terça-feira, 17 de março de 2026

A guerra contra o Irã: uma leitura em múltiplas escalas

A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, cuja etapa mais recente foi iniciada em 28 de fevereiro de 2026, é mais um sintoma da conjuntura crítica que vivemos em escala global, caracterizada por rápidas mudanças e múltiplas variáveis. Neste texto, resultante de um diálogo iniciado com um evento on-line promovido pelo Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Unesp, partimos de uma análise dos lugares, buscando entender a tomada de decisão, para depois passar para as escalas mesorregional e global. Antes de iniciar, contudo, é necessário fazer a ressalva de que em toda guerra há uma névoa que dificulta a análise, especialmente uma com informações que chegam o tempo todo, mas são pouco confiáveis. De fato, o campo comunicacional é outra frente de batalha.

<><> A escala dos lugares: singularidades nacionais e materialização do conflito

O início do conflito e seu desenrolar pode ser entendido como resultante de uma sequência de decisões que partem do Estado de Israel, dos Estados Unidos e do Irã. As decisões tomadas em Washington não podem ser dissociadas das contradições internas que se agravam nos Estados Unidos. De fato, a política de defesa atual foi permeada por tensões internas desde as propostas iniciais. Há uma retórica militarista, apoiada pelo complexo industrial-militar e que se concretiza em aumento dos gastos militares, na nomeação do “Departamento de Guerra” e na pressão para que os aliados gastem mais com defesa. Por outro lado, parte da base de apoio social que sustenta Trump critica veementemente ações militares prolongadas, vistas como fonte de custos para os Estados Unidos. Para parte dessa base de apoio, “Tornar a América Grande Novamente significa uma atenção ao âmbito interno e menos recursos para guerras e intervenções supostamente humanitárias.

Essas tensões internas foram inicialmente geridas a partir da fórmula “Paz pela força”, que expressa uma concepção do poder fundada na dimensão militar, em uma crítica à “ordem baseada em regras” e à universalidade da democracia e dos direitos humanos. Passa também por uma crença de que a vontade dos Estados Unidos poderia ser imposta com operações militares pontuais. Além das tensões internas ao trumpismo, outro fator que explica a tomada de decisão são as mobilizações internas e a necessidade das lideranças do Partido Republicano em encontrar fatores de união nacional – cenário ainda mais relevante em razão da proximidade das eleições de meio de mandato.

No Irã, a escala local é marcada por uma teocracia xiita que luta por sua sobrevivência. Este regime ainda mantém coesão interna do ponto de vista das elites políticas e militares, ainda que enfrente resistência popular e tenha que lidar com a pluralidade étnica e religiosa. Entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, uma série de protestos tomou conta do país, refletindo demandas genuínas da população iraniana, situação que foi instrumentalizada pelos Estados Unidos e Israel em uma tentativa frustrada de desestabilização do regime.

A continuidade da coesão interna explica a resposta iraniana. De acordo com relatos, no dia 28 de fevereiro, o bombardeio inicial ocorreu majoritariamente desde fora do território iraniano e a resposta persa começou rapidamente depois, com ataques a bases militares dos Estados Unidos na região do Golfo. A capacidade de resposta inicial iraniana se explica por uma descentralização da cadeia de comando da defesa, com uma estratégia de defesa em mosaico que atribui autonomia a nível operacional e foi pensada exatamente para um cenário de assassinato das lideranças centrais. Essa capacidade de resposta mantida depois da decapitação do regime parece ter pegado os Estados Unidos e Israel de surpresa.

A reação do Irã – que mostrou, ao menos neste início, capacidade e vontade para reagir – pode gerar uma guerra prolongada, que levaria a novos dilemas para os Estados Unidos, seja em razão do custo político de perda de vidas americanas ou da falta de material bélico suficiente para sustentar esta guerra. Os Estados Unidos possuem armamentos de alto custo e tecnologia agregada – em uma situação de barroquização – mas que não servem para guerras de atrito, assimétricas e econômicas.

<><> A escala mesorregional: ordens regionais em disputa

A escala mesorregional pode ser pensada a partir das duas ordens regionais em disputa no Oriente Médio. A primeira, promovida por Estados Unidos e Israel pode ser compreendida como uma ordem baseada na instabilidade. Esta ordem em construção remonta aos Acordos de Abraão, assinados em 2020 e mediados por Trump em seu primeiro mandato, envolvendo inicialmente Israel, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, agregando depois Marrocos e Sudão. Essas articulações entendem o Irã como ameaça central e há uma tentativa de expansão e consolidação da articulação, inclusive com a intenção de trazer a Arábia Saudita para os acordos.

