Miguel
do Rosário: Imagem dos EUA despenca entre brasileiros e rejeição a Trump pode
beneficiar Lula
A
percepção dos brasileiros sobre os Estados Unidos atingiu o pior patamar desde
que a Genial/Quaest começou a medir o indicador. A pesquisa mais recente,
realizada entre 6 e 9 de março de 2026 com 2.004 eleitores em todo o país,
mostra uma deterioração contínua da imagem americana, um movimento que
acompanha o endurecimento da política externa de Donald Trump em relação ao
Brasil.
A
opinião favorável aos EUA, que chegou a 58% em fevereiro de 2024 (pico da
série), despencou para 38% em março de 2026. No mesmo período, a avaliação
desfavorável saltou de 24% para 48%. O saldo entre avaliação positiva e
negativa, que já era de -4 pontos em agosto de 2025, ampliou-se para -10 pontos
agora em março.
O
contexto ajuda a explicar a queda. Em 2025, o governo Trump impôs tarifas de
até 50% sobre produtos brasileiros, em meio a uma disputa que envolveu pressões
abertas sobre o Supremo Tribunal Federal e o julgamento de Jair Bolsonaro.
Trump enviou carta ao presidente Lula e sancionou o ministro Alexandre de
Moraes com base na Lei Magnitsky, acusando o Judiciário brasileiro de
perseguição política. A sequência de episódios foi interpretada por parte
significativa da opinião pública como interferência na soberania nacional.
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Flávio Bolsonaro e o alinhamento com Trump
A
família Bolsonaro apostou de forma explícita na vinculação com Donald Trump,
nos mesmos moldes de Javier Milei na Argentina, como estratégia central para a
disputa de 2026. Desde que recebeu o aval do pai, o ex-presidente Jair
Bolsonaro, preso desde novembro de 2025 após condenação por tentativa de golpe,
o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem buscado ativamente a chancela de
Washington para sua pré-candidatura presidencial.
O
conselheiro de Trump, Jason Miller, manifestou apoio público à pré-candidatura
ainda em dezembro de 2025. O senador realizou ao menos três compromissos nos
Estados Unidos em menos de um mês, incluindo articulações no entorno da Casa
Branca, e foi anunciado como palestrante na CPAC, a principal conferência da
direita americana, prevista para o fim de março no Texas, com presença esperada
do próprio Trump.
O
alinhamento não se limitou à retórica doméstica. Quando os Estados Unidos e
Israel lançaram a ofensiva militar contra o Irã em fevereiro de 2026, Flávio
Bolsonaro classificou como “inaceitável” a posição do governo brasileiro, que
condenou os ataques e defendeu solução diplomática. O senador endossou a ação
militar, expressou solidariedade aos aliados do eixo Washington-Tel Aviv e
criticou o que chamou de complacência do Itamaraty com o regime iraniano,
posicionamento que colocou a política externa como um dos eixos centrais da
disputa eleitoral.
Seu
pai, Jair Bolsonaro, também apoiou os bombardeios americanos. A postura oposta
à do governo Lula, que defende negociação e não intervenção, reforçou a
percepção de que uma eventual gestão Flávio Bolsonaro seguiria subordinada às
diretrizes de Washington, incluindo no terreno militar.
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O efeito eleitoral
É
justamente essa colagem com Trump que a pesquisa Genial/Quaest traduz em
números. Questionados sobre o impacto de um eventual apoio de Trump a Flávio
Bolsonaro na disputa presidencial, os entrevistados responderam: 32% disseram
que isso aumentaria suas chances de votar em Lula; 28% disseram que aumentaria
suas chances de votar em Flávio Bolsonaro; 19% afirmaram que migrariam para
outro candidato; 14% disseram que não faria diferença; e 7% não souberam ou não
responderam.
O apoio
de Trump, portanto, mobiliza mais eleitores a favor de Lula do que do próprio
candidato que ele pretende ajudar.
