terça-feira, 17 de março de 2026

Aldo Fornazieri: A estratégia da decapitação da liderança

A decapitação de lideranças é um fenômeno que vem ocorrendo desde a Antiguidade. Nos contextos de lutas e guerras entre grupos, cidades, etnias, impérios e Estados, era comum queimar, decapitar, degolar, enforcar ou crucificar líderes inimigos capturados. Quase sempre, esses atos eram consequência das ações de combate, e não um objetivo estratégico específico. Tratava-se de uma tática no interior da estratégia de guerra.

Líderes rebeldes, revolucionários, lutadores sociais, místicos, chefes de bando, reis, rainhas, governantes e opositores derrotados foram mortos de forma quase sempre brutal, em atos revestidos de cerimônias. Os objetivos dessa violência eram também simbólicos, visando conter ações contrárias aos vencedores.

Na história mítica da Bíblia, o líder arquetípico Moisés não pensa duas vezes em mandar matar milhares de israelitas porque adoraram um bezerro de ouro (Êxodo 32), ou em exterminar os rebeldes liderados por Corá, Datã e Abirão, que contestavam sua liderança e a de seu irmão Aarão. A violência exterminadora sempre foi mais uma prática das elites dominantes do que dos rebeldes. Exemplos disso foram os assassinatos brutais de Tibério e Caio Graco, na República Romana, e do próprio Júlio César, massacrado pela nobreza.

Na Era Moderna, os exemplos de decapitação de líderes também são profícuos. O rei Luís XVI, sua consorte Maria Antonieta, na França, e Carlos I, na Inglaterra, foram decapitados em contextos revolucionários. A rainha Ana Bolena foi decapitada a mando de Henrique VIII para atender a interesses pessoais e políticos.

Robespierre e Danton sucumbiram às tramas da própria Revolução e enfrentaram a guilhotina. Os bolcheviques mandaram fuzilar a família Romanov em 1917. Zumbi dos Palmares e Lampião são exemplos nativos que mostram que o Brasil não foge à regra.

Embora a tese da decapitação da liderança já fosse debatida nas teorias estratégicas clássicas, somente após meados do século XX ela assumiu o estatuto de estratégia específica. Ela foi desenvolvida por estrategistas que defendiam a supremacia e a preeminência do poder aéreo, a exemplo do coronel John Ashley Warden III. Ele foi um dos principais estrategistas da Primeira Guerra do Golfo, defendendo a tese da batalha ar-terra.

Warden propõe que o poder aéreo deve neutralizar a liderança e destruir a infraestrutura crítica do inimigo, seja ele um Estado ou uma organização, visando resolver o conflito rapidamente. Ao contrário de outras estratégias, essa formulação foca o planejamento do ataque e não leva em consideração fatores históricos, ideológicos e culturais que sustentam os oponentes. Também não considera fatores morais relativos à morte de civis, mulheres e crianças, nem os crimes de guerra.

A estratégia da supremacia do poder aéreo foi lapidada pelo secretário de Defesa de Ronald Reagan, em 1984, com a divulgação da “Doutrina Weinberger”. O objetivo era evitar a ocupação militar terrestre, estabelecendo seis princípios rígidos para que ela pudesse ocorrer. Weinberger queria evitar um novo e traumático Vietnã e conflitos prolongados e malsucedidos. A estratégia da supremacia do poder aéreo e a estratégia da decapitação da liderança, assim, convergiram para o mesmo ponto de aplicação.

O surgimento de organizações de resistência, classificadas como terroristas por Israel e pelos Estados Unidos, fez com que ambos os países passassem a usar em larga escala as estratégias de decapitação de lideranças e de supremacia do poder aéreo. Israel assassinou vários líderes da OLP e do Hamas, a exemplo de Wael Zwaiter, do escritor Ghassan Kanafani, Ismail Haniyeh, Yahya Sinwar, Saleh al-Arouri e Mohammed Deif, entre tantos outros.

No ano passado, Israel exterminou a liderança do Hezbollah e matou o comando militar do Irã. Agora, Estados Unidos e Israel assassinaram toda a liderança civil e militar do Irã, incluindo o líder máximo, o aiatolá Khamenei. Os Estados Unidos já haviam assassinado o general Qassem Suleimani, comandante da Guarda Revolucionária Quds, em 2020, no primeiro governo Trump. No caso da Venezuela, Maduro não foi decapitado, mas foi extraído em um sequestro-relâmpago.

