Juliano
Giassi Goularti: Uma semana sem impostos - da euforia ao colapso do Estado
A
crítica aos tributos é recorrente no debate público brasileiro. Em contextos de
crise fiscal, de deterioração percebida na qualidade dos serviços públicos ou
de elevada carga tributária, que em 2024 atingiu 32,32% do Produto Interno
Bruto (PIB), o maior nível registrado em mais de duas décadas, proliferam
discursos que propugnam a eliminação ou redução drástica dos impostos como
solução para os problemas econômicos e sociais do país. Nessa retórica, a ideia
de uma sociedade sem tributos é frequentemente apresentada como sinônimo de
liberdade econômica, prosperidade e eficiência alocativa.
Essa
visão, contudo, incorre em um equívoco analítico fundamental: ela desconsidera
que o funcionamento do Estado e da própria economia de mercado pressupõe a
existência de um fundo público financiado por tributos. A arrecadação
tributária não sustenta apenas políticas redistributivas e serviços públicos,
mas também as condições institucionais que tornam possível a atividade
econômica privada. Como demonstrou Paul Samuelson, a provisão de bens públicos
caracterizados pela não rivalidade e pela não exclusão no consumo não pode ser
adequadamente realizada pelo mercado, dada a impossibilidade de precificação
via mecanismo de preços e a inevitável ocorrência do comportamento de carona
(free rider). A tributação é, portanto, o mecanismo pelo qual a sociedade financia
coletivamente aquilo que o mercado, por sua própria natureza, é estruturalmente
incapaz de prover.
Para
tornar mais concretas as implicações dessa proposição teórica, este artigo
propõe um experimento mental: imaginar uma semana hipotética em que todos os
tributos são abolidos de forma imediata e integral. O que, no primeiro momento,
pode parecer um triunfo da liberdade econômica revela, ao longo de poucos dias,
suas contradições internas. A narrativa de sete dias permite compreender por
que a tributação não é apenas um instrumento de financiamento estatal, mas um
elemento estruturante da vida econômica e social, condição de possibilidade
tanto da proteção coletiva quanto do próprio capitalismo.
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Segunda-feira: a euforia da utopia
Na
manhã de segunda-feira, o anúncio ecoa por todo o país: os principais tributos
foram abolidos. O Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) e da Pessoa Jurídica
(IRPJ) deixam de existir. O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços
(ICMS) é extinto. O Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) é eliminado.
A carga que incidia sobre a renda, o consumo e a produção simplesmente se
dissolvem.
A
reação inicial é de euforia coletiva. Empresas celebram a redução abrupta de
custos operacionais e tributários. Consumidores antecipam preços menores.
Trabalhadores projetam salários líquidos maiores, agora livres da incidência do
imposto de renda. O ambiente econômico parece subitamente mais leve, e a
sensação predominante é de libertação. O sistema tributário, historicamente
percebido como complexo, oneroso e burocrático, parece ter sido superado. Para
muitos, a segunda-feira simboliza a realização de uma antiga utopia: uma
sociedade com menos Estado e mais mercado.
Essa
percepção, porém, dura pouco. Ela ignora que a euforia inicial é, em larga
medida, uma ilusão de curto prazo sustentada pela inércia das estruturas
institucionais previamente financiadas pelos tributos. A sensação de liberdade
econômica é real; a sustentabilidade dessa liberdade, não.
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Terça-feira: o silêncio do Estado
Já na
terça-feira, surgem os primeiros sinais de que algo essencial foi removido da
engrenagem institucional do país. Sem arrecadação, o Estado perde imediatamente
sua principal fonte de financiamento. Tesouros municipais, estaduais e federal
tornam-se incapazes de honrar compromissos básicos. O pagamento de salários do
funcionalismo público é suspenso: policiais, professores, médicos do sistema
público, servidores administrativos, juízes e promotores entram em estado de
incerteza funcional.
Em
pouco tempo, paralisações começam a ocorrer. Delegacias operam com efetivo
reduzido. Escolas públicas interrompem suas atividades. Hospitais restringem
atendimentos. Esse colapso operacional evidencia um fato frequentemente
negligenciado no debate público: o funcionamento cotidiano do Estado depende
diretamente e de forma contínua da arrecadação tributária. Sem recursos, a
máquina pública simplesmente deixa de operar e com ela, as condições mínimas de
ordem e previsibilidade que a atividade econômica privada requer.
O
silêncio institucional começa a se propagar.
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Quarta-feira: o colapso dos serviços essenciais
Na
quarta-feira, os efeitos tornam-se visíveis para toda a população. Escolas
públicas permanecem fechadas. Universidades e centros de pesquisa interrompem
projetos por falta de recursos. Hospitais enfrentam dificuldades crescentes:
sem orçamento para aquisição de medicamentos, equipamentos e insumos
hospitalares, atendimentos deixam de ser realizados e estoques se esgotam
rapidamente.
