terça-feira, 17 de março de 2026

Evaldo Luis Pauly: A jornada 5×2

Um dia de descanso é direito trabalhista e dever patronal praticamente homogêneo no Ocidente desde o início do século XX. O direito a um dia de descanso é antiga tradição da religiosidade judaico-cristã, pelo menos, desde o século XIII a. C. No sábado, as famílias celebravam a libertação do Egito (Deuteronômio 5,12-15) quando o grupo de Moisés liderou a resistência político-religiosa das tribos hebreias contra os trabalhos forçados impostos pela corte do Faraó Ramsés II.

Mais tarde, no século VIII a.C. no contexto do exílio babilônico, os redatores de Gênesis 2,1 concluem a narrativa da criação confessando que Deus, no sétimo dia, “descansou de toda a obra”.

No século V a.C., depois do retorno do exílio, nas inúmeras celebrações litúrgicas, o povo de Deus cantava o Salmo 146,7-9 lembrando que aquele mesmo Deus Criador testemunhado na Babilônia e, agora, presente em Jerusalém “faz justiça aos oprimidos”, “dá pão aos famintos”, “levanta os abatidos”, “ama os justos”, “guarda os estrangeiros; ampara o órfão e a viúva, mas transtorna o caminho dos ímpios”, nessas obras Deus não quer descansar.

Ora, Deus é capaz de criar o Universo a partir do caos e nessa obra se dá ao direito de descansar. Se Deus todo-poderoso descansa, imagine seu povo! O “sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas” (Êxodo 20,10). O dia de descanso da família trabalhadora exige total e radical observância sendo, portanto um bem-vindo direito obrigatório.

No primeiro século de nossa era, alguns fariseus acusaram Jesus de não guardar o sábado. Ele aceita a crítica e a radicaliza no interesse religioso completamente oposto ao do farisaísmo: “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado” (Marcos 2,27). Formulando em termos da atual teoria constitucionalista: o descanso (o sábado) é um direito público subjetivo. Em outra discussão, Jesus questiona esses líderes religiosos: “É lícito nos sábados fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou matá-la?” (Marcos 3,4).

No século II d. C., os cristãos começam a abandonar os rituais religiosos do judaísmo, mas, apesar disso, algumas comunidades cristãs mantêm a guarda do sábado e, ao mesmo tempo, passam a celebrar refeições coletivas no domingo quando repartem pão e bebem vinho em memória de Cristo.

Jesus estabeleceu uma leitura cristã do Antigo Testamento em perspectiva libertadora. Essa chave hermenêutica aparece nas inúmeras vezes em que o Mestre usa a fórmula “ouvistes que foi dito (…) Eu, porém, vos digo: …” (Mateus 5; Marcos 10; Lucas 6). Jesus rompeu com muitas prescrições morais e religiosas estabelecidas pelo Antigo Testamento.

Esse rompimento de Jesus com a religiosidade judaica permitirá que as comunidades cristãs reinterpretem as tradições do Antigo Testamento sempre no sentido de ampliar o direito à liberdade dos crentes em Jesus. É o que aconselha o Apóstolo Paulo, advertindo que “falsos irmãos que se entremeteram com o fim de espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus e reduzir-nos à escravidão” (Gálatas 2,4). Mais adiante, na mesma carta, Paulo pede aos cristãos que “não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão (5,1).

Nenhum crente em Jesus exige que uma pessoa, crente ou descrente, trabalhe até a exaustão, pelo contrário, é Jesus quem convida: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11,28). Todas as pessoas podem descansar, em particular as cristãs porque precisam preservar seus corpos criados por Deus à sua divina imagem. Usufruir do descanso é um ato de amor ao próprio corpo.

Para a fé cristã a falta de amor próprio é um pecado grave porque é mortal, pode levar à morte. A negação do amor próprio provoca a sujeição de si ao espírito maligno da autodesvalia que abate a alma dos oprimidos, espírito do mal pelo qual a pessoa sujeita-se à incapacidade de amar a si mesma e a quem está próximo.

