Banco
Master: As táticas da Lava Jato revisitadas
A cena
política brasileira mais uma vez está sendo dominada por um noticiário que
mistura elementos policiais, vazamentos, seletividade e distorções
jornalísticas, ilações e uma contaminação da imagem das instituições que vão
ajudando a dar forma a um clima de instabilidade quase crônica, onde o
espetáculo e um suposto tribunal da opinião pública sufocam o debate
democrático. Isso a poucos meses de um dos processos eleitorais mais decisivos
do período recente.
O caso
do Banco Master, que tem pautado o noticiário há alguns meses, traz a história
do crescimento vertiginoso de uma instituição financeira bilionária e sua
queda, sob diversas suspeitas de forte lobby político em Brasília e operações
financeiras controversas envolvendo recursos públicos, com destaque para a
negociação de precatórios e a captação agressiva junto a institutos de
previdência municipais e estaduais. Um possível esquema de tráfico de
influência e os indícios de gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro por meio
de fundos de investimento ligados ao banco fizeram com que o banqueiro Daniel
Vorcaro fosse trazido aos holofotes.
Contudo,
já tivemos episódios ruidosos relacionando finanças e páginas policiais, com
valores mais vultosos, inclusive, que não ganharam o mesmo destaque. Em agosto
do ano passado, a Operação Carbono Oculto, a maior deflagrada contra o crime
organizado no país, apontou para esquemas de fraudes e lavagem de dinheiro
envolvendo o PCC e ocultação e blindagem de patrimônio por meio de fintechs e
fundos de investimentos. A Receita Federal apontou à época um total de R$ 30
bilhões em fundos possivelmente controlados pela facção.
Outro
caso foi o colapso das Americanas, tido como a maior fraude corporativa da
história brasileira. A diretoria da companhia admitiu que os resultados da
empresa tinham sido inflados artificialmente em cerca de R$ 25,3 bilhões ao
longo de mais de uma década. Quando entrou em recuperação judicial em janeiro
de 2023, o total da dívida declarada com bancos, fornecedores e debenturistas
chegou a aproximadamente R$ 43 bilhões. Relatórios de administradores judiciais
apontaram que mais de dez mil trabalhadores perderam seus empregos, resultando
ainda no desaparecimento de outras dezenas de milhares de postos de trabalho
indiretos. Um impacto econômico e social gigantesco.
Contudo,
os ecos da Carbono Oculto e das Americanas, embora ainda tenham procedimentos
processuais criminais e cíveis em andamento, parecem muito distantes. O
escândalo da varejista contou inclusive com uma CPI voltada para ela, que pouco
repercutiu e que muitos nem sabem que existiu. O que explica uma diferença tão
grande de tratamento?
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Quando a seleção vira distorção
Jornalismo
é seleção e não um reflexo ou retrato da realidade, como costumam tentar vender
sobre si mesmos os veículos da mídia corporativa em suas campanhas de
propaganda. E, diante de inúmeros acontecimentos que podem virar pauta, essa
seletividade é necessária para o dia a dia das redações. No entanto, a escolha
do que mostrar (ou esconder) causa efeitos diretos na opinião pública e, em
muitas ocasiões, no próprio arranjo democrático de um país.
Na
década de 1970, a teoria da Agenda-Setting (Agendamento), formulada
originalmente por Maxwell McCombs e Donald Shaw, pontuava que “a mídia não nos
diz como pensar, mas sobre o que pensar”. Mesmo com as mudanças tecnológicas
velozes pelas quais passa o campo da comunicação, a premissa continua sendo
importante para analisar o comportamento de parte do ecossistema midiático,
ainda mais em um país no qual continua existindo uma concentração brutal de
veículos nas mãos de poucos, com a propriedade cruzada (proibida em muitos
países) permitindo um poder consolidado por meio de concessões públicas em
linguagens distintas e também pela influência nas plataformas de produção de
conteúdo.
Nesse
sentido, os meios convencionais são especialmente vantajosos, por exemplo, para
que sejam veiculados vazamentos de informações confidenciais, como os que têm
abastecido o noticiário em torno do caso do Banco Master. Ter a cobertura em um
veículo desses garante a repercussão quase imediata nos outros do mesmo grupo,
assegurando ainda a replicação em outros canais da mídia convencional que
reconhecem de forma mais imediata aquilo que é produzido por seus “co-irmãos”
do que aquilo que vem, por exemplo, de influenciadores ou produtores de
conteúdo da mídia digital.
