Gustavo
Tapioca: Gaza, Irã, Cuba e Brasil - a normalização da barbárie
Há
momentos na história em que a humanidade é obrigada a olhar para si mesma e
reconhecer que algo fundamental começou a se romper. Gaza tornou-se um desses
momentos.
Não
apenas pela devastação material ou pelo sofrimento humano que ali se acumula,
mas porque o que acontece naquele território revela algo mais profundo: uma
transformação inquietante na forma como o mundo reage à violência, à guerra e à
destruição de vidas humanas.
Mas
Gaza não está sozinha nesse espelho perturbador do nosso tempo. O endurecimento
do embargo que há mais de seis décadas pesa sobre Cuba, o assassinato de
crianças iranianas soterradas por mísseis e a crescente militarização no
entorno do Brasil revelam um fenômeno mais amplo: a progressiva normalização da
barbárie na política internacional.
Para o
filósofo Vladimir Safatle, Gaza tornou-se o ponto de partida do pensamento
político de nossa época.
Safatle
sintetiza essa percepção com uma formulação contundente:
“Na
verdade, o que faz de Gaza esse ponto de partida do pensamento de nossa época é
a conjunção entre quatro processos: repetição, dessensibilização,
des-historização e vazio legal.”
Essa
síntese ajuda a compreender por que Gaza deixou de ser apenas um território
devastado pela guerra. Ela se tornou um espelho do funcionamento político do
mundo contemporâneo.
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A repetição da violência
O
primeiro elemento destacado por Safatle é a repetição.
Gaza
tornou-se o cenário de ciclos sucessivos de destruição que se repetem ao longo
de décadas. Bombardeios, destruição de infraestrutura civil, deslocamentos
massivos de população e crises humanitárias voltam a ocorrer em intervalos cada
vez menores.
Quando
a violência se repete continuamente, ela deixa de ser percebida como ruptura
extraordinária e passa a ser assimilada como parte do funcionamento normal do
conflito.
Quando
massacres se repetem por tempo suficiente, a barbárie deixa de causar espanto —
e começa a ser tratada como parte da ordem do mundo.
É assim
que a violência deixa de ser exceção e começa a operar como método.
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A dessensibilização moral
O
segundo processo apontado por Safatle é a dessensibilização.
A
repetição constante da violência produz uma erosão progressiva da capacidade
coletiva de indignação.
Imagens
de cidades devastadas, hospitais destruídos e crianças mortas passam a circular
diariamente no fluxo informativo global. Com o tempo, essa exposição contínua
gera um efeito paradoxal: em vez de provocar mobilização moral crescente,
muitas vezes produz anestesia.
O
horror transforma-se em paisagem informativa.
Essa
dessensibilização não se limita a Gaza.
Ela
aparece também em outros episódios recentes da política internacional.
O
assassinato de cerca de 180 crianças iranianas entre sete e doze anos,
soterradas por bombardeios no contexto das tensões envolvendo o Irã, produziu
uma reação internacional incomparavelmente menor do que tragédias semelhantes
em outras partes do mundo.
O mesmo
fenômeno pode ser observado na política de sanções que há mais de seis décadas
pesa sobre Cuba. O embargo imposto pelos Estados Unidos — endurecido em
diferentes momentos, inclusive durante o governo de Donald Trump — continua a
produzir impactos profundos sobre a economia e o cotidiano da população
cubana.
A
duração extrema desse bloqueio criou um efeito perverso: o sofrimento
prolongado de um país inteiro deixou de provocar escândalo internacional.
Quando
a violência dura tempo suficiente, ela passa a ser tratada como parte natural
da paisagem política.
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A des-historização do conflito
O
terceiro elemento identificado por Safatle é a des-historização. Grande parte
das narrativas dominantes trata Gaza como um episódio isolado, desconectado de
sua história.
Apagam-se
décadas de ocupação, bloqueios econômicos, deslocamentos populacionais e ciclos
sucessivos de violência que moldaram a realidade atual.
