terça-feira, 17 de março de 2026

Por que regime iraniano segue difícil de derrubar

Mais de quarenta anos após a Revolução de 1979, a República Islâmica do Irã enfrenta a crise mais grave de sua história.

Ataques aéreos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel mataram o Líder Supremo, aiatolá Ali Khamenei, e outros altos comandantes militares, além de danificar infraestrutura essencial.

Washington e Tel Aviv deixaram claro que desejam uma mudança de regime, incentivando os iranianos a derrubar seu governo.

Ainda assim, especialistas afirmam que o Irã construiu deliberadamente uma estrutura de poder robusta e duradoura, difícil de ser desmantelada.

O que explica essa resiliência — e por que ela difere da de outros países do Oriente Médio?

<><> 'Hidra iraniana'

Desde a derrubada da monarquia iraniana, a República Islâmica construiu gradualmente um sistema político projetado para resistir a crises, dizem especialistas.

Esse sistema combina instituições rigidamente controladas, doutrinação ideológica, coesão das elites e uma oposição fragmentada.

"É uma estrutura semelhante à Hidra (monstro mitólogico com corpo de dragão e várias cabeças de serpente, que renasciam quando cortadas): você corta uma cabeça e outras crescem", diz Sébastien Boussois, pesquisador de Oriente Médio no Instituto Geopolítico Europeu, na Bélgica.

No domingo, Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, foi escolhido como seu sucessor, menos de duas semanas após a morte do pai.

Espera‑se que ele continue a linha dura do pai.

<><> 'Poliditadura'

Especialistas afirmam que, ao contrário de países do Oriente Médio ou do Norte da África, como Tunísia, Egito e Síria — onde líderes foram derrubados — o Irã conseguiu resistir mais eficazmente a pressões externas graças a um aparato de segurança fortemente motivado por ideologia.

Segundo Bernard Hourcade, ex‑diretor do Instituto Francês de Pesquisa no Irã, sediado em Teerã, o país não funciona como uma ditadura tradicional centrada em um único líder, mas como uma "poliditadura": uma aliança entre defensores do islamismo político e um intenso nacionalismo iraniano.

poder é distribuído entre diversas esferas — instituições clericais, forças armadas e setores estratégicos da economia — o que torna o sistema muito mais difícil de derrubar do que regimes baseados em um líder único.

Entre os órgãos mais influentes está o Conselho dos Guardiões, responsável por vetar leis e filtrar candidatos para as eleições, reduzindo ainda mais as chances de qualquer facção desafiar seriamente o Estado.

Embora o Irã seja amplamente classificado como uma autocracia, oferece aos cidadãos a possibilidade simbólica de votar em algumas eleições, incluindo a escolha do presidente.

No entanto, o processo é rigidamente controlado, com candidatos avaliados pelo Conselho dos Guardiões segundo critérios como lealdade à República Islâmica.

<><> O papel central da Guarda Revolucionária

Se as instituições formam o esqueleto do regime, as forças de segurança são amplamente vistas como o seu músculo.

O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), que atua paralelamente ao exército regular, é frequentemente descrito como a "espinha dorsal do regime", afirma Hourcade.

Além de sua função militar, a Guarda tornou‑se uma potência política e econômica, com vastos interesses empresariais e influência exercida por meio da milícia Basij, uma organização paramilitar voluntária.

Um ponto crucial é que as forças de segurança permaneceram unificadas diante de sucessivas ondas de protestos.

Para Boussois, essa coesão está profundamente ligada à ideologia:

"Essa cultura de martírio presente entre os xiitas e em grupos como Hamas e Hezbollah é quase considerada parte do trabalho", afirma.

O vice‑ministro da Defesa, Reza Talaeinik, declarou recentemente à TV que cada comandante da Guarda tem sucessores designados até três níveis abaixo, garantindo continuidade operacional.

Kasra Aarabi, chefe de pesquisa sobre a Guarda na organização americana United Against Nuclear Iran, argumenta que a estrutura descentralizada do Irã foi moldada pelas lições do colapso das forças iraquianas em 2003, durante a invasão liderada pelos EUA.

Se o regime continuar de pé, ele acredita que "a Guarda terá um papel ainda mais importante".

