segunda-feira, 16 de março de 2026

Ruben Bauer Naveira: Uma guerra diferente, misteriosa, e a cada dia mais perigosa

Essa guerra está ficando mais interessante, e mais misteriosa. E também MUITO mais perigosa (para todo o planeta).

O Irã se preparou para “aguentar o tranco”. Ou seja, para uma guerra longa.

Mas não é bem assim – porque não tem como ser.

Uma guerra longa faz exponenciais os riscos para a população civil. A destruição da base produtiva no Irã e, especialmente, da sua infraestrutura, empobrecerá o país e atrasará o seu desenvolvimento por décadas. E, ainda que a guerra esteja fortalecendo o governo internamente, esse apoio interno acabará por sofrer fadiga, e aos poucos a insatisfação crescerá.

Pode o Irã ter escondido parte das suas defesas antiaéreas? Pode.

Pode acontecer de os americanos esgotarem as suas munições de longo alcance, passando a necessitar adentrar o espaço aéreo iraniano para despejar bombas gravitacionais? Pode.

Pode o Irã estar “empurrando” para mais longe de si as pistas de onde as aeronaves americanas e israelenses decolam? Pode.

Tudo isso favorece o Irã, mas nada disso vai impedir os Estados Unidos de prevalecer, com base na vastidão do seu poderio militar.

Os bombardeiros estratégicos dos EUA, por exemplo, foram projetados para atingir a União Soviética, que fica do outro lado do mundo, decolando a partir de solo americano e a ele retornando. Mais cedo ou mais tarde os EUA acabarão por conquistar a supremacia aérea sobre o Irã, e poderão então passar a destruí-lo metodicamente.

Mais do que derrubar aeronaves americanas (e o Irã derrubará várias delas), aquilo com que o Irã conta para evitar uma tal devastação por parte dos EUA é a sua capacidade de dissuasão.

Se os americanos passarem a destruir a infraestrutura vital iraniana, os iranianos destruirão a indústria petrolífera nos países do golfo. E aí será uma hecatombe econômica global.

Se os americanos promoverem um morticínio em meio à população civil, os iranianos retaliarão na mesma moeda contra a população civil de Israel.

Para estarem em condições de fazer isso, os iranianos precisarão poder continuar a lançar os seus mísseis e os seus drones. Ao que tudo indica, eles continuarão a lançá-los.

Ontem mesmo os americanos atacaram a ilha de Kharg, por onde o Irã exporta a maior parte da sua produção de petróleo. Aguardemos, pois, ataques iranianos a instalações portuárias nos países do golfo.

Apesar do discurso da “guerra por tempo indefinido”, a estratégia do Irã não tem como ser essa.

A estratégia do Irã tem que ser a de, no cabo-de-guerra com os Estados Unidos, não ser aquele que fraqueja primeiro. Não ser aquele quem “pisca” primeiro.

Nesse sentido, o que o Irã pretende é levar os americanos a se verem forçados a serem eles a pedir, primeiro, por negociações – ou seja, a piscar primeiro.

Negociações estas que não serão para algum “cessar-fogo”. As negociações terão que envolver concessões dolorosas, por exemplo: o fim de todas as sanções, sem contrapartida na questão nuclear iraniana; o desmantelamento de todas as bases militares americanas no Oriente Médio; ou mesmo o pagamento de reparações de guerra ao Irã.

Os iranianos já entenderam que essa guerra é existencial para o país. Ou bem ela terminará com um acordo que proveja segurança real e efetiva para o Irã, ou então, depois de passado algum tempo, o Irã voltará a ser atacado – até que finalmente seja destruído.

Assim, por exemplo, o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio não poderá ser um tópico de negociação. Essa terá que ser uma condição sine qua non.

Mas, COMO os iranianos conseguirão obrigar os EUA a virem até eles implorar por um acordo de paz?

A queda de Trump nas pesquisas e a perspectiva de uma derrota eleitoral dos republicanos em novembro não bastará. É agonia pouca. Claro que para aplacá-la os americanos adorariam um acordo de cessar-fogo amanhã mesmo, mas o Irã não estará interessado.

O bloqueio do estreito de Hormuz coloca em risco toda a economia mundial, devido aos efeitos em cascata sobre inúmeras cadeias produtivas. Mas os países mais afetados são justamente aqueles aliados históricos dos Estados Unidos: Europa, Japão, Coreia do Sul – o que reverbera na forma de pressões desses países sobre Washington.