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Lula endurece o tom contra a guerra
Enquanto
a rejeição a Trump cresce entre os brasileiros, o presidente Lula tem usado
seus discursos públicos para criticar de forma cada vez mais direta a ofensiva
militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Em declarações recentes,
Lula questionou abertamente a postura belicista de Trump, chegando a ironizar a
insistência do americano em exibir poder militar. O governo brasileiro condenou
formalmente os bombardeios e tem defendido, em todos os fóruns, uma solução
exclusivamente diplomática para o conflito.
A
guerra, além de gerar instabilidade global, atinge diretamente o bolso dos
brasileiros: a alta do preço internacional do petróleo provocada pelo conflito
pressiona os combustíveis no mercado interno, encarecendo o custo de vida. O
Irã é um mercado relevante para as exportações brasileiras, e a escalada
militar coloca em risco relações comerciais que interessam ao país.
Nesta
sexta-feira (13), Lula deu mais um passo no enfrentamento direto: anunciou a
revogação do visto de Darren Beattie, assessor de Trump para assuntos
relacionados ao Brasil, que pretendia visitar Jair Bolsonaro na prisão. A
decisão foi tomada com base no princípio de reciprocidade. Os Estados Unidos
cancelaram, em agosto de 2025, os vistos do ministro da Saúde, Alexandre
Padilha, de sua esposa e de sua filha de 10 anos. Lula foi categórico: Beattie
só poderá entrar no Brasil quando Padilha e sua família tiverem a situação
regularizada.
O
Itamaraty confirmou a revogação e informou que Beattie omitiu o verdadeiro
propósito da viagem ao solicitar o visto, apresentando apenas a participação em
um fórum sobre minerais críticos, sem mencionar a visita ao ex-presidente.
A
decisão adiciona mais um fator de tensão à relação bilateral, justamente num
momento em que os dois governos negociam um encontro presencial entre Lula e
Trump. A reunião, inicialmente prevista para março em Washington, foi adiada
por causa da guerra no Irã e agora deve ocorrer em abril, antes de uma viagem
de Trump à China. O Planalto trabalha para que a pauta se concentre na remoção
das tarifas e em acordos sobre minerais e energia, mas o acúmulo de atritos
torna cada vez mais difícil um encontro sem sobressaltos.
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O cenário mais amplo
A
combinação de tarifas punitivas, ofensiva militar no Irã com impacto direto nos
preços dos combustíveis, tentativas de interferência no Judiciário e pressões
sobre a soberania nacional consolidou uma rejeição aos Estados Unidos que
transborda para o terreno eleitoral. Quanto mais visível a associação entre
Flávio Bolsonaro e o governo americano, maior o potencial de conversão desse
sentimento em capital eleitoral para Lula.
• Movimentos bolsonaristas nos EUA ameaçam
aproximação entre Lula e Trump
Movimentos
recentes ligados ao bolsonarismo nos Estados Unidos passaram a gerar apreensão
no governo brasileiro e podem comprometer o processo de aproximação entre o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump. Segundo a CNN Brasil, os bastidores do Palácio do Planalto, a avaliação
é que a retomada de articulações políticas em Washington pode interferir no
diálogo diplomático que vinha sendo construído entre os dois países.
O
Planalto aponta sinais de fortalecimento de interlocutores alinhados ao
ex-presidente Jair Bolsonaro dentro do Departamento de Estado e da Casa Branca.
A leitura de integrantes do governo Lula é de que esse movimento está ligado ao
cenário eleitoral brasileiro e pode influenciar o relacionamento bilateral.
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Viagem de assessor do governo trump amplia tensão diplomática
Outro
elemento que intensificou a preocupação em Brasília foi a viagem ao Brasil de
Darren Beattie, assessor do governo Trump e integrante do Departamento de
Estado. Segundo avaliação de diplomatas ouvidos pela reportagem, o deslocamento
ocorre em meio ao fortalecimento da ala MAGA (“Make America Great Again”),
considerada a vertente mais radical da base política do presidente dos Estados
Unidos.
