'Campo
de guerra' em Caraíva: o instagramável vilarejo da Bahia que sofre com avanço
de facções
"Sorria
você está em Caraíva": a casinha verde com porta e janela vermelhas talvez
seja uma das mais fotografadas por blogueiros e influencers de viagem no
litoral do Brasil.
É mesmo
difícil não sorrir quando se está em um pequeno vilarejo praiano no município
de Porto Seguro (BA), no encontro do rio com o mar, onde não entram carros, não
há asfalto, o clima é ensolarado e os coqueirais se estendem com a faixa de
areia.
Mas
esse cenário paradisíaco de uma das praias mais desejadas (e caras) do Brasil,
que até 2007 não tinha nem luz elétrica regular, tem sido ofuscado por uma
violência até pouco tempo inimaginável por ali.
Em
2025, Caraíva viveu situações que expõem o avanço de facções criminosas pelo
Brasil para longe dos centros urbanos, com assassinatos, toques de recolher,
operações policiais com grande número de mortos e apreensão de dezenas de
armas, como fuzis.
Por
trás desse cenário, há uma disputa entre um grupo criminoso que cresceu na
região nos últimos anos junto ao avanço do turismo e novos faccionados que
tentam ocupar a área, segundo moradores e fonte policial ouvidos pela BBC News
Brasil.
"Isso
aqui virou um campo de guerra", resume um morador. Os nomes dos
entrevistados não serão revelados por questão de segurança.
É um
cenário que se repete em outros destinos turísticos badalados no Nordeste
brasileiro, como a BBC News Brasil mostrou em relação a Porto de Galinhas (PE),
Pipa (RN) e Jericoacoara (CE).
Circulação
de turistas com alto poder aquisitivo, festas com consumo de drogas e pouca
presença do poder público fazem desses paraísos uma mina de ouro para os grupos
criminosos.
"É
uma região com o turismo de um poder aquisitivo muito alto, e aí você vê uma
disputa para dominar a terra, o espaço e, sobretudo, para poder vender
drogas", comenta o delegado Diego Gordilho, da Polícia Federal em Porto
Seguro.
Mas em
Caraíva ainda há um outro componente: a vila turística é vizinha a uma aldeia
indígena, a Xandó, parte da terra indígena Barra Velha, dentro do Parque
Nacional do Monte Pascoal, ponto avistado por Pedro Álvares Cabral ao chegar ao
Brasil.
Onde há
uma terra indígena, há certas limitações de fiscalização e presença policial do
Estado, já que a competência é da Polícia Federal ou das forças armadas. E
grupos criminosos têm tentado se aproveitar disso, segundo o delegado Gordilho.
Em toda
a região, o extremo sul do litoral baiano, os conflitos entre fazendeiros e
indígenas pela posse da terra também são históricos e muitas vezes acabam em
tiros e morte.
No fim
de fevereiro, por exemplo, duas turistas do Rio Grande do Sul foram baleadas ao
passar de carro por um local de disputa de terras entre indígenas e fazendeiros
em Prado, cidade vizinha a Porto Seguro.
Agora,
além da histórica pressão fundiária, a comunidade de Caraíva também vive a
ameaça e presença das facções.
"A
violência das facções em Caraíva também está cercada dessa outra violência, a
de fazendeiros contra nativos e o povo pataxó", explica o professor Paulo
Dimas Menezes, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), em Porto Seguro,
que pesquisa gentrificação causada pelo turismo na região.
De
forma geral, Caraíva e os outros destinos nordestinos continuam desejados,
movimentados, e grande parte dos turistas irá curtir suas férias sem nem
perceber a presença de facções, como relatado por moradores de todas as praias.
A não ser que a situação saia do controle.
Só em
três operações policiais letais conduzidas pela Polícia Federal junto à Polícia
da Bahia em 2025 foram 12 mortos em Caraíva — um número que coloca a praia com
mais mortes decorrentes de operações da polícia do que o Estado inteiro do Acre
ou de Roraima, segundo dados do Ministério da Justiça.