A outra ordem em construção reflete a perspectiva das monarquias árabes do Golfo, em especial Arábia Saudita, Catar e Omã. Estes regimes têm sido cada vez mais cautelosos e tentado repensar os custos da manutenção de bases dos Estados Unidos. Não no sentido de se afastar dos americanos, mas de diversificar suas parcerias – movimento visto na aproximação dos países do Golfo com Rússia e China – e de repensar a constatação de que o Irã é a fonte de desestabilização regional. Em março de 2023, por exemplo, Arábia Saudita e Irã, antes grandes inimigos, normalizaram suas relações, com mediação chinesa.

Os custos dessa aliança das monarquias árabes do Golfo com o Ocidente ficaram patentes na Guerra dos Doze Dias e no ataque que Israel fez ao Catar em setembro de 2025. Para além da dimensão militar, cabe ressaltar a importância crescente do comércio com a China para estes países. O Irã aproveitou este momento para mostrar os custos dessa expansão imperialista de Estados Unidos e Israel. Isso explica os alvos dos principais bombardeios iranianos: embaixadas e bases militares americanas no Oriente Médio.

De forma geral, o ataque ao Irã e a tentativa de mudança de regime significam a manutenção de um estado de guerra permanente no Oriente Médio, de instabilidade e caos, que interessa a Israel e ao complexo militar-industrial dos Estados Unidos. Assim, os ataques deixam claro que o centro de desestabilização da região não é o Irã, mas principalmente os Estados Unidos e Israel.  Ao mesmo tempo, a desestabilização é reproduzida também pelo Irã, que arma, treina e financia milícias como forma de resistência aos Estados Unidos e à Israel.

<><> A escala global: crise da diplomacia e da hegemonia

Nesta escala, o conflito armado marca um ponto de inflexão de um sistema em crise. Os Estados Unidos são uma potência em declínio que, no entanto, tentam manter sua influência internacional. A guerra contra o Irã é como uma alavanca – pode gerar tendências para um lado ou para outro, agravando a decadência em prol da multipolaridade ou a estancando. Em termos materiais, a região importa porque reflete a possibilidade de controlar um centro de distribuição da energia em escala mundial.

A tendência de declínio dos EUA tem se expressado em intensificação do emprego da força militar. Embora a guerra contra o Irã seja o ápice desta estratégia até agora, também revela alguns dos seus limites. Mostra principalmente que o emprego da violência organizada é capaz de causar grande devastação, mas não é – necessariamente – suficiente para que os EUA consigam impor sua vontade. Neste cenário, consolida-se também o abandono da narrativa de promoção de democracia, base da justificativa da hegemonia americana.

Além disso, o conflito também aprofunda a crise do multilateralismo e da diplomacia. A guerra se iniciou em meio a uma negociação mediada pelo Omã. De acordo com o ministro de relações exteriores do Omã, Badr bin Hamad Al Busaidi, o acordo era iminente e atendia aos interesses de Washington porque incluía a possibilidade de visitas de inspetores americanos as instalações nucleares iranianas, além de renúncia do país persa às reservas de material nuclear.

<><> Articulação entre escalas: do global aos locais

A leitura articulada das escalas global, mesorregional e local permite compreender a guerra contra o Irã não como um evento isolado ou conjuntural, mas como uma configuração histórica complexa, produzida pela sobreposição de dinâmicas estruturais e contingentes. Cada escala contém sua própria lógica, mas nenhuma é inteligível de forma autônoma. É justamente na interseção entre escalas que o conflito se materializa, se intensifica e se prolonga.

Na escala global, observa-se um processo de transição da ordem internacional, um longo processo de declínio dos Estados Unidos – que ainda pode ser contido. Nesta conjuntura crítica, o conflito do Irã pode ser um ponto de inflexão, em razão da possibilidade de controle de um centro de distribuição de energia.

Na escala mesorregional, o conflito reflete a existência de ordens regionais em disputa. A primeira, patrocinada pela aliança Estados Unidos-Israel, aposta na continuidade das guerras permanentes, no caos constante. A segunda, em construção por algumas monarquias do Golfo, propõe uma região com alguma autonomia, que gradualmente se afasta da dependência dos Estados Unidos e constrói relações com os outros centros de poder em ascensão.