Programas
de vacinação são interrompidos. Laboratórios de pesquisa suspendem
experimentos. Projetos científicos e tecnológicos são paralisados. O impacto se
estende a áreas menos visíveis, mas igualmente críticas: vigilância sanitária,
fiscalização ambiental, controle de qualidade de alimentos, monitoramento
epidemiológico. Esses serviços configuram, na taxonomia de Richard Musgrave,
funções alocativas e distributivas do Estado que o mercado não tem incentivo
para prover de forma socialmente ótima. A ausência do fundo público, entendido
como a capacidade do Estado de intervir na economia por meio do orçamento
público, de políticas fiscais e monetárias e de empresas estatais, começa a
afetar diretamente o bem-estar da população e a produtividade do setor privado.
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Quinta-feira: a paralisia da infraestrutura
Na
quinta-feira, a deterioração atinge a infraestrutura física do país. Obras
públicas são imediatamente interrompidas. Estradas em manutenção ficam
abandonadas. Projetos de expansão logística são suspensos. Sem recursos para
conservação, rodovias deterioram-se rapidamente. Sistemas de iluminação pública
falham em diversas cidades. Serviços de manutenção urbana deixam de operar.
Portos
e estruturas logísticas enfrentam dificuldades operacionais. Sistemas de
fiscalização alfandegária e sanitária reduzem drasticamente sua capacidade de
atuação. A economia privada começa a perceber, de forma concreta, que sua
própria atividade depende dessas estruturas públicas: a logística torna-se mais
lenta e incerta, os custos de transporte aumentam e as cadeias produtivas
sofrem interrupções.
A
infraestrutura pública constitui, em termos econômicos, um insumo produtivo
para o setor privado. Sua ausência eleva os custos de transação, conceito
central na Nova Economia Institucional, e reduz a competitividade sistêmica da
economia. A ilusão de que o mercado poderia funcionar de forma totalmente
autônoma em relação ao Estado começa, nesse momento, a se desfazer de maneira
irreversível.
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Sexta-feira: o colapso da confiança
Na
sexta-feira, a crise assume dimensão financeira e internacional. Sem
arrecadação, o governo torna-se incapaz de honrar os compromissos da dívida
pública. O risco de default soberano torna-se iminente. Investidores nacionais
e estrangeiros passam a questionar a solvência do Estado. Agências de
classificação de risco rebaixam a credibilidade financeira do país. O acesso a
crédito internacional desaparece. Capitais migram para o exterior. A moeda
nacional sofre forte desvalorização.
A
confiança, elemento essencial para o funcionamento de qualquer sistema
econômico, começa a se dissipar. A economia moderna é, em sua essência, uma
economia de contratos e expectativas. Ela depende da estabilidade das regras,
da previsibilidade das instituições e da capacidade do Estado de garantir
compromissos intertemporais. Sem essa âncora institucional, os agentes
econômicos perdem o horizonte de planejamento e a disposição para investir.
Douglass
North, ao analisar o papel das instituições no desempenho econômico, demonstrou
que direitos de propriedade bem definidos e mecanismos confiáveis de
cumprimento contratual são condições necessárias para o crescimento econômico
sustentado. A erosão dessas condições que decorre diretamente da incapacidade
fiscal do Estado representa, portanto, não apenas uma crise de governança, mas
uma ruptura nas bases institucionais sobre as quais repousa a acumulação de
capital.
Sábado:
a desorganização do capitalismo
No
sábado, o problema deixa de ser apenas fiscal ou administrativo para tornar-se
estrutural. Sem um Estado funcional, não há garantia efetiva de direitos de
propriedade. Não há tribunais operando plenamente para resolver disputas
contratuais. Não há força policial suficiente para garantir a ordem pública e a
segurança dos ativos privados.
Contratos
comerciais tornam-se incertos. Investimentos são suspensos. Empresas passam a
operar em ambiente de extrema insegurança jurídica. A moeda perde credibilidade
como reserva de valor e meio de troca. Sem instituições capazes de garantir
estabilidade monetária e regulatória, as transações econômicas tornam-se
excessivamente arriscadas, e o sistema de preços, mecanismo central de
coordenação da economia de mercado, perde sua eficácia sinalizadora.
Nesse
ambiente, o próprio capitalismo começa a se desorganizar. O mercado,
frequentemente apresentado no debate público como alternativa ao Estado, revela
sua dependência profunda das instituições públicas que garantem regras,
contratos e estabilidade. Essa dependência não é acidental: ela é estrutural.