Segundo
o censo 2022 do IBGE, o distrito de Caraíva tem 13.214 habitantes. Esse número
abrange áreas que vão além da região da praia, que, na prática, tem bem menos
pessoas morando.
A
Polícia da Bahia é hoje a que mais mata em operações no Brasil, segundo dados
do Ministério da Justiça. Foram 1.569 mortes em 2025, muito à frente de São
Paulo (835), Estado mais populoso do país, e do Rio de Janeiro (798), onde
ocorreu a megaoperação contra o Comando Vermelho em outubro.
Em
2024, Porto Seguro foi a 6ª cidade com a maior taxa de mortes decorrentes de
operações policiais no Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Pela taxa geral de homicídios, a cidade é a 14ª mais violenta do país, junto a
outras oito cidades baianas no top 20.
Em uma
dessas operações na Bahia, em maio de 2025, a morte de Victor Cerqueira,
conhecido como Vitinho, abalou a comunidade de Caraíva e revelou na imprensa a
violência e conflitos na praia.
"Todo
mundo conhecia ele aqui", diz um outro morador à BBC News Brasil.
As
redes sociais foram inundadas por fotos pedindo justiça. A família sempre
acusou a polícia de confundir Vitinho, que trabalhava como guia turístico, com
um segurança de um traficante.
O
inquérito do caso foi concluído no fim de janeiro e remetido à Justiça baiana.
Ele corre em sigilo.
Em nota
à BBC News Brasil, a Polícia Civil da Bahia disse que as investigações não
apontaram erro na conduta dos policiais envolvidos na morte de Vitinho.
Na
mesma operação, a Polícia matou em confronto o líder do tráfico local,
conhecido como Alongado. A ação levou a um toque de recolher e apreensão de
armas que, até então, moradores nem sabiam que havia ali.
"Foi
um divisor de águas", diz um morador.
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'Antes, a gente sabia quem eles eram'
Segundo
os moradores, não é de hoje que se convive com facções na região de Caraíva. Há
relatos de quase uma década de um grupo organizado atuando no tráfico de drogas
ali, mas nos últimos anos foram chegando novos criminosos de grupos distintos.
"Até
pouco tempo atrás, todo mundo sabia quem eram os membros do 'corre',
cumprimentava na rua. Eles também sabiam quem era a gente", diz um
morador.
"Agora
ninguém sabe quem é quem. E isso gera muita insegurança."
Esse
primeiro grupo formou uma facção local conhecida como Anjos da Morte (ADM), que
acabou se aliando à facção carioca Comando Vermelho.
Hoje,
segundo moradores, os ADM disputam a região com outra facção aliada ao PCC.
Para o
delegado Diego Gordilho, que comandou operações da PF junto à Polícia da Bahia
em Caraíva, a aliança entre os grupos locais e nacionais fica evidente com o
tipo de armamento apreendido, como armas de grosso calibre e granadas, além de
roupas camufladas para fuga em mata.
Entre
maio e dezembro de 2025, foram apreendidos 27 fuzis só em Caraíva, segundo a
PF.
"São
objetos típicos de membros de organizações criminosas que não atuam somente
aqui, mas fora da Bahia e até fora do Brasil. Demonstra realmente uma
interlocução entre as facções locais com as de outros estados", diz
Gordilho.
A Bahia
tem sido território bastante disputado, com presença de 21 organizações
criminosas, segundo números divulgados pela Secretaria Nacional de Políticas
Penais (Senappen) com base em dados divulgados pelos Estados. É o maior número
do país, que tem 88 grupos mapeados pelo governo em 2024.
Esse
cenário de fragmentação na Bahia teve início em 2004, explica o professor
Misael França, doutor em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e
especialista em segurança pública.
Naquele
ano, a principal liderança do tráfico na periferia de Salvador, conhecido como
Raimundo Ravengar, foi preso, abrindo uma disputa para ocupar seu espaço.
"Nós
não víamos a pluralidade de facções criminosas, inclusive que rivalizam entre
si, justamente por conta de uma liderança concentrada em uma única
pessoa", diz França.
