João
dos Reis Silva Júnior: Dependência latino-americana
No
contexto pós-colonial, as categorias analíticas elaboradas pela teoria clássica
da dependência devem ser ampliadas para o modelo moderno a fim de compreender a
dependência latino-americana. Ao longo de grande parte do século XX, estudiosos
como Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotonio dos Santos deixaram claro que
as economias latino-americanas estavam subsumidas pelo sistema capitalista
global.
A
dependência não era simplesmente uma questão de atraso histórico. Era uma forma
particular de incorporação ao capitalismo global caracterizada pelas
transferências sistemáticas de valor, pela superexploração do trabalho humano e
pela subordinação tecnológica (Marini, 1973; Bambirra, 1978; Dos Santos, 1978).
Esta foi uma interpretação que permanece resoluta.
Desenvolvimentos
recentes no capitalismo também mostram que a dependência moderna agora se
tornou mediada por novos elementos históricos, como resultado. A acumulação
global em circulação e economia está sendo transformada pela financeirização,
através da crescente centralização do capital fictício, e pela reorganização da
produção global de conhecimento.
A
dependência não é mais apenas a estrutura do produto, nem se expressa meramente
na estrutura produtiva com base na divisão internacional do trabalho ou na
natureza do trabalho, e também na organização do tempo histórico “também se
manifesta na economia atual do capital. As últimas cinco décadas têm sido um
tempo de transformação estrutural do capitalismo e do estabelecimento gradual
do capitalismo fictício ou especulativo.
Karl
Marx observou que uma parcela crescente da riqueza capitalista consiste em
títulos financeiros que correspondem a um direito a renda futura, em vez de
diretamente ao valor já produzido (Marx, 2017). Tal forma domina o capitalismo
moderno. A crescente valorização do capital opera no campo da apreciação de
ativos financeiros – o valor das ações e títulos do governo, derivativos e
futuros.
Essa
transição muda drasticamente a conexão entre presente e futuro. Durante grande
parte da modernidade industrial, o futuro poderia significar um horizonte
bastante aberto de planejamento coletivo. Projetos de industrialização em
escala de longo prazo, expansão universitária e construção institucional foram
concebidos. Essa experiência temporal muda com a financeirização. O futuro
recebe muitas previsões e rearranjos no presente pelos mercados financeiros.
O
resultado é uma mudança na estrutura temporal do capitalismo. Expectativas
financeiras de curto prazo governam o presente. Essa reorganização ocorre
especialmente de forma aguda em sociedades de dependência. A dependência não
pode mais ser vista simplesmente como uma opressão passiva ou tecnológica. Pode
ser entendida não apenas como uma falta de compreensão ou controle, mas também
como dependência temporal.
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Capital fictício e a compressão do tempo histórico
No
capitalismo de exploração industrial clássico, a valorização do capital estava
sempre associada aos processos produtivos. O capital estava envolvido na
produção de bens – e o lucro era obtido pela exploração do trabalho à medida
que se desenvolvia. A acumulação dependia do crescimento da produção material,
em outras palavras (Marx, 2013).
Hoje em
dia, no capitalismo contemporâneo, uma parcela maior da valorização que esse
valor do capital assume dentro da forma do sistema financeiro é cada vez mais
sentida aqui. O capital se move em ativos financeiros que equivalem a direitos
a renda futura. Não necessariamente ao valor pelo qual os bens já foram
produzidos, mas nas expectativas de apreciação futura.
Essa
mudança levou a uma compressão do tempo histórico. Os mercados financeiros
funcionam projetando continuamente o futuro antecipadamente. Os investidores
escolhem ativos com base em previsões de lucro futuro, crescimento econômico e
fluxos de renda que não necessariamente existem hoje. E os títulos do governo
representam um futuro retorno fiscal; as ações são um lucro futuro; os
derivativos são expectativas futuras sobre quais preços e taxas de juros
subirão mais tarde.
Assim,
o futuro é negociado no presente. Essa antecipação transforma a própria
operação das instituições sociais. As políticas públicas começam a ser
avaliadas com base em projeções financeiras de curto prazo. Projetos econômicos
e institucionais tornam-se dependentes da avaliação incessante dos mercados. As
instituições tornam-se mais curtas no tempo. Projetos que anteriormente
poderiam levar décadas para se desenvolver até a conclusão agora são avaliados
em contextos temporais progressivamente mais próximos.
Nas
economias dependentes, esse processo é ainda mais pronunciado. Como essas
economias dependem fortemente de fluxos financeiros internacionais, decisões
tomadas no centro do capitalismo global podem rapidamente mudar seu destino
econômico interno. A dependência, portanto, também funciona como dependência
temporal.
A
financeirização em sociedades dependentes cria um tipo especial de bloqueio do
futuro. É organizada em termos da necessidade de garantir confiança para os
mercados financeiros internacionais, e a política econômica, portanto, torna-se
estruturada sob essa lente. Isso implica controles monetários rígidos,
controles de gastos públicos e prioridades de pagamento da dívida. Esse regime
também restringe o tempo necessário para planejar a longo prazo. Projetos de
industrialização, expansão de infraestrutura e fortalecimento institucional
tornam-se difíceis de manter.
