Libertada
por PM, filipina diz ter sido escravizada na casa de SP da cônsul do Brasil no
Líbano
UMA
trabalhadora doméstica filipina de 50 anos afirmou à PF (Polícia Federal) ter
sido escravizada em São Paulo (SP) pela cônsul honorária do Brasil no Líbano,
Siham Harati.
Na
sexta-feira (6), a profissional deixou a residência que Harati mantém na zona
sul da capital paulista, após agentes da PM (Polícia Militar) se dirigirem ao
local — a ação foi motivada por uma denúncia originalmente recebida por uma
associação da comunidade filipina no Brasil.
De lá,
a doméstica seguiu diretamente à delegacia da PF no bairro da Lapa, onde
prestou depoimento relatando que teria sido submetida a jornadas exaustivas,
sem folgas nem férias, e que estaria impedida de deixar a casa da empregadora.
A
Repórter Brasil tentou contato com Siham Harati por meio de mensagens em seus
perfis nas redes sociais, mas não obteve resposta. A embaixada do Líbano no
Brasil também foi procurada, porém, não se manifestou até o fechamento desta
matéria. Os posicionamentos serão publicados, caso sejam enviados à redação.
Segundo
o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Harati é cônsul honorária em
Kab Elias, no Líbano, desde 2012. A pasta informou na tarde da quarta-feira
(11) que foi oficialmente informada sobre a denúncia e que aguarda o andamento
das investigações.
O
posicionamento diz também que cônsules honorários não são funcionários do
Estado brasileiro, mas “indivíduos selecionados localmente entre residentes do
Estado receptor para exercer funções consulares limitadas, em caráter
voluntário”.
Esta
não é a primeira denúncia de trabalho escravo doméstico envolvendo
profissionais filipinas em São Paulo. Em julho de 2017, a Repórter Brasil
mostrou que três babás foram resgatadas em uma ação realizada por auditores
fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego em um condomínio de alto padrão da
capital paulista.
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Trabalhadora relata jornadas diárias superiores a 12 horas e ‘portão sempre
trancado’
À PF, a
profissional disse trabalhar para Harati desde 2014, quando a empregadora teria
retido seus documentos pessoais. A doméstica contou ter deixado as Filipinas
inicialmente para prestar serviços domésticos à cônsul em sua residência no
Líbano, mas afirmou que também trabalhava na casa de Harati na capital
paulista.
Em seu
depoimento, a doméstica filipina relatou que suas jornadas se estenderiam das
6h30 às 19h30, incluindo sábados, domingos e feriados, sem direito a horas
extras. Segundo a doméstica, ela não teria direito a férias remuneradas nem a
folgas, e nunca teria conseguido voltar às Filipinas para rever a família.
Ainda
segundo o depoimento, a doméstica receberia um salário mensal de US$ 550 —
cerca de R$ 2.840 na cotação atual. No entanto, os valores seriam repassados
diretamente à sua família em sua terra natal.
A
profissional usou o termo “prisioneira” para definir sua situação na casa de
Harati em São Paulo e relatou ter sido até ameaçada de morte, sem fornecer
detalhes.
Disse
ainda que não teria conseguido deixar o imóvel porque o portão estaria “sempre
trancado” e monitorado por um segurança — até para atender o interfone ela
precisaria estar acompanhada do motorista da cônsul, afirmou.
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Consulado das Filipinas no Brasil organiza libertação
No
depoimento, a trabalhadora disse que conseguiu contato com a Filcom, uma
associação de filipinos no Brasil, no final de fevereiro.
A
entidade, então, procurou o consulado do país asiático em São Paulo em busca de
uma solução — o assistente consular Luiz Philipe Ferreira de Oliveira foi quem
recebeu a denúncia.
Ele
contou à Repórter Brasil que, na segunda-feira (2), entrou em contato com a
Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo e com a Polícia Federal para pedir
o resgate da trabalhadora. Segundo Oliveira, a secretaria encaminhou o pedido a
órgãos de fiscalização federais. Já a PF informou que realizaria procedimentos
internos para viabilizar a retirada da trabalhadora da residência da cônsul.
De
segunda a quinta-feira (5), Oliveira manteve contato com a doméstica por
aplicativo de mensagem — segundo o assistente consular, ela teria direito a
usar o wi-fi da residência por 15 minutos diários.