Já na escala local, ou dos lugares, emergem as singularidades históricas, as disputas de poder internas, as consequências de um período eleitoral no qual tanto Netanyahu em Israel e Trump nos Estados Unidos precisam de uma vitória na cena internacional para contrarrestar o descontentamento social doméstico que ameaça sua posição política. Estes aspetos nacionais geram constrangimentos importantes para explicar tomadas de decisão. Também é nesta escala encontram-se motivações para explicar a aventura militarista.

Nesse quadro, um elemento tende a ser sistematicamente invisibilizado pelas análises centradas no poder: as populações civis que são as principais vítimas desses conflitos. São elas que sofrem os efeitos diretos das guerras, dos bloqueios econômicos, das sanções internacionais, das ocupações territoriais e da destruição de infraestruturas básicas. Paradoxalmente, são também aquelas que menos poder têm sobre as decisões estratégicas que produzem e perpetuam esses conflitos.

¨      Irã: "As bases americanas devem ser eliminadas e o Estreito de Ormuz permanecer bloqueado"

O Líder Supremo não aparece; sua primeira mensagem foi lida na televisão. É provável que ele tenha uma lesão no pé. Fontes dizem que ele está inconsciente.

Os iranianos aguardavam para ouvir sua voz, para decifrar seu tom e nuances, mas apenas uma apresentadora vestida com um chador preto apareceu na televisão nacional para ler um texto escrito.

Cinco dias após sua nomeação, o novo Líder Supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, continua ausente, alimentando especulações sobre seu verdadeiro estado de saúde. Sabe-se com certeza que ele foi ferido em 28 de fevereiro, nas primeiras horas da guerra, no ataque que matou seu pai, Ali, sua esposa, sua irmã e um de seus filhos. Mas agora foi descoberto que sua mãe, Mansoureh Khojasteh Bagherzadeh, sobreviveu. Segundo a CNN, o líder teria sofrido ferimentos leves: uma fratura no pé e escoriações no rosto. Outras fontes afirmam que ele pode estar em estado mais grave, inclusive inconsciente.

Em seu primeiro discurso à nação, Khamenei disse ter ficado sabendo pela televisão que havia sido escolhido como o novo Líder, alimentando suspeitas de que todo o processo foi influenciado e efetivamente ditado pelo Pasadran, que conseguiu exercer influência até mesmo sobre o clero, explorando a urgência da guerra. Mojtaba havia cultivado relações sólidas com a Guarda Revolucionária ao longo dos anos e era considerado há muito tempo o candidato mais popular à sucessão. Suas palavras ecoam a retórica de guerra dos militares: nenhum passo atrás, o inimigo se arrependerá.

Ele relembra as vítimas do conflito, menciona os mais de 150 estudantes da escola Shajareh-Tayyebeh em Minab mortos por um bombardeio americano e promete "vingança pelo sangue dos mártires". Ele também relata ter "tido a honra de ver o corpo" de seu pai "após seu martírio", descrevendo-o como "uma montanha de firmeza". Uma epopeia que serve para fortalecer as fileiras da "resistência", mas também uma mensagem política: o Irã não se desviará dos pilares estratégicos fundamentais da República Islâmica, de sua ideologia.

A guerra é uma guerra pela continuação da revolução de Khomeini. "A alavanca do fechamento do Estreito de Ormuz deve certamente continuar a ser usada", afirma ele, apelando à chamada "unidade das frentes", que do Líbano ao Iêmen resistem ao inimigo. Há duas noites, os Pasdaran e o Hezbollah coordenaram os seus ataques contra Israel, respondendo simultaneamente, pela primeira vez, aos ataques das Forças de Defesa de Israel. Ele ameaça a abertura de novas frentes: "A sua ativação ocorrerá se a situação de guerra persistir".

A mensagem dirige-se principalmente aos países do Golfo, que neste conflito se revelaram o maior ponto de vulnerabilidade para os americanos e de força para os Guardiões. "Devem esclarecer a sua posição em relação àqueles que atacaram a nossa amada pátria e mataram membros do nosso povo", adverte Khamenei, instando-os a "fechar essas bases o mais rapidamente possível, porque as alegações dos Estados Unidos de garantir a segurança e a paz não passam de uma mentira".

É mais um dos temas recorrentes que permeiam a retórica do regime desde a revolução islâmica de 1979: expulsar os americanos do Oriente Médio, com o objetivo, para Teerã, de garantir assim uma influência regional duradoura e consolidada.

