terça-feira, 17 de março de 2026


 

O que cárie e gengivite têm a ver com AVC? Estudo indica aumento significativo no risco de derrame

Ter cáries e doença gengival ao mesmo tempo pode estar associado a um risco significativamente maior de acidente vascular cerebral (AVC). Um estudo publicado na revista científica Neurology Open Access, da Academia Americana de Neurologia, encontrou uma associação entre a combinação desses problemas bucais e um aumento no risco de AVC em comparação com pessoas que têm boa saúde bucal.

Os resultados também indicam que a má saúde bucal pode estar relacionada a um risco 36% maior de eventos cardiovasculares graves, como ataque cardíaco, doença cardíaca fatal ou AVC.

A pesquisa não prova que os problemas bucais causem diretamente os AVCs, mas sugere que melhorar a saúde bucal pode ser uma estratégia importante — e frequentemente negligenciada — na prevenção da doença.

<><> O que diz o estudo

O trabalho analisou dados de 5.986 adultos, com idade média de 63 anos, que não tinham histórico de AVC no início do estudo.

Todos os participantes passaram por exames odontológicos para avaliar a presença de cáries, doença gengival (periodontal) ou ambas. A partir disso, os pesquisadores dividiram o grupo em três categorias:

        pessoas com boca saudável

        pessoas com apenas doença gengival

        pessoas com doença gengival e cáries

Os participantes foram acompanhados por duas décadas, com base em contatos telefônicos e registros médicos, para identificar quem desenvolveu AVC ao longo do tempo.

<><> Risco maior entre quem tem dois problemas bucais

Durante o acompanhamento, os pesquisadores observaram diferenças importantes entre os grupos.

        Entre os participantes com boca saudável, 4% sofreram um AVC.

        Já entre aqueles com apenas doença gengival, o índice foi de 7%.

        No grupo com doença gengival e cáries, o número chegou a 10%.

Após ajustes para fatores como idade, índice de massa corporal e tabagismo, os resultados mostraram que:

        pessoas com doença gengival e cáries tinham 86% mais risco de AVC em comparação com quem tinha boca saudável;

        aquelas com apenas doença gengival apresentaram 44% mais risco.

<><> Relação com doenças do coração

Além do AVC, o estudo analisou a ocorrência de eventos cardiovasculares graves, como ataque cardíaco, doença cardíaca fatal ou o próprio AVC.

Nesse panorama geral, pessoas com doença gengival e cáries tiveram um risco 36% maior desses eventos em comparação com participantes com boa saúde bucal.

<><> Visitas ao dentista podem fazer diferença

A pesquisa também avaliou hábitos de cuidados odontológicos.

Os participantes que relataram visitar o dentista regularmente apresentaram:

        81% menos probabilidade de ter simultaneamente doença gengival e cáries

        29% menos probabilidade de apresentar apenas doença gengival

Segundo o autor do estudo, Souvik Sen, da Universidade da Carolina do Sul, os resultados reforçam a importância de cuidar da saúde bucal.

“Este estudo reforça a ideia de que cuidar dos dentes e gengivas não se resume apenas ao sorriso; pode ajudar a proteger o cérebro”, afirmou.

A diretora da Associação Brasileira de Odontologia Ludimila Saiter explicou ao g1 que existem dois mecanismos podem ligar uma infecção na boca a problemas cardiovasculares ou cerebrais. O primeiro é a via direta e segundo é a inflamação sistêmica.

“As bactérias da cavidade bucal entram na corrente sanguínea através da inflamação gengival e podem se alojar nas válvulas do coração ou em placas de gordura nas artérias. Além disso, uma infecção bucal crônica faz o corpo produzir substâncias inflamatórias que circulam por todo o organismo, danificando os vasos sanguíneos e aumentando o risco de infarto e AVC, por exemplo", afirmou.

Saiter destacou ainda que os dentistas costumam observar esta associação na prática, no dia a dia nos consultórios, e que a boca não é um sistema isolado. Quando uma infecção bucal severa é tratada, é comum notar uma melhora nos indicadores gerais de saúde do paciente.

“Observamos com frequência que pacientes com quadros graves de gengivite ou periodontite apresentam outras condições sistêmicas desfavoráveis, como pressão alta ou diabetes descontrolada”, disse Saiter.

<><> Qual a frequência ideal de consultas ao dentista para prevenir doenças bucais?

A recomendação padrão de frequência ideal ao dentista para prevenir doenças bucais é a cada seis meses. Esse é o tempo médio para que o cálculo dental (tártaro) se acumule e problemas iniciais apareçam. Porém, o observar uma atipicidade na cavidade bucal o correto é agendar uma consulta imediata.

Para alguns grupos de risco — como fumantes, diabéticos ou pessoas com histórico de doença periodontal — esse intervalo deve ser menor, a cada três meses, ou dependendo da avaliação profissional esse prazo poderá ser ainda menor, quando se busca controle de doenças, segundo Saiter.

