A
guerra contra o Irã: uma leitura em múltiplas escalas
A guerra dos Estados Unidos e de Israel
contra o Irã, cuja etapa mais recente foi iniciada em 28 de fevereiro de 2026,
é mais um sintoma da conjuntura crítica que vivemos em escala global,
caracterizada por rápidas mudanças e múltiplas variáveis. Neste texto,
resultante de um diálogo iniciado com um evento on-line
promovido pelo Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais
(IPPRI) da Unesp, partimos de uma análise dos lugares,
buscando entender a tomada de decisão, para depois passar para as escalas
mesorregional e global. Antes de iniciar, contudo, é necessário fazer a
ressalva de que em toda guerra há uma névoa que dificulta a análise, especialmente
uma com informações que chegam o tempo todo, mas são pouco confiáveis. De fato,
o campo comunicacional é outra frente de batalha.
<><> A escala dos lugares:
singularidades nacionais e materialização do conflito
O início do conflito e seu desenrolar pode
ser entendido como resultante de uma sequência de decisões que partem do Estado
de Israel, dos Estados Unidos e do Irã. As decisões tomadas em Washington não
podem ser dissociadas das contradições internas que se agravam nos Estados
Unidos. De fato, a política de defesa atual foi permeada por tensões internas
desde as propostas iniciais. Há uma retórica militarista, apoiada pelo complexo
industrial-militar e que se concretiza em aumento dos gastos militares, na nomeação do “Departamento de
Guerra” e na pressão para que os aliados gastem mais com defesa. Por outro lado, parte da base de apoio social que
sustenta Trump critica veementemente ações militares prolongadas, vistas como
fonte de custos para os Estados Unidos. Para parte dessa base
de apoio, “Tornar a América Grande Novamente” significa
uma atenção ao âmbito interno e menos recursos para guerras e intervenções
supostamente humanitárias.
Essas tensões internas foram inicialmente
geridas a partir da fórmula “Paz pela força”, que expressa uma concepção do poder fundada na
dimensão militar, em uma crítica à “ordem baseada em regras” e à universalidade
da democracia e dos direitos humanos. Passa também por uma crença de que a
vontade dos Estados Unidos poderia ser imposta com operações militares
pontuais. Além das tensões internas ao trumpismo, outro fator que explica a
tomada de decisão são as mobilizações internas e a necessidade das lideranças
do Partido Republicano em encontrar fatores de união nacional – cenário ainda mais
relevante em razão da proximidade das eleições de meio de mandato.
No Irã, a escala local é marcada por uma
teocracia xiita que luta por sua sobrevivência. Este regime ainda mantém coesão
interna do ponto de vista das elites políticas e militares, ainda que enfrente
resistência popular e tenha que lidar com a pluralidade étnica e religiosa.
Entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, uma série de protestos tomou conta do
país, refletindo
demandas genuínas da população iraniana, situação
que foi instrumentalizada pelos Estados Unidos e Israel em uma tentativa
frustrada de desestabilização do regime.
A continuidade da coesão interna explica a
resposta iraniana. De acordo com relatos, no dia 28 de fevereiro, o bombardeio
inicial ocorreu majoritariamente desde fora do território iraniano e a resposta
persa começou rapidamente depois, com ataques a bases militares dos Estados
Unidos na região do Golfo. A capacidade de resposta inicial iraniana se explica
por uma descentralização da cadeia de comando da defesa, com uma estratégia de
defesa em mosaico que atribui autonomia a nível operacional e foi pensada exatamente
para um cenário de assassinato das lideranças centrais. Essa capacidade de
resposta mantida depois da decapitação do regime parece ter pegado os Estados
Unidos e Israel de surpresa.
A reação do Irã – que mostrou, ao menos neste
início, capacidade e vontade para reagir – pode gerar uma guerra prolongada,
que levaria a novos dilemas para os Estados Unidos, seja em razão do custo
político de perda de vidas americanas ou da falta de material bélico suficiente
para sustentar esta guerra. Os Estados Unidos possuem armamentos de alto custo
e tecnologia agregada – em uma situação de barroquização – mas que não servem para guerras de
atrito, assimétricas e econômicas.
<><> A escala mesorregional:
ordens regionais em disputa
A escala mesorregional pode ser pensada a
partir das duas ordens regionais em disputa no Oriente Médio. A primeira,
promovida por Estados Unidos e Israel pode ser compreendida como uma ordem
baseada na instabilidade. Esta ordem em construção remonta aos Acordos de
Abraão, assinados em 2020 e mediados por Trump em
seu primeiro mandato, envolvendo inicialmente Israel, Emirados Árabes Unidos,
Bahrein, agregando depois Marrocos e Sudão. Essas articulações entendem o Irã
como ameaça central e há uma tentativa de expansão e consolidação da
articulação, inclusive com a intenção de trazer a Arábia Saudita para os
acordos.