<><> Redes de patronagem e coesão das elites

Grande parte da economia iraniana é controlada por organizações ligadas ao Estado, como as bonyads — fundações de caridade que, ao longo do tempo, passaram a comandar milhares de empresas em diversos setores. Essas redes distribuem empregos e contratos a grupos leais ao regime.

O vasto império empresarial da Guarda Revolucionária, que inclui o conglomerado Khatam al‑Anbia, reforça esse sistema de patronagem.

Embora as sanções ocidentais tenham causado danos profundos à economia iraniana, essas estruturas ajudam a proteger as elites e a preservar seu interesse na continuidade do sistema, afirmam especialistas.

Segundo Boussois, o arranjo é "tão sólido que quase não vemos deserções".

<><> Ideologia e o legado da revolução

A religião também desempenha um papel central na preservação do poder no Irã.

A revolução estabeleceu uma rede duradoura de instituições religiosas, políticas e educacionais que continuam moldando a visão de mundo do Estado.

"Essa estrutura muito antiga e muito poderosa — ideológica, burocrática, administrativa — torna o sistema forte", afirma Boussois.

Para ele, a ideologia "funciona como uma verdadeira fonte de unidade, vocação e recrutamento".

<><> Uma oposição dividida

Historicamente, a oposição iraniana tem sido marcada pela fragmentação. Ela reúne reformistas, monarquistas, grupos de esquerda, movimentos da diáspora — como o Conselho Nacional de Resistência do Irã — e diversas organizações étnicas.

Essa divisão não é recente, observa Ellie Geranmayeh, pesquisadora sênior do Conselho Europeu de Relações Exteriores.

Após a revolução, o debate sobre a criação de partidos políticos foi deixado de lado, em grande parte porque o país entrou em guerra com o Iraque em 1980, conflito que durou quase oito anos.

Segundo Geranmayeh, ao longo do tempo, facções moderadas foram "marginalizadas, desacreditadas ou presas" tanto pelo regime quanto por grupos linha‑dura.

Houve grandes ondas de protestos contra o governo — como o Movimento Verde de 2009 e as manifestações desencadeadas pela morte de Mahsa Amini em 2022 —, mas esses movimentos careciam de liderança centralizada e foram duramente reprimidos.

A onda mais recente de protestos, neste e no último ano, foi impulsionada por apelos do filho exilado do último xá (rei).

O Irã também mantém um dos sistemas de vigilância mais sofisticados da região, recorrendo a desligamentos frequentes da internet, monitoramento por Inteligência Artificial e unidades cibernéticas que visam ativistas no exterior.

<><> Cautela pública — e por que ela começa a se desgastar

Por muitos anos, grande parte da população iraniana hesitou em pressionar por uma mudança de regime, influenciada pelo que viu nas intervenções lideradas pelos EUA no Afeganistão e no Iraque, afirma Geranmayeh. A Primavera Árabe reforçou ainda mais essa cautela.

Segundo ela, porém, esse cálculo mudou. Muitos iranianos passaram a sentir que o Estado já não consegue garantir necessidades básicas — de empregos a água potável — ao mesmo tempo em que intensifica a repressão violenta.

A brutal repressão de janeiro contra uma nova onda de protestos — na qual milhares foram mortos após algumas das maiores manifestações já vistas no país — acelerou essa mudança, acrescenta.

Hourcade observa ainda a existência de um "fosso geracional" na forma como os iranianos enxergam o regime.

Os mais jovens, muitos deles altamente educados, conectados ao mundo e influenciados pelas redes sociais, rejeitam o sistema, que consideram "corrupto, opressivo e irrelevante para suas aspirações", argumenta.

<><> 'Todo regime acaba um dia'

Analistas afirmam que regimes autoritários tendem a cair quando três condições se alinham:

  • Mobilização em massa
  • Divisões entre as elites governantes
  • Deserções das forças de segurança

No passado, o Irã frequentemente experimentou a primeira, mas não as outras duas, dizem especialistas.

Hourcade acredita que o fim da República Islâmica é inevitável, mas não iminente.

"Todo regime acaba um dia. A verdadeira questão é o tempo — a cronologia."