Na releitura de Jesus o mandamento é “Ame o seu próximo como a si mesmo” (Mateus 22.39) que supera o preconceito étnico do judaísmo implícito em Levítico 19.18 “Não te vingarás nem guardarás rancor contra alguém do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo”. A cruz imposta pelos líderes do Templo e pelo imperialismo romano, tornou-se o único sacrifício necessário para a salvação universal. A salvação pela cruz é fruto da graça e da gratuidade. A “paz pelo sangue da sua cruz” produz a reconciliação de “todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus” (Colossenses 1.2).

A desvalia, a falta de amor próprio são fenômenos psicossociais que viabilizam a exploração exaustiva do trabalho com pouco ou nenhum descanso. A falta de amor próprio atrapalha ou mesmo impede que a família trabalhadora deseje usufruir com prazer e alegria do tempo suficiente para bem viver como filhos e filhas de Deus. O descanso é um direito divino conforme a Bíblia.

Pela análise pedagógica de Paulo Freire, a desvalia é a introjeção do opressor pelo próprio oprimido. Quem não ama a si mesmo não se dá o direito de ser feliz. Se é incapaz ou incapacitado para amar-se, como usufruirá de tempo livre? Como desfrutará do prazer da convivência familiar e comunitária? As políticas públicas de caráter democrático e humanista promovem uma espécie de plusvalia nas classes trabalhadoras, em oposição à desvalia disseminada pelos opressores e introjetada pelos oprimidos.

A ampliação de um para dois dias de descanso é, por óbvio, mais compatível com a teologia de Jesus que, contra fariseus e saduceus, considerava “lícito” fazer o bem aos sábados. Ora, se o descanso de um dia faz bem, parece mais do que claro, dois dias fazem um bem maior. Para Jesus e para seus crentes, o maior bem do próximo é uma alusão espaço-temporal que vai quase no sentido contemporâneo de classe social.

Lucas 10, 25-37 narra a polêmica de Jesus contra um jurista do Templo que pergunta a Jesus quem é “o meu próximo?” Jesus conta a parábola do Bom Samaritano. A classe sacerdotal de Jerusalém considerava os Samaritanos pessoas inferiores e tipificava como supersticiosa a religião praticada por essa gente no templo do Monte Garizim na Samaria. Para Jesus, esses supersticiosos praticam a vontade de Deus melhor do que o sacerdote e o religioso. Para Jesus e para o bom samaritano, próximo é o oprimido que necessita da solidariedade de outro oprimido.

Há 3,4 milênios o povo de Deus luta pelo descanso de, pelo menos, um dia desde quando sofreu a escravidão no Egito, no exílio da Babilônia, sob o militarismo de Roma, na servidão medieval e no trabalho assalariado moderno.

Depois de tanto tempo, está mais do que na hora de ampliar o descanso da classe trabalhadora. A jornada 5 x 2 sem redução de salário honra a herança milenar do descanso divino. Parodiando Jesus diante dos fariseus de nossa época que defendem o trabalho exaustivo: É lícito ou ilícito conceder dois dias de descanso para a classe trabalhadora? O descanso faz bem ou faz mal? É óbvio que reduzir a carga horária vai afetar a margem de lucro da classe empresarial. O Bom Samaritano não se importou com o aumento nas suas despesas para ajudar o próximo.

Tradicionalmente, a doutrina social das igrejas cristãs históricas exige que o Estado democrático de direito nas repúblicas laicas submeta-se aos valores da família, pelos quais as igrejas se sentem teologicamente responsáveis. A Constituição brasileira de 1988 assumiu uma definição constitucional de família que avançou para além da concepção eclesiástica.