Ao
retirar o conflito de seu contexto histórico, cria-se a impressão de que a
violência surge de forma repentina.
A
história desaparece — e com ela desaparece também a compreensão das estruturas
políticas que tornaram possível o cenário atual.
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O vazio legal
O
quarto processo apontado por Safatle é o vazio legal.
Gaza
tornou-se um espaço onde os limites do direito internacional parecem perder
eficácia prática.
Bombardeios
contra áreas densamente povoadas, destruição de infraestruturas civis e crises
humanitárias prolongadas ocorrem diante de um sistema internacional incapaz de
impor restrições efetivas.
Quando
o direito deixa de funcionar como limite real ao exercício da violência,
instala-se um espaço de exceção.
Nesse
espaço, decisões militares passam a operar acima das estruturas jurídicas que
deveriam proteger populações civis.
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América Latina: o novo cenário da disputa
A
América Latina volta a ocupar posição central na disputa geopolítica
global.
Nas
últimas duas décadas, a região passou por transformações profundas com a
expansão da presença econômica da China e o surgimento de novas formas de
cooperação entre países do Sul Global.
Hoje,
Pequim tornou-se um dos principais parceiros comerciais de vários países
latino-americanos, incluindo o Brasil.
Essa
mudança reconfigura o equilíbrio geopolítico hemisférico.
Para
Washington, a crescente presença chinesa no continente representa um desafio
estratégico direto à sua tradicional primazia regional.
É nesse
contexto que se intensificam pressões políticas, disputas narrativas e
iniciativas de segurança que buscam reafirmar a influência norte-americana na
região.
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Brasil: a nova fronteira da disputa estratégica
Nesse
cenário, o Brasil começa a aparecer de forma cada vez mais clara no tabuleiro
geopolítico continental.
Reportagem
do jornalista Jamil Chade revelou que um acordo militar firmado entre
o governo de Donald Trump e o Paraguai prevê amplo acesso de tropas
norte-americanas ao território paraguaio — incluindo autorização para portar
armas, transportar equipamentos militares e operar sistemas próprios de
comunicação.
O
tratado, aprovado pelo Senado paraguaio, permitiria a presença permanente de
militares dos Estados Unidos em uma região que faz fronteira direta com o
Brasil.
Especialistas
ouvidos na reportagem apontam que essa movimentação faz parte de uma estratégia
mais ampla de expansão da presença militar norte-americana na América do
Sul.
Ao
mesmo tempo, Washington avalia classificar organizações criminosas brasileiras
como o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas — medida que poderia
abrir caminho para operações extraterritoriais sob a justificativa de combate
ao terrorismo.
Em um
contexto de crescente disputa geopolítica global, o Brasil deixa de ser apenas
um ator regional e passa a ocupar posição sensível na reorganização estratégica
do continente.
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O século XXI diante do espelho
Talvez
seja justamente essa pergunta que retorna agora com força diante de Gaza.
O
massacre que se abateu sobre Gaza, o recrudescimento do embargo contra Cuba, o
assassinato de crianças iranianas soterradas por mísseis e a crescente
militarização no entorno do Brasil já começam a entrar no terreno perigoso do
esquecimento — e, pior ainda, da normalidade.
Esses
episódios parecem distintos, espalhados por regiões diferentes do mundo.
Mas
todos revelam um mesmo processo: a repetição da violência, a dessensibilização
moral, o apagamento da história e o enfraquecimento das estruturas jurídicas
internacionais que deveriam limitar o exercício da força.
Foi
isso que Primo Levi tentou compreender ao refletir sobre os campos de
extermínio do século XX em É Isto um Homem?.
E é
isso que Vladimir Safatle nos obriga a confrontar ao olhar para Gaza.
O
verdadeiro perigo do nosso tempo não é apenas a existência da barbárie — é o
momento em que ela começa a ser aceita como parte da ordem do mundo.
Talvez
seja esse o ponto em que nos encontramos agora.
