controle da ventilação e nos níveis de oxigênio no sangue dos pacientes durante cirurgias, nos períodos de restrição ao leito, ou mesmo com o envelhecimento, e também, em situações críticas, como a necessidade de intubação”, explica a professora ao Jornal da USP.

Em casos de obesidade, o menor diâmetro das vias áreas pode ser causado pela diminuição de volume pulmonar, inflamação no interior das vias aéreas ou alterações hormonais. “Sabemos que os índices de obesidade estão aumentando na população em geral. O acúmulo de gordura no corpo pode causar o comprometimento da respiração, colaborando para insuficiência ventilatória”, diz a professora. Uma das maneiras de lidar com o problema é por meio de fisioterapia, um conjunto de técnicas manuais preventivas ou curativas que podem, por exemplo, melhorar a oxigenação do sangue e reeducar a função respiratória.

Os dados foram publicados na revista PLOS ONE no artigo Increased airway resistance can be related to the decrease in the functional capacity in obese women.

<><> Identificação da resistência das vias aéreas

Participaram do estudo 37 mulheres em pré-operatório para cirurgia bariátrica do Hospital das Clínicas da FMRP. “Dentre as pessoas com obesidade, há uma prevalência maior em mulheres e, além disso, trabalhamos com um grupo vinculado a um serviço de cirurgia bariátrica [para redução de estômago] que atrai principalmente mulheres”, explica a professora Ada sobre o porquê de apenas pessoas do sexo feminino terem participado do estudo.

Além disso, as voluntárias não eram fumantes e tinham idade entre 18 e 50 anos. “Temos um grupo bem homogêneo, o que não é observado em muitas pesquisas. Vários estudos reúnem homens e mulheres ou grupos com diferentes graus de obesidade”, aponta.

A fisioterapeuta também explica que quando a resistência do sistema respiratório de pessoas sem obesidade é analisada, há um valor mais elevado em mulheres, já considerado nos valores de referência utilizados. Nas com obesidade, isso é intensificado.

As participantes foram avaliadas por meio do teste de caminhada de seis minutos, do teste de espirometria e do sistema de oscilometria de impulso.

No primeiro, durante seis minutos, o paciente caminha o mais rápido que conseguir em um corredor de 30 metros. Os níveis de frequência cardíaca, saturação periférica de oxigênio, frequência respiratória e pressão sanguínea são monitorados antes, durante e depois do exercício. E os pacientes informam, com base em uma escala, o nível de desconforto ao respirar e o de cansaço das pernas. A distância percorrida no teste é um indicador da capacidade funcional de exercício, que pode afetar o desempenho em atividades mais intensas e também as diárias.

A espirometria é o teste funcional pulmonar mais comum na prática clínica. Nele, é necessário que a pessoa inspire profundamente e expire o mais forte e rápido possível. A espirometria não fornece diretamente o valor da resistência, mas mostra o resultado que ela provoca no fluxo de ar.

Já a oscilometria é mais restrita às pesquisas. A vantagem desse teste é que não demanda esforço do paciente, que apenas precisa respirar tranquilamente em um bocal e avalia de forma direta o valor da resistência do sistema respiratório. “Na oscilometria, podemos medir a resistência inspiratória ou respiratória, a resistência das vias aéreas centrais ou periféricas”, acrescenta a professora Ada.

<><> Avaliação para prevenção

Mesmo nas participantes que não relataram queixas durante os exercícios foi possível identificar que o aumento da resistência das vias aéreas se relaciona com uma diminuição da capacidade funcional do exercício. Ada acredita que seria interessante ainda adicionar ao estudo um grupo de mulheres com obesidade grau 3 e com queixas de dispneia —  falta de ar —, a fim de identificar se há um comprometimento proporcional da capacidade funcional.

Saber que o distúrbio pode acontecer sem sinais clínicos é positivo para identificação e prevenção desse estado, aponta a professora. “É importante lembrar que estamos trabalhando com avaliação, mas pensando sempre de que forma essa investigação pode contribuir. Não é só avaliar e identificar, mas é pensar, a partir do problema identificado, de que forma podemos tratá-lo”, complementa.

•        Autoaceitação não deve ser confundida com negação da doença da obesidade

xiste limite para a autoaceitação do corpo? Após a influenciadora Thais Carla iniciar um debate sobre obesidade e gordofobia – a gordofobia é o neologismo criado para indicar o preconceito de pessoas que julgam o excesso de peso e a obesidade como um fator que mereça seu desprezo – na internet, a polêmica ganhou destaque e dividiu opiniões. A obesidade é considerada uma doença crônica pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e trabalhar a autoaceitação por estar fora dos padrões corporais impostos pela sociedade é uma maneira de lidar com os desafios e preconceitos, mas é preciso cuidado para não relativizar a doença e colocar pessoas em risco.