Uma das alavancagens do Irã é delongar o bloqueio por tempo suficiente até que esses efeitos se tornem insuportáveis.

Já a pressão sobre os países do golfo tem por objetivo óbvio levá-los a expulsar as bases militares dos EUA dos seus territórios. Mas, para muito além disso, há um objetivo maior: levá-los a abandonar de vez os termos do acordo do petrodólar de 1974.

Nota: em seguida à guerra do Yom Kippur e ao embargo do petróleo em 1973, os EUA firmaram um acordo com a Arábia Saudita que na prática acabou seguido por todas as demais monarquias do golfo – Saddam Hussein quis trilhar um caminho diferente e pagou o preço –, pelo qual os árabes somente venderiam petróleo em dólares, obrigando assim o resto do mundo a dispor de dólares para conseguir comprar petróleo. Além disso, aqueles países reinvestiriam nos Estados Unidos os lucros da venda do petróleo, comprando títulos da dívida americana, porém não somente – as monarquias do golfo estão entre os principais financiadores do desenvolvimento da Inteligência Artificial nos EUA, por exemplo. Em contrapartida, aos árabes foi finalmente permitida liberdade para fixarem o preço pelo petróleo, que de imediato quadruplicou. Ah, sim, e aqueles países ganharam bases militares americanas para… “protegê-los” (aham).

Um eventual fim da venda de petróleo em dólares, juntamente com um eventual fim do reinvestimento dos lucros do petróleo nos EUA e em suas corporações, representaria como que uma sentença de morte para a já combalida economia americana.

O que representaria uma ameaça existencial para os EUA.

Para qualquer país, uma ameaça existencial seria a ameaça de conquista por um país estrangeiro, ou de colonização, ou de perda da soberania, ou de desmembramento territorial.

Não há o menor risco de que nada assim possa vir a acontecer com os EUA. Mas os EUA não são qualquer país. Eles são intolerantes à dor. Um colapso da economia americana seria sentido como uma “morte” da nação.

QUALQUER país que venha a ser colocado sob ameaça existencial, e que disponha de armas nucleares, as empregará. Ponto.

Uma guerra diferente, esta. Interessante, misteriosa, e a cada dia mais perigosa.

•        “Os Estados Unidos não podem vencer essa guerra”, diz Pepe Escobar

Uma análise geopolítica apresentada pelo jornalista e analista internacional Pepe Escobar aponta que o confronto envolvendo o Irã está inserido em uma disputa estratégica mais ampla entre os Estados Unidos e um eixo formado por Teerã, Moscou e Pequim. O comentário foi divulgado em vídeo publicado no YouTube, em um episódio do programa “Pepe Café”, no qual Escobar examina a evolução recente da crise.

Segundo o analista, o conflito se desenvolve em um cenário de forte volatilidade política e militar. Em sua avaliação, a dinâmica da guerra reflete não apenas disputas regionais, mas também um embate entre o que ele descreve como a estratégia de “máxima pressão” de Washington e a resposta coordenada entre Irã, Rússia e China.

Escobar chama atenção para declarações que atribui ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a duração e os objetivos da ofensiva contra o Irã. Para o analista, a narrativa oficial teria mudado repetidamente ao longo de poucos dias.

“Nós vamos invadir o Irã por terra… não, não vamos entrar no Irã por terra… a oposição curda vai se levantar… os árabes vão entrar na guerra…”, afirma Escobar ao resumir o que considera uma sequência de versões contraditórias sobre o rumo do conflito.

<><> Ataques e intensificação das tensões

Ao comentar os acontecimentos recentes, o analista menciona episódios de ataques a infraestrutura energética e áreas urbanas iranianas. Ele argumenta que operações militares teriam atingido também zonas civis, ampliando o impacto humanitário da guerra.

Escobar cita bombardeios contra instalações petrolíferas e relata que bairros residenciais e outras estruturas urbanas teriam sido atingidos durante a escalada militar. Em sua leitura, esse tipo de ofensiva contribui para reforçar a determinação iraniana de manter a guerra até alcançar objetivos estratégicos definidos por Teerã.

<><> Apoio indireto de Rússia e China

Uma parte central da análise aborda o papel de Rússia e China no contexto do conflito. Segundo Escobar, Moscou teria compartilhado informações de inteligência com autoridades iranianas antes do início das operações militares.

O analista afirma que serviços de inteligência russos teriam interceptado comunicações sobre possíveis planos de ataque e transmitido detalhes estratégicos a Teerã, incluindo plataformas de lançamento, cronogramas e tipos de armamento.

