Soberania
em vistos: aqui não, Tio Sam!
Só
mesmo a combinação de interesses escusos entre um Departamento de Estado do
governo Trump, que desconhece que no Brasil os poderes Legislativo, Judiciário
e Executivo são independentes (Donald aprendeu há três semanas, com a derrubada
do tarifaço pela Suprema Corte, porque não consultou o Congresso - também é
assim nos Estados Unidos da América), e o clã Bolsonaro, que continua a adotar
uma atitude de vassalagem perante o Tio Sam, para acreditar que a vinda de um
obscuro secretário de Estado Adjunto (e interino) para Assuntos Educacionais e
Culturais dos EUA, o controvertido Darren Beattie, poderia ter autorização do
Supremo Tribunal Federal para circular livremente no Brasil. Ele tinha agenda
ao lado do filho 01, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato indicado
pelo pai a concorrer à Presidência em outubro, e ainda pretendia visitar, na
cadeia, em Brasília, um condenado a 27 anos de cadeia por tramar golpe contra o
Estado Democrático de Direito: o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro.
Darren
Beattie se tornou próximo do filho 03, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que
perdeu o mandato por excesso de faltas ao ficar nos Estados Unidos desde
fevereiro do ano passado, para conspirar contra o Brasil e tentar usar o
governo americano para interromper o processo contra seu pai no STF. Eduardo
Bolsonaro, que está sendo processado no Supremo por tentativa de obstrução de
Justiça, conheceu Beattie nos Estados Unidos, numa das várias reuniões do
AQnon, a aglutinação de ultradireita que representa os supremacistas brancos.
Beattie, também ligado a Steve Bannon, um guru da ultradireita, chegou a
participar do primeiro governo Trump e a redigir alguns discursos, em 2018. Foi
demitido após ser denunciado pela CNN dos EUA como participante de conferência
com a presença de supremacistas brancos.
Quando
era presidente e cruzou com Donald Trump, no primeiro mandato, nos corredores
da ONU, em Nova Iorque, Jair Bolsonaro, numa reação infantil de um fã ante um
ídolo, balbuciou “I love you”. E o presidente americano lhe deu uma tapinha nas
costas. Muitos anos depois, no segundo mandato de Donald Trump, em setembro de
2025, Trump e Lula se encontraram no mesmo corredor da ONU. O temor era de
hostilidades. Um mês antes, instigado pela ação conjunta de Eduardo Bolsonaro e
do economista Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, o general
João Batista Figueiredo, que insistiram com o departamento de Estado por
punições ao Brasil, que vieram inicialmente com um tarifaço (saudado pelo clã
Bolsonaro e pelo governador Tarcísio de Freitas, de São Paulo, o estado mais
atingido), o presidente Donald Trump elevou até 50% as tarifas às exportações
brasileiras aos EUA, e exigiu, em sua rede social, a IMEDIATA suspensão do
julgamento contra Bolsonaro, e ainda usou as sanções da Lei Magnitsky contra o
ministro-relator do julgamento da trama golpista, Alexandre de Moraes, e contra
o ministro da Saúde do governo Lula, Alexandre Padilha e família.
O
julgamento não foi interrompido. A interdependência entre os Três Poderes da
República Federativa do Brasil foi mantida, bem como a soberania nacional. Lula
não se curvou às pressões do tarifaço, e tratou de estreitar laços comerciais
com outros países. E Bolsonaro foi condenado. Na segunda quinzena de setembro,
Lula foi a Nova Iorque e fez um belo discurso na ONU, abrindo os trabalhos,
como é tradição, e reafirmando a soberania brasileira e a preferência da nossa
diplomacia pelo multilateralismo e o pluralismo nas relações entre as nações.