“Conversei
com o cônsul honorário [das Filipinas no Brasil] sobre a demora [da resolução
do caso], e que havia informação de que ela estaria sendo ameaçada de morte.
Ele me autorizou a ajudar a cidadã quando não vimos atitude das autoridades”,
conta Oliveira.
Na
sexta-feira (6), o assistente consular foi pessoalmente à delegacia da PF em
São Paulo, mas o local estava fechado ao público por conta de uma dedetização.
Ele, então, tomou uma medida drástica: foi pessoalmente à casa de Harati e, de
lá, ligou para o Centro de Operações da Polícia Militar solicitando ajuda.
Três
viaturas da PM foram ao endereço. Os policiais foram atendidos pela filha da
cônsul e pediram para falar com a trabalhadora. A filipina, que já havia sido
avisada por Oliveira de que seria resgatada, teria ido ao encontro dos
policiais visivelmente emocionada, segundo o agente consular. “Ela chorou
muito. Me abraçou. Me agradeceu”, conta Oliveira à Repórter Brasil.
Na
sequência, a trabalhadora foi levada à delegacia da PF. Oliveira também prestou
depoimento, dizendo ter conversado com a própria Harati durante a ação da PM.
Segundo ele, a cônsul teria confirmado que empregava a doméstica há 12 anos,
que teria retido os documentos da imigrante, e que pagaria o salário
diretamente a familiares nas Filipinas.
Ainda
segundo Oliveira, Harati teria alegado que a doméstica tinha, sim, liberdade
para sair de sua casa, que estaria devidamente registrada como empregada
doméstica e que receberia US$ 900 por mês, cerca de R$ 4.600.
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Ministério Público do Trabalho diz que vai investigar o caso
Atualmente,
a doméstica encontra-se acolhida pela Filcom (Filipino Community São Paulo).
A
Secretaria da Justiça e Cidadania informou em nota que foi acionada pelo
Consulado-Geral das Filipinas no dia 3 de março. “A vítima foi resgatada pela
Polícia Militar de uma casa no Morumbi, no dia 6 de março”, acrescentou, sem
detalhar as medidas adotadas nos dias que antecederam o resgate.
A PF,
por sua vez, declarou que “não confirma, nem fornece informações sobre
possíveis nomes envolvidos, bem como possíveis ações, operações, prisões,
investigações, inquéritos em andamento ou relatados e atos nesses realizados”.
O MPT
(Ministério Público do Trabalho) também foi procurado pela reportagem. O órgão
informou em nota que recebeu a denúncia feita pelo Consulado das Filipinas em
São Paulo por meio da Secretaria da Justiça e Cidadania.
“No
mesmo dia, tratando-se de vítima estrangeira vulnerável (filipina) em situação
denunciada como tráfico de pessoas para fins de trabalho análogo à escravidão,
situação em que o órgão entende necessário uma atuação imediata, foi aberto
procedimento para investigar o caso”, diz o posicionamento.
<><>Filipinos
são vítimas de trabalho escravo, diz assistente consular
Oliveira
ressaltou que trabalhadores filipinos são escravizados de forma recorrente ao
deixarem o país à procura de emprego.
Por
dominarem a língua inglesa e serem reconhecidos mundialmente como trabalhadores
diligentes, é comum o recebimento ofertas de emprego principalmente para
trabalho em navios ou em casas particulares, no Oriente Médio.
As
Filipinas têm hoje cerca de 120 milhões de habitantes. Outros 20 milhões moram
fora do país, a trabalho.
O
agente consular disse que o governo filipino vem criando regras para tentar
proteger seus cidadãos contra a escravização. Para deixar o país, as
autoridades exigem que os trabalhadores apresentem um contrato de trabalho
homologado por consulados ou embaixadas. O documento precisa definir o local de
trabalho do filipino para que ele seja monitorado.
Oliveira
disse que muitos trabalhadores, após deixarem o país, migram para outros
destinos acompanhando patrões ou por conta própria. Em muitos desses casos,
perdem contato com a representação diplomática de seu país e ficam mais
vulneráveis, como a doméstica filipina libertada em São Paulo, finaliza o
assistente consular.
Fonte:
Reporter Brasil

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