Justiça
obriga Rock in Rio a garantir carteira assinada contra trabalho escravo
A
JUSTIÇA DO TRABALHO determinou que a organizadora do Rock in Rio adote medidas
para impedir a repetição de casos de trabalho escravo nas próximas edições do
festival. A decisão foi tomada na terça-feira (10) pela 10ª Vara do Trabalho do
Rio de Janeiro, em ação civil pública movida pelo MPT (Ministério Público do
Trabalho) contra a Rock World, responsável pelo festival.
A
liminar determina que a empresa garanta condições para que os trabalhadores não
sejam submetidos a trabalho escravo Entre as medidas obrigatórias está o
registro formal dos trabalhadores terceirizados, que deve ser comprovado pela
Rock World antes do credenciamento da prestadora de serviços.
Além
disso, a organizadora do festival deverá implementar controle de jornada,
descanso mínimo entre turnos, fornecimento de equipamentos de proteção e
infraestrutura adequada de alimentação, hidratação e higiene. Em caso de
descumprimento, foi fixada multa diária de R$ 50 mil por obrigação violada,
além de penalidades por trabalhador afetado.
Procurada,
a Rock World declarou-se “surpresa e indignada” com a decisão. Segundo a
empresa, as determinações “já fazem parte da conduta adotada e já demonstrada
pela Rock World”. Leia abaixo o posicionamento completo.
A ação
foi motivada após fiscalização realizada em 2024 por auditores do Ministério do
Trabalho e Emprego e procuradores do Ministério Público do Trabalho durante a
montagem do festival. Na ocasião, a operação resultou no resgate de 14
trabalhadores submetidos a jornadas exaustivas e condições sem dignidade.
Segundo
a fiscalização, parte dos trabalhadores cumpria turnos de até 21 horas
seguidas. Muitos dormiam no próprio local de trabalho, sobre papelões ou sacos
plásticos, e não contavam com instalações adequadas para banho, descanso e
alimentação.
Após o
processo administrativo, a Rock World também foi incluída na Lista Suja do
Trabalho Escravo, cadastro federal de empregadores responsabilizados por
trabalho análogo ao de escravo usado por bancos e empresas em suas análises de
risco.
A
liminar da Justiça recai também sobre a terceirizada Força Bruta (FBC Backstage
Eventos), responsável por recrutar os trabalhadores resgatados em 2024. À
Repórter Brasil, um representante da empresa disse que não atua mais na
organização do festival.
O
episódio de dois anos atrás não foi o primeiro caso de trabalho escravo
envolvendo o Rock in Rio. Em 2013, o Ministério do Trabalho e Emprego apontou
uma rede de lanchonetes como responsável por 93 escravizados. E em 2015, uma
nova operação identificou 17 ambulantes em condições análogas às de escravos.
Nos dois casos anteriores, contudo, a Rock World não foi responsabilizada, ao
contrário do episódio mais recente.
<><>Rock
World contesta acusações de autoridades
Em
nota, a Rock World afirmou ter recebido “com surpresa e indignação” a ação
civil pública apresentada pelo Ministério Público do Trabalho e disse que as
determinações listadas no processo já fazem parte das práticas adotadas pela
empresa.
“A Rock
World rechaça veementemente qualquer alegação de trabalho análogo à
escravidão”, afirmou a empresa em nota, sustentando que os episódios relatados
decorreriam de descumprimento de regras internas pela terceirizada Força Bruta,
responsável pela contratação dos trabalhadores.
Segundo
a companhia, ao tomar conhecimento da situação, o fornecedor foi notificado e
teve o credenciamento suspenso, deixando de prestar serviços.
A Rock
World afirmou ainda que exige de todas as prestadoras de serviço controle
rigoroso de jornada, registro em carteira antes do credenciamento, fornecimento
de equipamentos de proteção e condições adequadas de alimentação, hidratação e
higiene. De acordo com a empresa, equipes internas e consultorias externas
realizam fiscalização e auditorias periódicas na cadeia de fornecedores.
A
empresa informou que mantém “diálogo institucional” com o Ministério Público do
Trabalho e que continuará colaborando com as autoridades, ao mesmo tempo em que
pretende defender nas instâncias cabíveis que eventuais responsabilidades sejam
atribuídas às empresas contratadas.
________________________________________
*NOTA
DA ROCK WORLD
Foi com
surpresa e indignação que a Rock World recebeu nesta terça-feira, 11 de março,
ao fim do dia, a Ação Civil Pública (ACP) proposta pelo Ministério Público do
Trabalho (MPT), que também tem como parte a empresa terceirizada Força Bruta,
da qual os profissionais citados no processo eram funcionários.
A
surpresa e indignação residem no fato de que a lista de determinações
apresentadas na ACP, embora recebidas com a máxima seriedade, já fazem parte da
conduta adotada e já demonstrada pela Rock World, que age com respeito aos
direitos, segurança e ao bem-estar de todos os profissionais envolvidos em seus
eventos.
A Rock
World rechaça veementemente qualquer alegação de trabalho análogo à escravidão
em suas operações. Os episódios relatados configuram um grave descumprimento
das nossas diretrizes operacionais por parte da empresa Força Bruta. Tão logo
nossa equipe tomou conhecimento dessa situação, a fornecedora foi imediatamente
notificada, teve seu credenciamento suspenso e não presta mais nenhum tipo de
serviço para a Rock World desde a data do ocorrido.
As
diretrizes apontadas na ação judicial — como controle rigoroso de jornada,
registro em CTPS antes do credenciamento, fornecimento e fiscalização de EPIs,
além de infraestrutura adequada de alimentação, hidratação e higiene — já são
pilares obrigatórios das nossas políticas de conformidade. Não apenas exigimos
essas práticas em contrato de todas as empresas terceirizadas, como atuamos
ativamente para garantir seu cumprimento.
A Rock
World mantém equipes internas e externas de saúde e segurança do trabalho
dedicadas a fiscalizar as operações presencialmente. Durante todas as etapas do
evento (montagem, realização e desmontagem), realizamos rondas diárias para
assegurar que nossos fornecedores estejam cumprindo as normas estabelecidas.
Além disso, contamos com uma consultoria externa especializada em direitos
humanos para realizar auditorias (devida diligência) em nossa cadeia de
fornecedores.
Importante
destacar que além dos itens acima, a Rock World também adota outros protocolos
junto as empresas terceirizadas e seus subcontratados, superando em muito as
medidas de devida diligência, compliance e conformidade trabalhista para além
dos pontos abordados pelo MPT no
processo.
Ao
longo de sua trajetória, o Rock in Rio consolidou-se como um dos maiores
festivais de música e entretenimento do mundo, tendo gerado centenas de
milhares de empregos diretos e indiretos ao longo de suas edições e contribuído
significativamente para a economia da cidade do Rio de Janeiro. Apenas na
última edição do Rock in Rio de 2024, foram gerados mais de 32 mil postos de
trabalho. envolvidos em sua realização, mobilizando centenas de fornecedores,
projetos de marcas e profissionais de diversas áreas. A Rock World informa que
já vinha mantendo diálogo institucional com o MPT com o objetivo de construir
soluções e aprimorar protocolos, e que seguirá colaborando com as autoridades e
defendendo, nas instâncias cabíveis, que a responsabilidade por eventuais
irregularidades seja corretamente atribuída, ao mesmo tempo em que reafirma seu
compromisso histórico com o respeito aos direitos dos trabalhadores e com a
realização de eventos que gerem impacto positivo para a sociedade.
Fonte:
Reporter Brasil

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