A outra ordem em construção reflete a
perspectiva das monarquias árabes do Golfo, em especial Arábia Saudita, Catar e
Omã. Estes regimes têm sido cada vez mais cautelosos e tentado repensar os
custos da manutenção de bases dos Estados Unidos. Não no sentido de se afastar
dos americanos, mas de diversificar suas parcerias – movimento visto na
aproximação dos países do Golfo com Rússia e China – e de repensar a
constatação de que o Irã é a fonte de desestabilização regional. Em março de
2023, por exemplo, Arábia Saudita e Irã, antes grandes inimigos, normalizaram
suas relações, com mediação chinesa.
Os custos dessa aliança das monarquias árabes
do Golfo com o Ocidente ficaram patentes na Guerra dos Doze
Dias e no ataque que Israel fez ao Catar em
setembro de 2025. Para além da dimensão militar, cabe ressaltar a importância
crescente do comércio com a China para estes países. O Irã aproveitou este
momento para mostrar os custos dessa expansão imperialista de Estados Unidos e
Israel. Isso explica os alvos dos principais bombardeios iranianos: embaixadas
e bases militares americanas no Oriente Médio.
De forma geral, o ataque ao Irã e a tentativa
de mudança de regime significam a manutenção de um estado de guerra permanente
no Oriente Médio, de instabilidade e caos, que interessa a Israel e ao complexo
militar-industrial dos Estados Unidos. Assim, os ataques deixam claro que o
centro de desestabilização da região não é o Irã, mas principalmente os Estados
Unidos e Israel. Ao mesmo tempo, a desestabilização é reproduzida também
pelo Irã, que arma, treina e financia milícias como forma de resistência aos Estados
Unidos e à Israel.
<><> A escala global: crise da
diplomacia e da hegemonia
Nesta escala, o conflito armado marca um
ponto de inflexão de um sistema em crise. Os Estados Unidos são uma potência em
declínio que, no entanto, tentam manter sua influência internacional. A guerra
contra o Irã é como uma alavanca – pode gerar tendências para um lado ou para
outro, agravando a decadência em prol da multipolaridade ou a estancando. Em
termos materiais, a região importa porque reflete a possibilidade de controlar
um centro de distribuição da energia em escala mundial.
A tendência de declínio dos EUA tem se
expressado em intensificação do emprego da força militar. Embora a guerra
contra o Irã seja o ápice desta estratégia até agora, também revela alguns dos
seus limites. Mostra principalmente que o emprego da violência organizada é
capaz de causar grande devastação, mas não é – necessariamente – suficiente
para que os EUA consigam impor sua vontade. Neste cenário, consolida-se também
o abandono da narrativa de promoção de democracia, base da justificativa da
hegemonia americana.
Além disso, o conflito também aprofunda a
crise do multilateralismo e da diplomacia. A guerra se iniciou em meio a uma
negociação mediada pelo Omã. De acordo com o ministro de relações exteriores do
Omã, Badr bin Hamad Al Busaidi, o acordo era
iminente e atendia aos interesses de Washington porque incluía a possibilidade de visitas de
inspetores americanos as instalações nucleares iranianas, além de renúncia do
país persa às reservas de material nuclear.
<><> Articulação entre escalas:
do global aos locais
A leitura articulada das escalas global,
mesorregional e local permite compreender a guerra contra o Irã não como um
evento isolado ou conjuntural, mas como uma configuração histórica complexa,
produzida pela sobreposição de dinâmicas estruturais e contingentes. Cada
escala contém sua própria lógica, mas nenhuma é inteligível de forma autônoma.
É justamente na interseção entre escalas que o conflito se materializa, se
intensifica e se prolonga.
Na escala global, observa-se um processo
de transição da ordem internacional, um longo processo de declínio dos Estados
Unidos – que ainda pode ser contido. Nesta conjuntura crítica, o conflito do
Irã pode ser um ponto de inflexão, em razão da possibilidade de controle de um
centro de distribuição de energia.
Na escala mesorregional, o conflito
reflete a existência de ordens regionais em disputa. A primeira, patrocinada
pela aliança Estados Unidos-Israel, aposta na continuidade das guerras
permanentes, no caos constante. A segunda, em construção por algumas monarquias
do Golfo, propõe uma região com alguma autonomia, que gradualmente se afasta da
dependência dos Estados Unidos e constrói relações com os outros centros de
poder em ascensão.