Ele argumenta que a morte de Khamenei foi um grande golpe para o regime.

"Não haverá outro como ele. Seu substituto nunca terá a autoridade que Khamenei teve."

Mas Boussois diz que a queda da República Islâmica está longe de ser certa.

Se acontecer e for desencadeada por intervenção militar estrangeira, o que vier depois pode ser pior, afirma.

Trump disse anteriormente ao jornal americano New York Times que a captura do ex‑presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA seria o "cenário perfeito" para o Irã.

Mas Boussois afirma: "O oposto pode ocorrer — como na Coreia do Norte ou em Cuba — um fortalecimento do núcleo duro do regime."

¨      Como a água se tornou arma de guerra na luta dos EUA e Israel contra o Irã

As cenas de numerosos romances e filmes distópicos apresentando conflitos com cenários de redução dos recursos naturais podem não estar muito longe da realidade, principalmente durante a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.

Como era previsível, a guerra gira, em parte, em torno do petróleo, um recurso associado há muito tempo às intervenções ocidentais na região.

Mas, à medida que o conflito se amplia e atinge os vizinhos do Golfo, analistas afirmam que outro recurso vulnerável se tornou um possível ponto de tensão: a água.

O Golfo detém apenas 2% das fontes globais renováveis de água potável.

A região depende muito da dessalinização, principalmente com as pressões geradas pelo crescimento da indústria petrolífera, a partir dos anos 1950, e seu impacto sobre fontes que já eram limitadas.

O Instituto Francês de Relações Internacionais indica que 90% da água do Kuwait vem da dessalinização. Este índice é de 86% em Omã, 70% na Arábia Saudita e 42% nos Emirados Árabes Unidos.

"Em 2021, o volume total de produção das usinas de dessalinização, que retiram água do Golfo, foi de mais de 20 milhões de metros cúbicos por dia, o equivalente a 8 mil piscinas olímpicas diariamente", declarou Will Will Le Quesne, do Centro de Ciências do Meio Ambiente, Pesca e Aquicultura de Omã, ao programa de rádio Newsday, do Serviço Mundial da BBC.

A produção agrícola e de alimentos também depende da água dessalinizada do Golfo. As reservas subterrâneas, normalmente empregadas para irrigação, foram seriamente esgotadas em toda a região.

Esta dependência faz da infraestrutura de abastecimento de água uma vulnerabilidade estratégica, que tanto os Estados Unidos quanto o Irã aparentemente desejam explorar.

Analistas descrevem a técnica de Teerã como "escalada horizontal", ampliando o escopo do conflito, em vez de confrontar diretamente os Estados Unidos e Israel. E atacar a infraestrutura de abastecimento de água parece fazer parte da estratégia iraniana, embora estruturada como retaliação.

"Se os governos do Golfo acreditarem que a infraestrutura de abastecimento de água está sob ataque, eles serão mais propensos a pressionar os Estados Unidos a tentar pôr fim à guerra", explica o professor Marc Owen Jones, da Universidade do Noroeste, no Catar.

Para ele, os ataques iranianos pretendem "criar um nível de pânico", influenciando os civis a "ficar ou sair".

O Bahrein acusou o Irã de atacar diretamente uma usina de dessalinização. Já o Irã afirma que um ataque anterior dos Estados Unidos danificou uma usina de água na ilha de Qeshm, no Estreito de Ormuz.

Também se acredita que os ataques iranianos ao porto de Jebel Ali, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, tenham chegado perto de uma das maiores usinas de dessalinização do mundo.

E um incêndio suspeito foi relatado perto da Usina Independente de Energia e Água Fujairah F1, também nos EAU. As autoridades afirmam que a usina permanece funcionando.

Já a usina do Oeste de Doha, no Kuwait, também teria sido danificada indiretamente, devido aos ataques a portos próximos ou à queda de fragmentos de ataques com drones.

Para o Irã, "este é mais um jogo de sinalização", declarou à BBC o professor Kaveh Madani, chefe do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas.

O Irã também enquadrou todas as ações como reações "justificadas" aos ataques contra o país. Os ataques ao Bahrein, especificamente, foram justificados como retaliações ao ataque americano à ilha de Qeshm.