Trump gostou do que ouviu (não gosta dos subservientes), cumprimentou Lula e,
após uma rápida troca de palavras de 39 segundos, disse ter pintado "uma
química” entre os presidentes das duas maiores democracias das Américas. A
"química" prosseguiu por outros encontros e contatos bilaterais entre
as diplomacias dos dois países, que levaram à redução das tarifas ao Brasil
antes da decisão da Suprema Corte. Uma nova reunião na Casa Branca, juntaria,
possivelmente nesta semana, os dois presidentes, se não fosse a emergência da
guerra dos EUA-Israel contra o Irã, que deixa o mundo em suspense.
Enquanto
a guerra desvia a atenção dos mandatários e mobiliza o presidente brasileiro em
conversas bilaterais, o filho 01, designado por Jair Bolsonaro a representar o
clã nas eleições, circula livre, leve e solto (embora contra a criação de uma
CPI no Senado contra os ministros Dias Toffoli e Alexandre Moraes por sua
atuação no caso Master, não só por temer a reabertura do inquérito das
“rachadinhas” com o salário de seus assessores quando era deputado estadual na
Alerj, como das próprias confissões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, cuja
prisão, mantida pelo STF, pode levá-lo a fazer delação premiada). O senador,
que já anunciou o irmão 03 como ministro das Relações Exteriores, se for eleito
(o pai o queria embaixador em Washington porque “fala inglês e sabe ‘fritar’
hamburguer”), instigou, junto com o irmão 03, para Darren Beattie solicitar
autorização a Alexandre Moraes para visitar Jair Bolsonaro em sua cela especial
na Papudinha, em Brasília.
Lula
usa negativa para reafirmar soberania
Os
fatos mostraram, pelo novo caso clínico do ex-presidente, que tem graves
problemas gastrointestinais decorrentes da facada de setembro de 2018 e
precisou se internar para se tratar de pneumonia numa UTI, em Brasília, que era
desaconselhável o entre e sai constante de visitas ao ex-presidente. Trata-se
de um condenado, vítima de sérias comorbidades. A família queria que a visita
fosse nesta segunda-feira,16, mas o ministro Alexandre de Moraes quis
transferir a visita para o mês seguinte, e o caso vazou. Flávio Bolsonaro não
perdeu a oportunidade de usar a internação do pai para cacifar a campanha.
O
ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que tem se reunido com o
secretário de Estado, Marco Rubio (o chefão de Beattie), descobriu que não era
agenda do Departamento e sim da campanha eleitoral de arregimentação de apoios
da ultradireita americana a Flávio Bolsonaro. Sem agenda oficial, Darren
Beattie era um cidadão comum, alertou o Itamaraty ao ministro Moraes (em nova
lição de interdependência entre os Três Poderes da República, aplicada a uma
parte do governo Trump e ao próprio ministro-relator).
Ficou
fácil para o governo federal negar a agenda e ainda deu um palanque para o
presidente Lula explorar o caso ao reafirmar o princípio da soberania
brasileira e da reciprocidade entre os dois países. Na questão dos vistos,
disse que “proibiu assessor de Trump de entrar no Brasil por causa do
cancelamento do visto do ministro Padilha”.
Até
hoje, o Departamento de Estado dos EUA não ofereceu motivos para a sanção a
Alexandre Padilha e sua família, em agosto de 2025. Terá sido porque, quando
era ministro da Saúde do governo Dilma, criou o “Programa +Médicos”, atraindo
médicos cubanos para atender em regiões do interior brasileiro desassistidas.
Filho de cubanos exilados em Miami, ao tempo do ditador Fulgêncio Barista,
derrubado pela revolução de Fidel Castro, o secretário Marco Rubio tem fixação
por Cuba. Mas o mundo gira e pede pragmatismo. Com a crise de abastecimento de
petróleo e derivados, após a captura de Maduro na Venezuela, uma negociação
surpreendente está envolvendo os governos de Donald Trump e Díaz Canel, com
Marco Rubio liderando os Estados Unidos.