Vazamentos
não são novidades na política brasileira. Foram utilizados em episódios
centrais como o da CPI mista que resultou no impeachment do então presidente
Fernando Collor, chegando ao auge da instrumentalização durante a fase áurea da
Operação Lava Jato, quando se tornou parte central do modus operandi de parte
do Ministério Público e do juiz responsável para constranger autoridades e
mobilizar parte da sociedade em prol de interesses pouco nobres. Ironicamente,
quem pouco prezava pelo sigilo se tornou vítima do mesmo tipo de expediente por
meio de conversas realizadas no aplicativo Telegram, vazadas e publicadas em
investigação jornalística. Mas, no caso do Banco Master, há diferenças.
Boa
parte do que abasteceu os veículos de comunicação nos últimos dias é fruto de
um material obtido por meio da CPMI do INSS. A justificativa para que o
colegiado, que investiga as fraudes cometidas por meio de descontos não
autorizados em pensões e aposentadorias entre 2019 e 2024, conseguir a
autorização para ter o acesso ao material era de que o Banco Master prestava
serviços de empréstimo consignado e haveria suspeitas de fraude nessas
operações da instituição. Foi o suficiente para se obter uma autorização do
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator do caso na Corte, André
Mendonça.
No
envio do material, seria necessário haver uma triagem a respeito do que seria
ou não relevante para a investigação. O que não serve para a instrução do
inquérito, aliás, deveria, por lei, ser descartado e incinerado. Ao que parece,
a triagem não foi feita. As mensagens reveladas mostram conversas íntimas, por
exemplo, entre Daniel Vorcaro e sua namorada, expondo uma pessoa que sequer é
investigada. E também apontam para um suposto diálogo entre o ministro do STF,
Alexandre de Moraes, e o banqueiro.
Ao
contestar a conversa que havia sido noticiada, Moraes afirmou que uma análise
técnica teria constatado “que as mensagens de visualização única enviadas por
ele [Daniel Vorcaro] no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos
do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos”. O jornal O Globo
respondeu bancando sua informação e revelando, nas entrelinhas, que sua fonte
naquele caso específico não seria a mesma dos outros veículos. “Diferentemente
do material enviado à CPMI do INSS, o material a que o Globo teve acesso não é
fruto de comparação entre os horários dos textos que constam em blocos de nota
de Vorcaro e as mensagens enviadas por ele”, dizia a nota do veículo. Ou seja,
haveria mais de uma fonte vazando dados sigilosos.
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Do sigilo à manchete: quem ganha com isso
Divulgar
informações sigilosas na maioria dos contextos previstos em lei pode constituir
crime para quem o faz, mas o jornalista divulgar ou tratar esse material,
segundo o ordenamento jurídico brasileiro, não é. O que obviamente não dispensa
a quem trata e trabalha com os dados vazados a obrigação de checagem sob
diversos ângulos, inclusive eventuais implicações éticas. Afinal, é relevante e
de interesse público saber se há ou não relações impróprias de um ministro do
Supremo com um banqueiro investigado.
O
problema é que isso poderia e deveria ser o ponto de partida de uma
investigação jornalística e não o fim em si. As mensagens, mesmo que
verdadeiras, não demonstrariam nenhuma atividade delituosa, até porque sequer
se tem conhecimento das supostas respostas do magistrado e tampouco do assunto
sobre o qual se conversava, já que as frases reveladas de Vorcaro são
genéricas. E a partir daí começam inúmeras ilações que poluem o noticiário e
contaminam o ambiente político. Uma questão central também não é respondida: o
que teria feito ou tentado fazer Moraes em favor do banqueiro? Isso sim poderia
constituir infração e possíveis faltas graves. Contudo, talvez o importante não
seja explicar, mas confundir, como diria um antigo comunicador.
