segunda-feira, 16 de março de 2026

Obesidade feminina pode estar associada a baixas concentrações de cobalto no sangue

O cobalto é um componente da vitamina B12 (cobalamina) que pode ser encontrado em alguns alimentos como vegetais, chocolate e carnes. Este mineral também é um metal essencial para as tecnologias atuais, sendo amplamente utilizado em baterias de lítio. O que até então não se sabia, e está sendo revelado por pesquisas recentes, é sua possível relação com a obesidade em mulheres.

O estudo multicêntrico Concentração sérica de cobalto e assinaturas de metilação de DNA em mulheres com obesidade, publicado pela revista científica Obesities, observou diferenças significativas nos níveis sanguíneos de cobalto na comparação entre mulheres com e sem obesidade. Identificou também alterações genéticas associadas ao metal, sugerindo que o cobalto pode influenciar processos biológicos relacionados ao metabolismo e ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2. Os resultados destacam ainda a importância de considerar fatores ambientais e nutricionais na prevenção e tratamento da obesidade.

As investigações foram conduzidas por pesquisadores da USP, da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em Portugal, que analisaram dados de 33 mulheres brasileiras: 16 com obesidade e 17 na faixa normal de IMC (Índice de Massa Corporal). Como principal achado, os cientistas verificaram que os níveis de cobalto no sangue das participantes com obesidade eram muito menores. A deficiência, segundo os pesquisadores, pode estar relacionada à dieta pobre em nutrientes e às alterações metabólicas associadas à obesidade.

O grupo também observou a relação do cobalto com a metilação do DNA, o fator epigenético mais caracterizado que controla a expressão dos genes. A epigenética envolve as alterações genéticas em resposta a estímulos ambientais ou estilo de vida, sem contudo modificar a sequência do DNA, mas que pode influenciar a regulação de um gene (ativando ou desativando a sua atividade) e afetando as funções metabólicas. As diferenças nos padrões de metilação do DNA entre os grupos estudados, adiantam os cientistas, indicam que o cobalto pode desempenhar um papel na regulação epigenética relacionada à progressão da obesidade.

No início da vida, a regulação epigenética é responsável pela diferenciação de células, possibilitando a formação de vários tecidos. Na vida adulta a epigenética tem muita relação com o estilo de vida, como nutrição, atividade física e qualidade do sono, que é capaz de modificar os padrões de metilação – um tipo de modificação química do DNA – seja pelo aumento ou pela diminuição. Esses mecanismos podem estar relacionados à manutenção da saúde e ao desenvolvimento de doenças como, por exemplo, o câncer, explica a professora Carla Barbosa Nonino, do Departamento de Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, responsável pela pesquisa.

<><> Impacto do cobalto no organismo

Segundo Natália Yumi Noronha, doutoranda no Departamento de Clínica Médica da FMRP e orientanda da professora Carla, o cobalto é um mineral essencial para a produção de células do sangue e o funcionamento do sistema nervoso. “O cobalto pode influenciar processos metabólicos, uma vez que uma alimentação pobre em alimentos de origem animal, como carne, leite e ovos, pode acarretar redução do metal no organismo, afetando o metabolismo e possivelmente contribuindo para o ganho de peso e outros problemas de saúde”, afirma.

Ainda segundo Natália, a obesidade está associada a deficiências nutricionais já que, mesmo com um consumo calórico alto, a qualidade da alimentação pode ser inadequada, com baixa ingestão de vitaminas e minerais essenciais. “Os achados do estudo reforçam a importância de investigar não apenas a quantidade de alimentos consumidos pelos pacientes com obesidade, mas também a qualidade, para entender melhor os impactos da dieta na obesidade e na saúde em geral”, diz.

<><> Padrões alimentares e metilação do DNA

Para a professora Carla, o cobalto pode ser considerado essencial ao organismo quando em quantidades adequadas. O excesso, por outro lado, se torna um contaminante. Assim, as causas da deficiência de cobalto na obesidade feminina precisam ser mais bem investigadas com acompanhamento nutricional e clínico. Quanto à epigenética, que explica como o ambiente e o estilo de vida podem alterar o funcionamento de nossos genes, Carla acredita que possa ser mais uma ferramenta para entender as vias metabólicas associadas à obesidade. Segundo a professora, essa ferramenta deve permitir a identificação de padrões alimentares interessantes na ativação e inativação de genes específicos, usando padrões de metilação modificáveis.

Esses resultados devem servir de base para os novos estudos da equipe, agora interessada nos aspectos da obesidade da miscigenada população brasileira. “São escassas as pesquisas sobre metilação do DNA em populações miscigenadas. Além disso, as novas pesquisas também incluirão mais indivíduos e com diferentes condições de saúde, não só a obesidade”, adianta a professora. Seu grupo atualmente trabalha em análises de bioinformática para identificação da ancestralidade. O objetivo é descobrir as origens geográficas e características específicas, “demonstrando como o ambiente pode impactar no desenvolvimento do indivíduo e, potencialmente, o de gerações futuras”, afirma.

O estudo sobre obesidade contou com a colaboração da equipe liderada pelo professor Fernando Barbosa Jr., da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, e foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), através do projeto de pesquisa Do biomonitoramento ao reconhecimento de assinaturas do exposoma humano visando antecipar riscos para uma saúde contínua. Participaram ainda os pesquisadores: Luísa Maria Diani (bolsista da Fapesp que compartilha a primeira autoria do projeto), Guilherme da Silva Rodrigues, Isabela Harumi Yonehara, Vanessa Aparecida Batista Pereira, Marcela Augusta de Souza Pinhel, Lígia Moriguchi Watanabe e Déborah Araújo Morais.