Qualquer ataque à infraestrutura crítica de abastecimento de água mostra a capacidade do Irã e até onde ele está preparado para ir, em resposta às ações militares dos Estados Unidos e de Israel.

Mas Madani indica que seu poder reside na ameaça de ataques dirigidos e mais sustentados às preciosas fontes de água do Golfo, não necessariamente indicando o que o Irã irá fazer no futuro.

Historicamente, "a água sempre foi usada como arma e ameaça", segundo o professor.

Madani destaca o artigo 45 da Convenção de Genebra como possível causa para a aparente cautela e restrição de Teerã sobre ataques mais óbvios e diretos às usinas de dessalinização do Golfo e ao enquadramento deliberado dos seus ataques como retaliatórios.

"A lei determina que você não pode atacar infraestrutura civil, mas o Irã não foi quem começou. Era o que dizia a postagem de Abbas Araghchi nas redes sociais", explica Madani, parafraseando a opinião do ministro das Relações Exteriores iraniano.

Araghchi qualificou o ataque à ilha de Qeshm como um "lance perigoso com graves consequências... um crime flagrante e desesperado", que limitou o abastecimento de água para diversas aldeias".

Sustentados ou não, estes incidentes destacam a fragilidade dos Estados alinhados aos americanos, em relação à segurança do abastecimento de água.

O Irã também é vulnerável, mas Madani ressalta que seu abastecimento de água é mais diverso que o dos seus vizinhos do Golfo e menos dependente da dessalinização.

De qualquer forma, outros observadores afirmam que eventuais ataques à infraestrutura crítica de abastecimento de água no Golfo realizados pelo Irã poderão ser um convite a ataques retaliatórios próprios.

O Irã vem se aproximando há algum tempo de um estado de "absoluta escassez de água".

O baixo nível de chuvas, "vazamentos de água causados pela infraestrutura centenária de abastecimento de água da capital" e a Guerra dos 12 Dias contra Israel no ano passado contribuíram para a falta de água, segundo o ministro da Energia do Irã, Abbas Aliabadi.

As represas de todo o país já estão em "estado preocupante", segundo Ahmad Vazifeh, do Centro Nacional de Gestão do Clima e da Crise da Seca do Irã. Os principais aquíferos estão sobrecarregados, rios como o Zayandeh Rud minguaram e o lago Urmia, no noroeste do país, encolheu dramaticamente.

Décadas de construção de barragens, agricultura com uso intensivo de água e falhas de gestão agravaram a situação, segundo ambientalistas como o britânico Fred Pearce. E, em algumas regiões, a extração do lençol freático também causou sério afundamento do solo.

As autoridades chegaram a alertar que Teerã, um dia, pode enfrentar racionamento ou evacuação parcial dos seus moradores.

Pesquisadores indicam que esta é uma ameaça ao meio ambiente e à segurança nacional, que afeta a estabilidade e a resiliência econômica interna do Irã. E tudo isso é agravado pelas últimas semanas de intensos conflitos com os Estados Unidos e Israel.

Antes da guerra, a escassez de água contribuiu para a instabilidade doméstica do Irã. Protestos no Cuzistão, Isfahan e em outras partes se misturam com reclamações mais gerais sobre o custo de vida e o ambiente político.

As dificuldades do Irã em relação à água também se entrecruzam com as tensões regionais.

O país mantém disputas antigas com o Afeganistão sobre o rio Helmand, com a Turquia sobre as represas dos rios Tigre e Eufrates e com o Iraque sobre cursos d'água compartilhados pelos dois países.

A guerra vem destacando como os sistemas de abastecimento de água do Oriente Médio se fragilizaram e poderão influenciar os rumos e a duração do conflito, segundo analistas.

As pressões ambientais aumentam os riscos de escalada, ao lado de fatores como as reservas de petróleo e gás. Os futuros conflitos na região podem ser determinados não apenas pelos oleodutos e petroleiros, mas também pelos rios, aquíferos e usinas de dessalinização.

Neste e em outros conflitos, a água pode ser mais densa que o petróleo.

 

Fonte: BBC News Persa

 

Nenhum comentário: