Abdias:
112 anos do nascimento do ex-senador; hoje Senado tem apenas 24 negros
No
sábado (14), o Brasil celebraria os 112 anos de nascimento de Abdias
Nascimento, um dos maiores expoentes da luta antirracista no país. Intelectual,
artista, político e senador pelo PDT do Rio de Janeiro, Abdias dedicou sua vida
ao combate ao racismo.
Abdias
foi eleito senador em 1991, mais de 30 anos após o início de seu mandato, a
representatividade negra no Senado Federal permanece baixa. Embora a população
negra represente cerca de 55% do total de brasileiros (112,8 milhões), a
presença de senadores negros ainda é desproporcional, com aproximadamente 22%
das cadeiras ocupadas por parlamentares que se autodeclaram pretos ou pardos,
segundo informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Atualmente
não há nenhuma senadora negra eleita. A construção de um legislativo que
espelhe a diversidade racial brasileira segue sendo um desafio a ser superado,
sendo este um dos principais objetos de luta de Abdias Nascimento ainda quando
parlamentar.
Dois
anos depois de regressar ao Brasil após um exílio de 13 anos nos Estados Unidos
por conta da perseguição da Ditadura Militar, o parlamentar que era suplente de
Darcy Ribeiro (PDT-RJ), assumiu o mandato de forma provisória em 1991 e em 1997
de forma definitiva. Ele faleceu em 2011, aos 97 anos.
Antes,
entre 1983 e 1987 Abdias foi deputado federal. Logo no início de seu mandato,
na tribuna no Congresso Nacional, o parlamentar fez questão de demarcar sua
origem africana fazendo referência à sua fé. “Senhor presidente, senhores
deputados. Invoco o nome de Olorum, criador de todas as coisas: dos seres
humanos e do universo. Invoco as forças telúricas da nossa pátria ancestral, a
mãe África.”
Abdias
foi um político que, ao ocupar o Congresso, deixou marcas muito importantes em
discussões, embates, discursos e afirmações em torno da pauta racial, analisa
Flávia Rios, professora de sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e
coordenadora de pesquisa no Afro-Cebrap, núcleo de pesquisa, formação e difusão
sobre a temática racial do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
(Cebrap).
“Comprometido
com o diálogo dos feminismos, especialmente os feminismos negros, a marca dele
naquele contexto, trouxe de maneira significativa e historicamente marcada a
figura da pessoa negra com a simbologia das lutas pelos direitos das pessoas
negras”, explica a professora da USP.
Por
anos, jornalistas e historiadores colocaram Abdias como o primeiro senador
negro da história brasileira, no entanto, o ex-senador documentou o processo de
embranquecimento de diversos senadores na história, que, segundo ele, omitiu a
origem étnica de diversas autoridades da política brasileira.
Em
novembro de 1991, o Arquivo do Senado, em Brasília, registrou o discurso
inaugural de Abdias Nascimento no plenário. Naquela ocasião, o parlamentar
revelou os resultados da extensa pesquisa histórica, na qual foram
identificados 22 senadores negros que o antecederam. Ele enfatizou a
complexidade dessa investigação.
“Tive
de usar de uma sagacidade de pesquisador à beira da astúcia, indo a dezenas de
fontes, cruzando vários dados, cotejando muitas informações, para chegar a esse
número. Isso porque aqueles 22 senadores não assumiram etnicamente a sua
condição de afro-brasileiros, muito menos as causas da negritude.”
Entre
os senadores com herança africana, Abdias Nascimento destacou figuras como
Rodrigues Alves e Nilo Peçanha, ambos também foram ex-presidentes da República,
e Tancredo Neves, cuja posse presidencial foi impedida por seu falecimento. A
pesquisa de Abdias também revelou a presença de senadores negros durante o
período imperial, mesmo sob o regime escravocrata, como o Barão de Cotegipe e
Zacarias de Gois e Vasconcelos, que exerceram o cargo de primeiros-ministros do
Brasil.
No
mesmo discurso, Abdias sugeriu que um pesquisador no futuro poderia descobrir
mais nomes de parlamentares negros pela história do país. “Um pesquisador mais
competente do que eu poderá descobrir outros afro-brasileiros na vida do
Senado. Outros senadores poderão se proclamar descendentes da África. Se sou ou
não o primeiro afro-brasileiro nesta Casa, se sou ou não o 23º, pouco importa.
Importa, sim, que eu possa cumprir este mandato lutando pelas causas do povo
afro-brasileiro, que são as causas da nossa nação. Axé!”.