No caso da China, Escobar sustenta que Pequim acompanha atentamente o desenrolar da guerra como forma de observar o funcionamento do aparato militar norte-americano. “Eles estão olhando o fluxo dos mísseis no ar e também o fluxo marítimo de energia”, afirma.

Segundo ele, o país asiático dispõe de reservas estratégicas de energia e de rotas alternativas de abastecimento capazes de reduzir impactos de eventuais interrupções no Golfo Pérsico.

<><> Divergências no BRICS e o papel da Índia

O analista também menciona tensões dentro do próprio BRICS, especialmente no que se refere à posição da Índia. Ele cita uma conversa telefônica entre o ministro das Relações Exteriores indiano, Subrahmanyan Jaishankar, e o chanceler iraniano Abbas Araghchi.

De acordo com Escobar, a diplomacia iraniana teria adotado um tom moderado ao abordar divergências recentes com Nova Délhi, reconhecendo a pressão exercida pelos Estados Unidos sobre o governo indiano, mas mantendo canais de cooperação abertos.

<><> Estratégia para prolongar o conflito

Na avaliação apresentada no vídeo, a parceria estratégica entre Rússia, China e Irã teria como objetivo central transformar a guerra em um custo político, econômico e militar elevado para Washington.

Escobar sustenta que o cálculo geopolítico dessa aliança seria conduzir o conflito a um ponto em que os Estados Unidos não consigam sustentá-lo. “Eles querem uma guerra que o império não possa vencer e ao mesmo tempo não possa pagar”, afirma.

Segundo o analista, autoridades iranianas também têm reiterado que não pretendem negociar nas condições atuais e que o encerramento do conflito dependerá de decisões tomadas em Teerã.

“Não vai ter diplomacia. A guerra acaba quando a gente disser que a guerra acaba”, diz Escobar ao relatar o posicionamento que atribui à liderança iraniana.

<><> Possíveis desdobramentos

Apesar da escalada, o analista menciona que países como Turquia, Catar e Omã teriam sido citados como possíveis intermediários para as negociações. Ainda assim, segundo ele, Teerã teria rejeitado propostas de cessar-fogo neste momento.

Para Escobar, o resultado da guerra dependerá principalmente da capacidade dos Estados Unidos de sustentar o conflito e lidar com seus custos geopolíticos mais amplos. Na análise apresentada no vídeo, o embate envolvendo o Irã pode se tornar um novo ponto de inflexão no equilíbrio global de poder.

•        Adolf Trump adora seu cheiro de napalm ao amanhecer. Por Flávio Ricardo Vassoler

assisti a um vídeo em que a atriz estadunidense Brooke Shields fez a seguinte confissão a um jornalista de seu país: “Certa vez, Donald Trump me ligou para fazer uma proposta: ‘Brooke, você é a atriz mais querida dos Estados Unidos; eu, o homem mais rico. Que tal ficarmos juntos? As pessoas certamente vão gostar’”.

Afora a vulgaridade e a coisificação bem próprias à proposta de compra e venda, que, é importante frisar, foi feliz e imediatamente rechaçada por Brooke Shields, é fundamental dizer que há uma pista em linha reta que vai de tal atitude nauseante de Adolf Trump ao sequestro de Nicolás Maduro, ao assassinato de Ali Khamenei e ao bombardeamento nazista da escola para meninas no Sul do Irã, da mesma forma que há uma pista em linha reta que vai do estilingue paleolítico às bombas atômicas de nossos tempos niilistas.

Lembremos que, há não muito tempo, Adolf Trump fez uma postagem em sua rede social, Truth Social, na qual reverberava o fascismo de um comandante militar dos EUA contra os vietcongues no clássico Apocalypse Now: “Eu amo o cheiro de napalm ao amanhecer”. Não nos esqueçamos de que o napalm, ou agente ácido laranja, desfolhava as florestas do país do Sudeste Asiático, queimava a pele e as vilas de um sem-número de inocentes, além de legar o câncer junto com as bombas genocidas dos EUA.

Não, Trump, você não ama o cheiro de napalm ao amanhecer — aliás, o verbo amar, radicalmente intransitivo em sua boca-cloaca, é um escárnio à esperança como condição mais profunda das pessoas que só queremos ganhar o pão condignamente e abraçar nossos entes queridos. Você, Adolf Trump, é o próprio napalm. 

Que a humanidade não seja extinta pela Terceira Guerra Mundial em que já entramos. Que Deus nos ajude.

 

Fonte: Viomundo/Brasil 247

 

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