<><> Sinais de alerta de doença gengival que as pessoas costumam ignorar

Especialistas destacam que a gengiva saudável não sangra e o erro mais comum é achar que o sangramento gengival é normal. Outros sinais ignorados são:

        Lesões (feridas) persistentes – por mais de 15 dias

        Sensação de 'dente amolecido'

        E gengiva vermelha ou inchada

<><> O que é o AVC isquêmico

Os AVCs isquêmicos são o tipo mais comum de acidente vascular cerebral. Eles ocorrem quando um coágulo ou bloqueio reduz o fluxo sanguíneo para o cérebro, impedindo que o órgão receba oxigênio e nutrientes.

Já as cáries são cavidades no esmalte dentário causadas pela ação de bactérias da placa bacteriana que produzem ácidos ao metabolizar restos de alimentos e açúcares. Elas geralmente estão associadas ao consumo de alimentos açucarados ou ricos em amido, além de fatores como higiene bucal inadequada ou genética.

A doença periodontal, por sua vez, é uma inflamação ou infecção que afeta a gengiva e o osso que sustenta os dentes. Quando não tratada, pode levar à perda dentária.

<><> Limitações do estudo

Os autores apontam que a saúde bucal dos participantes foi avaliada apenas uma vez, no início da pesquisa. Assim, possíveis mudanças ao longo dos anos não foram registradas.

Além disso, outros fatores de saúde que não foram medidos podem ter influenciado os resultados.

Mesmo assim, os pesquisadores afirmam que os achados indicam que manter dentes e gengivas saudáveis pode ser uma parte importante da prevenção do AVC.

O estudo foi publicado na Neurology Open Access em outubro de 2025.

        Proteína do sangue ajuda cientistas a deixar cérebro temporariamente 'transparente'; entenda a técnica

Tornar um cérebro vivo transparente e observar seus neurônios em funcionamento em tempo real: durante décadas, isso pareceu impossível.

Agora, pesquisadores da Universidade de Kyushu, no Japão, dizem ter conseguido exatamente tal feito, usando como ingrediente principal uma proteína comum no sangue humano.

O método foi descrito em um estudo publicado na revista científica "Nature Methods".

A técnica usa albumina, uma proteína abundante no sangue, para tornar temporariamente mais transparente o tecido cerebral, o que permite enxergar estruturas profundas do cérebro com mais clareza, sem interromper sua atividade normal.

“Esta é a primeira vez que a transparência de tecidos é alcançada sem alterar sua biologia”, afirma Takeshi Imai, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Kyushu e autor sênior do estudo.

<><> Por que o cérebro é difícil de observar

Grande parte das funções do cérebro, como memória, percepção e tomada de decisões, depende da comunicação entre neurônios localizados em camadas profundas.

➡️O problema é que o tecido cerebral NÃO é transparente.

A luz que entra nele se espalha ao atravessar diferentes estruturas celulares, o que dificulta enxergar o que acontece mais a fundo.

Para entender esse motivo, os cientistas usam uma comparação simples: bolinhas de vidro são fáceis de ver no ar, mas quase desaparecem quando mergulhadas em óleo.

Isso acontece porque, quando dois materiais têm índices de refração parecidos, a luz atravessa o meio com menos distorção.

O mesmo princípio se aplica ao nosso cérebro. Se o ambiente ao redor das células tiver propriedades ópticas semelhantes às delas, a luz consegue penetrar mais profundamente.

Para então resolver esse problema, os pesquisadores buscaram uma substância que pudesse ajustar essas propriedades ópticas sem prejudicar as células.

Após testar dezenas de compostos, a equipe encontrou a solução em um material surpreendentemente simples: a albumina, proteína presente no sangue.

“Eu testei três ou quatro vezes antes de acreditar”, contou o pesquisador Shigenori Inagaki, primeiro autor do estudo. “De todas as coisas possíveis, nunca imaginamos que a solução viria disso.”

Ao adicionar albumina ao meio onde o tecido cerebral está imerso, os cientistas conseguiram equilibrar a forma como a luz se comporta dentro das células e fora delas.

O resultado foi um líquido especial, chamado SeeDB-Live, capaz de tornar o tecido cerebral temporariamente mais transparente.

<><> O que os testes mostraram

Nos experimentos, fatias de cérebro de camundongos ficaram transparentes em cerca de uma hora após serem mergulhadas na solução.

Isso permitiu aos cientistas observar a atividade de neurônios mais profundos, que antes estavam ocultos.

Em cérebros de animais vivos, os sinais luminosos dessas células ficaram até três vezes mais brilhantes, facilitando a observação das conexões neuronais.

Outro ponto importante é que o efeito é temporário. Depois de algumas horas, a solução é eliminada e o tecido volta ao estado original.

Isso significa que o mesmo animal pode ser observado várias vezes ao longo do tempo para acompanhar mudanças na atividade cerebral.

Os pesquisadores acreditam que o método pode abrir novas possibilidades para estudar como o cérebro funciona em tempo real.

A técnica pode ajudar cientistas a entender melhor, por exemplo, como circuitos neurais processam informações e controlam o comportamento.

Também há interesse em aplicar o método em organoides cerebrais — mini-cérebro cultivados em laboratório — usados em pesquisas sobre doenças e no desenvolvimento de medicamentos.

“A albumina é abundante no sangue e altamente solúvel, o que a torna adequada para esse tipo de aplicação”, explica Imai. “Foi uma descoberta acidental, mas olhando para trás parece quase natural.”

 

Fonte: g1


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