Contas
no Instagram glorificam antigos oficiais nazistas
Diversas
contas na plataforma propagam publicações exaltando antigos oficiais nazistas e
omitindo crimes de guerra. Historiadores criticam conteúdo e omissão da Meta,
controladora da rede social...
Em meio
a publicações sobre viagens e estilo de vida, o Instagram também vem sendo
usado para abrigar contas com conteúdo que glorifica antigos oficiais nazistas.
Os textos que acompanham as fotos destacam o que chamam de "bravura",
"coragem" e "habilidade estratégica" dessas figuras. Já a
participação em crimes de guerra e no Holocausto não é mencionada, segundo uma
investigação da DW.
As
publicações vêm alcançando um público internacional de milhões de pessoas.
Muitos usuários comentam as fotos dos criminosos de guerra com aprovação: com
emojis de coração e aplausos. Não há nenhuma discussão crítica nessas
publicações.
E a
disseminação desse conteúdo, que é banido na Alemanha, não tem despertado ações
do conglomerado Meta que controla a plataforma Instagram.
Pesquisas
da DW comprovam que fotos com o emblema da Schutzstaffel (SS) foram publicadas
repetidamente. A SS foi o principal órgão de repressão e terror do Estado
nazista, tendo papel central nos crimes cometidos nos campos de extermínio de
Auschwitz-Birkenau, Majdanek e Treblinka. Somente em Auschwitz-Birkenau, os
nazistas assassinaram entre 1,1 a 1,5 milhão de pessoas, a maioria delas judeus
de toda a Europa, mas também poloneses, prisioneiros de guerra, opositores
políticos e outras minorias.
"Estou
chocada com essa quantidade de conteúdo nazista", diz Eva Berendsen, que
trabalha para o Centro Educacional Anne Frank, que tem como objetivo a
sensibilização para o antissemitismo e o racismo. A instituição foi formada em
memória à menina judia Anne Frank, assassinada pelos nazistas e cujo diário se
tornou um dos documentos mais conhecidos sobre os horrores do período nazista.
"O
material fotográfico é propaganda nazista que chega à internet
descontextualizada, ou seja, sem nenhuma descrição do que realmente se vê. Em
primeiro lugar, usuários jovens da plataforma são deixados completamente
sozinhas com esse conteúdo."
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Primeiro contato dos jovens com o nazismo através do Instagram?
Berendsen
vê como particularmente preocupante que muitos usuários do Instagram sejam
jovens que provavelmente ainda não foram ensinados nas salas de aula sobre
temas históricos como o nazismo e os crimes do Holocausto. "Devemos partir
do princípio de que jovens estão tendo seu primeiro contato com temas como
nazismo e Holocausto através das redes sociais", alerta.
Isso
pode ter consequências, especialmente quando imagens de soldados supostamente
heroicos são repetidamente mostradas a jovens do sexo masculino. "Essas
publicações têm o potencial de reforçar tais imagens e fantasias de
masculinidade."
Um
exemplo é uma publicação com duas fotos de um ex-soldado da infantaria da
antiga Wehrmacht, as Forças Armadas da Alemanha nazista. A postagem o mostra
como um jovem soldado de uniforme e como um senhor mais velho de terno. O texto
que acompanha a foto diz: "Um soldado de infantaria que conquistou a
cidade de Chania, em Creta, sob o comando de Otto Schury (...) Por sua bravura
em Chania, ele recebeu a Cruz de Ferro de 1ª classe!", mencionando uma
condecoração do regime.
O texto
não menciona que a conquista da ilha grega de Creta foi seguida por uma feroz
repressão contra a população civil: 300 habitantes judeus de Chania foram
deportados para campos de concentração como resultado da ocupação. Apenas
quatro teriam sobrevivido.
Outra
postagem menciona o oficial Kurt Meyer, da Waffen-SS, o braço militar da SS. A
imagem mostra um homem de uniforme – com símbolos da SS na gola do uniforme. O
texto em inglês elogia o que chama de "coragem" de Meyer: "Seus
colegas de classe brincavam dizendo que ele era duro como um tanque". O
texto não menciona que Kurt Meyer era um criminoso de guerra condenado. Após a
invasão alemã da Polônia em 1939, ele executou 50 judeus e após a guerra foi
condenado por vários massacres de prisioneiros na frente ocidental.
Mas
quem são os responsáveis por trás dessas contas? As pesquisas da DW não revelam
uma estrutura clara: elas foram registradas em diferentes países, como
Alemanha, Paquistão, Estados Unidos e Turquia. Algumas parecem ter como
objetivo alcançar um grande público, outras parecem ter motivações mais
ideológicas.
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Distorção da história difícil de tolerar
O
historiador Johannes Hürter, do Instituto de História Contemporânea de Munique,
vê essas publicações de maneira extremamente crítica. "Quando criminosos
de guerra condenados, como o general da SS Kurt Meyer e outros são colocados em
um pedestal, isso é uma distorção histórica difícil de suportar", disse.
"Marca um retrocesso para uma visão totalmente acrítica da história, que
se acreditava ter sido superada."
Hürter
vê como uma das razões para a enxurrada de glorificação e minimização do
nazismo como uma articulação de redes de extrema direita: "Extremistas de
direita de todos os países sempre demonstraram sua admiração pelas forças
armadas da Alemanha hitlerista e agora usam cada vez mais essa glorificação
acrítica da Wehrmacht, da Waffen-SS, de sua história e de seus símbolos como um
código de autoafirmação e comunicação entre si".
Christoph
Heubner, vice-presidente do Comitê Internacional de Auschwitz, organização
formada por sobreviventes do campo, vê de maneira crítica o papel do
conglomerado Meta, de Mark Zuckerberg, e outros bilionários da tecnologia.
"Acho que muitos desses empresários compartilham da atitude descrita
nessas postagens: são líderes elitistas", critica. Ele os acusa de terem
uma postura autoritária. "Eles acham que precisamos de heróis elegantes e
vigorosos, que avancem com coragem e tomem decisões sozinhos."
ara os
sobreviventes de Auschwitz e para as vítimas do Holocausto, as postagens no
Instagram são um tapa na cara: "[As publicações] são um ataque à sua
dignidade. E atribuem a eles o papel de perdedores da história e de vítimas.
Eles são as vítimas que ainda não foram capturadas. E isso é uma forma
assassina de tratar as pessoas, porque as estigmatiza emocionalmente e é
simplesmente desumano."
A DW
questionou a Meta, operadora da plataforma Instagram, sobre as publicações e
anexou uma lista das publicações questionáveis.
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Meta respondeu de forma evasiva
A
resposta por escrito da Meta foi enviada de uma agência de relações públicas de
Hamburgo, na Alemanha. As perguntas não foram respondidas. "[As
publicações] ainda estão sendo analisadas", disse que a agência, que
encaminhou ainda um código com as Normas de Comunidade da Meta
Quatro
dias após a resposta, quase todas as postagens que a DW encaminhou à Meta não
estão mais disponíveis online, entre elas uma imagem do líder da SS Heinrich
Himmler, a foto de Kurt Meyer em uniforme da SS e outras. Mas o motivo pelo
qual essas publicações passaram pelos filtros do Instagram em primeiro lugar e
como o grupo Meta pretende lidar com esse tipo de conteúdo no futuro permanecem
sem resposta.
Fonte:
DW Brasil

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