De
tudo, ao meu amor, as Big Techs serão atentas
Há um
tipo de queda que prescinde de grandes eventos. Ela não precisa da validação de
um colapso observável ou de uma tragédia com densidade narrativa. O que a
desencadeia é o banal: um gesto ínfimo, um desaparecimento previsto, uma dessas
covardias discretas que o cotidiano absorve sem alarde. A desproporção aqui é o
que dificulta a síntese, pois o rastro deixado por esse evento é vasto demais
para a pequenez da causa.
Foi o
que aconteceu comigo. O episódio que precipitou minha melancolia não tinha o
peso de um escândalo. Foi apenas a constatação de que alguém capaz de
articular, com fluidez, conceitos de soberania informacional e captura
algorítmica, era incapaz de sustentar o mínimo de responsabilidade quando o
vínculo deixou de ser uma conveniência estética.
Tentei
isolar o fato, mas a profundidade do impacto denunciava um acúmulo. Byung-Chul
Han fala de um peso que não vem de uma ordem externa, mas de uma autoexigência
que transforma a liberdade em uma forma de exploração voluntária. Há quase 10
anos minha vida opera sob essa compressão: o jornalismo em meio à asfixia
financeira, a violência doméstica, as perdas e as tensões políticas do país.
Nesse
cenário o sofrimento é apresentado como um problema interno a ser resolvido com
terapia ou reprogramação cognitiva, ignorando que a forma como sentimos está
ligada às condições sociais. O neoliberalismo, como racionalidade cultural,
difunde a ideia de que cada indivíduo é o gestor integral de sua própria vida.
Quando essa lógica invade o afeto, a dor de cotovelo é percebida como uma falha
de administração emocional. A pergunta deixa de ser sobre o que aconteceu entre
duas pessoas e passa a ser sobre por que você não foi resiliente ou
interessante o suficiente. Esse deslocamento retira o contexto coletivo da dor
e isola o sujeito em sua tentativa de consertar a si mesmo para retornar
rapidamente ao funcionamento produtivo.
A
“violência da positividade” se manifesta nessa obrigação de ser funcional e
comunicativa, mesmo quando o terreno interno está em ruínas. Criamos a
habilidade de seguir operando enquanto o não processado é empilhado em camadas
geológicas. O colapso, portanto, não é uma quebra brusca, mas o momento em que
a estrutura cede por não conseguir mais sustentar o peso da funcionalidade. É o
cansaço do sujeito isolado que, ao esgotar a si mesmo, perde a capacidade de
habitar o mundo de outra forma que não seja pela produção. A queda pelo
acontecimento “pequeno demais” é, na verdade, o corpo recusando a última gota
de desempenho exigida pela etiqueta social.
O que
torna essa experiência mais complexa hoje é que o desmoronamento não ocorre em
um vácuo privado. Vivemos um tempo em que a subjetividade foi sequestrada por
uma lógica extrativista. Shoshana Zuboff descreve como o capitalismo de
vigilância transforma a experiência humana em matéria-prima para a predição de
comportamentos, criando um mercado de futuros que se alimenta da nossa
intimidade mais desprotegida.
Nesse
cenário, a dor deixa de ser apenas um estado psicológico para se tornar um
sinal de mercado. O algoritmo não precisa de uma confissão para saber que algo
ruiu porque ele lê a geometria da ausência. A interrupção súbita de citações
que antes serviam de ponte, o fim de conversas que mantinham uma cadência fixa
e o silêncio nos metadados de geolocalização são processados como uma mudança
de estado rentável. Se a nuvem deixa de receber imagens em comum ou se os
registros de presença param de convergir, o sistema detecta a ruptura muito
antes de qualquer luto ser declarado.