•        Mulheres com obesidade gastam mais energia para manter funções vitais

A ciência começa a desmistificar o que alguns consideram “metabolismo lento” na obesidade. Apesar da complexidade do tema, pesquisadores da USP em Ribeirão Preto verificaram que, ao contrário do que se esperava, o gasto energético em repouso é maior em pessoas com obesidade. Esses resultados estão publicados na revista Frontiers in Nutrition e revelam ainda uma maior oxidação de gorduras (queima de lipídios para produzir energia) quando comparados a indivíduos sem obesidade.

Sobre o gasto energético em repouso, Lorena Medeiros Batista, pesquisadora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e responsável pelo estudo, explica que corresponde “à energia necessária para manter funções vitais (como atividade cardíaca e respiração), mesmo quando estamos parados, dormindo ou sentados”. Para produzir essa energia, o organismo queima (oxida) nutrientes, “o que está relacionado à oxidação contínua de substratos energéticos”.

Como na obesidade aceitava-se a hipótese de um metabolismo energético reduzido em oxidação de lipídios, a equipe decidiu investigar esta tese na predisposição à obesidade, avaliando 216 mulheres adultas, saudáveis e com diferentes classificações de IMC (Índice de Massa Corporal). Os testes metabólicos foram realizados entre 2017 e 2024.

Como resultados, o grupo constatou que as mulheres com IMC maior ou igual a 30 kg/m2 (com obesidade) apresentavam taxa significativamente maior de gasto energético em repouso e de oxidação de gordura corporal que as mulheres com IMC normal (menor que 25 kg/m2), o que equivale a dizer que mulheres com obesidade gastam mais gordura para produzir energia que as sem obesidade. Essa informação, acrescenta a pesquisadora, foi observada “mesmo na ausência de intervenção dietética ou perda de peso”.

Para a pesquisa, Lorena Batista trabalhou sob orientação dos professores Julio Sergio Marchini, do Departamento de Clínica Médica da FMRP, e Carlos Alberto Nogueira de Almeida, do Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), contando ainda com a colaboração de pesquisadores da Universidad de Los Lagos, Chile.

<><> Novos parâmetros para terapias personalizadas

Os dados metabólicos das participantes do estudo, mulheres com diferentes perfis de IMC (com e sem obesidade), foram obtidos por testes de calorimetria indireta (com aparelho que mede o consumo de oxigênio e a produção de dióxido de carbono). São avaliações que estimam “a quantidade de calorias diárias gastas em estado de repouso, determinada pela produção de gás carbônico e consumo de oxigênio e dióxido de carbono”, informa Lorena. O processo é indolor e calcula o gasto calórico pela leitura, realizada por meio de sensores, da quantidade de gás inspirado e expirado.

A pesquisadora justifica que o gasto energético em repouso tem papel fundamental nas necessidades totais de energia para manter o funcionamento do organismo. Assim, as variações desse gasto “representam as diferenças individuais no metabolismo energético e podem influenciar a regulação do peso e da composição corporal”, afirma.

Como o estudo mostrou alterações no metabolismo energético de repouso, com maior gasto e queima de gorduras nessa condição, “esses parâmetros podem servir de indicadores da doença, fornecendo informações valiosas para intervenções terapêuticas e estratégias de prevenção”, como melhores indicações de dietas personalizadas.

Os resultados são considerados valiosos na luta contra a obesidade, principalmente porque as mulheres estão em maior risco. Dados do Ministério da Saúde revelam que a prevalência de sobrepeso e obesidade passou de 42,6% em 2006 para 61,4% em 2023, com a população feminina participando com o maior aumento, de 38,5% para 59,6% nesse período.

De toda a forma, Lorena admite que se trata de um tema muito complexo, que envolve diversas variáveis metabólicas que podem diversificar o achado por especificidades de organismo e também pelo sexo biológico, limitação que o estudo traz por ter trabalhado apenas com mulheres. Porém, a pesquisadora adianta que já planejam novos estudos que incluam participantes do sexo masculino.

<><> Adaptação crônica à composição corporal

Para a pesquisadora, os resultados obtidos, além de contrariar a suposição de que “a obesidade levaria à redução da mobilização de gordura em repouso, possivelmente estão refletindo uma adaptação crônica a uma maior massa de tecido adiposo, níveis elevados de ácidos graxos circulantes e aumento da lipólise basal”.

Segundo Lorena, essa adaptação metabólica pode indicar que o metabolismo lento não seja uma característica da obesidade, mas uma influência direta na mobilização de gordura em repouso. Esse aumento da oxidação de lipídios na obesidade “pode ser uma resposta do organismo ao excesso de gordura corporal, aumentando a disponibilidade de ácidos graxos livres (como consequência dessa disponibilidade de estoque aumentada presente na obesidade) para serem utilizados como fonte de energia”.

“A obesidade é uma doença crônica e multifatorial, resultante do desequilíbrio entre ingestão e gasto energético, influenciada por fatores nutricionais, metabólicos, psicossociais e comportamentais”, fundamenta a pesquisadora, acrescentando que o gasto energético em repouso é um dos componentes centrais do metabolismo energético.

Como integrante do metabolismo, o gasto energético em repouso depende da composição corporal, especialmente da massa livre de gordura, que impacta a regulação do peso e a oxidação de substratos. Lorena afirma que as alterações metabólicas associadas à obesidade “reforçam a importância de avaliar essas variáveis.”

 

Fonte: Jornal da USP

 

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