Integrantes
do Itamaraty avaliam que a agenda oficial anunciada para a viagem poderia
funcionar como cobertura para um encontro com Jair Bolsonaro. A possibilidade
ganhou destaque porque Beattie mantém proximidade política com aliados do
ex-presidente brasileiro, especialmente com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro
(PL-SP).
Inicialmente,
o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a
visita de Beattie a Bolsonaro na Papudinha, unidade prisional onde o
ex-presidente se encontra. No entanto, a decisão foi posteriormente revista
após manifestação do Ministério das Relações Exteriores.
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Itamaraty alerta para possível ingerência externa
Em
ofício encaminhado ao STF, o chanceler Mauro Vieira afirmou que a reunião entre
um representante do governo norte-americano e um ex-presidente brasileiro em
período eleitoral poderia configurar interferência externa na política
nacional.
“A
visita de um funcionário de Estado estrangeiro a um ex-Presidente da República
em ano eleitoral pode configurar indevida ingerência nos assuntos internos do
Estado brasileiro”, declarou o ministro das Relações Exteriores.
Vieira
também informou que, até a quarta-feira anterior à decisão, não havia qualquer
agenda diplomática previamente estabelecida envolvendo o assessor
norte-americano. Segundo o chanceler, o pedido de encontro com Bolsonaro não
constava dos objetivos oficialmente comunicados pelo Departamento de Estado.
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Agenda oficial não incluía encontro com bolsonaro
De
acordo com o Itamaraty, a viagem de Beattie foi informada por meio de nota
diplomática enviada em 10 de março. O roteiro prevê chegada a Brasília no dia
16, deslocamento para São Paulo no dia seguinte e retorno aos Estados Unidos no
dia 18.
O
chanceler destacou ainda que o visto foi concedido com base em justificativas
relacionadas à participação do funcionário em eventos destinados a fortalecer
as relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos.
“O
visto de entrada foi concedido com base em pedido que indicava a participação
do funcionário do Departamento de Estado em evento para promover as relações
bilaterais e em reuniões oficiais”, explicou Mauro Vieira.
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Histórico de críticas a Moraes
Darren
Beattie também é citado por autoridades brasileiras como um dos articuladores
de possíveis sanções contra Alexandre de Moraes com base na chamada Lei
Magnitsky, legislação norte-americana usada para punir autoridades estrangeiras
acusadas de violações de direitos humanos.
Em
publicações feitas nas redes sociais no ano passado, o assessor classificou
Moraes como “o principal arquiteto do complexo de censura e perseguição
direcionado a Bolsonaro e seus apoiadores”.
No
governo Trump, Beattie passou a ocupar funções relevantes dentro do
Departamento de Estado e foi designado para acompanhar temas relacionados ao
Brasil.
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Proposta sobre facções criminosas gera alerta
Além da
visita do assessor norte-americano, outro ponto que provocou preocupação no
governo brasileiro foi a retomada, nos Estados Unidos, da proposta de
classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
Integrantes
do governo Lula e do Partido dos Trabalhadores avaliam que a iniciativa poderia
ser usada para influenciar o cenário político brasileiro em meio à corrida
presidencial. A proposta, rejeitada pelo Palácio do Planalto por considerar
riscos à soberania nacional, conta com apoio do senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), que é pré-candidato à Presidência da República.
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Diplomacia tenta preservar diálogo entre os países
Apesar
das tensões, o governo brasileiro tenta preservar o canal de diálogo com
Washington. No domingo anterior, Mauro Vieira conversou com o secretário de
Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, sobre possibilidades de cooperação no
combate ao crime organizado.
Nos
bastidores da diplomacia, a estratégia é manter a interlocução ativa até que
ocorra um encontro direto entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump, previsto inicialmente para março, mas ainda sem data confirmada.
Fonte:
Brasil 247

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