A nutricionista e doutoranda da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP Paula Victoria Sozza Gulá comenta que a autoaceitação jamais deve ocasionar uma relativização de doenças. “Aceitar o próprio corpo promove o contrário, promove um olhar mais cuidadoso para o corpo que é a nossa casa. É diferente do comodismo ou da falta de aceitação em relação à saúde e as pessoas obesas que se aceitam podem ser saudáveis e felizes.”

Da mesma forma, a estudante de medicina veterinária Julia Cavalin, de 20 anos, conta que engordou após ser diagnosticada com depressão e começar o uso de remédios para tratar a doença e, para ela, a autoaceitação não pode ser confundida com a negação de uma doença séria, que é a obesidade. “Quando você se aceita você tem mais facilidade para enxergar seus problemas de saúde e se cuidar”, compartilha a estudante.

<><> Os riscos da obesidade

Segundo dados do Ministério da Saúde, através do Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional), em 2022, a obesidade atingiu mais de 6,7 milhões de brasileiros adultos. De acordo com o relatório divulgado, do total de pessoas consideradas obesas, 863 mil estão classificadas no grau de obesidade mais severa. Já entre as crianças de 0 a 5 anos, o número chegou a 487 mil no ano passado, o mais alto registrado nos últimos dez anos.

Para além da gordofobia e dos desafios vividos em uma sociedade construída a partir de padrões magros, a obesidade traz graves consequências para a saúde das pessoas. “A obesidade é considerada um fator de risco para doenças crônicas como diabete, hipertensão e doença cardiovascular”, comenta a nutricionista. Além disso, pode resultar em baixa capacidade cardiorrespiratória, resistência à insulina e maior quantidade de marcadores inflamatórios no organismo.

A especialista esclarece também que, para aquelas pessoas que apresentam o Índice de Massa Corporal (IMC) elevado, mas não apresentam acúmulo de gordura central e no fígado, mas sim nos membros inferiores como as pernas, e são fisicamente ativas, o organismo apresenta uma resposta mais sensível para insulina e não há marcadores inflamatórios elevados no organismo. Esse grupo de pessoas apresenta uma resposta metabólica mais saudável, que hoje é conhecida como obesidade metabolicamente saudável. Por isso, estar acima do peso e fora dos padrões não é um problema, desde que não haja reflexos na saúde do indivíduo.

<><> Benefícios da autoaceitação

É certo que a obesidade pode prejudicar a saúde do indivíduo, mas isso não significa que ser magro está necessariamente relacionado a uma boa saúde. Viver na era da internet e se deparar todos os dias com blogueiras, atrizes e influencers que exibem um estilo de vida quase que inalcançável e que, na maioria das vezes, exibem um corpo dentro dos padrões definidos como bonito pela sociedade, pode impactar na autoestima de milhares de pessoas que consomem esses conteúdos.

“A maioria das mulheres e dos homens, atualmente, sente a pressão social do corpo ideal”, comenta Julia. A estudante de medicina veterinária conta que ela já foi vítima dessa pressão, mas percebeu que o seu corpo não precisa ser igual a essas pessoas para ser bonito. Aceitar o próprio corpo pode trazer grandes benefícios, não só para a autoestima, mas para a própria saúde. Depois de muito tempo e apoio, e sabendo que a sua saúde não estava em risco, Julia consegue aceitar o corpo, ainda que algumas inseguranças prevaleçam.

No entendimento da nutricionista, é preciso continuar a luta no combate a padrões de corpos ditos como normais ou ideais. Esses padrões não representam toda a população, pelo contrário, exclui e reforça atitudes preconceituosas. “Uma pessoa magra não é sinônimo de saúde, assim como uma pessoa obesa não é sinônimo de doença”, reforça Paula.

Trabalhar a autoaceitação deve ser um exercício diário, para todas as pessoas, independentemente do peso corporal. “Atualmente, trabalhar isso é uma das técnicas para abordar um tratamento de saúde adequado para bons hábitos de vida”, conclui a especialista, que é uma das autoras do livro Estigma do Peso: conceito, consequências e ações de combate, que trata sobre o tema.

 

Fonte: Jornal da USP

 

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