Como
os aviões comerciais continuam voando em meio a uma guerra
Nas
últimas duas semanas, enquanto drones e mísseis cruzavam os céus sobre o Irã e
o Golfo, os controladores de tráfego aéreo guiavam aviões de passageiros por
rotas mais seguras, porém congestionadas, nas áreas próximas ao conflito.
Uma
rápida olhada em um mapa de rastreamento de voos mostra como o tráfego aéreo se
intensificou sobre o Egito e a Geórgia.
Trabalhando
lado a lado, cada controlador monitora uma parte diferente do mapa, coordenando
com os colegas quais aviões estão entrando e saindo de seu espaço aéreo.
Em um
dia normal, um controlador pode acompanhar cerca de seis aeronaves em sua área
ao mesmo tempo. Mas, em tempos de guerra, esse número pode dobrar.
"O
cérebro só consegue manter esse nível de concentração e intensidade por cerca
de 20 a 30 minutos", diz Brian Roche, controlador de tráfego aéreo
aposentado.
Ele
trabalhou 18 anos na profissão, primeiro na Força Aérea Real do Reino Unido, em
vários países, e depois com voos comerciais em Londres, onde integrou uma
equipe responsável por atender chamadas de emergência.
Durante
períodos de maior movimento, mais controladores são chamados para lidar com o
aumento do número de aeronaves em determinadas áreas, e as equipes passam a se
revezar com mais frequência para evitar sobrecarga.
Normalmente,
os turnos duram entre 45 e 60 minutos, seguidos por 20 a 30 minutos de
descanso, afirma Roche. Em períodos de conflito, porém, eles provavelmente
trabalham apenas 20 minutos por vez, com pausas do mesmo tempo.
"Os
controladores neste momento estão fazendo turnos inacreditáveis, lidando com
volumes igualmente inacreditáveis de tráfego aéreo", diz.
A queda
do voo MH17 da Malaysia Airlines em 2014, causada por um míssil de fabricação
russa no leste da Ucrânia, que matou todas as 298 pessoas a bordo, mostra como
os conflitos podem afetar as rotas de aviões de passageiros.
Na
época, a Ucrânia era uma zona de conflito de menor intensidade, mas os combates
haviam recentemente se estendido ao espaço aéreo e, nos meses anteriores,
vários aviões militares haviam sido derrubados. É também um cenário que ninguém
quer que se repita.
Na
semana passada, seis tripulantes americanos morreram depois que o avião-tanque
em que estavam caiu no oeste do Iraque.
A
aeronave participava de operações americanas contra o Irã e foi uma das duas
envolvidas no incidente. A segunda pousou com segurança. O Comando Central dos
EUA confirmou que o acidente não foi resultado de fogo inimigo nem de fogo
amigo.
Quando
o espaço aéreo é fechado ou fica congestionado de forma repentina, os
controladores se comunicam com os pilotos para definir para onde devem seguir,
quanto combustível têm e quais aeroportos podem receber o tipo de aeronave que
estão pilotando.
Os
controladores também precisam garantir que todos os aviões, que têm diferentes
tamanhos, permaneçam separados com segurança tanto na vertical quanto na
horizontal, já que grandes jatos de passageiros provocam mais turbulência e
instabilidade para as aeronaves ao redor.
Isso
significa que jatos menores precisam ser desviados e receber uma área maior de
distância, enquanto um pequeno jato executivo pode precisar mudar totalmente de
rota.
Mas
fechamentos repentinos do espaço aéreo são raros, diz John, piloto há mais de
20 anos. Ele preferiu não revelar seu nome verdadeiro porque ainda trabalha
como piloto e voa em rotas sobre o Oriente Médio.
Segundo
ele, a maioria das companhias aéreas planeja com antecedência quando pretende
evitar determinado espaço aéreo — seja por causa do mau tempo ou de uma guerra.
"Neste
caso, todos sabíamos que algo estava se formando no Oriente Médio", afirma
John. "Era uma questão de quando [iria acontecer] e não de se [iria
acontecer]."
Além de
conhecer rotas alternativas para evitar áreas de conflito, os pilotos também
tentam levar o máximo de combustível possível, caso precisem retornar ao
aeroporto de origem ou desviar para um aeroporto mais distante do que o destino
previsto.
"Esses
são eventos perfeitamente normais, treinados e controlados", diz John, que
também fez questão de destacar que pilotos e controladores seguem rigorosamente
os procedimentos para evitar que o espaço aéreo congestionado se torne
incontrolável. "Não é como um engarrafamento que vira caos."
Essa
sensação de calma e organização é algo que, segundo John, ele e outros pilotos
também procuram transmitir aos comissários de bordo e aos passageiros.
Hannah
ajuda a liderar uma equipe de comissários de bordo em voos de longa distância.
Não estamos usando seu nome verdadeiro porque ela não está autorizada a falar
em nome da companhia aérea.
As
rotas que Hannah costuma fazer frequentemente passam pelo Oriente Médio. Ela
diz que momentos de conflito destacam a importância da equipe a bordo,
especialmente para passageiros nervosos ou insatisfeitos.
"Nosso
trabalho vai muito além do clichê de que tudo o que fazemos é perguntar aos
passageiros se preferem frango ou carne no jantar", afirma.
"Muita
gente esquece os aspectos de segurança do nosso trabalho… Servir refeições é o
que fazemos quando todo o resto está sob controle."
Planos
de voo desviados e horários alterados podem tornar difícil manter um equilíbrio
saudável entre trabalho e vida pessoal, diz Hannah, tanto para os pilotos
quanto para os comissários de bordo.
Recentemente,
companhias aéreas como a dela passaram a fazer mais escalas em suas rotas,
porque não podem mais voar diretamente sobre o Irã.
Ainda
assim, ela considera que essas exigências fazem parte da profissão, algo que
descreve como "um estilo de vida e uma paixão".
"Como
comissários de bordo, todos nos sentimos parte de uma grande família",
diz. "Unidos pelas asas."
Fonte:
BBC News

Nenhum comentário:
Postar um comentário