Não sabemos se o texto foi de fato escrito por Khamenei, mas ele coincide claramente com mensagens vindas do comando militar. A liderança política foi marginalizada; os imperativos da guerra estabeleceram a supremacia dos Pasdaran. Para gerir o conflito, era necessário um líder que não impedisse a sua autonomia. "Em essência, o que estamos testemunhando pode equivaler a um golpe de Estado de fato. O regime, na prática, tornou-se a Guarda Revolucionária Islâmica e está lutando pela sua sobrevivência. Outras facções dentro do sistema agora dependem dele", escreve o analista Kamran Bokhari.

Segundo a inteligência americana, a liderança iraniana permanece essencialmente intacta; não há sinais de colapso do regime. Uma guerra prolongada poderia desgastar o aparato e abrir caminho para diferentes cenários, mas, por ora, os agentes 007 descrevem um sistema que "mantém o controle da opinião pública iraniana" e das ruas. Se a guerra terminar sem um novo equilíbrio, a perspectiva para os iranianos é a de se depararem com um sistema militarizado e mais autoritário, ávido por vingança, tanto contra inimigos externos quanto contra aqueles que considera internos.

¨      Governo Trump consome anos de armamentos estocados em guerra no Irã

guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã tem consumido rapidamente parte significativa do arsenal norte-americano estocado pelo Departamento de Defesa, afirma reportagem do Financial Times, publicada nesta quinta-feira (12/03).

Fontes afirmaram ao jornal que a administração Trump já usou anos de estoques de munições críticas nas primeiras fases da campanha militar, iniciada em 28 de fevereiro; e que o ritmo intenso dos ataques, especialmente utilizando mísseis de longo alcance, pode levar a um desgaste expressivo das reservas militares.

Entre os armamentos mais utilizados estão os mísseis Tomahawk, um dos principais sistemas de ataque de precisão da Marinha dos Estados Unidos. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) estima que foram disparados cerca de 168 desses mísseis nas primeiras 100 horas de ataques contra o território iraniano.

Nos últimos cinco anos, as Forças Armadas norte-americanas compraram apenas 322 Tomahawks, incluindo 57 reservados para o ano fiscal de 2026. Fontes militares ouvidas pelo FT estimam que o uso maciço de Tomahawk poderá impactar os estoques da Marinha por vários anos.

Fabricado pela empresa de armamentos RTX, cada Tomahawk, um míssil de cruzeiro subsônico com ogiva de aproximadamente 454 quilos, custa cerca de US$ 3,6 milhões por unidade.

<><> Custos escalam

O custo da operação militar também escala rapidamente. Segundo dados apresentados pelo Departamento de Defesa ao Congresso, os primeiros seis dias da guerra já consumiram mais de US$ 11 bilhões, grande parte destinada à reposição de munições e uso de sistemas de defesa aérea avançados.

O senador democrata e veterano da Força Aérea, Mark Kelly, destacou o alto custo dos sistemas utilizados. “Os projéteis que estamos disparando — Patriot, THAAD — custam milhões de dólares cada”, afirmou ao MS Now, acrescentando que os drones Shahed, usados pelo Irã, custam cerca de US$ 30 mil. “Os cálculos não fecham”, disse.

O embaixador dos Estados Unidos na OTAN, Matthew Whitaker, por sua vez, mencionou os elevados custos do sistema antimísseis Patriot. “Cada disparo custa US$4 milhões”, disse, ao ponderar que a eficácia do sistema é de 96% a 98%, “mas é excessivamente caro, especialmente comparado com drones [iranianos] muito baratos de fabricar”. Ele afirmou que os Estados Unidos estão testando novas tecnologias em “laboratórios de campo” para aprimorar a defesa contra drones iranianos.

<><> Pedido por recursos

O custo crescente da campanha militar é visto com preocupação neste ano de eleições parlamentares, as chamadas midterms, nas quais a desaprovação à guerra pode comprometer a maioria que os republicanos e o presidente norte-americano, Donald Trump, detêm em ambas Casas Legislativas.

O Pentágono deverá solicitar ao Congresso, nos próximos dias, um aumento de até US$ 50 bilhões no orçamento militar para sustentar a operação “Fúria Épica” conjunta entre Estados Unidos e Israel.

A senadora republicana Lisa Murkowski já afirmou que o Capitólio não irá conceder um “cheque em branco” ao governo sem explicações detalhadas.

 

Fonte: Por Davis Gruber Sansolo, Héctor Luis Saint-Pierre, Isabela Agostinelli e Lívia Peres Milani, no Le Monde/La Repubblica/Opera Mundi

 

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