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Mundo paga pelas trapalhadas de Trump
Com o
Irã bloqueando o Estreito de Ormuz, os preços do petróleo subiram novamente na
sexta-feira, atingindo mais de US$ 103 por barril, nível mais alto desde 2022,
quando a Rússia invadiu a Ucrânia. Tomando o início dos ataques, em 28 de
fevereiro, de Israel-Estados Unidos ao Irã, que contra-atacou Israel e os
vizinhos árabes produtores de petróleo e gás, o petróleo subiu mais de 40%. É a
maior crise, após a de 1973, quando os preços triplicaram. Apesar dos esforços
das autoridades americanas em tranquilizar os mercados - o secretário "de
Guerra", Pete Hegseth, disse que os EUA estão tomando medidas para
sustentar os suprimentos e reabrir o estreito, com o envio de outros 2.500
fuzileiros navais, que se juntariam aos 50 mil em ação, e de mais três navios
de guerra para o Oriente Médio - a crise continua.
[O
Brasil tem o trunfo de ter a sétima maior produção de petróleo do mundo e de
ter mantido a quase integral presença nacional da Petrobras, que o governo
Bolsonaro queria privatizar. O ex-presidente considerou a Petrobras “um
problema” - e não uma solução (que permite segurar os preços internos numa
crise como agora) - quando foi abordado pelo presidente Erdogan, da Turquia, em
reunião do G-20, após a invasão da Ucrânia pela Rússia. O governo Bolsonaro pôs
à venda 50% do parque de refino. Só encontrou comprador para a refinaria baiana
(330 mil barris de derivados, a segunda maior do país) pelo fundo Mubadala, dos
Emirados Árabes Unidos, país do colar de diamantes, e que ia “comprar” 50% do
Banco Master. A outra venda foi da pequena Reman, que refina pouco mais de 20
mil barris-dia, em Manaus. Ainda bem.]
A
questão é que o tráfego pelo estreito, o portal para um quinto do suprimento
mundial de petróleo, continua praticamente paralisado devido às ameaças
iranianas, e ainda não há sinais de que os EUA e seus aliados estejam prestes a
usar navios de guerra para escoltar petroleiros em segurança, uma ideia que
eles discutem publicamente desde a semana passada. Nações ricas prometeram
liberar 400 milhões de barris de suas reservas de petróleo, mas nem isso nem as
conversas sobre escolta conseguiram manter o preço baixo.
Em
longa reportagem, o jornal “New York Times” considera que “a administração
Trump parece não estar preparada para um choque do petróleo, nem para o Irã
usar o ponto de estrangulamento do estreito como moeda de troca, embora já
tenha feito isso no passado. O presidente Trump afirmou repetidamente que o
problema seria temporário, sugerindo que a guerra terminaria em breve.
Sexta-feira, Trump moderou seu apelo para que os iranianos se levantem contra
seus governantes, reconhecendo que seriam mortos a tiros. Ele oscilou entre
pedir a derrubada do governo teocrático iraniano e indicar que está disposto a
aceitar - como na Venezuela - uma nova liderança dentro do regime, desde que
cumpra as exigências dos EUA.
Em 28
de fevereiro, quando anunciou o início dos bombardeios EUA-Israel contra o Irã,
Trump disse que, quando isso estivesse concluído, o povo iraniano deveria tomar
o poder, "e será seu para tomar", discursou Mas há forças
governamentais no Irã que "andam por aí com metralhadoras", disse
Trump na sexta-feira, em entrevista à rádio Fox. "E eles dizem: 'Se alguém
protestar, vamos te matar na rua'", acrescentou. "Então, eu realmente
acho que isso é um grande obstáculo para quem não tem armas", opinou,
parecendo conclusão do “Pedro Bó”, o sábio.
