Evaldo
Luis Pauly: A jornada 5×2
Um dia
de descanso é direito trabalhista e dever patronal praticamente homogêneo no
Ocidente desde o início do século XX. O direito a um dia de descanso é antiga
tradição da religiosidade judaico-cristã, pelo menos, desde o século XIII a. C.
No sábado, as famílias celebravam a libertação do Egito (Deuteronômio 5,12-15)
quando o grupo de Moisés liderou a resistência político-religiosa das tribos
hebreias contra os trabalhos forçados impostos pela corte do Faraó Ramsés II.
Mais
tarde, no século VIII a.C. no contexto do exílio babilônico, os redatores de
Gênesis 2,1 concluem a narrativa da criação confessando que Deus, no sétimo
dia, “descansou de toda a obra”.
No
século V a.C., depois do retorno do exílio, nas inúmeras celebrações
litúrgicas, o povo de Deus cantava o Salmo 146,7-9 lembrando que aquele mesmo
Deus Criador testemunhado na Babilônia e, agora, presente em Jerusalém “faz
justiça aos oprimidos”, “dá pão aos famintos”, “levanta os abatidos”, “ama os
justos”, “guarda os estrangeiros; ampara o órfão e a viúva, mas transtorna o
caminho dos ímpios”, nessas obras Deus não quer descansar.
Ora,
Deus é capaz de criar o Universo a partir do caos e nessa obra se dá ao direito
de descansar. Se Deus todo-poderoso descansa, imagine seu povo! O “sétimo dia é
o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem
tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu
estrangeiro, que está dentro das tuas portas” (Êxodo 20,10). O dia de descanso
da família trabalhadora exige total e radical observância sendo, portanto um
bem-vindo direito obrigatório.
No
primeiro século de nossa era, alguns fariseus acusaram Jesus de não guardar o
sábado. Ele aceita a crítica e a radicaliza no interesse religioso
completamente oposto ao do farisaísmo: “o sábado foi feito para o homem e não o
homem para o sábado” (Marcos 2,27). Formulando em termos da atual teoria
constitucionalista: o descanso (o sábado) é um direito público subjetivo. Em
outra discussão, Jesus questiona esses líderes religiosos: “É lícito nos
sábados fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou matá-la?” (Marcos 3,4).
No
século II d. C., os cristãos começam a abandonar os rituais religiosos do
judaísmo, mas, apesar disso, algumas comunidades cristãs mantêm a guarda do
sábado e, ao mesmo tempo, passam a celebrar refeições coletivas no domingo
quando repartem pão e bebem vinho em memória de Cristo.
Jesus
estabeleceu uma leitura cristã do Antigo Testamento em perspectiva libertadora.
Essa chave hermenêutica aparece nas inúmeras vezes em que o Mestre usa a
fórmula “ouvistes que foi dito (…) Eu, porém, vos digo: …” (Mateus 5; Marcos
10; Lucas 6). Jesus rompeu com muitas prescrições morais e religiosas
estabelecidas pelo Antigo Testamento.
Esse
rompimento de Jesus com a religiosidade judaica permitirá que as comunidades
cristãs reinterpretem as tradições do Antigo Testamento sempre no sentido de
ampliar o direito à liberdade dos crentes em Jesus. É o que aconselha o
Apóstolo Paulo, advertindo que “falsos irmãos que se entremeteram com o fim de
espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus e reduzir-nos à
escravidão” (Gálatas 2,4). Mais adiante, na mesma carta, Paulo pede aos
cristãos que “não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão (5,1).
Nenhum
crente em Jesus exige que uma pessoa, crente ou descrente, trabalhe até a
exaustão, pelo contrário, é Jesus quem convida: “Vinde a mim, todos os que
estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11,28). Todas as
pessoas podem descansar, em particular as cristãs porque precisam preservar
seus corpos criados por Deus à sua divina imagem. Usufruir do descanso é um ato
de amor ao próprio corpo.