A estratégia da decapitação da liderança tem alguns pressupostos. O primeiro é usar o poder aéreo, com armas e tecnologias de precisão, mapeamento prévio e comandos especiais, para suprimir o “cérebro” — os dirigentes e comandantes das forças inimigas —, fazendo com que percam a capacidade de coordenar ataques e fiquem paralisadas. Sem a liderança, algumas variáveis são esperadas: perda de capacidade do inimigo, desorganização do sistema de comando, possíveis insurgências de novos líderes ou da população, mudança de regime e ascensão de líderes mais moderados, dispostos a aceitar os termos do poder dominante.

Além dos líderes, a estratégia pressupõe a destruição de sistemas essenciais, como petróleo, eletricidade e água; da infraestrutura, como transportes e comunicações; e ataques a instalações e à população civil, visando desencadear uma revolta ou pressão sobre o governo. No caso de Gaza, até mesmo os hospitais foram sistematicamente destruídos. É certo que os EUA e Israel vêm impondo pesada destruição da estrutura militar e civil do Irã. Mas, até agora, não há evidências de que os resultados esperados da estratégia de decapitação da liderança estejam se efetivando.

Existem críticas consistentes à estratégia de decapitação da liderança. Tanto alguns analistas da CIA quanto estrategistas das forças terrestres americanas acusam essa estratégia de ser uma mera técnica de matar e destruir. Sustentam que podem ocorrer ganhos de curto prazo, mas que não há evidência de que, no longo prazo, ocorram mudanças substantivas rumo à realização dos objetivos. O caso da Líbia e da morte de Gaddafi é citado como exemplo.

No livro Strategic Targeting of Terrorist Organizations, a professora Jenna Jordan analisa vários casos de aplicação da estratégia de decapitação da liderança, principalmente em organizações consideradas terroristas. Ela é categórica ao afirmar que a estratégia tem se mostrado “altamente ineficaz para enfraquecer e desestabilizar as organizações”. Pelo contrário, os grupos tendem a uma radicalização e a uma violência maiores, impulsionados pelo sentimento de vingança.

Por fim, duas considerações: uma legal e outra moral. De acordo com resoluções da ONU, assassinar deliberadamente lideranças civis, religiosas e militares fora do contexto de um combate direto é crime de guerra. Trump, Netanyahu e seus comandos, sem dúvida, são criminosos de guerra. O Tribunal Penal Internacional deve investigar essas ações criminosas e punir os responsáveis.

Israel é um Estado genocida e terrorista: desloca milhões de pessoas, mata pela fome e pela sede, massacra mulheres e crianças e vem praticando toda sorte de crimes em larga escala. Com Trump, os EUA querem recuperar a liderança perdida pela força, pela violência e pelos crimes, além da supressão de liberdades democráticas internas.

As lideranças dos EUA e de Israel, ao agirem como assassinos, sem nenhum senso moral, destroem toda a confiança de que se possa construir uma paz duradoura no futuro. A única paz que eles querem é a da destruição e da morte — como diria Kant, a paz dos cemitérios.

•        O medo e o retrocesso anticivilizatório. Por João Antonio da Silva Filho

O termo anticivilizatório designa ações, projetos ou comportamentos que representam um retrocesso em relação aos avanços humanísticos, éticos e sociais conquistados ao longo da história. Civilização não é um estado natural da humanidade, mas uma construção coletiva e histórica erguida por meio de conflitos, pactos e instituições. Sempre que práticas políticas ou sociais passam a negar a dignidade humana, relativizar direitos fundamentais ou normalizar a violência como método de organização da vida pública, estamos diante de sinais claros de regressão civilizatória.

Nesse sentido, o anticivilizatório não se manifesta apenas em atos de brutalidade explícita. Ele também aparece quando se enfraquecem instituições democráticas, quando se banaliza o discurso de ódio ou quando se reduz o espaço da educação, da cultura e do pensamento crítico. São movimentos que corroem silenciosamente os pilares da convivência democrática e que reintroduzem na vida política a lógica da força, da exclusão e da intolerância.

A frase “Realmente, vivemos tempos sombrios”, associada ao poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht, tornou-se uma síntese emblemática de uma época em que a razão parecia sucumbir diante da barbárie. Brecht escreveu sob o impacto da ascensão do nazifascismo na Europa, quando regimes totalitários passaram a mobilizar o medo, a manipulação da informação — hoje muitas vezes identificada como fake news — e a violência para impor projetos políticos autoritários.