Essa
ausência abrupta, vinda de quem operava afeto enquanto durava a conveniência,
torna-se um dado valioso para a máquina. A vulnerabilidade de quem atravessa
esse deserto transforma o indivíduo em um alvo mais poroso a estímulos
externos. A fragilidade é convertida em superavit comportamental. O sistema
reorganiza o que exibe e antecipa as carências de quem acaba de perder um
interlocutor que, embora munido de adjetivos precisos e uma estética da
bondade, escolheu o silêncio como fuga. A dor, assim, é despojada de sua
dignidade de processo íntimo para ser integrada a um fluxo de otimização de
consumo, onde o algoritmo espera, pacientemente, para oferecer o próximo
paliativo digital. Esse paliativo raramente se apresenta como aquilo que é: uma
exploração da vulnerabilidade. Ele chega disfarçado de cuidado. Não se trata
apenas da publicidade explícita de aplicativos de relacionamento que prometem
um novo começo, mas de uma constelação muito mais ampla de anúncios que orbitam
a insegurança afetiva. Clínicas de procedimentos estéticos, terapias de
reposicionamento emocional, produtos ligados à performance sexual ou à
autoconfiança corporal começam a surgir no horizonte da tela com a precisão de
quem leu um prontuário.
Nesse
ponto, o algoritmo deixa de apenas observar o sofrimento e passa a organizar
uma narrativa para ele. As inseguranças que já existiam, frequentemente
moduladas por expectativas patriarcais sobre corpo, desejo e valor feminino,
são reconfiguradas como responsabilidade individual. O fim do vínculo deixa de
ser um acontecimento relacional e passa a aparecer como um déficit pessoal a
ser corrigido.
A
publicidade oferece então aquilo que parece ser uma resposta racional à dúvida
que ela mesma ajudou a formular. A pergunta insinuada é simples e devastadora:
o que há de errado comigo? A resposta vem acompanhada de sugestão, diagnóstico
e, sobretudo, da eficiência cínica de um botão que resolve tudo em segundos. A
consulta já está ali, pronta para ser marcada e assim foi.
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Relações humanas sob lógica de descarte
Ao
mesmo tempo em que as emoções se tornaram dados, as relações sofreram uma
transformação cultural profunda através do capitalismo emocional. Existe uma
diferença crucial entre este fenômeno e a economia da atenção. Enquanto a
atenção foca na captura do nosso tempo para gerar lucro publicitário, o
capitalismo emocional descreve a invasão da gramática de mercado no campo
afetivo. Não se trata apenas de quanto tempo passamos na tela, mas de como
passamos a avaliar o outro como um ativo. O afeto é submetido a métricas de
eficiência, custo-benefício e retorno sobre investimento.
A
popularização de plataformas de encontro consolidou a desregulação desse
mercado. O encontro ocorre em catálogos onde a promessa implícita é a de que
sempre existe uma versão melhorada do outro disponível no próximo clique. Essa
abundância aparente altera a percepção do compromisso. Quando a substituição
parece indolor e imediata, a disposição para atravessar conflitos reais
desaparece. O vínculo deve produzir satisfação instantânea. Diante de qualquer
fricção que exija a profundidade que o interlocutor não deseja oferecer, o
desaparecimento torna-se uma resposta aceitável.
A
publicidade dessas plataformas opera em simbiose com esse vácuo afetivo. Quando
o algoritmo fareja a ruptura, lendo o silêncio nas notificações e o fim da
convergência dos metadados, o ambiente digital reage. É nesse momento que
surgem notificações invasivas com promessas de novos começos, embaladas por uma
estética de liberdade e autonomia. O sistema não quer que você processe a
ausência. Ele quer que você a substitua. O marketing do novo ciclo é disparado
exatamente quando a vulnerabilidade é maior. O algoritmo identifica a queda no
volume de tráfego entre dois perfis e interpreta esse vácuo como uma
oportunidade de reativação de usuário.