Mais do
que revelar, as mensagens e o tipo de cobertura que se dá a elas podem desviar
o olhar de alguns pontos fundamentais que um caso desses traria. Primeiro,
sobre a atuação de quem realmente agiu em favor de Vorcaro e aparece nos
contatos do banqueiro. O senador e presidente nacional do PP, Ciro Nogueira, é
apresentado nas mensagens do ex-dono do Master como um dos “grandes amigos de
vida”. O parlamentar apresentou uma emenda, durante o debate sobre Proposta de
Emenda à Constituição (PEC) relativa à autonomia do Banco Central, que
pretendia aumentar a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250
mil para R$ 1 milhão, uma medida que foi celebrada pelo banqueiro, embora não
tenha seguido adiante.
Em
setembro de 2025, Ciro foi um dos principais articuladores da aprovação de um
requerimento de urgência para um projeto de lei (PL) que visava conceder ao
Congresso Nacional o poder de demitir diretores e o presidente do Banco Central
(BC), prerrogativa hoje exclusiva do presidente da República, e possível apenas
diante de circunstâncias muito específicas como condenações criminais ou
desempenho insuficiente comprovado. Ali, se determinava que a demissão poderia
ocorrer quando a “condução das atividades do Banco Central for incompatível com
os interesses nacionais”, algo muito vago e impreciso. A articulação se deu em
meio à análise final da operação de compra do Master pelo BRB (Banco de
Brasília) por parte do BC, que não autorizou a transação, e foi vista como
instrumento de pressão sobre a diretoria do órgão.
Mesmo
diante das relações estreitas entre o senador e o banqueiro, isso não significa
que o parlamentar tenha praticado algum crime. Mostra, sim, uma atuação mais
semelhante à de um lobista e um investimento de energia grande em favor de um
bilionário, o que já seria grave dentro da seara do debate político e do
próprio julgamento que o eleitor venha a ter sobre a conduta do parlamentar. Em
se tratando de um ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro e de um dos
comandantes da maior federação partidária do país, dona do maior fundo entre as
legendas, merecia uma cobertura e um questionamento muito maior por parte da
mídia.
O mesmo
vale para o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), que se
esforçou de maneiras distintas para efetivar a compra do Master por parte do
BRB em um acordo estimado em R$ 2 bilhões. Administrações estaduais e
municipais, por meio de fundos de previdência, negociaram carteiras de
investimento da instituição de Vorcaro. A RioPrevidência, por exemplo, que paga
as aposentadorias e pensões de 235 mil servidores fluminenses, investiu R$ 970
milhões em Letras Financeiras (Lfs) da instituição de Vorcaro, sem cobertura do
FGC.
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E o BC de Campos Neto?
Também
é de se estranhar a quase ausência na cobertura, com a elaboração de matérias
que nunca ganham destaque, da atuação do BC durante o imbróglio. Segundo
investigações da Polícia Federal, o ex-diretor de Fiscalização do órgão, Paulo
Sergio Neves de Souza, nomeado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro na gestão de
Roberto Campos Neto, e o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária
(Desup), Belline Santana, receberam pagamentos de Vorcaro para atuar “de modo
informal e reiterado em favor dos interesses da instituição financeira”. Em
meio aos serviços supostamente prestados ao banqueiro, teriam oferecido
orientações sobre processos administrativos envolvendo o Master e tentado
influenciar na análise de processos administrativos. Foi Souza quem assinou e recomendou
para a cúpula do BC a autorização da transferência do Banco Máxima, que viria a
se tornar Master, para Daniel Vorcaro em 2019.
O
ex-diretor da gestão de Campos Neto teria agido ainda em outra direção, segundo
a jornalista Daniela Lima, estabelecendo uma ligação com o escândalo do INSS.
Em uma carta apreendida pela Polícia Federal, Vorcaro reclama das exigências
feitas pelo Banco Central para que sua instituição financeira oferecesse
crédito consignado a aposentados, o que o impedia, até ali, de realizar a
operação. Souza trabalhou para reverter a inabilitação do banco, à época ainda
com o nome de Máxima, determinada em 2018, avalizando a habilitação em outubro
de 2019. Em 2020, o Master firmou convênio com o INSS para operar o crédito
consignado.