O
erro estratégico de Washington: mais uma guerra que fortalece Rússia e China.
Por Maria Luiza Falcão
A nova
escalada entre Estados Unidos e Irã, iniciada com os bombardeios americanos no
final de fevereiro de 2026, foi apresentada pela Casa Branca como uma ação
necessária para conter o programa nuclear iraniano e restaurar a dissuasão no
Oriente Médio. No entanto, quando se observa o tabuleiro internacional mais
amplo, o conflito revela uma ironia geopolítica difícil de ignorar.
Ao
abrir mais um front militar, Washington parece fortalecer exatamente os dois
países que identifica como seus principais rivais estratégicos: Rússia e China.
A
contradição não é circunstancial. Ela reflete algo mais profundo: a crescente
dispersão estratégica da política externa americana em um sistema internacional
que deixou de ser unipolar. Donald Trump parece totalmente desatinado e mais
irresponsável.
Mais
uma vez, os Estados Unidos se envolvem em um conflito regional enquanto o eixo
central da disputa global se desloca para outro terreno — tecnologia, indústria
e poder econômico.
Outro
elemento essencial dessa equação estratégica é o papel de Israel. Embora os
bombardeios tenham sido executados pelos Estados Unidos, a escalada contra o
Irã está profundamente conectada às preocupações de segurança do Estado
israelense. Para Israel, o avanço do programa nuclear iraniano e a consolidação
do chamado ‘eixo da resistência’ — que inclui Hezbollah no Líbano, milícias
xiitas no Iraque e os houthis no Iêmen — representam ameaças
existenciais.
Nos
últimos anos, Tel Aviv tem pressionado Washington a adotar uma postura mais
dura contra Teerã e tem conduzido operações clandestinas e ataques seletivos
contra alvos iranianos na região. Nesse sentido, a ofensiva americana não pode
ser compreendida apenas como decisão unilateral de Washington: ela também
reflete a lógica de segurança de Israel e o peso político da aliança
estratégica entre os dois países na formulação da política externa americana
para o Oriente Médio.”
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O retorno de uma velha armadilha geopolítica
Desde a
década de 1970, o Oriente Médio ocupa posição central na estratégia de
segurança dos Estados Unidos.
O
choque do petróleo de 1973 e a revolução iraniana de 1979 transformaram o Golfo
Pérsico em um eixo crítico da política externa americana. Foi nesse contexto
que surgiu a chamada Doutrina Carter, segundo a qual qualquer tentativa de
controlar a região seria considerada um ataque direto aos interesses vitais dos
Estados Unidos.
Durante
décadas, essa lógica orientou a presença militar americana no Oriente Médio.
Bases militares, alianças estratégicas e intervenções diretas tornaram-se parte
permanente da arquitetura de poder construída por Washington.
No
entanto, o mundo mudou profundamente desde então.
Graças
à expansão da produção doméstica de energia, os Estados Unidos hoje são muito
menos dependentes do petróleo do Oriente Médio do que eram no passado. Em
teoria, isso deveria reduzir a centralidade estratégica da região.
Mas a
realidade geopolítica parece seguir um roteiro diferente.
Apesar
de repetidas declarações sobre a necessidade de concentrar sua estratégia na
competição com a China e seu arqui-inimigo a Rússia de Putin, Washington
continua sendo atraído de volta para o mesmo teatro de conflitos que domina sua
política externa há mais de meio século.
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A dispersão estratégica de Washington
O
problema não é apenas regional. Ele é estrutural.
Os
Estados Unidos enfrentam hoje três grandes frentes de competição estratégica
simultâneas.
A
primeira é a guerra na Ucrânia, que envolve um confronto indireto com a Rússia
e mobiliza enormes recursos militares e financeiros.
A
segunda é a crescente rivalidade tecnológica e econômica com a China,
considerada por grande parte do establishment americano como o principal
desafio estratégico do século XXI.
A
terceira é a instabilidade permanente do Oriente Médio, onde crises recorrentes
continuam a atrair intervenções externas.