No
início do ano, multidões de iranianos participaram de manifestações exigindo
mudança de governo, mas enfrentaram repressão brutal, enquanto as forças
governamentais mataram milhares de manifestantes e prenderam milhares de
outros. Donald Trump e seus conselheiros acreditaram na conversa de Benjamin
Netanyahu, de que atacar o Irã após dizimar a família do aiatolá Khamenei seria
quase tão fácil quanto invadir o Palácio Presidencial para sequestrar Nicolás
Maduro e senhora em Caracas, e tomar conta das reservas de petróleo da
Venezuela, as maiores do mundo. O Irã tem a 3ª reserva, mas o poder no país dos
aiatolás, de pouco menos de 90 milhões de habitantes, é da Guarda
Revolucionária, que possui um contingente de 14 milhões de membros. É um dos
maiores exércitos do mundo, que intimida a reação popular ao regime, como
reconheceu Trump.
Por
enorme erro de cálculo, a guerra já dura duas semanas e abala a economia
mundial. No desespero, para espanto dos aliados europeus, privados do gás
natural e do petróleo russos, no boicote ocidental e de países de economia
liberal à invasão de Vladimir Putin, em fevereiro de 2022, Trump fez um anúncio
inusitado sexta-feira: autorizou terceiros países a comprarem, durante 30 dias,
petróleo russo em águas internacionais. O sinal verde foi sobretudo para a
China e a Índia, mas contempla ainda Japão e países europeus. Putin comemorou:
os cofres russos terão reforço mensal de US$ 1,6 bilhão. A boa notícia, para o
governo Trump, incentivada pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent (e péssima
para a Ucrânia), foi transmitida esta semana, na Flórida, à delegação russa de
alto nível, pelo primeiro-genro Jared Kushner, o mesmo que negociou alianças
com os países árabes do Oriente Médio, atacados pelo Irã. Resta saber se abre
caminho à paz na Ucrânia.
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'Cinema Paradiso' em 'O Agente Secreto'
Há
muitas leituras no multifacetado “O Agente Secreto”, que concorre a vários
prêmios no Oscar esta noite. Torço por ele, mas acho difícil o prêmio
principal. O diretor Kleber Mendonça usou o “non sense” dos suspenses de Alfred
Hitchcock com a entrada em cena da “Perna Cabeluda”, o equivalente recifense ao
famoso “Mão Branca” das execuções do Esquadrão da morte e das milícias no
Grande Rio, na mesma época da ditadura (anos 70).
Mas, me
chamou a atenção uma “sampleada” em “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore.
Assim como no filme italiano, há um menino (Toto) envolvido pela magia do
cinema no “Cinema Paradiso”, onde o terno projetista (Philippe Noiret) exercia
o papel de avô, na ausência do pai de Toto, morto na Segunda Guerra. Toto
aparece em três fases. Na infância, na adolescência (representado por Salvatore
Di Vita), quando se apaixona por Elena e parte para Roma. Lá se consagra como
grande cineasta (Salvatore Cascio), que só volta à pequena vila quando o
projetista morre e ele descobre, numa visita à sala de projeção, os arquivos
com as cenas censuradas (um beijo era proibido nos tempos do fascismo), que
geram a mais emocionante montagem do filme, ao som da comovente trilha sonora
de Ennio Morricone. Na terceira visão do filme, descobri em meio às lágrimas e
às legendas que o cineasta famoso reencontra a antiga paixão, Elena, num
mercado, mas nada mais rola.
Em “O
Agente Secreto”, o pai ausente Marcelo (Wagner Moura) vai de São Paulo a Recife
para reencontrar o pequeno Fernando (Enzo Nunes), de olhar penetrante como
Toto, que é cuidado pelo avô, “Seu Alexandre”, projetista do Cinema São Luiz de
Recife (a rede de Luiz Severiano Ribeiro sempre batizava de "São
Luiz" um dos cinemas nas capitais). Marcelo é morto em 1977, numa história
mal contada nas páginas de jornal (fato comum na Ditadura), e o pequeno
Fernando (Wagner Moura) ressurge 30 anos depois como um médico renomado, que
cuida de um hemocentro onde era o antigo cinema.
Fonte:
Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB

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