Para a
fé cristã a falta de amor próprio é um pecado grave porque é mortal, pode levar
à morte. A negação do amor próprio provoca a sujeição de si ao espírito maligno
da autodesvalia que abate a alma dos oprimidos, espírito do mal pelo qual a
pessoa sujeita-se à incapacidade de amar a si mesma e a quem está próximo.
Na
releitura de Jesus o mandamento é “Ame o seu próximo como a si mesmo” (Mateus
22.39) que supera o preconceito étnico do judaísmo implícito em Levítico 19.18
“Não te vingarás nem guardarás rancor contra alguém do teu povo, mas amarás o
teu próximo como a ti mesmo”. A cruz imposta pelos líderes do Templo e pelo
imperialismo romano, tornou-se o único sacrifício necessário para a salvação
universal. A salvação pela cruz é fruto da graça e da gratuidade. A “paz pelo
sangue da sua cruz” produz a reconciliação de “todas as coisas, quer sobre a
terra, quer nos céus” (Colossenses 1.2).
A
desvalia, a falta de amor próprio são fenômenos psicossociais que viabilizam a
exploração exaustiva do trabalho com pouco ou nenhum descanso. A falta de amor
próprio atrapalha ou mesmo impede que a família trabalhadora deseje usufruir
com prazer e alegria do tempo suficiente para bem viver como filhos e filhas de
Deus. O descanso é um direito divino conforme a Bíblia.
Pela
análise pedagógica de Paulo Freire, a desvalia é a introjeção do opressor pelo
próprio oprimido. Quem não ama a si mesmo não se dá o direito de ser feliz. Se
é incapaz ou incapacitado para amar-se, como usufruirá de tempo livre? Como
desfrutará do prazer da convivência familiar e comunitária? As políticas
públicas de caráter democrático e humanista promovem uma espécie de plusvalia
nas classes trabalhadoras, em oposição à desvalia disseminada pelos opressores
e introjetada pelos oprimidos.
A
ampliação de um para dois dias de descanso é, por óbvio, mais compatível com a
teologia de Jesus que, contra fariseus e saduceus, considerava “lícito” fazer o
bem aos sábados. Ora, se o descanso de um dia faz bem, parece mais do que
claro, dois dias fazem um bem maior. Para Jesus e para seus crentes, o maior
bem do próximo é uma alusão espaço-temporal que vai quase no sentido
contemporâneo de classe social.
Lucas
10, 25-37 narra a polêmica de Jesus contra um jurista do Templo que pergunta a
Jesus quem é “o meu próximo?” Jesus conta a parábola do Bom Samaritano. A
classe sacerdotal de Jerusalém considerava os Samaritanos pessoas inferiores e
tipificava como supersticiosa a religião praticada por essa gente no templo do
Monte Garizim na Samaria. Para Jesus, esses supersticiosos praticam a vontade
de Deus melhor do que o sacerdote e o religioso. Para Jesus e para o bom
samaritano, próximo é o oprimido que necessita da solidariedade de outro
oprimido.
Há 3,4
milênios o povo de Deus luta pelo descanso de, pelo menos, um dia desde quando
sofreu a escravidão no Egito, no exílio da Babilônia, sob o militarismo de
Roma, na servidão medieval e no trabalho assalariado moderno.
Depois
de tanto tempo, está mais do que na hora de ampliar o descanso da classe
trabalhadora. A jornada 5 x 2 sem redução de salário honra a herança milenar do
descanso divino. Parodiando Jesus diante dos fariseus de nossa época que
defendem o trabalho exaustivo: É lícito ou ilícito conceder dois dias de
descanso para a classe trabalhadora? O descanso faz bem ou faz mal? É óbvio que
reduzir a carga horária vai afetar a margem de lucro da classe empresarial. O
Bom Samaritano não se importou com o aumento nas suas despesas para ajudar o
próximo.
Tradicionalmente,
a doutrina social das igrejas cristãs históricas exige que o Estado democrático
de direito nas repúblicas laicas submeta-se aos valores da família, pelos quais
as igrejas se sentem teologicamente responsáveis. A Constituição brasileira de
1988 assumiu uma definição constitucional de família que avançou para além da
concepção eclesiástica.