Pelo artigo 226 da Constituição de 1988, a família tornou-se mais inclusiva e menos preconceituosa ao garantir igualdade de direitos e deveres entre homem e mulher na sociedade conjugal; consagrou o direito ao divórcio; afirmou o planejamento familiar como livre decisão do casal, proibindo as práticas coercitivas do controle da natalidade e previu mecanismos para coibir a violência no interior da família.

Ora, a jornada 5×2 tem exatamente os mesmos objetivos quando propõe aumento no tempo de convívio familiar. Cristão que defende o amor pela sua família e pela família do próximo defende a jornada 5 x 2 para si próprio e para os demais trabalhadores.

Pelo menos desde a fundação do Conselho Mundial das Igrejas em 1948 e do Concílio Vaticano II a partir de 1962, a teologia protestante tradicional e a doutrina social da igreja católica apoiam as mudanças políticas que favoreçam a liberdade humana através do permanente processo de aperfeiçoamento e de ampliação dos direitos das pessoas.

Neste aspecto, as igrejas tradicionais não são revolucionárias e muito menos se alinham com a esquerda. A redução da jornada de trabalho é uma tradição do capitalismo norte-americano. Henry Ford adotou a jornada de 40 horas semanais em 1926!

•        Apoio ao fim da escala 6×1 cresce e alcança 71% dos brasileiros

O debate sobre a extinção da jornada de trabalho 6×1 (seis dias de atividade para um de descanso) consolidou-se na opinião pública brasileira. Segundo pesquisa Datafolha realizada entre os dias 3 e 5 de março, 71% dos brasileiros defendem a redução do número máximo de dias trabalhados por semana. O índice revela um crescimento no suporte à medida em comparação a dezembro de 2024, quando o apoio era de 64%.

A proposta, que ganha tração no Congresso Nacional, sugere a transição para o modelo 5×2, limitando a jornada a 40 horas semanais sem redução salarial. Atualmente, o tema é tratado como prioridade pelo Palácio do Planalto, que enxerga na pauta um forte apelo popular em ano eleitoral.

<><> Divisões por perfil e renda

Curiosamente, o levantamento mostra que quem já usufrui de jornadas menores é mais favorável à mudança do que aqueles que estão submetidos à escala 6×1. Entre os que trabalham até cinco dias por semana, o apoio chega a 76%. Já entre os que trabalham seis ou sete dias, o índice cai para 68%.

A diferença é explicada pela composição do mercado: o grupo com jornadas extensas concentra mais autônomos e microempreendedores, que associam o tempo de trabalho diretamente à renda.

<><> Impacto social e gênero

O recorte de gênero evidencia que as mulheres são as principais entusiastas da proposta: 77% são favoráveis, contra 64% dos homens. O dado corrobora o discurso do presidente Lula (PT), que em pronunciamento recente destacou que a redução da jornada aliviaria a sobrecarga feminina com tarefas domésticas.

No campo geracional, a adesão é massiva entre os jovens de 16 a 24 anos (83%), diminuindo progressivamente conforme a idade avança, chegando a 55% entre os idosos com 60 anos ou mais.

<><> Incerteza econômica e polarização

Apesar do otimismo quanto à qualidade de vida, 76% acreditam que a mudança será benéfica para o bem-estar pessoal, o impacto nas empresas ainda divide a população. Exatos 39% preveem efeitos positivos para o setor privado, enquanto outros 39% temem consequências negativas. No entanto, quando a análise foca na economia nacional como um todo, metade dos entrevistados (50%) projeta um cenário “ótimo ou bom” com a nova regra.

A polarização política também molda as opiniões. O apoio ao fim da escala 6×1 é de 82% entre eleitores do presidente Lula, caindo para 55% entre aqueles que votaram em Jair Bolsonaro (PL) em 2022.

