segunda-feira, 16 de março de 2026

Miguel do Rosário: Imagem dos EUA despenca entre brasileiros e rejeição a Trump pode beneficiar Lula

A percepção dos brasileiros sobre os Estados Unidos atingiu o pior patamar desde que a Genial/Quaest começou a medir o indicador. A pesquisa mais recente, realizada entre 6 e 9 de março de 2026 com 2.004 eleitores em todo o país, mostra uma deterioração contínua da imagem americana, um movimento que acompanha o endurecimento da política externa de Donald Trump em relação ao Brasil.

A opinião favorável aos EUA, que chegou a 58% em fevereiro de 2024 (pico da série), despencou para 38% em março de 2026. No mesmo período, a avaliação desfavorável saltou de 24% para 48%. O saldo entre avaliação positiva e negativa, que já era de -4 pontos em agosto de 2025, ampliou-se para -10 pontos agora em março.

O contexto ajuda a explicar a queda. Em 2025, o governo Trump impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, em meio a uma disputa que envolveu pressões abertas sobre o Supremo Tribunal Federal e o julgamento de Jair Bolsonaro. Trump enviou carta ao presidente Lula e sancionou o ministro Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky, acusando o Judiciário brasileiro de perseguição política. A sequência de episódios foi interpretada por parte significativa da opinião pública como interferência na soberania nacional.

<><> Flávio Bolsonaro e o alinhamento com Trump

A família Bolsonaro apostou de forma explícita na vinculação com Donald Trump, nos mesmos moldes de Javier Milei na Argentina, como estratégia central para a disputa de 2026. Desde que recebeu o aval do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso desde novembro de 2025 após condenação por tentativa de golpe, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem buscado ativamente a chancela de Washington para sua pré-candidatura presidencial.

O conselheiro de Trump, Jason Miller, manifestou apoio público à pré-candidatura ainda em dezembro de 2025. O senador realizou ao menos três compromissos nos Estados Unidos em menos de um mês, incluindo articulações no entorno da Casa Branca, e foi anunciado como palestrante na CPAC, a principal conferência da direita americana, prevista para o fim de março no Texas, com presença esperada do próprio Trump.

O alinhamento não se limitou à retórica doméstica. Quando os Estados Unidos e Israel lançaram a ofensiva militar contra o Irã em fevereiro de 2026, Flávio Bolsonaro classificou como “inaceitável” a posição do governo brasileiro, que condenou os ataques e defendeu solução diplomática. O senador endossou a ação militar, expressou solidariedade aos aliados do eixo Washington-Tel Aviv e criticou o que chamou de complacência do Itamaraty com o regime iraniano, posicionamento que colocou a política externa como um dos eixos centrais da disputa eleitoral.

Seu pai, Jair Bolsonaro, também apoiou os bombardeios americanos. A postura oposta à do governo Lula, que defende negociação e não intervenção, reforçou a percepção de que uma eventual gestão Flávio Bolsonaro seguiria subordinada às diretrizes de Washington, incluindo no terreno militar.

<><> O efeito eleitoral

É justamente essa colagem com Trump que a pesquisa Genial/Quaest traduz em números. Questionados sobre o impacto de um eventual apoio de Trump a Flávio Bolsonaro na disputa presidencial, os entrevistados responderam: 32% disseram que isso aumentaria suas chances de votar em Lula; 28% disseram que aumentaria suas chances de votar em Flávio Bolsonaro; 19% afirmaram que migrariam para outro candidato; 14% disseram que não faria diferença; e 7% não souberam ou não responderam.

O apoio de Trump, portanto, mobiliza mais eleitores a favor de Lula do que do próprio candidato que ele pretende ajudar.

<><> Lula endurece o tom contra a guerra

Enquanto a rejeição a Trump cresce entre os brasileiros, o presidente Lula tem usado seus discursos públicos para criticar de forma cada vez mais direta a ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Em declarações recentes, Lula questionou abertamente a postura belicista de Trump, chegando a ironizar a insistência do americano em exibir poder militar. O governo brasileiro condenou formalmente os bombardeios e tem defendido, em todos os fóruns, uma solução exclusivamente diplomática para o conflito.

A guerra, além de gerar instabilidade global, atinge diretamente o bolso dos brasileiros: a alta do preço internacional do petróleo provocada pelo conflito pressiona os combustíveis no mercado interno, encarecendo o custo de vida. O Irã é um mercado relevante para as exportações brasileiras, e a escalada militar coloca em risco relações comerciais que interessam ao país.

Nesta sexta-feira (13), Lula deu mais um passo no enfrentamento direto: anunciou a revogação do visto de Darren Beattie, assessor de Trump para assuntos relacionados ao Brasil, que pretendia visitar Jair Bolsonaro na prisão. A decisão foi tomada com base no princípio de reciprocidade. Os Estados Unidos cancelaram, em agosto de 2025, os vistos do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, de sua esposa e de sua filha de 10 anos. Lula foi categórico: Beattie só poderá entrar no Brasil quando Padilha e sua família tiverem a situação regularizada.

O Itamaraty confirmou a revogação e informou que Beattie omitiu o verdadeiro propósito da viagem ao solicitar o visto, apresentando apenas a participação em um fórum sobre minerais críticos, sem mencionar a visita ao ex-presidente.