Pelo
artigo 226 da Constituição de 1988, a família tornou-se mais inclusiva e menos
preconceituosa ao garantir igualdade de direitos e deveres entre homem e mulher
na sociedade conjugal; consagrou o direito ao divórcio; afirmou o planejamento
familiar como livre decisão do casal, proibindo as práticas coercitivas do
controle da natalidade e previu mecanismos para coibir a violência no interior
da família.
Ora, a
jornada 5×2 tem exatamente os mesmos objetivos quando propõe aumento no tempo
de convívio familiar. Cristão que defende o amor pela sua família e pela
família do próximo defende a jornada 5 x 2 para si próprio e para os demais
trabalhadores.
Pelo
menos desde a fundação do Conselho Mundial das Igrejas em 1948 e do Concílio
Vaticano II a partir de 1962, a teologia protestante tradicional e a doutrina
social da igreja católica apoiam as mudanças políticas que favoreçam a
liberdade humana através do permanente processo de aperfeiçoamento e de
ampliação dos direitos das pessoas.
Neste
aspecto, as igrejas tradicionais não são revolucionárias e muito menos se
alinham com a esquerda. A redução da jornada de trabalho é uma tradição do
capitalismo norte-americano. Henry Ford adotou a jornada de 40 horas semanais
em 1926!
• Apoio ao fim da escala 6×1 cresce e
alcança 71% dos brasileiros
O
debate sobre a extinção da jornada de trabalho 6×1 (seis dias de atividade para
um de descanso) consolidou-se na opinião pública brasileira. Segundo pesquisa
Datafolha realizada entre os dias 3 e 5 de março, 71% dos brasileiros defendem
a redução do número máximo de dias trabalhados por semana. O índice revela um
crescimento no suporte à medida em comparação a dezembro de 2024, quando o
apoio era de 64%.
A
proposta, que ganha tração no Congresso Nacional, sugere a transição para o
modelo 5×2, limitando a jornada a 40 horas semanais sem redução salarial.
Atualmente, o tema é tratado como prioridade pelo Palácio do Planalto, que
enxerga na pauta um forte apelo popular em ano eleitoral.
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Divisões por perfil e renda
Curiosamente,
o levantamento mostra que quem já usufrui de jornadas menores é mais favorável
à mudança do que aqueles que estão submetidos à escala 6×1. Entre os que
trabalham até cinco dias por semana, o apoio chega a 76%. Já entre os que
trabalham seis ou sete dias, o índice cai para 68%.
A
diferença é explicada pela composição do mercado: o grupo com jornadas extensas
concentra mais autônomos e microempreendedores, que associam o tempo de
trabalho diretamente à renda.
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Impacto social e gênero
O
recorte de gênero evidencia que as mulheres são as principais entusiastas da
proposta: 77% são favoráveis, contra 64% dos homens. O dado corrobora o
discurso do presidente Lula (PT), que em pronunciamento recente destacou que a
redução da jornada aliviaria a sobrecarga feminina com tarefas domésticas.
No
campo geracional, a adesão é massiva entre os jovens de 16 a 24 anos (83%),
diminuindo progressivamente conforme a idade avança, chegando a 55% entre os
idosos com 60 anos ou mais.
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Incerteza econômica e polarização
Apesar
do otimismo quanto à qualidade de vida, 76% acreditam que a mudança será
benéfica para o bem-estar pessoal, o impacto nas empresas ainda divide a
população. Exatos 39% preveem efeitos positivos para o setor privado, enquanto
outros 39% temem consequências negativas. No entanto, quando a análise foca na
economia nacional como um todo, metade dos entrevistados (50%) projeta um
cenário “ótimo ou bom” com a nova regra.
A
polarização política também molda as opiniões. O apoio ao fim da escala 6×1 é
de 82% entre eleitores do presidente Lula, caindo para 55% entre aqueles que
votaram em Jair Bolsonaro (PL) em 2022.
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Próximos passos no Legislativo
A
pressão das ruas começa a ecoar na Câmara dos Deputados. Na última terça-feira
(10), a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) realizou a primeira audiência
pública para discutir as propostas de emenda à Constituição (PECs) que tratam
do tema. O avanço no colegiado é considerado o passo fundamental para que a
matéria siga para votação em plenário, onde precisará de quórum qualificado
para alterar a CLT e a Constituição Federal.