<><> Próximos passos no Legislativo

A pressão das ruas começa a ecoar na Câmara dos Deputados. Na última terça-feira (10), a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) realizou a primeira audiência pública para discutir as propostas de emenda à Constituição (PECs) que tratam do tema. O avanço no colegiado é considerado o passo fundamental para que a matéria siga para votação em plenário, onde precisará de quórum qualificado para alterar a CLT e a Constituição Federal.

O Datafolha entrevistou 2.004 pessoas de 16 anos ou mais em 137 municípios brasileiros. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%.

•        Mais empregos, mais consumo: efeitos do fim da 6x1. Por Julimar Roberto

Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um cenário positivo para o comércio brasileiro. Em janeiro deste ano, o volume de vendas do varejo cresceu 0,4% em relação ao mês anterior e atingiu o maior patamar da série histórica iniciada em 2000, igualando o recorde registrado em novembro de 2025. Na comparação ao mesmo período no ano passado, o avanço foi de 2,8%.

Esses números revelam um setor dinâmico, com forte capacidade de geração de renda e empregos, mas também reforçam um debate cada vez mais necessário.  Como garantir que esse crescimento econômico seja acompanhado por melhores condições de trabalho para quem sustenta o funcionamento do comércio diariamente?

É inegável dizer que a proposta que mais ganha força nesse debate é o fim da escala 6x1 — modelo em que o trabalhador e a trabalhadora enfrentam uma jornada de trabalho por seis dias consecutivos e descansam apenas um. Embora parte do empresariado costume reagir a mudanças trabalhistas com previsões de crise ou desemprego, estudos recentes indicam justamente o contrário.

 Um levantamento do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), da Universidade Estadual de Campinas, aponta que a redução da jornada de trabalho pode gerar cerca de 4,5 milhões de novos empregos no Brasil. O próprio estudo identifica que grande parte dessas novas vagas surgiriam justamente em setores aquecidos da economia, como comércio e serviços.

A lógica é que se a jornada diminui, as empresas precisam contratar mais trabalhadores e trabalhadoras para manter o funcionamento das atividades. Ao mesmo tempo, funcionários menos cansados tendem a produzir mais e melhor. O estudo também estima um aumento de cerca de 4% na produtividade, resultado associado a melhores condições de trabalho, maior descanso e menor estresse. Ou seja, não haveria prejuízos para as empresas.

Além disso, jornadas mais equilibradas tornam o emprego formal mais atrativo, especialmente para os jovens. Segundo dados do IBGE, cerca de 21 milhões de brasileiros trabalham mais de 44 horas semanais, ultrapassando o limite previsto pela legislação trabalhista. Esse cenário contribui para afastar parte da força de trabalho do emprego formal ou aumentar a rotatividade — um custo que também pesa para as empresas.

A experiência histórica brasileira também oferece pistas importantes. Quando a Constituição de 1988 reduziu a jornada semanal de 48 para 44 horas, o país registrou aumento da produtividade ao longo da década seguinte, além de expansão do emprego e redução da informalidade. Ou seja, ampliar direitos não paralisou a economia; ao contrário, ajudou a fortalecê-la.

Há ainda um efeito indireto frequentemente ignorado no debate, mais tempo livre gera mais consumo. Trabalhadores e trabalhadoras que têm folga real conseguem frequentar restaurantes, viajar, praticar esportes, estudar ou participar de atividades culturais. Tudo isso movimenta novos setores da economia e retroalimenta o próprio comércio.

Em um momento em que o varejo brasileiro mostra sinais claros de recuperação e crescimento, discutir o fim da escala 6x1 deixa de ser apenas uma pauta trabalhista. Trata-se de uma oportunidade de modernizar as relações de trabalho, ampliar empregos e fortalecer o mercado consumidor.

No fim, a conta é bem simples. Trabalhadores e trabalhadoras com mais tempo, saúde e dignidade consomem mais, produzem melhor e permanecem mais tempo nos empregos. Quando isso acontece, ganha a classe trabalhadora e também os patrões.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Jornal GGN

 

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