A
pesquisadora do Afro Cebrap destaca que um de seus legados pode ser pensado em
como as frentes parlamentares negras atuais são muito importantes, porque elas
dão visibilidade ao tema racial na Casa. Ela cita o exemplo da lei de cotas, da
lei de acesso ao ensino superior e da lei que envolve o funcionalismo público,
que dependeram dessas bancadas legislativas para as respectivas aprovações.
“Foi
muito importante o papel dessas casas e das comissões responsáveis por redigir,
reformular e fazer uma escuta importante com os movimentos sociais e atores
políticos relevantes para a questão da permanência da política de ações
afirmativas e seus ajustes”, afirma Rios.
Ambos
os casos, segundo ela são muito emblemáticos e que demonstram a pertinência da
presença de parlamentares negros com a agenda da igualdade racial e da
importância dessas frentes parlamentares negras, “que compõem um time capaz de
dar visibilidade e de se fixarem como sistemas de referência para os movimentos
sociais que demandam democracia e justiça racial e de gênero na sociedade”,
afirma.
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O apagamento das mulheres negras no Senado
A
professora pontua ainda que um dos gargalos da representatividade negra no
Senado está também na quase ausente participação de mulheres negras. Atualmente
não há nenhuma mulher negra em exercício no Senado. Laélia de Alcântara, Marina
Silva e Benedita da Silva foram as primeiras senadoras negras eleitas.
O
cenário, segundo ela, é de preocupação. “Quando fazemos esse recorte
interseccional ou racial, ou seja, olhamos da perspectiva de mulheres negras,
obviamente esse quadro se agrava e é muito preocupante. É preciso pensar como
gerar e criar mecanismos que permitam e retirem as barreiras que impedem essa
diversidade de gênero e raça nessa casa legislativa. De fato, é uma questão de
constatação desse fenômeno e o efeito do capital político e do capital
econômico para essa posição.”
Para
ser eleito senador é preciso conquistar a maioria dos votos, sendo este o
chamado sistema majoritário, o mesmo usado nas eleições para cargos do
Executivo (prefeitos, governadores e presidente).
Por ser
um cargo majoritário, mais competitivo e mais restrito, estar nesse lugar de
“Câmara Alta” do poder legislativo depende, segundo a Rios, da intersecção
entre dois poderes fundamentais: o econômico e o político.
“Poder
econômico é a herança econômica de famílias, um poder herdado ou adquirido por
posições econômicas nas altas classes sociais ou, no caso, garantido pelos
partidos políticos. A rede partidária forte, ou partidos fortes, conseguem, de
fato, lançar candidaturas viáveis para o Senado. Essa Câmara Alta tem uma
exigência e é altamente seletiva”, explica a professora.
Tal
contexto amplia também a questão da representatividade de gênero. “Em contextos
altamente seletivos em razão de organismos que são controlados pelo poder
masculino, sobretudo partidos políticos no Brasil hoje, que são controlados por
homens, faz com que as mulheres, de modo geral, tenham muitas dificuldades de
serem selecionadas enquanto candidatas para esse cargo, para essa posição e
para essa competição eleitoral”, avalia a professora da USP.
“Demorou
muito para as mulheres ingressarem nesse lugar e não se gerou uma estabilidade,
uma paridade ou mesmo uma razoável proporcionalidade de mulheres nesse cargo.
Portanto, temos um déficit histórico de mulheres.”
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O mito da democracia racial
O
pensamento de Abdias Nascimento é crítico ao mito da democracia racial. Ele
pensou em políticas importantes para enfrentar os desafios de desigualdades e
de injustiças sociais e raciais presentes na sociedade brasileira como um
símbolo muito significativo da pauta da igualdade racial e do combate ao
racismo, explica Flávia Rios. “Uma coisa em que a democracia racial crê é que
no Brasil não existe racismo, mas Abdias Nascimento dizia que isso é um mito e
que o racismo existe.”
As
pessoas negras têm dificuldades e são barradas em cargos de decisão, diz ela.
“O caso dele é emblemático do quanto é raro pessoas entrarem nessa posição. Ele
próprio teve uma trajetória política muito longa, desde o contexto do segundo
pós-guerra no Brasil, nos anos 1940 e 1950, e sempre esteve na política. Ele só
conseguiu ocupar uma posição de poder nos anos 1990, ou seja, 50 anos depois”,
lembra.