O
Datafolha entrevistou 2.004 pessoas de 16 anos ou mais em 137 municípios
brasileiros. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para
menos. O nível de confiança é de 95%.
• Mais empregos, mais consumo: efeitos do
fim da 6x1. Por Julimar Roberto
Dados
recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um
cenário positivo para o comércio brasileiro. Em janeiro deste ano, o volume de
vendas do varejo cresceu 0,4% em relação ao mês anterior e atingiu o maior
patamar da série histórica iniciada em 2000, igualando o recorde registrado em
novembro de 2025. Na comparação ao mesmo período no ano passado, o avanço foi
de 2,8%.
Esses
números revelam um setor dinâmico, com forte capacidade de geração de renda e
empregos, mas também reforçam um debate cada vez mais necessário. Como garantir que esse crescimento econômico
seja acompanhado por melhores condições de trabalho para quem sustenta o
funcionamento do comércio diariamente?
É
inegável dizer que a proposta que mais ganha força nesse debate é o fim da
escala 6x1 — modelo em que o trabalhador e a trabalhadora enfrentam uma jornada
de trabalho por seis dias consecutivos e descansam apenas um. Embora parte do
empresariado costume reagir a mudanças trabalhistas com previsões de crise ou
desemprego, estudos recentes indicam justamente o contrário.
Um levantamento do Centro de Estudos Sindicais
e de Economia do Trabalho (Cesit), da Universidade Estadual de Campinas, aponta
que a redução da jornada de trabalho pode gerar cerca de 4,5 milhões de novos
empregos no Brasil. O próprio estudo identifica que grande parte dessas novas
vagas surgiriam justamente em setores aquecidos da economia, como comércio e
serviços.
A
lógica é que se a jornada diminui, as empresas precisam contratar mais
trabalhadores e trabalhadoras para manter o funcionamento das atividades. Ao
mesmo tempo, funcionários menos cansados tendem a produzir mais e melhor. O
estudo também estima um aumento de cerca de 4% na produtividade, resultado
associado a melhores condições de trabalho, maior descanso e menor estresse. Ou
seja, não haveria prejuízos para as empresas.
Além
disso, jornadas mais equilibradas tornam o emprego formal mais atrativo,
especialmente para os jovens. Segundo dados do IBGE, cerca de 21 milhões de
brasileiros trabalham mais de 44 horas semanais, ultrapassando o limite
previsto pela legislação trabalhista. Esse cenário contribui para afastar parte
da força de trabalho do emprego formal ou aumentar a rotatividade — um custo
que também pesa para as empresas.
A
experiência histórica brasileira também oferece pistas importantes. Quando a
Constituição de 1988 reduziu a jornada semanal de 48 para 44 horas, o país
registrou aumento da produtividade ao longo da década seguinte, além de
expansão do emprego e redução da informalidade. Ou seja, ampliar direitos não
paralisou a economia; ao contrário, ajudou a fortalecê-la.
Há
ainda um efeito indireto frequentemente ignorado no debate, mais tempo livre
gera mais consumo. Trabalhadores e trabalhadoras que têm folga real conseguem
frequentar restaurantes, viajar, praticar esportes, estudar ou participar de
atividades culturais. Tudo isso movimenta novos setores da economia e
retroalimenta o próprio comércio.
Em um
momento em que o varejo brasileiro mostra sinais claros de recuperação e
crescimento, discutir o fim da escala 6x1 deixa de ser apenas uma pauta
trabalhista. Trata-se de uma oportunidade de modernizar as relações de
trabalho, ampliar empregos e fortalecer o mercado consumidor.
No fim,
a conta é bem simples. Trabalhadores e trabalhadoras com mais tempo, saúde e
dignidade consomem mais, produzem melhor e permanecem mais tempo nos empregos.
Quando isso acontece, ganha a classe trabalhadora e também os patrões.
Fonte:
A Terra é Redonda/Jornal GGN

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