Além do
possível envolvimento criminoso de dois funcionários, a própria conduta do
Banco Central por parte de Campos Neto tem sido questionada. O jornalista Luis
Nassif aponta para o que considera omissão estratégica e conivência
regulatória. “Documentos do próprio BC indicam que, desde 2019, a autarquia
detectou um ‘descompasso’ nas provisões e práticas de gestão do Master. Na
gestão de Campos Neto, o BC teria enviado ao menos 18 ofícios pedindo ajustes
que nunca foram realizados, permitindo que o banco continuasse operando”, diz
ele, em uma de suas análises.
As
condutas de alguns dos personagens acima são públicas e evidentes, e não fruto
de suposições. Há fatos que merecem ser investigados e outros que devem ser
questionados em meio a um debate sobre a própria eficácia institucional de quem
deveria prever e evitar um caso como o do Banco Master. Por exemplo, o Banco
Central, autônomo, de fato teve uma melhora em seu desempenho em termos de
regulação e fiscalização? É necessário debater outros marcos e medidas diante
de um cenário no qual o mundo das finanças parece cada vez mais interconectado
e pouco transparente? Tais questões desaparecem quando o vazamento substitui a
apuração, e a insinuação substitui a prova. Assim, tudo se fulaniza, reputações
viram moeda, instituições viram alvo e o país fica refém de uma agenda que
oscila entre o escândalo do dia e o esquecimento programado.
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Os impactos no processo eleitoral
Uma
espécie de poluição vai tomando conta da cobertura, obscurecendo a visão da
grande maioria das pessoas que não acompanha com afinco a produção noticiosa,
até porque boa parte delas está sujeita a jornadas de trabalho massacrantes e
inserida em bolhas (des)informativas nas redes sociais. Não é a fidelidade da
informação ou a análise da notícia o ativo principal, mas sim o que um locutor
esportivo chamaria de criação de um “clima terrível”.
Nessa
barafunda, surgem novos elementos que reforçam a tese de que estaria em curso
uma nova “Lava Jato”. A quebra de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, o
Lulinha, autorizada por Mendonça no âmbito da CPMI do INSS, ilustra mecanismos
similares àqueles utilizados pela República de Curitiba com a cumplicidade de
setores da mídia. Os dados que deveriam servir apenas para fins de investigação
se tornaram públicos, mostrando uma movimentação de R$ 19,5 milhões entre 2022
e 2026, em 1,5 mil transações bancárias. Os advogados do filho do presidente
apontam que as fontes de renda são legais e legítimas, envolvem atividades
empresariais há muito conhecidas, além de outras fontes como resgates de
investimentos e administração da herança da mãe. Mesmo assim, a movimentação,
que sequer significa que esse montante se tornou patrimônio de Fábio Luís, já
que as transações não refletem isso, ganharam minutos em reportagem no Jornal
Nacional, com direito a infográfico.
Mesmo
não havendo transferência ou depósito do chamado “Careca do INSS”, Antônio
Carlos Camilo Antunes, lobista apontado pela Polícia Federal como um dos
operadores centrais de um esquema de fraudes em aposentadorias, o que motivou a
quebra de sigilo, o nome de Lulinha continuou destacado nos veículos de mídia.
A notícia de que havia integrantes da Polícia Federal que queriam pedir a
prisão dele reflete diversos aspectos da estratégia em curso. Primeiro, sequer
se fala a respeito do que poderia fundamentar um pedido de prisão preventiva,
simplesmente a informação é aventada. Não é questionado também se quem defende
a medida tem poderes efetivos para formulá-la de fato ou se usa a imprensa como
forma de pressão interna ou externa. O objetivo é normalizar uma ideia (a
prisão), no mesmo sentido da condução coercitiva de Lula em 2016.
Com
isso, tudo se mistura e colunistas e analistas da mídia corporativa tentam
vender o peixe de que o escândalo financeiro “envolve a direita e a esquerda”,
ignorando a proximidade pública, confirmada nas mensagens do banqueiro, entre
ele e os articuladores que atuaram ou tentaram agir a seu favor dentro do que
ficou conhecido como “bancada do Master” no Parlamento. Confunde-se, de forma
deliberada, reuniões institucionais com agenda oficial e encontros múltiplos e
informais em residências ou outros locais, por exemplo. Pouco importa nessa
versão também que o cunhado de Vorcaro, o pastor da Igreja Lagoinha Fabiano
Zettel, preso após ser alvo da última fase da operação Compliance Zero, tenha
sido o maior doador das campanhas de Jair Bolsonaro (PL) e Tarcísio de Freitas
(Republicanos) nas eleições de 2022, com R$ 5 milhões repassados.