A decisão adiciona mais um fator de tensão à relação bilateral, justamente num momento em que os dois governos negociam um encontro presencial entre Lula e Trump. A reunião, inicialmente prevista para março em Washington, foi adiada por causa da guerra no Irã e agora deve ocorrer em abril, antes de uma viagem de Trump à China. O Planalto trabalha para que a pauta se concentre na remoção das tarifas e em acordos sobre minerais e energia, mas o acúmulo de atritos torna cada vez mais difícil um encontro sem sobressaltos.

<><> O cenário mais amplo

A combinação de tarifas punitivas, ofensiva militar no Irã com impacto direto nos preços dos combustíveis, tentativas de interferência no Judiciário e pressões sobre a soberania nacional consolidou uma rejeição aos Estados Unidos que transborda para o terreno eleitoral. Quanto mais visível a associação entre Flávio Bolsonaro e o governo americano, maior o potencial de conversão desse sentimento em capital eleitoral para Lula.

•        Movimentos bolsonaristas nos EUA ameaçam aproximação entre Lula e Trump

Movimentos recentes ligados ao bolsonarismo nos Estados Unidos passaram a gerar apreensão no governo brasileiro e podem comprometer o processo de aproximação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo a CNN Brasil, os bastidores do Palácio do Planalto, a avaliação é que a retomada de articulações políticas em Washington pode interferir no diálogo diplomático que vinha sendo construído entre os dois países.

O Planalto aponta sinais de fortalecimento de interlocutores alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro dentro do Departamento de Estado e da Casa Branca. A leitura de integrantes do governo Lula é de que esse movimento está ligado ao cenário eleitoral brasileiro e pode influenciar o relacionamento bilateral.

<><> Viagem de assessor do governo trump amplia tensão diplomática

Outro elemento que intensificou a preocupação em Brasília foi a viagem ao Brasil de Darren Beattie, assessor do governo Trump e integrante do Departamento de Estado. Segundo avaliação de diplomatas ouvidos pela reportagem, o deslocamento ocorre em meio ao fortalecimento da ala MAGA (“Make America Great Again”), considerada a vertente mais radical da base política do presidente dos Estados Unidos.

Integrantes do Itamaraty avaliam que a agenda oficial anunciada para a viagem poderia funcionar como cobertura para um encontro com Jair Bolsonaro. A possibilidade ganhou destaque porque Beattie mantém proximidade política com aliados do ex-presidente brasileiro, especialmente com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Inicialmente, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a visita de Beattie a Bolsonaro na Papudinha, unidade prisional onde o ex-presidente se encontra. No entanto, a decisão foi posteriormente revista após manifestação do Ministério das Relações Exteriores.

<><> Itamaraty alerta para possível ingerência externa

Em ofício encaminhado ao STF, o chanceler Mauro Vieira afirmou que a reunião entre um representante do governo norte-americano e um ex-presidente brasileiro em período eleitoral poderia configurar interferência externa na política nacional.

“A visita de um funcionário de Estado estrangeiro a um ex-Presidente da República em ano eleitoral pode configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro”, declarou o ministro das Relações Exteriores.

Vieira também informou que, até a quarta-feira anterior à decisão, não havia qualquer agenda diplomática previamente estabelecida envolvendo o assessor norte-americano. Segundo o chanceler, o pedido de encontro com Bolsonaro não constava dos objetivos oficialmente comunicados pelo Departamento de Estado.

<><> Agenda oficial não incluía encontro com bolsonaro

De acordo com o Itamaraty, a viagem de Beattie foi informada por meio de nota diplomática enviada em 10 de março. O roteiro prevê chegada a Brasília no dia 16, deslocamento para São Paulo no dia seguinte e retorno aos Estados Unidos no dia 18.

O chanceler destacou ainda que o visto foi concedido com base em justificativas relacionadas à participação do funcionário em eventos destinados a fortalecer as relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos.

“O visto de entrada foi concedido com base em pedido que indicava a participação do funcionário do Departamento de Estado em evento para promover as relações bilaterais e em reuniões oficiais”, explicou Mauro Vieira.

<><> Histórico de críticas a Moraes

Darren Beattie também é citado por autoridades brasileiras como um dos articuladores de possíveis sanções contra Alexandre de Moraes com base na chamada Lei Magnitsky, legislação norte-americana usada para punir autoridades estrangeiras acusadas de violações de direitos humanos.

Em publicações feitas nas redes sociais no ano passado, o assessor classificou Moraes como “o principal arquiteto do complexo de censura e perseguição direcionado a Bolsonaro e seus apoiadores”.

No governo Trump, Beattie passou a ocupar funções relevantes dentro do Departamento de Estado e foi designado para acompanhar temas relacionados ao Brasil.

<><> Proposta sobre facções criminosas gera alerta

Além da visita do assessor norte-americano, outro ponto que provocou preocupação no governo brasileiro foi a retomada, nos Estados Unidos, da proposta de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.

Integrantes do governo Lula e do Partido dos Trabalhadores avaliam que a iniciativa poderia ser usada para influenciar o cenário político brasileiro em meio à corrida presidencial. A proposta, rejeitada pelo Palácio do Planalto por considerar riscos à soberania nacional, conta com apoio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é pré-candidato à Presidência da República.

<><> Diplomacia tenta preservar diálogo entre os países

Apesar das tensões, o governo brasileiro tenta preservar o canal de diálogo com Washington. No domingo anterior, Mauro Vieira conversou com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, sobre possibilidades de cooperação no combate ao crime organizado.

Nos bastidores da diplomacia, a estratégia é manter a interlocução ativa até que ocorra um encontro direto entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, previsto inicialmente para março, mas ainda sem data confirmada.

 

Fonte: Brasil 247

 

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