Já na escala local, ou dos lugares,
emergem as singularidades históricas, as disputas de poder internas, as
consequências de um período eleitoral no qual tanto Netanyahu em Israel e Trump
nos Estados Unidos precisam de uma vitória na cena internacional para
contrarrestar o descontentamento social doméstico que ameaça sua posição
política. Estes aspetos nacionais geram constrangimentos importantes para
explicar tomadas de decisão. Também é nesta escala encontram-se motivações para
explicar a aventura militarista.
Nesse quadro, um elemento tende a ser
sistematicamente invisibilizado pelas análises centradas no poder: as
populações civis que são as principais vítimas desses conflitos. São elas que
sofrem os efeitos diretos das guerras, dos bloqueios econômicos, das sanções
internacionais, das ocupações territoriais e da destruição de infraestruturas
básicas. Paradoxalmente, são também aquelas que menos poder têm sobre as
decisões estratégicas que produzem e perpetuam esses conflitos.
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Irã: "As bases
americanas devem ser eliminadas e o Estreito de Ormuz permanecer
bloqueado"
O Líder Supremo não aparece; sua
primeira mensagem foi lida na televisão. É provável que ele tenha uma lesão no
pé. Fontes dizem que ele está inconsciente.
Os iranianos aguardavam para ouvir sua voz,
para decifrar seu tom e nuances, mas apenas uma apresentadora vestida com um
chador preto apareceu na televisão nacional para ler um texto escrito.
Cinco dias após sua nomeação, o novo Líder
Supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, continua ausente,
alimentando especulações sobre seu verdadeiro estado de saúde. Sabe-se com
certeza que ele foi ferido em 28 de fevereiro, nas primeiras horas da guerra,
no ataque que matou seu pai, Ali, sua esposa, sua irmã e um de seus
filhos. Mas agora foi descoberto que sua mãe, Mansoureh Khojasteh
Bagherzadeh, sobreviveu. Segundo a CNN, o líder teria sofrido ferimentos leves:
uma fratura no pé e escoriações no rosto. Outras fontes afirmam que ele pode
estar em estado mais grave, inclusive inconsciente.
Em seu primeiro discurso à
nação, Khamenei disse ter ficado sabendo pela televisão que havia
sido escolhido como o novo Líder, alimentando suspeitas de que todo o processo
foi influenciado e efetivamente ditado pelo Pasadran, que conseguiu
exercer influência até mesmo sobre o clero, explorando a urgência da
guerra. Mojtaba havia cultivado relações sólidas com a Guarda
Revolucionária ao longo dos anos e era considerado há muito tempo o
candidato mais popular à sucessão. Suas palavras ecoam a retórica de guerra dos
militares: nenhum passo atrás, o inimigo se arrependerá.
Ele relembra as vítimas do conflito,
menciona os mais
de 150 estudantes da escola Shajareh-Tayyebeh em Minab mortos por um bombardeio americano e promete
"vingança pelo sangue dos mártires". Ele também relata ter "tido
a honra de ver o corpo" de seu pai "após seu martírio",
descrevendo-o como "uma montanha de firmeza". Uma epopeia que serve
para fortalecer as fileiras da "resistência", mas também uma mensagem
política: o Irã não se desviará dos pilares estratégicos fundamentais
da República Islâmica, de sua ideologia.
A guerra é uma guerra pela continuação da
revolução de Khomeini. "A alavanca do fechamento
do Estreito de Ormuz deve certamente
continuar a ser usada", afirma ele, apelando à chamada "unidade das
frentes", que do Líbano ao Iêmen resistem ao inimigo.
Há duas noites, os Pasdaran e o Hezbollah coordenaram os
seus ataques contra Israel, respondendo simultaneamente, pela primeira
vez, aos ataques das Forças de Defesa de Israel. Ele ameaça a abertura de novas
frentes: "A sua ativação ocorrerá se a situação de guerra persistir".
A mensagem dirige-se principalmente
aos países do Golfo, que neste conflito se revelaram o maior ponto de
vulnerabilidade para os americanos e de força para os Guardiões. "Devem
esclarecer a sua posição em relação àqueles que atacaram a nossa amada pátria e
mataram membros do nosso povo", adverte Khamenei, instando-os a
"fechar essas bases o mais rapidamente possível, porque as alegações
dos Estados Unidos de garantir a segurança e a paz não passam de uma
mentira".
É mais um dos temas recorrentes que permeiam
a retórica do regime desde a revolução islâmica de 1979: expulsar os
americanos do Oriente Médio, com o objetivo, para Teerã, de garantir
assim uma influência regional duradoura e consolidada.