A
história das grandes potências mostra que poucas conseguiram sustentar
simultaneamente três teatros estratégicos sem sofrer desgaste significativo.
Impérios
raramente entram em declínio apenas por derrotas militares. Mais
frequentemente, enfraquecem quando se dispersam em múltiplos conflitos enquanto
a estrutura do poder mundial se transforma em outro lugar.
A
guerra atual com o Irã pode ser mais um episódio dessa dinâmica.
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O choque do petróleo e o benefício imediato para a Rússia
O
primeiro impacto da guerra já apareceu nos mercados globais.
A
tensão ganha dimensão ainda maior quando se considera a posição geográfica do
Irã. O país controla a margem norte do Estreito de Ormuz, uma das passagens
marítimas mais estratégicas do planeta. Cerca de um quinto de todo o petróleo
comercializado no mundo atravessa esse estreito, que conecta o Golfo Pérsico ao
Golfo de Omã. Qualquer ameaça de bloqueio ou interrupção do tráfego marítimo
nessa região provoca imediatamente choques nos mercados energéticos globais.
Isso ajuda a explicar por que cada nova escalada militar envolvendo o Irã
produz impactos econômicos que vão muito além do Oriente Médio.
Em
poucos dias, o barril ultrapassou a marca de 100 dólares por barril de petróleo
Brent, valorizando o dólar e as bolsas mundo afora. A incerteza aumenta. A
inflação deve acelerar no mundo.
Do
ponto de vista geopolítico, esse movimento tem consequências diretas.
A
Rússia continua sendo um dos maiores exportadores de energia do mundo. Cada
aumento no preço internacional do petróleo amplia suas receitas externas e
fortalece sua capacidade financeira.
Assim,
enquanto Washington mobiliza recursos militares para bombardear o Irã, a alta
do petróleo acaba reforçando a posição econômica de Moscou.
A
ironia estratégica é evidente.
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Repercussão no Brasil
Essa
instabilidade energética global não passa ao largo do Brasil. Embora o país
seja um grande produtor de petróleo, a economia brasileira continua sensível às
oscilações do mercado internacional de energia e ao aumento dos custos de
transporte marítimo. Um eventual agravamento das tensões no Estreito de Ormuz
poderia elevar significativamente os preços dos combustíveis, pressionar os
custos logísticos e afetar cadeias produtivas estratégicas.
O
impacto também se faria sentir no agronegócio, altamente dependente de
fertilizantes importados, muitos deles provenientes do Oriente Médio ou
transportados por rotas ligadas ao Golfo Pérsico.
Em
outras palavras, conflitos aparentemente distantes do território brasileiro
acabam reverberando diretamente sobre preços, produção e inflação — lembrando
que, em um sistema econômico globalizado, as ondas de choque geopolíticas
raramente respeitam fronteiras.
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O benefício estratégico para a China
A China
também colhe dividendos desse tipo de conflito — ainda que de forma menos
imediata do que a Rússia.
Desde o
governo Obama, Washington afirma que sua prioridade estratégica é o
Indo-Pacífico e a contenção da ascensão chinesa. No entanto, cada nova crise
militar no Oriente Médio absorve recursos militares, energia diplomática e
atenção política da Casa Branca.
Em
outras palavras, cada guerra no Golfo Pérsico representa uma distração
estratégica para os Estados Unidos.
Enquanto
Washington mobiliza navios, sistemas antimísseis e forças aéreas para mais um
conflito regional, Pequim segue concentrada em outra frente de competição: a
consolidação de sua liderança industrial e tecnológica.
Nas
últimas duas décadas, a China tornou-se líder global em várias cadeias
produtivas decisivas — veículos elétricos, baterias de íon-lítio, drones,
painéis solares e diversos setores da nova economia energética.
Ao
mesmo tempo, o país amplia rapidamente seus investimentos em pesquisa
científica e desenvolvimento tecnológico.
Em
termos estratégicos, tempo é poder.
