terça-feira, 17 de março de 2026

Maria Luiza Falcão: A diplomacia como negócio de família

Há momentos na política internacional em que a linha que separa o interesse público do interesse privado não apenas se torna difusa — ela simplesmente desaparece. É exatamente isso que parece estar acontecendo no governo de Donald Trump.

Uma reportagem recente do New York Times revelou que Jared Kushner — genro de Trump e enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio — está simultaneamente tentando captar bilhões de dólares para sua empresa privada de investimentos junto aos mesmos governos com os quais negocia diplomaticamente.

O episódio não é apenas embaraçoso. Ele é um retrato cristalino da transformação da política externa em negócio privado.

Segundo a investigação, Kushner está tentando levantar mais de 5 bilhões de dólares para sua firma de private equity, Affinity Partners, principalmente junto a fundos soberanos do Oriente Médio — os mesmos atores com quem ele negocia temas delicadíssimos de segurança internacional.Entre eles está o Public Investment Fund da Arábia Saudita, controlado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Esse fundo já investiu 2 bilhões de dólares na empresa de Kushner logo após o fim do primeiro governo Trump.

Ou seja: a porta giratória entre diplomacia e negócios não apenas continua aberta — ela está escancarada.

<><> O conflito de interesses mais escandaloso da diplomacia contemporânea

A situação é particularmente grave porque Kushner não é um simples empresário com conexões políticas. Ele exerce funções diplomáticas centrais.

Nos últimos meses, ele participou diretamente de negociações internacionais sensíveis:

•        conversas com o ministro das Relações Exteriores do Irã em Genebra

•        negociações envolvendo reféns em Gaza

•        tentativas de mediação entre Rússia e Ucrânia

•        participação na delegação oficial americana no Fórum Econômico Mundial de Davos

Em Davos, segundo o próprio New York Times, Kushner discutia ao mesmo tempo os planos geopolíticos dos Estados Unidos para Gaza e os planos de captar bilhões para sua empresa.

Em qualquer democracia funcional, isso seria considerado um conflito de interesses gritante.

Nos Estados Unidos de Trump, parece ser apenas mais um dia de trabalho.

<><> A privatização da política externa

O caso Kushner não é um desvio isolado. Ele revela algo mais profundo: a privatização da política externa americana.

 A diplomacia de uma potência global deveria ser guiada por interesses estratégicos nacionais, princípios institucionais e normas jurídicas.

No universo político criado por Trump, esses critérios parecem ter sido substituídos por algo muito mais simples: quem paga mais.

O Oriente Médio tornou-se um exemplo particularmente evidente dessa lógica. As mesmas monarquias petrolíferas que compram armamentos americanos e financiam projetos bilionários também aparecem agora como investidores privilegiados em empresas ligadas diretamente ao círculo familiar do presidente.

Nesse contexto, torna-se impossível separar:

•        decisões diplomáticas

•        interesses financeiros

•        relações pessoais

A política externa transforma-se, na prática, em um gigantesco mercado de influência.

<><> A promiscuidade entre poder e capital

Para compreender a gravidade do episódio, basta imaginar a situação inversa.

Imagine que um negociador chinês responsável por tratar de segurança energética no Golfo estivesse simultaneamente levantando bilhões de dólares para sua empresa privada junto aos mesmos governos com quem negocia.

Ou que um diplomata europeu conduzisse negociações de guerra enquanto captava investimentos pessoais entre os envolvidos no conflito.

O escândalo seria imediato.

Mas quando isso acontece no coração do poder americano, a reação institucional é surpreendentemente tímida.

Um grupo de vigilância ética em Washington já solicitou que Kushner seja submetido às mesmas regras de transparência financeira aplicadas a funcionários públicos.

Até agora, a Casa Branca sequer respondeu.

<><> O capitalismo político em sua forma mais nua

O episódio revela algo que vai muito além de um problema de ética pessoal.

Ele expõe uma transformação estrutural do capitalismo contemporâneo: a fusão entre poder político e acumulação privada de riqueza.

Não se trata mais apenas de lobby ou influência corporativa. Trata-se da captura direta do Estado por redes familiares e financeiras. Nesse modelo, o governo deixa de ser um instrumento de política pública e passa a funcionar como plataforma de negócios.

Diplomacia vira networking.

Conflitos internacionais tornam-se oportunidades de investimento.

E cargos públicos passam a funcionar como alavancas para captação de capital.

<><> Um império que já não disfarça

Durante décadas, os Estados Unidos se apresentaram como guardiões de regras institucionais, transparência e governança global.

Mas episódios como o de Jared Kushner mostram algo diferente: um sistema político cada vez mais dominado por interesses privados, redes familiares e grandes fortunas.

O problema não é apenas moral.

É geopolítico.

Porque quando a política externa da maior potência do planeta passa a se confundir com os interesses financeiros de um pequeno círculo de bilionários, a credibilidade internacional do país sofre um abalo profundo.

E quando a diplomacia se transforma em negócio de família, a pergunta inevitável deixa de ser diplomática.

Passa a ser histórica:

quem realmente governa — o Estado ou o capital?

•        O medo e o retrocesso anticivilizatório. Por João Antonio da Silva Filho

O termo anticivilizatório designa ações, projetos ou comportamentos que representam um retrocesso em relação aos avanços humanísticos, éticos e sociais conquistados ao longo da história. Civilização não é um estado natural da humanidade, mas uma construção coletiva e histórica erguida por meio de conflitos, pactos e instituições. Sempre que práticas políticas ou sociais passam a negar a dignidade humana, relativizar direitos fundamentais ou normalizar a violência como método de organização da vida pública, estamos diante de sinais claros de regressão civilizatória.

