Eliara
Santana: O modus operandi da desinformação
Há um
modo de agir e de instrumentalizar a desinformação que implica a produção e a
disseminação de narrativas usando estratégias de comunicação e discurso bem
específicas. Esse modus operandi revela padrões na construção dos discursos e
nas táticas empregadas.
Portanto,
é importante lembrar mais uma vez: quando falamos em desinformação, não estamos
falando em “espalhar boatos”, não estamos falando em “algo que sempre existiu”.
Estamos
falando em uso estratégico de mentiras, em criação de narrativas que dão outros
significados – falsos – à realidade. Estamos falando em produção de mentiras
para promover o caos.
A
desinformação, na perspectiva da realidade brasileira, de um país que se tornou
um grande laboratório de realidade paralela, é um processo de produção de
conteúdos falsos ou falseados, baseados em dados da realidade, que ganham
roupagem de notícia e são intencionalmente criados para prejudicar determinados
grupos e beneficiar outros.
Esse
processo de produção tem fases distintas: as mensagens são elaboradas,
transformadas em produto midiático para poderem circular e, então, são
distribuídas massivamente.
E o
produto final cumpre o papel de direcionar a percepção das pessoas que recebem
as mensagens, sendo disseminados sistematicamente por agentes específicos, num
esquema de comunicação profissional.
Grande
parte do material desinformativo circulante no Brasil hoje tem uma roupagem de
notícia, e isso contribui para que as pessoas acreditem.
Esse
modo de ação, com as várias estratégias, desenha uma espécie de arquitetura do
caos. Vamos a alguns passos:
1)
Ressignificação de temas complexos: há a escolha de temas do momento,
geralmente mais complexos, e a exploração em vários aspectos, com simplificação
das abordagens, diálogo com vários públicos e a construção de novos sentidos,
que são falsos.
Não é
uma mentira clássica, é a reconstrução de um tema (verdadeiro) por outro viés
(mentiroso). Isso é falseamento, e é muito mais “elaborado” do que um simples
boato.
Exemplo:
A “taxação” do Pix. O tema era uma medida da Receita Federal para reforçar a
fiscalização de transferências via Pix. Foi transformado em “taxação”,
obrigando até a imprensa a desmentir algo que NUNCA existiu.
2)
Construção de um jogo de propaganda para minar biografias e desconstruir
personalidades: a propaganda aqui compreendida como o uso estratégico de
comunicação para moldar uma opinião pública.
Como
funciona: Constrói-se um discurso específico para justificar uma pauta
previamente colocada. Isso envolve estratégias para minar a confiança em
determinados personagens, com ataques à reputação, levantamento de suspeitas
infundadas, grande exposição negativa, mobilização de influenciadores para
falarem sobre o tema geral. Depois que as narrativas seguem bem consolidadas
nas redes e já estão no imaginário comum das pessoas, o tema que era o objetivo
de fato volta a ser proposto e debatido. Ou seja, prepara-se o terreno para a
narrativa central.
3)
Manipulação de medos e crenças: nessa prática da extrema direita de construção
de mentiras, o produto fabricado tem uma ligação muito forte com a manipulação
dos medos e das crenças das pessoas – medo de perder o emprego, medo de morrer,
insegurança, medo de doenças etc.
4)
Instrumentalização do ódio e da raiva: as narrativas ligadas à desinformação,
além de dialogar com medos e crenças, mobilizam o ódio e instrumentalizam a
raiva das pessoas contra aqueles personagens apresentados como os inimigos a
serem combatidos.
5)
Fabricação de consenso em torno de um inimigo comum: determinados personagens
são construídos como “inimigos”, o que implica afirmar que eles desrespeitam
valores e crenças e estão vinculados a determinados atos não aceitáveis.
Exemplo:
Lula ligado ao crime organizado.
6) Uso
ostensivo de bots para a disseminação em larga escala (o que envolve um imenso
aporte financeiro)
7)
Programação de algoritmos das redes sociais (também envolve bastante dinheiro)
8)
Mobilização permanente: falas aparentemente idiotas, manifestações bombásticas
que circulam pelas várias plataformas e obrigam a imprensa a dar respostas,
situações caóticas que explodem, temas que ganham corpo e se sobrepõem a
assuntos realmente relevantes, todos esses elementos fazem parte da estratégia
de manter uma mobilização constante dos grupos de extrema direita para garantir
o engajamento da base, com apelo à emoção e criação de situações de caos e
apreensão.