A
partir daí, "diversos grupos começaram disputar territórios e o controle
desse comércio", continua o professor.
"Várias
ramificações foram surgindo, muitas delas a facções de outros estados, como São
Paulo e Rio de Janeiro, que viram aqui na Bahia um campo fértil."
Essa
pulverização de grupos estimulou justamente a briga por territórios com mortes
e tiroteios em várias regiões do Estado, de Salvador a Porto Seguro.
Uma
turista mineira que conversou com a BBC News Brasil contou que passou horas sob
um toque de recolher em Caraíva, no fim de 2024, trancada em um quarto de
pousada com amigas.
Depois
de muita expectativa pela viagem, ela chegou a Caraíva às 15h, achando
"tudo lindo e cenográfico", até que às 16h, quando se dirigia à
praia, escutou um tiroteio.
"Ninguém
explicava o que estava acontecendo, mas tudo começou a fechar as portas. Na
nossa pousada, o gerente deu orientação para ninguém sair", conta.
Naquele
dia, uma operação da polícia terminou em troca de tiros entre policiais e
suspeitos. Um foragido da Justiça acabou preso.
O grupo
de amigas ficou trancado no quarto, sem alimentação, das 16h30 às 23h, quando
elas foram orientadas que podiam sair.
"A
gente não acreditava que isso estava acontecendo naquele lugar. No outro dia,
estava tudo normal, ninguém falava sobre o assunto. Quando a gente perguntava,
se esquivavam", relata.
Nos
dias que se seguiram, diz a turista, nada aconteceu e foi possível aproveitar a
beleza da região sem preocupação.
Segundo
moradores, a violência chegar aos olhos e ouvidos dos turistas ainda é uma
exceção.
"Não
é interessante para eles que a situação saia do controle, porque afasta
turistas", relata um morador.
Outro
conta que, em época de alta temporada de verão, há "acordos" para não
haver conflitos, já que a vila estará cheia de turistas.
Nos
grupos de WhatsApp, é comum o compartilhamento de mensagens supostamente
repassadas pela facção orientando o comportamento de moradores.
A BBC
News Brasil teve acesso a duas delas, assinadas pelo Comando Vermelho e Anjos
da Morte. Em uma direcionada a donos de pousadas, há um alerta para quem
aceitar alugar casas para membros de facções de praias vizinhas, como Arraial
D'Ajuda.
"Se
nois descobrir, vai sofrer as consequências e ser colocado para fora da nossa
área", diz a ameaça.
"Vamos
fazer visitinhas a qualquer momento e n vai ser legal", continua.
Em
outra mensagem, o grupo supostamente diz que é "proibido desrespeito aos
moradores e roubos".
"O
morador que sofrer qualquer tipo de ameaça pode estar chegando em nois."
Segundo
um morador, de fato, na vila "não tem assalto, não tem roubo, não entra
ninguém nas casas".
Ao
mesmo tempo, conta ele, "não sabemos mais quando está de boa para sair de
casa".
Os
momentos mais tensos são quando há operações da polícia.
Em maio
de 2025, a facção criminosa impôs toque de recolher após a morte de um dos
líderes. Em julho, cinco suspeitos foram mortos em outra ação.
Já em
novembro, foram apreendidos fuzis, pistolas, submetralhadora e granada em outra
operação com mais cinco mortos.
O
delegado Diego Gordilho defende que as operações surgiram da necessidade de
"proteger os povos originários de criminosos que estavam por ali
atuando", além de ser uma resposta a "toques de recolher mandando
fechar estabelecimentos".
"Há
uma tentativa de criminosos de se esconderem dentro desses territórios
indígenas para dificultar a presença do Estado", diz.
Gordilho
defende que as operações realizadas em Caraíva foram letais porque os membros
da facção atuaram de "forma beligerante" contra os policiais.
"A
gente precisa ser mais forte que esses mesmos criminosos", justifica.
