segunda-feira, 16 de março de 2026

Pontos fortes do TDAH são a chave para uma melhor saúde mental, afirmam especialistas

O TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) é frequentemente discutido sob a ótica das limitações, como a impulsividade e a desatenção. No entanto, um estudo internacional liderado pela Universidade de Bath traz uma perspectiva revolucionária: adultos com TDAH que reconhecem e utilizam seus pontos fortes apresentam níveis significativamente mais altos de felicidade e saúde mental.

Publicada na revista Psychological Medicine, a pesquisa é a primeira em larga escala a comparar as forças psicológicas de adultos com e sem o transtorno, revelando que o foco nas habilidades positivas pode ser um divisor de águas no bem-estar desses indivíduos.

<><> Os "superpoderes" do TDAH

O estudo identificou que pessoas com TDAH têm uma probabilidade muito maior de possuir certas características positivas em comparação com pessoas neurotípicas. Entre os 10 pontos fortes mais marcantes, destacam-se:

•        Hiperfoco: a capacidade de concentração profunda em tarefas de alto interesse.

•        Criatividade: pensamento "fora da caixa" e soluções inovadoras.

•        Humor e espontaneidade: uma abordagem vibrante e rápida perante a vida.

•        Intuição: uma percepção aguçada que vai além da lógica linear.

<><> O impacto na qualidade de vida

A pesquisa demonstrou que a consciência desses pontos fortes não é apenas uma questão de autoestima, mas de saúde clínica. Tanto no grupo com TDAH quanto no neurotípico, o uso frequente dessas habilidades foi associado a:

1.       Menos estresse, ansiedade e depressão.

2.       Melhor bem-estar subjetivo.

3.       Maior qualidade de vida nos âmbitos social, físico e psicológico.

Curiosamente, o estudo descobriu que adultos com TDAH são tão capazes de identificar e usar suas forças quanto qualquer outra pessoa — o que falta, muitas vezes, é o suporte externo que valide essas características em vez de focar apenas nos erros cometidos por esquecimento ou distração.

<><> Uma nova abordagem terapêutica

Os pesquisadores defendem que o cuidado com o TDAH precisa evoluir para modelos baseados em pontos fortes, semelhantes ao que já ocorre no suporte ao autismo.

Isso inclui o desenvolvimento de programas e terapias que ajudem o indivíduo a identificar onde suas habilidades naturais brilham mais, seja no trabalho ou na educação.

Como afirma o Dr. Punit Shah, um dos autores do estudo: "Reconhecer que o TDAH possui diversos aspectos positivos pode ser extremamente empoderador". Educar a sociedade e os próprios pacientes sobre essas qualidades é o primeiro passo para transformar o diagnóstico de um fardo em um mapa de potencialidades.

•        Especialista que ajudou a formular o conceito de espectro afirma que a definição atual se tornou ampla demais

Uma das principais especialistas que ajudaram a moldar a compreensão moderna do autismo afirmou que o conceito de “espectro do autismo” pode ter se tornado amplo demais para continuar sendo útil como diagnóstico clínico.

A avaliação foi feita por Uta Frith, professora emérita do University College London e pesquisadora do Institute of Cognitive Neuroscience. Aos 84 anos, ela participou desde a década de 1960 de estudos fundamentais sobre Transtorno do Espectro Autista e esteve envolvida na formulação de teorias que ajudaram a estabelecer o próprio conceito de espectro.

Em entrevista ao jornal The Times, Frith afirmou que a ampliação dos critérios ao longo das últimas décadas fez com que o diagnóstico passasse a incluir grupos muito diferentes entre si.

“O espectro tornou-se tão abrangente que temo que tenha sido esticado a tal ponto que perdeu o sentido e deixou de ser útil como diagnóstico médico”, disse.

<><> O aumento dos diagnósticos nas últimas décadas

Dados do sistema de saúde da Reino Unido indicam que o número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista cresceu significativamente ao longo das últimas décadas.

Em 1998, cerca de 0,1% da população tinha diagnóstico de autismo. Em 2024, essa proporção chegou a 1,33%.

De acordo com a Frith, os casos mais clássicos — geralmente identificados na infância e associados a dificuldades mais marcantes — permaneceram relativamente estáveis. O aumento ocorreu principalmente em diagnósticos considerados mais leves, incluindo adolescentes e adultos avaliados apenas mais tarde na vida.

“As pessoas ainda se apegam à ideia de que existe algo que une todas as pessoas diagnosticadas com autismo. Eu não acredito mais nisso”, disse a especialista.