A dor é
convertida em um gatilho de engajamento. O sistema oferece sugestões de perfis
semelhantes ao que se ausentou ou produtos que mimetizam o preenchimento
daquele espaço vazio. A lógica de descarte é o motor que mantém a máquina em
rotação. Ela garante que o sujeito nunca permaneça tempo demais no luto, pois o
silêncio do luto é improdutivo para a plataforma. O marketing da substituição
vende a ideia de que a cura para uma covardia discreta é uma nova escolha no
catálogo, transformando o trauma em um novo ciclo de exploração de dados.
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A pausa que o corpo impõe
A dor
de cotovelo não foi inventada no Vale do Silício. A queda emocional, a minha e
a sua, não é um defeito de fabricação do sujeito, mas o sintoma de um
esgotamento metabólico imposto por uma organização social que trata a vida como
recurso exaurível. O que precipita o colapso costuma ser um evento banal, uma
desproporção entre o gatilho e a reação que revela o quanto a estrutura
psíquica já estava operando sob uma compressão insustentável.
Talvez
tenhamos sido moldados para terceirizar a regulação emocional para parceiros de
confiança, economizando energia metabólica para a sobrevivência. Quando as
relações são mediadas pela lógica do descarte e pela ambiguidade das relações,
o cérebro perde esse amortecedor e entra em um estado de hipervigilância para
prever sinais de rejeição. Nesta lógica, o desaparecimento súbito ou o descaso
não são apenas mágoas; são falhas catastróficas do modelo preditivo cerebral
que ativam as mesmas regiões da dor física. O organismo declara falência diante
de um sistema de reforço intermitente que mantém o sujeito em alerta máximo
enquanto consome suas reservas de energia. Não é você, querido, é meu
hipotálamo.
Esse
dreno biológico é, então, capturado por uma infraestrutura tecnológica que
extrai valor da nossa vulnerabilidade através do capitalismo de vigilância.
Estados de tristeza e solidão tornam o indivíduo mais receptivo a estímulos
externos, permitindo que sistemas algorítmicos identifiquem mudanças no
vocabulário ou na rotina para converter a dor em informação processável. No
Brasil, esse cenário é agravado por uma industrialização da misoginia que
instrumentaliza o ressentimento e a desinformação de gênero para gerar lucro e
capital político. A desregulação dos afetos não é um acidente, mas um projeto
que mimetiza a precarização do trabalho: vínculos fluidos, sem garantias e de
fácil dissolução, onde o ônus da perda recai exclusivamente sobre o indivíduo.
A
tentativa de tratar essas crises apenas como problemas de gestão psicológica é
uma estratégia de privatização do estresse que mascara o conflito de classe
subjacente. Ao deslocar a autoridade do fato para a autoridade da emoção
visceral, o regime da EUpistemologia isola o sujeito em sua “verdade”
particular, impedindo a construção de uma consciência coletiva sobre as causas
do sofrimento. O neoliberalismo exige que sejamos empreendedores da própria
subjetividade, transformando o colapso em uma falha de administração emocional
e não em uma reação à exploração total do tempo e do afeto.
Reconhecer
a pausa imposta pelo corpo é, portanto, um ato de resistência contra a captura
da vida pela métrica do desempenho. Em um mundo que exige a transparência total
para fins de extração de dados, preservar o silêncio é uma forma de proteger o
território irredutível da existência humana. Nem toda dor precisa ser
convertida em dado. Nem toda perda precisa ser transformada em conteúdo
compartilhável, em relato de superação ou em aprendizado público para alimentar
o engajamento alheio. O luto tem um tempo que o algoritmo desconhece e uma
profundidade que a gramática de mercado não consegue mensurar. Existem dores
que exigem um exame profundo e um mergulho nos escombros da subjetividade.
Outras, porém, encontram o seu lugar de repouso na simplicidade de dois ou três
álbuns de Limão com Mel ou Flávio José. A luta de classes hoje passa também
pela disputa do orçamento energético do cérebro, recusando a lógica que
transforma nossa capacidade de amar e sofrer em mercadoria ou dado estatístico.
Fonte:
Por Por Sara Goes, em Outras Palavras

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