Nesse sentido, o anticivilizatório não se manifesta apenas em atos de brutalidade explícita. Ele também aparece quando se enfraquecem instituições democráticas, quando se banaliza o discurso de ódio ou quando se reduz o espaço da educação, da cultura e do pensamento crítico. São movimentos que corroem silenciosamente os pilares da convivência democrática e que reintroduzem na vida política a lógica da força, da exclusão e da intolerância.

A frase “Realmente, vivemos tempos sombrios”, associada ao poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht, tornou-se uma síntese emblemática de uma época em que a razão parecia sucumbir diante da barbárie. Brecht escreveu sob o impacto da ascensão do nazifascismo na Europa, quando regimes totalitários passaram a mobilizar o medo, a manipulação da informação — hoje muitas vezes identificada como fake news — e a violência para impor projetos políticos autoritários.

Ao denunciar aqueles “tempos sombrios”, Brecht não se referia apenas ao drama histórico de sua geração. Ele alertava para algo mais profundo: a fragilidade do processo civilizatório diante da tentação permanente do poder autoritário. O poeta percebia que, quando o medo se instala na política e a força substitui o direito, a civilização entra em estado de risco.

A retórica política que emergiu com a ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos, o recurso crescente ao uso da força contra regimes considerados adversários — como no episódio da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, realizada em 2026 por forças norte-americanas em uma operação militar que gerou forte debate internacional sobre violação da soberania venezuelana — e as intervenções militares envolvendo o Irã revelam a reedição de uma lógica geopolítica fundada na imposição de poder.

Esse tipo de prática remete à ideia de uma espécie de “polícia do mundo”, na qual interesses estratégicos de uma única nação passam a ser defendidos não por meio da diplomacia, mas pela pressão econômica, pela intimidação política e, em última instância, pela intervenção militar direta. Em tal cenário, o direito internacional e os mecanismos multilaterais cedem espaço à lógica da força, reintroduzindo tensões que desafiam o equilíbrio das relações internacionais construído no pós-Segunda Guerra Mundial.

Esse ambiente sugere um perigoso retorno a formas de organização política anteriores ao Iluminismo. Foi justamente o pensamento iluminista que inaugurou a tentativa de submeter o poder à razão e ao direito. A partir desse movimento histórico emergiram conceitos fundamentais como constitucionalismo, direitos fundamentais e limitação institucional do poder.

A organização política moderna passou então a se estruturar em Estados nacionais regidos por constituições, na divisão de poderes e no sistema de freios e contrapesos (checks and balances). Esses mecanismos foram concebidos para evitar a concentração arbitrária de autoridade e para assegurar que o poder fosse exercido sob vigilância institucional e jurídica.

No plano internacional, essa busca por equilíbrio institucional levou, após as tragédias da Segunda Guerra Mundial, à criação da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945. A Carta das Nações Unidas estabeleceu princípios destinados a orientar a convivência entre os povos: a igualdade soberana dos Estados, a solução pacífica dos conflitos, o respeito aos direitos humanos e a cooperação internacional como instrumentos para preservar a paz e a estabilidade global.

Esses marcos representam conquistas civilizatórias profundas. Eles surgiram da compreensão de que as diferenças são inerentes à condição humana e de que a política deve ser o espaço institucional para administrar essas diferenças sem recorrer à violência. Em outras palavras, a civilização avança quando transforma o conflito em diálogo e a divergência em negociação.

Nesse sentido, respeitar os Estados nacionais, a soberania e a autodeterminação dos povos tornou-se um dos pilares da ordem internacional contemporânea. Esses princípios foram concebidos justamente para impedir que interesses geopolíticos se imponham pela força, evitando que conflitos internacionais se convertam em guerras de dominação. No entanto, práticas unilaterais e intervenções políticas ou econômicas fora dos marcos multilaterais têm tensionado esse arranjo institucional — tendência que ganhou visibilidade com a ascensão de lideranças políticas que defendem uma política externa mais confrontacional.

Diante desse cenário, cresce a percepção de que o mundo precisa caminhar rumo a uma nova configuração geopolítica marcada pela multipolaridade. Diferentemente da hegemonia concentrada em um único centro de poder, um sistema multipolar pressupõe a existência de múltiplos polos de influência, capazes de equilibrar as relações internacionais e reduzir a tendência de imposições unilaterais no sistema global.

A multipolaridade, quando estruturada por regras e instituições, pode contribuir para limitar unilateralismos e fortalecer o diálogo entre diferentes civilizações e projetos políticos. Ela pode funcionar como um mecanismo de equilíbrio global, reduzindo a tentação de que qualquer potência se arrogue o direito de definir sozinha os rumos do mundo.

O desafio contemporâneo consiste, portanto, em preservar e aprofundar as conquistas civilizatórias acumuladas ao longo dos últimos séculos. Isso significa reafirmar o valor do direito internacional, fortalecer as instituições multilaterais e reconhecer que a diversidade política e cultural do mundo não é um obstáculo, mas uma condição da própria convivência humana.

Defender a civilização, portanto, é reafirmar a política como espaço legítimo de negociação entre as diferenças. É sustentar a diplomacia e o direito — e não a força das armas — como limites indispensáveis ao exercício do poder. É reconhecer, enfim, que a pluralidade não é ameaça, mas fundamento da própria democracia e condição essencial para que a humanidade avance sem sucumbir novamente às sombras da barbárie.

Quando a política abandona o diálogo e se rende à lógica da força, a civilização retrocede. E é justamente nesses momentos que a advertência de Brecht volta a nos interpelar: tempos sombrios não são apenas aqueles em que a violência se impõe — são aqueles em que a sociedade passa a aceitá-la como inevitável.

 

Fonte: Brasil 247

 

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