E cada
momento em que os Estados Unidos se envolvem em guerras periféricas oferece à
China mais espaço para consolidar sua posição como principal polo emergente da
economia mundial.
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O custo militar invisível
Há
também um segundo efeito, menos visível, mas igualmente importante.
Guerras
modernas consomem enormes quantidades de armamentos sofisticados: mísseis
guiados, sistemas de defesa aérea, munições de precisão e equipamentos
eletrônicos complexos.
Grande
parte desse arsenal depende de cadeias industriais altamente especializadas e
de reposição relativamente lenta. Cada operação militar consome estoques
estratégicos que podem levar anos para serem plenamente repostos.
Esse
aspecto torna-se ainda mais relevante em um momento em que os Estados Unidos
enfrentam desafios militares simultâneos em diferentes regiões.
Sistemas
de defesa aérea utilizados no Oriente Médio são os mesmos necessários para
apoiar a Ucrânia ou sustentar a dissuasão no Indo-Pacífico.
Assim,
cada nova escalada militar em uma região tem repercussões indiretas em outras.
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A sucessão no Irã e o fracasso da estratégia de “decapitação”
A
aposta implícita em muitas estratégias de mudança de regime é conhecida:
eliminar a liderança política produziria desorganização institucional capaz de
enfraquecer o sistema.
Foi
essa lógica que orientou o assassinato do aiatolá Ali Khamenei durante os
ataques americanos e israelenses.
Mas, no
caso iraniano, os acontecimentos parecem apontar na direção oposta.
O
sistema político iraniano reorganizou rapidamente sua estrutura de poder e
designou como novo líder supremo Mojtaba Khamenei, filho do líder assassinado.
A
sucessão ocorreu em poucos dias, demonstrando que a arquitetura institucional
da República Islâmica possui mecanismos de continuidade mais sólidos do que
frequentemente se imagina nas análises externas.
Mais do
que isso, Mojtaba Khamenei é associado aos setores mais conservadores do regime
e mantém vínculos estreitos com a Guarda Revolucionária.
Assim,
a tentativa de enfraquecer o regime pode acabar produzindo exatamente o
contrário: um sistema mais fechado, mais militarizado e menos inclinado a
qualquer acomodação diplomática.
Mojtaba
Khamenei já declarou que o estreito de Ormuz continuará fechado, como
instrumento de pressão para acabar com a guerra e exige o fechamento de bases
militares estadunidenses na região.
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Um mundo em transição
A
guerra com o Irã ocorre em um momento particularmente delicado do sistema
internacional.
O mundo
que emergiu após o fim da Guerra Fria — marcado pela supremacia incontestável
dos Estados Unidos — já não existe.
A ordem
internacional atravessa uma fase de transformação marcada pelo surgimento de
múltiplos centros de poder, rivalidades tecnológicas e rearranjos econômicos
profundos.
Nesse
ambiente, decisões estratégicas podem produzir consequências muito além de seus
objetivos imediatos.
Abrir
mais um front militar pode parecer, no curto prazo, uma demonstração de força.
Mas, no
longo prazo, pode significar exatamente o contrário.
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A pergunta que permanece
Ao
iniciar mais uma guerra em um sistema internacional já tensionado por
rivalidades entre grandes potências, Washington pode estar acelerando
justamente aquilo que procura evitar: a erosão gradual da ordem internacional
construída após 1945.
A
história das grandes potências mostra que impérios raramente entram em declínio
apenas por derrotas militares. Mais frequentemente, enfraquecem quando se
dispersam em conflitos periféricos enquanto a estrutura do poder mundial se
transforma em outro lugar.
Se esse
for o caso, a guerra atual poderá ser lembrada não como um momento de afirmação
estratégica dos Estados Unidos, mas como mais um episódio de uma transição
histórica já em curso.
E,
nesse cenário, a pergunta inicial retorna com ainda mais força: quem realmente
ganha quando uma superpotência como os Estados Unidos decide entrar em mais uma
guerra?
Fonte:
Brasil 247

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