Questionada
sobre a alta letalidade de suas operações junto à PF, a Secretaria da Segurança
Pública da Bahia disse apenas que ampliou o combate às facções no Extremo Sul
da Bahia, com a criação de novo comando regional da Polícia Militar e
instalação de uma base de inteligência,
"A
doutrina do Policiamento Orientado pela Inteligência continuará norteando o
trabalho de combate ao crime organizado, com ações firmes e pautadas na
legalidade", diz a nota.
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O interesse pelo sul da Bahia
A
presença ostensiva das facções se concentra especialmente nas áreas
imediatamente vizinhas à área mais turística, como a aldeia Xandó e a Nova
Caraíva, do outro lado do rio.
"A
velha Caraíva é onde atuam, mas não moram", explica um morador.
Essa
dinâmica tem a ver com o próprio histórico de ocupação dessa região.
Os
indígenas pataxó, originários desse território, sofreram diversas tentativas de
expulsão. A mais emblemática é a chamada "Fogo de 51", quando houve
repressão armada contra os indígenas e casas da aldeia foram incendiadas.
"O
resultado foi a dispersão de várias famílias pataxó", explica o professor
Paulo Dimas Menezes, da UFSB.
A
disputa aconteceu diante do processo de criação do Parque Nacional do Monte
Pascoal, uma área de conservação, mas sem controle indígena.
Em
1991, após muitos anos de pressão, foi homologada a Terra Indígena Barra Velha
em parte do parque nacional. Na demarcação, ficou acordado que a ponta de
Caraíva, já habitada por pescadores e descendentes que não mais se
identificavam como indígenas, ficasse de fora, explica o professor Menezes.
A
homologação de 1991, porém, não contemplou toda a reivindicação indígena. Em
2009, uma demarcação revisada, maior, recebeu o nome de TI Barra Velha do Monte
Pascoal, hoje um dos territórios marcados por conflitos e que aguarda a
definição do Supremo Tribunal Federal (STF) diante da aprovação do marco
temporal.
Em
Caraíva, a ponta que não faz parte da terra indígena não comporta mais a
especulação imobiliária, que avançou sobre a aldeia Xandó com arrendamentos e
venda de terrenos de forma irregular.
"Há
um racha no povo Pataxó entre esses que fazem venda e os que não querem, que
querem a integridade do território", diz o professor Menezes
A
pressão imobiliária, explica o pesquisador, veio com a expansão do turismo,
especialmente nos anos 2010, quando turistas de alto poder aquisitivo acabaram
descobrindo a região.
"Eles
viram um paraíso naquele terreno de difícil acesso, nessa busca de
exclusividade", diz o professor. Até hoje, o trajeto desde o centro de
Porto Seguro leva mais de 2h em estrada, em boa parte de terra.
Segundo
reportagens da imprensa local, lideranças pataxó seguem relatando mortes, venda
ilegal de suas terras e, agora, ação de narcotraficantes.
Como
diz o professor Misael França, da UFBA, é uma região que hoje convive "com
atuação de latifundiários e particulares pela conquista desses territórios para
dar vazão aos seus interesses ao agronegócio", além da presença de
"grupos criminosos para o controle do tráfico de entorpecentes e de armas
de fogo".
A
associação local de indígenas não quis conversar com a BBC para a reportagem.
Além da
alta circulação de pessoas, a distância geográfica e do poder público e a
disputa por terra, o delegado Diego Gordilho explica que o território também se
tornou atrativo a facções por ficar perto da "tríplice fronteira"
entre Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo.
"É
uma rota rodoviária que serve para escoamento de ilícitos e que também tem
saída pela parte marítima", diz o delegado.
Um
morador resume que o cenário complexo da região hoje virou como "a guerra
entre Rússia e Ucrânia": ninguém sabe o que vai acontecer.
Ele
disse esperar um acordo definitivo entre as facções ou que um grupo acabe
vencendo o outro de vez.
"Porque
acabar com isso [facções], sabemos que não vai acabar nunca."
Fonte:
BBC News Brasil

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