Como observou John Maynard Keynes, o Estado não é apenas um árbitro externo da
economia, mas um agente constitutivo de suas condições de funcionamento. Sem as
bases institucionais providas pelo fundo público, a economia de mercado não
consegue funcionar de maneira eficiente e, em última instância, não consegue
funcionar de forma alguma.
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Domingo: o retorno dos impostos
No
domingo, torna-se evidente que a experiência de uma semana sem impostos
conduziu o país a um estado de desorganização institucional e econômica
profunda. A população percebe que a ausência de tributos não significou
liberdade sustentável, mas sim o colapso progressivo das estruturas que
sustentam a vida coletiva e a atividade econômica privada.
O
Estado depende da arrecadação para existir e para cumprir suas funções
constitucionais. Sem recursos, ele não pode garantir segurança, justiça,
infraestrutura, saúde ou educação. Mas o mercado também depende do Estado: a
economia privada necessita de estabilidade institucional, segurança jurídica,
infraestrutura física e credibilidade financeira para operar de forma
eficiente. O fundo público, constituído pelos tributos, é precisamente o
mecanismo que sustenta essas estruturas.
A lição
do experimento mental é, portanto, dupla. Em primeiro lugar, ela é tributária:
sem arrecadação, o Estado colapsa e arrasta consigo os serviços essenciais que
a população demanda. Em segundo lugar, ela é institucional: sem o Estado, o
mercado perde as condições de possibilidade de seu próprio funcionamento.
Tributação e mercado não são, como sugere as forças antagônicas. São, ao
contrário, elementos complementares e mutuamente constitutivos de uma ordem
econômica moderna.
A
utopia de uma sociedade sem impostos revela-se, assim, não apenas inviável do
ponto de vista tributário, mas contraditória em seus próprios termos: ao
eliminar o Estado, ela elimina também as condições institucionais que tornam
possível a liberdade o processo civilizatório. Impostos não são o custo da vida
em sociedade. São a organização institucional que torna possível tanto a
proteção social quanto o funcionamento da economia de mercado, da sociedade
civil e da civilidade.
• A mobilização popular, as redes sociais
e a justiça no Brasil. Por Vanessa Carvalho
Acontecimentos
recentes em nosso país revelam uma verdade sobre a pressão popular: ela tem
contribuído significativamente para a busca pela justiça.
Com uma
população superior a 213 milhões de habitantes no Brasil, segundo dados do
IBGE, é possível afirmar que, embora a grande maioria não possua expertise
técnica para analisar processos judiciários, os movimentos sociais refletem de
forma positiva em casos de crimes que poderiam ficar sem a devida penalidade.
O caso
do piloto e empresário de 19 anos, detido após causar lesão corporal gravíssima
contra um adolescente por causa de um chiclete, chamou a atenção nas redes
sociais. Inicialmente, ele foi solto pagando a fiança de R$ 24.315,00, enquanto
a vítima permanecia internada em estado grave. A mídia divulgou imagens da
agressão e ressaltou o estado crítico do jovem, o que encorajou outras vítimas
a denunciarem o agressor. Sete dias após o ocorrido e em virtude de novas
denúncias, a justiça decretou a prisão preventiva do suspeito para a
investigação de mais quatro crimes de agressão.
Outro
caso de grande repercussão foi o do gari Laudemir, de 44 anos, brutalmente
assassinado durante o expediente pelo simples fato de estar trabalhando. O
assassino confesso, um empresário casado com uma delegada de polícia,
irritou-se por ter de aguardar o término da coleta de lixo na rua, já que o
caminhão impedia a passagem de veículos. Após a discussão, ele atirou no gari e
fugiu sem prestar socorro, sendo preso horas depois em uma academia. A
mobilização nas redes sociais e na mídia foi decisiva para evitar a concessão
de benefícios ao acusado; além disso, a família da vítima recebeu representação
jurídica gratuita e o caso foi levado a júri popular.
O
chocante episódio dos adolescentes suspeitos de agredir o cão comunitário
“Orelha”, ocasionando sua morte, reforça a pressão popular como garantidora da
justiça. Os envolvidos pertencem a famílias com recursos financeiros e contatos
que poderiam influenciar o desfecho do caso, seja pela exclusão de provas ou
ameaça a testemunhas, mas a exposição midiática reforça a certeza de que o
crime não ficará impune. Como reflexo, as empresas das famílias tiveram seus
nomes divulgados e perderam parceiros comerciais.
Esses
fatos ocorreram no Distrito Federal, em Minas Gerais e em Santa Catarina, mas
as mobilizações ecoaram em todo o Brasil, ganhando visibilidade internacional e
apoio de figuras públicas, como famosos e políticos.
Embora
não exista verdade absoluta nos fatos, uma vez que nem os direitos fundamentais
garantidos pela Constituição são absolutos, uma certeza permanece: quando a
sociedade se une, a busca pela justiça progride.
Fonte:
Le Monde

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