Então,
o horizonte temporal das sociedades dependentes é instável. Em vez de o futuro
ser um horizonte de mudança compartilhada, um horizonte de transformação
coletiva, o futuro passa a ser percebido como um espaço de incerteza
permanente. Esse bloqueio do futuro tem um impacto imediato na produção de
conhecimento.
A
produção científica requer tempo institucional, uma série de eventos e
processos graduais. Tais condições tornam-se mais difíceis de suportar se o
tempo institucional for comprimido. Nos estabelecimentos de ensino superior,
essa compressão ocorre em termos de indicadores de produtividade, avaliação
implacável e prazos cada vez mais curtos para pesquisa e publicação. O tempo
necessário para pensar é escasso.
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Inteligência artificial: uma nova relevância cognitiva
É nesse
contexto que surge um tipo inteiramente novo de dependência dos dias atuais: a
nova dependência de um povo que utiliza inteligência artificial. A tecnologia
de Inteligência artificial não é apenas inovação. É uma forma de nova
organização global do desenvolvimento do conhecimento.
Os
sistemas de Inteligência artificial mais sofisticados são construídos
principalmente por grandes corporações e baseados no coração do capitalismo
global. As grandes empresas de Inteligência artificial também dominam a
infraestrutura computacional, bancos de dados e algoritmos que impulsionam
essas tecnologias. Assim, a produção e circulação do conhecimento dependem cada
vez mais de plataformas tecnologicamente controladas de fora.
Em
sociedades dependentes, isso cria um novo modo de subordinação. Universidades,
centros de pesquisa e instituições públicas aplicam tecnologias cuja lógica é
definida fora de seus contextos nacionais. De fato, a dependência tecnológica
se estende ao próprio processo de produção intelectual. Além disso, a
inteligência artificial exacerba a compressão do tempo acadêmico. Textos,
análises e dados tornam-se cada vez mais produção. O fluxo de informações
torna-se instantâneo.
Esse
ritmo acelerado pode aumentar a produtividade do trabalho de interesse
intelectual, mas também reduz os espaços para a maturação reflexiva que há
muito tempo é parte integrante do pensamento crítico. Pensar requer tempo.
Mesmo hoje, o capitalismo contemporâneo tende a reduzir esse tempo. A lucidez é
a mais difundida e o último ponto de crítica.
A
lucidez é o poder ou a capacidade de tal sociedade de saber o suficiente para
analisar criticamente seu próprio período histórico. Não é apenas que há
informações sobre isso. Refere-se à capacidade de conectar experiência social,
estrutura econômica e mediações institucionais. Uma sociedade lúcida é aquela
capaz de perceber as forças que moldam sua vida econômica, política, cultural e
estilo de vida.
A
lucidez não emerge por si só. Ela depende de instituições que podem permitir o
tempo para reflexão. A universidade, entre outras instituições, desempenha um
papel central. Durante séculos, a universidade foi apenas um local de produção
e transmissão de conhecimento. A investigação científica depende da
continuidade institucional, do conflito intelectual e da transferência de
conhecimento intergeracional.
A
universidade é um dos poucos lugares onde o pensamento pode desacelerar a
velocidade do mercado e da financeirização, mesmo quando está sob pressão
institucional e financeira. Então, mesmo se encontrarmos o último lugar de
crítica nisso? Isso não sugere que a universidade esteja isolada das
contradições do capitalismo atual. De fato, ela é profundamente atravessada por
elas.
Cortes
orçamentários, a fragilidade da pesquisa acadêmica e métricas de avaliação
estão sempre modificando seus termos operacionais. No entanto, mesmo dentro
desse quadro, ainda é um lugar onde a lucidez histórica é cultivada. Conclusão.
O capitalismo moderno recalibrou grandemente os tipos de dependência. A
expansão do capital fictício, portanto, está mudando a relação entre o presente
e o futuro, o que produziu uma compressão do tempo histórico e uma subordinação
das decisões econômicas às demandas das finanças.
Para
sociedades dependentes, isso produz um gargalo para o futuro e limita o
planejamento de longo prazo. Ao mesmo tempo, a chegada da inteligência
artificial traz uma nova dimensão a esse processo. As formas de poder econômico
e intelectual centralizado exercidas por grandes corporações globais são
ampliadas por seu domínio tecnológico e epistêmico. A dependência não se dá
mais apenas de forma produtiva ou monetária. Inclui também dependência
tecnológica e cognitiva.
Nesse
cenário, a universidade pública continua a ser um dos poucos lugares onde o
tempo para reflexão crítica pode ser preservado com segurança. Defender a
universidade também implica defender a possibilidade de produzir lucidez
histórica. Mesmo em um mundo acelerado por finanças e informações, manter
espaços para o pensamento crítico é uma condição básica de qualquer esforço de
libertação social.
Fonte:
A Terra é Redonda

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