Não sabemos se o texto foi de fato escrito
por Khamenei, mas ele coincide claramente com mensagens vindas do comando
militar. A liderança política foi marginalizada; os imperativos da guerra
estabeleceram a supremacia dos Pasdaran. Para gerir o conflito, era necessário
um líder que não impedisse a sua autonomia. "Em essência, o que estamos
testemunhando pode equivaler a um golpe de Estado de fato. O regime, na
prática, tornou-se a Guarda Revolucionária Islâmica e está lutando pela
sua sobrevivência. Outras facções dentro do sistema agora dependem dele",
escreve o analista Kamran Bokhari.
Segundo a inteligência americana, a liderança
iraniana permanece essencialmente intacta; não
há sinais de colapso do regime.
Uma guerra prolongada poderia desgastar o aparato e abrir caminho
para diferentes cenários, mas, por ora, os agentes 007 descrevem um sistema que
"mantém o controle da opinião pública iraniana" e das ruas. Se a
guerra terminar sem um novo equilíbrio, a perspectiva para os iranianos é a de
se depararem com um sistema militarizado e mais autoritário, ávido por
vingança, tanto contra inimigos externos quanto contra aqueles que considera
internos.
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Governo Trump consome
anos de armamentos estocados em guerra no Irã
A guerra dos
Estados Unidos e de Israel contra o Irã tem
consumido rapidamente parte significativa do arsenal norte-americano estocado
pelo Departamento de Defesa, afirma reportagem
do Financial Times, publicada nesta quinta-feira (12/03).
Fontes afirmaram ao jornal que a
administração Trump já usou anos de estoques
de munições críticas nas primeiras fases da
campanha militar, iniciada em 28 de fevereiro; e que o ritmo intenso
dos ataques, especialmente utilizando mísseis de longo
alcance, pode levar a um desgaste expressivo das reservas militares.
Entre os armamentos mais utilizados estão os
mísseis Tomahawk, um dos principais sistemas de ataque de precisão da Marinha
dos Estados Unidos. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS)
estima que foram disparados cerca de 168 desses mísseis nas primeiras 100 horas
de ataques contra o território iraniano.
Nos últimos cinco anos, as Forças Armadas
norte-americanas compraram apenas 322 Tomahawks, incluindo 57 reservados para o
ano fiscal de 2026. Fontes militares ouvidas pelo FT estimam
que o uso maciço de Tomahawk poderá impactar os estoques da Marinha por vários
anos.
Fabricado pela empresa de armamentos RTX,
cada Tomahawk, um míssil de cruzeiro subsônico com ogiva de aproximadamente 454
quilos, custa cerca de US$ 3,6 milhões por unidade.
<><> Custos escalam
O custo da operação militar também escala
rapidamente. Segundo dados apresentados pelo Departamento de Defesa ao
Congresso, os primeiros seis dias da guerra já consumiram mais de US$ 11
bilhões, grande parte destinada à reposição de munições e uso de sistemas de
defesa aérea avançados.
O senador democrata e veterano da Força
Aérea, Mark Kelly, destacou o alto custo dos sistemas utilizados. “Os projéteis
que estamos disparando — Patriot, THAAD — custam milhões de dólares cada”,
afirmou ao MS Now, acrescentando que os drones Shahed, usados pelo
Irã, custam cerca de US$ 30 mil. “Os cálculos não fecham”, disse.
O embaixador dos Estados Unidos na OTAN,
Matthew Whitaker, por sua vez, mencionou os elevados custos do sistema
antimísseis Patriot. “Cada disparo custa US$4 milhões”, disse, ao ponderar que
a eficácia do sistema é de 96% a 98%, “mas é excessivamente caro, especialmente
comparado com drones [iranianos] muito baratos de fabricar”. Ele afirmou que os
Estados Unidos estão testando novas tecnologias em “laboratórios de campo” para
aprimorar a defesa contra drones iranianos.
<><> Pedido por recursos
O custo crescente da campanha militar é visto
com preocupação neste ano de eleições parlamentares, as chamadas midterms,
nas quais a desaprovação à guerra pode comprometer a maioria que os
republicanos e o presidente norte-americano, Donald Trump, detêm em ambas Casas
Legislativas.
O Pentágono deverá solicitar ao Congresso,
nos próximos dias, um aumento de até US$ 50 bilhões no orçamento militar para
sustentar a operação “Fúria Épica” conjunta entre Estados Unidos e Israel.
A senadora republicana Lisa Murkowski já
afirmou que o Capitólio não irá conceder um “cheque em branco” ao governo sem
explicações detalhadas.
Fonte:
Por Davis Gruber Sansolo, Héctor Luis Saint-Pierre, Isabela Agostinelli e Lívia
Peres Milani, no Le Monde/La Repubblica/Opera Mundi

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