Ao denunciar aqueles “tempos sombrios”, Brecht não se referia apenas ao drama histórico de sua geração. Ele alertava para algo mais profundo: a fragilidade do processo civilizatório diante da tentação permanente do poder autoritário. O poeta percebia que, quando o medo se instala na política e a força substitui o direito, a civilização entra em estado de risco.

A retórica política que emergiu com a ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos, o recurso crescente ao uso da força contra regimes considerados adversários — como no episódio da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, realizada em 2026 por forças norte-americanas em uma operação militar que gerou forte debate internacional sobre violação da soberania venezuelana — e as intervenções militares envolvendo o Irã revelam a reedição de uma lógica geopolítica fundada na imposição de poder.

Esse tipo de prática remete à ideia de uma espécie de “polícia do mundo”, na qual interesses estratégicos de uma única nação passam a ser defendidos não por meio da diplomacia, mas pela pressão econômica, pela intimidação política e, em última instância, pela intervenção militar direta. Em tal cenário, o direito internacional e os mecanismos multilaterais cedem espaço à lógica da força, reintroduzindo tensões que desafiam o equilíbrio das relações internacionais construído no pós-Segunda Guerra Mundial.

Esse ambiente sugere um perigoso retorno a formas de organização política anteriores ao Iluminismo. Foi justamente o pensamento iluminista que inaugurou a tentativa de submeter o poder à razão e ao direito. A partir desse movimento histórico emergiram conceitos fundamentais como constitucionalismo, direitos fundamentais e limitação institucional do poder.

A organização política moderna passou então a se estruturar em Estados nacionais regidos por constituições, na divisão de poderes e no sistema de freios e contrapesos (checks and balances). Esses mecanismos foram concebidos para evitar a concentração arbitrária de autoridade e para assegurar que o poder fosse exercido sob vigilância institucional e jurídica.

No plano internacional, essa busca por equilíbrio institucional levou, após as tragédias da Segunda Guerra Mundial, à criação da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945. A Carta das Nações Unidas estabeleceu princípios destinados a orientar a convivência entre os povos: a igualdade soberana dos Estados, a solução pacífica dos conflitos, o respeito aos direitos humanos e a cooperação internacional como instrumentos para preservar a paz e a estabilidade global.

Esses marcos representam conquistas civilizatórias profundas. Eles surgiram da compreensão de que as diferenças são inerentes à condição humana e de que a política deve ser o espaço institucional para administrar essas diferenças sem recorrer à violência. Em outras palavras, a civilização avança quando transforma o conflito em diálogo e a divergência em negociação.

Nesse sentido, respeitar os Estados nacionais, a soberania e a autodeterminação dos povos tornou-se um dos pilares da ordem internacional contemporânea. Esses princípios foram concebidos justamente para impedir que interesses geopolíticos se imponham pela força, evitando que conflitos internacionais se convertam em guerras de dominação. No entanto, práticas unilaterais e intervenções políticas ou econômicas fora dos marcos multilaterais têm tensionado esse arranjo institucional — tendência que ganhou visibilidade com a ascensão de lideranças políticas que defendem uma política externa mais confrontacional.

Diante desse cenário, cresce a percepção de que o mundo precisa caminhar rumo a uma nova configuração geopolítica marcada pela multipolaridade. Diferentemente da hegemonia concentrada em um único centro de poder, um sistema multipolar pressupõe a existência de múltiplos polos de influência, capazes de equilibrar as relações internacionais e reduzir a tendência de imposições unilaterais no sistema global.

A multipolaridade, quando estruturada por regras e instituições, pode contribuir para limitar unilateralismos e fortalecer o diálogo entre diferentes civilizações e projetos políticos. Ela pode funcionar como um mecanismo de equilíbrio global, reduzindo a tentação de que qualquer potência se arrogue o direito de definir sozinha os rumos do mundo.

O desafio contemporâneo consiste, portanto, em preservar e aprofundar as conquistas civilizatórias acumuladas ao longo dos últimos séculos. Isso significa reafirmar o valor do direito internacional, fortalecer as instituições multilaterais e reconhecer que a diversidade política e cultural do mundo não é um obstáculo, mas uma condição da própria convivência humana.

Defender a civilização, portanto, é reafirmar a política como espaço legítimo de negociação entre as diferenças. É sustentar a diplomacia e o direito — e não a força das armas — como limites indispensáveis ao exercício do poder. É reconhecer, enfim, que a pluralidade não é ameaça, mas fundamento da própria democracia e condição essencial para que a humanidade avance sem sucumbir novamente às sombras da barbárie.