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O jogo do bolsonarismo
É nesse
ambiente em que tudo parece estar dominado por interesses escusos que se
consolida a antipolítica. A Lava Jato teve impacto não apenas nas eleições de
2018, onde predominou o clima da antipolítica, mas foi decisiva para a própria
construção anterior de figuras políticas que chegaram ao Planalto e ao
Parlamento naquele ano.
Tal
clima joga contra justamente quem está no poder e tende a beneficiar quem busca
canalizar o sentimento de “contra tudo o que está aí”. Flávio Bolsonaro vai
tentar captar esse anseio, se equilibrando naquilo que parte da Faria Lima já
vê como uma espécie de “Tarcísio de Freitas adaptado”, onde a retórica e o
sobrenome garantem o apoio de uma base radicalizada, com um verniz de moderação
e interlocução mais eficiente com o setor econômico-financeiro e com o segmento
midiático que chegou até a se alinhar, em parte, à defesa do frágil arranjo
democrático brasileiro quando ameaçado pelo golpismo, mas que hoje já reconhece
nesse mesmo grupo político um possível aliado para manter e cacifar ainda mais
seu poder político e econômico.
Nesse
sentido, o acirramento contra o STF teria múltiplas funções. Constrangeria a
Corte para que não pudesse vetar a tão sonhada anistia aos golpistas em um
eventual retorno do governo de extrema direita e ainda serve como uma bandeira
unificadora para impulsionar um dos principais objetivos do bolsonarismo, a
eleição da maioria do Senado, o que permitiria o controle do Judiciário por
meio de constantes ameaças de impeachment de ministros. Como se vê pelo exemplo
de outros países onde extremistas chegaram ao poder, trata-se da concretização
de um sonho dourado.
O
agendamento do tema da corrupção feito de forma difusa e confusa joga contra o
governo Lula naquilo que ele pretende fazer e na disputa eleitoral em si. A
discussão em torno da economia e da área social, relacionada ao dia a dia das
pessoas, é o que mais importa para o Planalto, já que nesse terreno, embora os
avanços tenham sido limitados por conta do arcabouço fiscal, a atual gestão
teria resultados mais palpáveis para apresentar quando comparados ao período do
governo Bolsonaro.
A
contaminação do ambiente político atravanca ainda a promoção e discussão de
pautas importantes para o governo e para o trabalhador em geral, como a redução
da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1, que também enfrenta atualmente
uma resistência de parte da elite econômico-financeira que encontra em
editoriais e matérias enviesadas formas de expressar o seu descontentamento.
Assim, um tema que colocava deputados e senadores em dificuldades, opondo de
forma direta interesses de financiadores de campanha e apoiadores políticos aos
dos eleitores e da maior parte da população, fica momentaneamente em segundo
plano.
Uma
contraofensiva está sendo esboçada. Nesta quarta-feira (11), foram aprovadas na
CPI do Crime Organizado no Senado a quebra de sigilo bancário, fiscal,
telefônico e telemático de Zettel no período entre 2020 e 2026, e as
convocações, de presença obrigatória, de Paulo Sérgio Neves de Souza e de
Bellini Santana, o que pode trazer a gestão de Campos Neto no Banco Central
como alvo devido a investigações e debates. Mas a estratégia da base governista
deve ir além da defesa, a proposição de pautas como a do fim da escala 6×1
devem ter andamento assim como a projeção de pautas futuras que possam engajar
e modificar a vida das pessoas, trazendo para a política a discussão daquilo
que de fato é importante. Não é tarefa trivial lutar contra o ilusionismo e os
nichos cada vez mais autocentrados de comunicação, mas, a essa altura, o campo
à esquerda/centro-esquerda e o campo progressista não podem jogar parados.
Fonte:
Por Glauco Faria, em Outras Palavras

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