O
artífice da desinformação, Steve Bannon, prevê estratégias para mobilização, eu
destaco aqui três:
–
“Flood the zone” (Inundação): disseminação de um grande volume de questões
polêmicas e declarações estapafúrdias para causar confusão e distrair do que
realmente interessa;
-Normalização
do absurdo: a partir da disseminação constante de narrativas absurdas, as
pessoas vão se acostumando a essas “versões” e passam a considerá-las como
verdadeiras, impactando o debate público;
–
Manutenção de um “exército digital”: Bannon propõe a organização de “milícias
digitais” para atuarem em vários momentos, sobretudo nos processos eleitorais.
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O ódio à política
As
campanhas coordenadas de desinformação desarticulam e nocauteiam os espaços
públicos e as ações públicas e coletivas. E promovem uma ojeriza à política, um
ódio que induz o cidadão a buscar um “novo” ator, salvador, meio mítico, gente
como a gente que até come farofa.
Assim,
por exemplo, numa campanha coordenada, o bombardeio de desinformação em torno
do tema “cobrança de impostos” alimenta essa raiva, com narrativas de
convencimento e os influenciadores bradando que “o Brasil não aguenta mais
pagar imposto”; da mesma forma que o bombardeio em torno do tema corrupção,
sempre vinculado a atores e grupos específicos.
Essas
construções contam sempre com um suporte – ainda que involuntário em alguns
momentos – da chamada mídia corporativa, que também alimenta essas narrativas.
• Pedro Pinho: A governança brasileira e
as eleições de outubro
Neste
início de ano, as pesquisas de intenção de voto visando às eleições de outubro
de 2026 ainda não merecem muita credibilidade. Porém, já se vislumbra algum
desinteresse no pleito, o que não deveria acontecer, já que ele ocorrerá num
mundo em guerra.
E por
quê?!
Porque
mesmo geograficamente longe do Brasil, esta guerra toca no petróleo.
Não se
pode dizer que é mais uma disputa, pois ela começou na década de 1960, quando
os consumidores ocidentais perderam o controle sobre as reservas de petróleo e
passaram e tentar o domínio com uma “transição energética”. Transição que é,
verdadeiramente, uma “regressão energética”.
É muito
importante que o leitor esteja bem informado sobre a questão energética, pois
ela definirá a capacidade do país, qualquer que sejam seus recursos naturais,
de ter ou não autonomia decisória.
Os
valores que utilizaremos são os divulgados por estas duas fontes:
Agência
Internacional de Energia (IEA), em Paris (França); Statistical Review of World
Energy, do Energy Institute, em Londres (Reino Unido), uma parceria da British
Petroleum (empresa britânica de petróleo) com as empresas de auditoria KPMG
(auditoria) e Kearney (consultora de negócios), localizadas respectivamente nos
Países Baixos e EUA.
Sumariamente,
com dados de 31/12/2025, a matriz energética mundial foi composta por 82% de
energia fóssil, 14% de energias de fontes renováveis e 4% de energia nuclear,
com consumo anual equivalente a 107 bilhões de barris (considerando um barril
equivalente a seis gigajoules de energia), o que representaria para o petróleo
em torno de 40/45 anos de consumo.
No
entanto, todos estes números são questionáveis.
Primeiro,
porque seus informantes os computam como se fossem dados homogêneos as
produções de folhelhos betuminosos (abundantes no Canadá e nos EUA) e aquelas
das rochas porosas de arenitos, preponderantemente, dos reservatórios de
petróleo, por todo resto do mundo.
Segundo,
porque as fontes ditas renováveis são de naturezas distintas. A biomassa advém
de um investimento contínuo na sua produção, seja vegetal seja animal. Porém,
tanto a energia eólica quando a de placas solares têm duração indeterminada,
dependente das manutenções, ou seja, de custos operacionais, não de novos
investimentos.
Terceiro,
atualmente as energias da biomassa são cada vez mais homogeneizadas com as
energias do óleo e do gás natural, formas nas quais se apresenta o petróleo.
E,
provisoriamente concluindo estas considerações, o fato de dispor de recursos
energéticos não significa que o país seja soberano. É imprescindível a decisão
política, e aí temos a discussão sobre a governança do País.
O
Brasil tem muito mais do que necessita para suprir de energia todas as suas
necessidades, nas diversas formas que existem no território nacional.
Temos
água dos inúmeros cursos d’água, do rio Amazonas ao córrego do quintal, capazes
de produzir hidroeletricidade.
Temos
áreas igualmente abundantes para produção da biomassa, animal e/ou vegetal.
Temos
insolação para as placas solares em todo território nacional.
E temos
petróleo em abundância, podendo produzi-lo para as necessidades nacionais e
para ganhos comerciais com a exportação.
Apenas
na área da energia nuclear, os que governaram o Brasil a partir de 1979 tudo
fizeram para riscar da capacidade nacional o desenvolvimento da energia
atômica.
Vê-se,
portanto, a importância de escolha dos candidatos.
E,
assim, não devemos cair nas falsas opções que nos são empurradas pelas
pesquisas. Aquelas que são apontadas como as que mais nos afligem não são
causas mas consequências da inexistência de um projeto de Brasil.
Se
afirmamos assim é porque o nosso País é único, aqui não cabe — e erram ao
tentar transplantar — o que eventualmente beneficiou um ou mesmo uns poucos
países.
Primeiro,
pela extensão e riqueza do território brasileiro. Segundo pela formação, mesmo
intelectualmente falha, mas que está em nossa formação miscigenada e mística,
não religiosa.
Ao
tratar da governança surgem logo dois grupos de decisões a serem adotadas:
—
Aquelas relativas à própria autonomia decisória, ou seja, à capacidade de o
país ter decisões que surjam de sua história e cultura e, primordialmente,
atendam a sua população.
— E no
outro grupo, formar o próprio povo e lhe oferecer todas as condições para se
desenvolver, ou como escreveu Confúcio (552 a.C. – 489 a.C.), em “Os
Analectos”: “velar para que o povo tenha suficientes víveres, suficientes
armas, e assegurar a sua confiança”.
SOBERANIA
E CIDADANIA
Como
afirmamos, as pesquisas de opinião de voto ainda estão na fase da campanha
eleitoral.
Em
decorrência, os temas que mais despertam atenção são aqueles que melhor se
ajustam às campanhas dos candidatos “patrocinados”. Deles, sobressai a
segurança, de grande interesse para os bolsonaristas e para a direita, em
geral.
Mas o
que mais angustia o povo, na sua imensa maioria, é a luta pelo pão de cada dia,
nem que lhe seja fornecido pelo “dono da favela”.
O que
significa a fome? A recente decisão governamental de ampliar os limites de
isenção do Imposto de Renda, que equivale ao aumento salarial da parcela
isenta, foi de diversos modos tentado demonstrar, pelos mesmos que consideram a
segurança o maior eleitor, como irrelevante, não ter surtido efeito.
Observe,
caro leitor, que todos os dados são apresentados como o Brasil fosse um país de
classe média, quando quase 90% da população se mantêm com menos de dois
salários mínimos.
Assim,
ou temos uma classe média que vive com pouco mais de salário mínimo e meio ou o
Brasil é um país de pobres, com uma minoria de abastados, o que está, a nosso
ver, bem mais perto da realidade. E, também, explica a corrupção ou ganhos à
margem da contabilidade nacional.
Temos
então um país onde o informal superou o legal, e que se proclama democrático e
republicano, quando o é do compadrio e do jeitinho.
Logo, a
plataforma eleitoral, para qual deveria convergir a imensa maioria dos
eleitores, é a da institucionalização do Brasil.
O que
significa a institucionalização do país?
Que ele
não seja privatizado, para o que trabalharam com empenhos diversificados, mas
todos dirigentes e estão fazendo todos políticos eleitos desde 1990. A
democracia passou a ter sua constituição no decálogo do Fundo Monetário
Internacional (FMI) denominado “Consenso de Washington”.
Um país
privatizado é um país do crime, ou seja, dos ilícitos diversos.
Basta
que pague o que lhe for cobrado, desde uns trocados para o guarda não olhar o
estacionamento irregular até a ninfeta para prazer do velho imoral. Por isso
existem os “Daniel Vorcaro”.
E que
já estão votando desde agora para evitar surpresas desagradáveis no dia das
eleições de outubro.
O fim
do sistema ideológico neoliberal seria o programa mais necessário para o Brasil
de 2026. Como o “tenentismo” deu um tempo para o Brasil se desenvolver entre
1930 e 1979.
Fonte:
Viomundo

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