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Abdias Nascimento: precursor nas leis antirracismo
A
presença de Abdias na Câmara também foi marcada por projetos — algumas vezes
arquivados — que lutavam pela verdadeira igualdade e reparação racial.
Foi ele
quem propôs a criação da Comissão do Negro na Câmara. A ideia seria buscar
informações sobre a discriminação racial e para sugerir políticas de reparação,
apesar da relevância do tema, a votação do projeto acabou sendo adiada várias
vezes até o fim de seu mandato.
Abdias
também apresentou o projeto 1.661, que definia o racismo como crime de
lesa-humanidade. O ex-parlamentar sugeriu um texto sobre ações compensatórias a
favor dos negros em diferentes setores, que previa, entre outras coisas, bolsas
de estudo para jovens negros, a reserva de 20% de vagas para negros em
concursos públicos e no setor privado, e a inclusão da história de civilizações
africanas ao sistema de ensino.
Duas
décadas após a formulação dessas propostas, a Lei nº 10.639, de 2003, foi
promulgada, tornando obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira
e africana nas escolas.
Anos
depois, em 2012, as cotas raciais serviram de inspiração para a criação de uma
legislação específica que estabeleceu reservas de vagas em universidades
federais. Esse marco impulsionou uma série de avanços adicionais, incluindo a
garantia de vagas em processos seletivos para cargos públicos, consolidando um
pacote legal voltado à promoção da igualdade racial no Brasil.
Com
apoio de 116 organizações ainda em 1983, Abdias elaborou o projeto 1.550, que
declarava 20 de novembro o Dia Nacional da Consciência Negra, em homenagem à
morte de Zumbi dos Palmares. O texto chegou a ser aprovado pela Câmara e pela
Comissão de Educação e Cultura do Senado, mas foi rejeitado pelos senadores. O
parlamentar também é lembrado por colaborar ativamente na Assembleia
Constituinte, que resultou na promulgação da Constituição Federal de 1988.
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Trajetórias dos tempos atuais
Algumas
figuras da política atual trazem conexões com o legado de Abdias. A professora
da USP entende que a trajetória do senador Paulo Paim (PT-RS), foi até mais
exitosa do que a de Abdias, uma vez que o petista era mais jovem e já entrou no
contexto democrático como candidato eleito, tendo tido posições relevantes no
Estado e sendo hoje um senador. “Tudo isso mostra que essas figuras têm uma
excepcionalidade que não deveria existir, uma vez que a maior parte da
população brasileira é negra.”
Temas
que Abdias trazia, que Paulo Paim traz e que Benedita da Silva, hoje deputada
federal e antiga senadora, também apresenta com sua longevidade na política
brasileira, devem chamar nossa atenção para o fato de que é preciso enfrentar
as desigualdades raciais e de gênero na representação política.
“Essas
pessoas mostram a excepcionalidade dessas figuras nessas casas de poder, mas
também mostram como é importante termos tais figuras, pois elas são capazes de
produzir projetos efetivos e disputar essas casas legislativas, promovendo
legislações muito importantes para o enfrentamento das desigualdades e a
promoção da justiça social, racial e de gênero”, pondera Rios.
Atualmente,
30% do fundo eleitoral é destinado a candidatos negros e pardos. A medida
disposta na Emenda Constitucional 133/2024, no entanto, não tem grande impacto
sobre os cargos mais competitivos como o de senador, pondera a pesquisadora do
Afro Cebrap. “O financiamento contribui para as candidaturas negras no
legislativo, mas isso tem um efeito maior onde os cargos são menos
competitivos. Ainda assim, para as mulheres negras e para os negros, há um
elemento central: uma coisa é se candidatar, outra coisa é fortalecer essa
candidatura para ela se tornar efetivamente viável e competitiva.”
Segundo
ela, existe uma interação com as lideranças partidárias que vai além do
financiamento: o enfrentamento à cultura institucional partidária no tocante à
construção das lideranças e das representações políticas negras nos pleitos
eleitorais e nos assentos.
“Os
partidos fazem a primeira filtragem antes de o eleitorado votar. Antes do
filtro do partido, ainda existe o filtro econômico, que é a trajetória do
capital econômico que determina muito a posição desses potenciais candidatos às
casas legislativas. O Senado é a casa mais seletiva nesse universo eleitoral,
excetuando-se o Poder Executivo e considerando apenas a esfera legislativa. Daí
vem a importância de se atentar ao Senado, sempre em diálogo com as câmaras,
que são fundamentais”, conclui a pesquisadora.
Fonte:
ICL Notícias

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