<><> Diferenças entre os perfis incluídos no espectro

A ampliação do conceito de espectro fez com que pessoas com características bastante diferentes passassem a ser incluídas na mesma categoria diagnóstica. Entre os perfis que hoje aparecem com maior frequência estão indivíduos com forte sensibilidade social ou sensorial, além de pessoas que apresentam ansiedade em situações sociais.

Estudos realizados em países como os Estados Unidos e a Suécia também apontam crescimento no número de diagnósticos entre mulheres, especialmente na adolescência e na vida adulta.

Para Frith, parte dessa expansão pode estar ligada à inclusão de características que, no passado, poderiam ser interpretadas apenas como traços de personalidade ou diferenças individuais.

<><> Diagnósticos são baseados em avaliação clínica

Outro fator destacado pela pesquisadora é que o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista não possui biomarcadores definidos — como exames laboratoriais ou de imagem capazes de confirmar a condição.

Por isso, a identificação depende principalmente da avaliação clínica, baseada no comportamento, na comunicação e em padrões de interação social.

Segundo Frith, essa característica pode contribuir para interpretações mais amplas dos critérios diagnósticos.

<><> A proposta de reorganizar o diagnóstico

Diante dessas mudanças, a pesquisadora sugere que o campo científico considere reorganizar a classificação atual em subgrupos mais específicos.

“Eu definitivamente não diria que estão 'inventando'. Mas diria que esses são problemas que talvez possam ser tratados muito melhor do que sob o rótulo de 'autismo'”, explica.

Na visão da especialista, separar esses grupos — entre diagnosticados na infância e pessoas com diagnóstico tardio — poderia ajudar tanto nas avaliaçãoes quanto na interpretação de estudos científicos, que atualmente analisam populações muito heterogêneas dentro do mesmo espectro.

•        Medicamentos para TDAH não funcionam como pensávamos — Descobertas valem para adultos e crianças

Por décadas, a medicina acreditou que estimulantes como a Ritalina e o Adderall agiam diretamente nas áreas do cérebro responsáveis pelo controle da atenção, ajudando crianças com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) a "focar" melhor. No entanto, um estudo revolucionário da Escola de Medicina da Universidade de Washington, em St. Louis, acaba de derrubar essa teoria.

Publicada na prestigiada revista Cell (link no primeiro parágrafo), a pesquisa revela que esses medicamentos não afetam as redes de atenção de forma direta. Em vez disso, eles atuam nos sistemas de recompensa e alerta do cérebro.

<><> O cérebro "acordado" e motivado

Ao analisar exames de ressonância magnética funcional (fMRI) de quase 6.000 crianças, os cientistas descobriram que os estimulantes deixam o cérebro em um estado de prontidão e entusiasmo. Em vez de "afiar" o foco, o remédio faz com que tarefas entediantes ou repetitivas pareçam mais interessantes e recompensadoras.

"Descobrimos que os estimulantes 'pré-recompensam' nossos cérebros, permitindo que continuemos trabalhando em coisas que normalmente não despertariam nosso interesse — como aquela aula de que menos gostamos na escola", explica o Dr. Nico Dosenbach, um dos autores do estudo.

Essa descoberta também explica o paradoxo da hiperatividade: a criança consegue ficar sentada e calma porque o medicamento remove a necessidade de "buscar algo melhor para fazer", já que a tarefa atual passou a ser quimicamente gratificante.

<><> Um alerta para o diagnóstico

Um dos pontos mais polêmicos do estudo é a relação entre os medicamentos e a privação de sono. Os pesquisadores notaram que os estimulantes "apagam" a assinatura cerebral da falta de sono. Ou seja, um cérebro cansado sob efeito de estimulantes parece, nos exames, um cérebro que teve uma excelente noite de descanso.

Isso levanta uma questão crítica para o diagnóstico de TDAH: crianças com sono insuficiente apresentam comportamentos que imitam perfeitamente o TDAH, como irritabilidade, queda de notas e dificuldade de concentração.

O medicamento pode melhorar o desempenho escolar de uma criança cansada ao simular o estado de alerta do sono, mas isso não resolve a causa raiz (o cansaço) e pode expor o jovem aos danos a longo prazo da privação crônica de sono.

<><> O que muda para o tratamento?

Os autores do estudo, que também são neurologistas pediátricos, reforçam que os estimulantes continuam sendo ferramentas valiosas e eficazes, especialmente para crianças com sintomas graves. No entanto, os resultados pedem uma mudança na abordagem clínica: a qualidade do sono deve ser investigada com o mesmo rigor que a falta de atenção antes de se fechar um diagnóstico.

A pesquisa lembra que a neurodivergência e o desempenho cognitivo estão profundamente ligados à regulação biológica do descanso e da motivação, e não apenas a uma "falha" em um suposto centro de atenção do cérebro.

 

Fonte: Xataca.com

 

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