Quando a política abandona o diálogo e se rende à lógica da força, a civilização retrocede. E é justamente nesses momentos que a advertência de Brecht volta a nos interpelar: tempos sombrios não são apenas aqueles em que a violência se impõe — são aqueles em que a sociedade passa a aceitá-la como inevitável.

•        Quando a moderação política é má conselheira. Por Bepe Damasco

Peço licença ao internauta Sérgio Prado Moura para reproduzir aqui uma de suas postagens nas redes sociais:

"O grande erro da esquerda é ainda acreditar que a verdade prevalecerá. A verdade, para o grande público, é a versão que lhe contam. O caso Master é exemplar. Apesar de Vorcaro ter doado milhões à campanha do Bolsonaro e do Tarcísio e zero real para o Lula. Apesar de ter emprestado o jatinho dez vezes para o Nikolas. Apesar de chamar o Ciro Nogueira de amigo de uma vida. Apesar dos milhões desviados por Ibaneis e por Cláudio Castro, muita gente ainda acredita que o esquema é da esquerda".

Com afiado poder de síntese, Sérgio, a quem não conheço pessoalmente, põe o dedo na ferida. Oxalá seu texto ajude na reação das forças progressistas. Mais uma vez no Brasil se forma um conluio entre o poder financeiro e os grupos de mídia para sabotar a verdade e emplacar uma narrativa distorcida dos fatos.

Tudo para impedir a vitória de Lula, apostando na súbita conversão de Flávio Rachadinha em um direitista civilizado e moderado. Isso é algo tão sem propósito que a jornalista Flávia Oliveira, uma das poucas vozes independentes do Grupo Globo, cravou: "Nunca ninguém viu cabeça de bacalhau, filhote de pombo e bolsonarista moderado".

O que importa para a Globo, suas coirmãs na imprensa corporativa e a Faria Lima é que o filho de Bolsonaro segue o receituário econômico de Paulo Guedes. Pouco importa quem seja o presidente da República.

No entanto, a Globo, neste movimento de apoio a um inimigo da democracia, pode ser acusada de tudo, menos de incoerência. Qualquer dúvida, é só dar uma passada de olhos no currículo que ostenta ao longo da história.

Na conjuntura atual, na qual se ataca dia e noite o STF, mas com o objetivo central de enfraquecer Lula, a moderação política é má conselheira. Está claro que não surtirá efeito apenas alardear as inúmeras realizações do governo Lula 3, na minha opinião, o melhor da era petista.

É hora de subir o tom do discurso e se pintar para a guerra política contra os padrinhos da Lava Jato 2.0. Por óbvio, isso não quer dizer que não devam ser fechadas as alianças ao Centro, que são necessárias para aumentar o poder de fogo da chapa governista no enfrentamento com os extremistas de direita.

Mas não podemos, ingenuamente, combater Chicago com Woodstock.

Lula, principalmente, mas também seus ministros e parlamentares dos partidos do segmento progressista, não têm outra saída fora do confronto mais assertivo e radicalizado, o que, vale registrar, já vem sendo feito nas redes sociais por parte expressiva dos militantes da esquerda.

Imagina a força que teria uma fala pública de Lula denunciando que os meios de comunicação brasileiros mentem descaradamente, com propósitos políticos, ao insistirem em vincular o governo ao escândalo do Banco Master?

Ou uma atuação coordenada nas redes, nas ruas e no parlamento desnudando o esquema, apontando a que tipo de interesse serve e o que está por trás da versão falsa dos fatos passada para a população?

É preciso pelo menos tentar dialogar com o brasileiro médio, aquele que faz comentários críticos ao governo nos botequins da vida, tendo como base o festival de empulhações a que assiste diariamente na televisão.

Para isso, é essencial uma decisão política inspirada na óbvia constatação de que não vivemos tempos de paz e normalidade.

Em certa ocasião, perguntado sobre a linha editorial do antigo Pasquim no embate com a ditadura militar, o jornalista Sérgio Cabral, um dos profissionais do jornal que marcou época na luta contra a censura, explicou: "Como vivíamos no radar da ditadura, adotamos a tática de atacar os apoiadores da ditadura'.

Atacar os que defendem a volta do bolsonarismo fascista ao governo da República é urgente.

 

Fonte: Brasil 247

 

Nenhum comentário: