quarta-feira, 18 de março de 2026

Oliveiros Marques: O terrivelmente evangélico estaria blindando Vorcaro?

A decisão do ministro do STF André Mendonça de restringir o acesso da CPI a parte dos dados extraídos da quebra de sigilo do banqueiro Daniel Vorcaro levanta uma dúvida inevitável: estamos diante de uma medida de proteção à intimidade ou de uma blindagem seletiva?

O argumento apresentado pelo magistrado — proteger a esfera privada do investigado — é, em tese, legítimo. O problema está no timing e no recorte. A preocupação com a intimidade não apareceu quando conversas pessoais do banqueiro, inclusive de natureza íntima, vieram a público por vazamentos atribuídos a membros da própria CPMI. Mas surge agora, justamente quando começam a aparecer informações potencialmente sensíveis ao campo político.

Entre elas, um dado que não passou despercebido: contatos de figuras públicas como Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro constam nos aparelhos analisados pela Polícia Federal. E é aqui que a discussão deixa de ser jurídica e passa a ser política.

A decisão do ministro abre uma questão central: quem define o que é “conversa de cunho pessoal”? Em que medida diálogos entre um banqueiro investigado e agentes políticos podem ser classificados como privados? A lógica indica o contrário. Quando figuras públicas se relacionam com agentes econômicos envolvidos em investigações, especialmente durante períodos críticos, a presunção não deveria ser de intimidade, mas de interesse público.

O caso que envolve Vorcaro ajuda a entender o tamanho do problema. A trajetória do chamado “Master” passa pela compra do banco Máxima, operação aprovada sob a gestão anterior do Banco Central, comandada por Campos Neto, e segue com uma série de decisões administrativas do governo Bolsonaro que levantaram suspeitas no mercado. Entre elas, o uso agressivo de instrumentos como precatórios e crédito consignado, que cresceram sob marcos regulatórios permissivos. Mais recentemente, a tentativa de aquisição pelo BRB, com apoio político explícito, incluindo a atuação de Ibaneis Rocha, e aportes que envolveram figuras como o governador bolsonarista do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, ampliam ainda mais as possíveis conexões entre o banco e setores do poder.

Nesse contexto, tratar eventuais conversas com parlamentares como meramente pessoais parece, no mínimo, ingênuo. E, se forem de fato pessoais — um simples bate-papo entre amigos —, o cenário pode ser ainda mais revelador. Afinal, proximidade excessiva também é informação relevante. Explicaria, por exemplo, episódios como o uso de aeronaves em campanhas políticas, levantando dúvidas sobre financiamentos não declarados.

A decisão de Mendonça, portanto, não é neutra. Ela interfere diretamente na capacidade investigativa da CPMI e levanta suspeitas sobre o alcance da transparência em casos que envolvem poder econômico e político. O presidente da CPMI, o senador Carlos Viana, bolsonarista e bem relacionado com a Igreja Lagoinha de Nikolas e Vorcaro, se levantará contra a “canetada” de Mendonça? Não creio.

Talvez por isso não vejamos, desta vez, a habitual mobilização nas redes pedindo impeachment de ministros do STF. Quando a possível blindagem atinge aliados, o silêncio se impõe. E, sendo o ministro “terrivelmente evangélico”, como o próprio Bolsonaro definiu sua indicação, suas decisões parecem, para alguns, não apenas jurídicas, mas quase sagradas — como se estivessem, simbolicamente, lavadas pelas águas do rio Jordão.

No fim, resta a pergunta: trata-se de proteger a intimidade ou de limitar o alcance da verdade?

•        Camarote VIP de Vorcaro na Sapucaí recebeu filho de Luiz Fux nos desfiles

Mensagens recuperadas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro comprovam que o advogado Rodrigo Fux, filho do ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux, foi recebido na área VIP do camarote Alma Rio, na Marquês de Sapucaí, durante o Carnaval de 2025. Os detalhes foram revelados nesta terça-feira (17) pela coluna de Mônica Bergamo e mostram que Rodrigo esteve presente no Desfile das Campeãs do Rio de Janeiro, em março daquele ano, como convidado pessoal do empresário.

A coluna de Mônica Bergamo teve acesso aos diálogos armazenados no aparelho de Vorcaro, nos quais o banqueiro orienta uma assessora sobre a acomodação do filho do ministro. Em determinado momento da troca de mensagens, o empresário escreveu: "Fux, por [no espaço] VIP". Na sequência, a mesma assessora consultou Vorcaro sobre a possibilidade de incluir a atriz Sophie Charlotte no mesmo espaço reservado. A resposta foi direta: "Pode demais."

O Alma Rio, camarote onde Rodrigo Fux foi recebido, era fruto de uma associação entre Vorcaro e o empresário Álvaro Garnero. O dono do Banco Master contribuiu com o financiamento do empreendimento e destinava a seus convidados particulares um espaço ainda mais exclusivo, localizado no terceiro andar da estrutura — um nível acima da área VIP convencional. Com a prisão do banqueiro e a liquidação do banco, Garnero ficou sem o aporte e passou a comercializar os acessos ao local por R$ 7 mil por noite.

Diante das revelações, Rodrigo Fux se manifestou para negar qualquer laço de amizade com o banqueiro e descartar a existência de vínculo profissional entre os dois. Segundo ele, Vorcaro tentou estabelecer uma aproximação comercial, mas as tratativas não avançaram. "Nunca tivemos relação comercial, nunca advoguei para ele", declarou o advogado.

A presença do filho do ministro no camarote de Vorcaro amplia o debate sobre os vínculos do ex-banqueiro com membros da Suprema Corte. O caso já havia ganhado contornos delicados com a divulgação de que o Banco Master celebrou um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Outro ponto de atenção envolve o ministro Dias Toffoli: fundos associados a Vorcaro adquiriram participação em um resort no Paraná pertencente a uma empresa da qual Toffoli era sócio.

No campo judicial, a situação de Daniel Vorcaro é de crescente gravidade. No início deste mês, o ministro André Mendonça determinou sua segunda prisão e ordenou sua transferência para uma unidade penitenciária de segurança máxima no Distrito Federal. Na semana passada, ao votar no STF sobre a manutenção da custódia do ex-banqueiro, o ministro Luiz Fux foi favorável à permanência de Vorcaro atrás das grades.

•        Empresa de Vorcaro pagou R$ 165 milhões a galeria de arte em SP

Uma empresa vinculada ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso por fraudes bancárias, realizou transferências que somam R$ 165 milhões a uma galeria de arte localizada em São Paulo. As informações foram divulgadas nesta terça-feira (17) pelo portal Metrópoles e integram o conjunto de documentos sob análise da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS.

Os investigadores obtiveram acesso às anotações pessoais de Vorcaro após a quebra de sigilo do empresário. O material indica que o dono do Banco Master teria orientado os pagamentos à Almeida & Dale Galeria de Arte, conhecida no mercado nacional pela curadoria de alto padrão, a partir de abril de 2024.

<><> A empresa intermediária e os pagamentos

Os repasses foram realizados por meio da Super Empreendimentos e Participações S.A., identificada pelas autoridades como uma intermediária utilizada pelo banqueiro para operações financeiras suspeitas. A empresa já havia sido apontada como canal de pagamento a operadores de atividades ilícitas, entre eles os ex-servidores do Banco Central Bellini Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, além de integrantes do grupo criminoso denominado "A Turma".

No total, a Super Empreendimentos realizou nove pagamentos à galeria entre 2024 e 2025. A primeira transferência, de R$ 10 milhões, ocorreu em 4 de abril de 2024, seguida por outras duas parcelas de mesmo valor nos meses subsequentes. A partir de maio de 2025, foram registradas seis parcelas mensais de R$ 22,5 milhões cada, completando o montante de R$ 165 milhões.

<><> As obras adquiridas

Entre os artistas cujas obras foram compradas à galeria estão nomes de peso do mercado nacional e internacional: Beatriz Milhazes, Sergio Camargo, Tomie Ohtake, Tracey Emin e Os Gemeos. Uma obra do escultor norte-americano Alexander Calder também chegou a ser adquirida, mas foi posteriormente devolvida à galeria.

<><> A galeria se pronuncia

A Almeida & Dale confirmou sua participação nas negociações, mas ressaltou que atuou apenas como intermediária e que nunca manteve contato direto com os dirigentes da empresa compradora. Em nota, a galeria afirmou que realizou uma "intermediação, entre abril de 2022 e abril de 2025, para a venda de obras para a Super Empreendimentos".

O estabelecimento ainda destacou que "todas as negociações foram conduzidas por meio de um intermediário independente e um advisor especializado no mercado de arte que representava a Super Empreendimentos".

Sobre a regularidade fiscal das operações, a galeria foi categórica: "A Almeida & Dale emitiu regularmente notas fiscais referentes às comissões recebidas nessas operações, em estrita conformidade com a legislação". A nota reforça ainda que "seus sócios e colaboradores jamais tiveram contato direto com os sócios ou dirigentes da empresa compradora".

<><> O contexto das investigações

Daniel Vorcaro está preso no âmbito das investigações que apuram fraudes bancárias associadas ao Banco Master. O esquema investigado pela CPMI do INSS envolve suspeitas de desvios de recursos públicos e o uso de pessoas jurídicas como camadas para movimentação de valores.

A identificação dos pagamentos à galeria de arte aprofunda o escrutínio sobre a rede de empresas e operadores ligados ao banqueiro, ampliando o alcance das apurações em curso no Congresso Nacional.

•        Ex-presidente do BRB cita Rueda em mensagens com Vorcaro, do Banco Master

Uma troca de mensagens entre o então presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, e o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revela menções ao presidente do União Brasil, Antônio Rueda, durante negociações envolvendo a venda da instituição financeira. O conteúdo foi extraído do celular de Vorcaro e integra investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) e pela CPMI do INSS, informa o jornal O Globo.

Vorcaro costumava registrar capturas de tela de conversas de WhatsApp e armazená-las em seu aparelho. Um desses registros, salvo no início de 2025, mostra Costa informando que havia conversado com Rueda e indicando que o dirigente partidário também teria interesse em dialogar com o banqueiro. O material, segundo investigadores, reforça a rede de conexões políticas mobilizada por Vorcaro em meio à tentativa de reestruturar o Banco Master.

<><> Mensagens indicam alinhamento entre os envolvidos

No diálogo analisado, Costa relata frustração com uma reunião realizada anteriormente, sem detalhar os interlocutores, e reafirma apoio a Vorcaro. “Sempre é sempre mesmo”, escreveu o então presidente do BRB. Em resposta, o empresário também manifestou alinhamento, no contexto das negociações para socorrer a instituição financeira, que enfrentava dificuldades no mercado.

As investigações buscam esclarecer o conteúdo e o alcance das tratativas mencionadas, especialmente no que diz respeito à eventual participação de agentes políticos na operação.

<><> Defesa nega irregularidades e cita rotina institucional

Procurado, Paulo Henrique Costa afirmou, por meio de advogados, que “mensagens foram trocadas no contexto do exercício regular de suas responsabilidades como presidente do Banco de Brasília (BRB), no âmbito das relações institucionais e comerciais mantidas pelo banco".

A defesa acrescentou que “comunicações entre dirigentes de instituições financeiras fazem parte da rotina do mercado e não substituem os processos formais de análise, governança e deliberação colegiada que regem a atuação do BRB”. Também destacou que “todas as decisões relacionadas às operações em discussão foram submetidas às instâncias técnicas e de governança competentes, sempre orientadas pela defesa dos interesses do BRB”.

Já Antônio Rueda declarou que “não comenta diálogos privados” que, segundo ele, teriam sido divulgados de forma irregular. O dirigente afirmou ainda que “não possui qualquer relação” com Vorcaro, “além de contatos sociais eventuais, como ocorre com diversas pessoas do meio político e empresarial”. A defesa de Vorcaro informou que não se manifestará.

<><> Operação bilionária e suspeitas de fraude

À época das conversas, BRB e Banco Master negociavam uma operação para tentar reequilibrar a instituição privada. O banco público anunciou a compra de 58% do capital do Master por cerca de R$ 2 bilhões, mas a transação foi barrada pelo Banco Central, que posteriormente decretou a liquidação da instituição por suspeitas de fraude e incapacidade de honrar compromissos financeiros.

As investigações apontam que o BRB teria adquirido carteiras de crédito consideradas fictícias do Master. Segundo a Polícia Federal, o volume de fraudes pode chegar a R$ 12,2 bilhões. Os investigadores identificaram “indícios de participação consciente dos dirigentes do BRB no suposto esquema fraudulento engendrado pelos gestores do Banco Master”.

Em depoimentos ao Supremo Tribunal Federal (STF), no fim do ano passado, Costa e Vorcaro negaram irregularidades, embora tenham apresentado versões divergentes sobre o conhecimento da origem dos ativos sob suspeita.

<><> Rede de contatos políticos sob investigação

Uma das linhas de apuração busca entender como Vorcaro teria obtido apoio para uma operação considerada de alto risco. Segundo relatos, o empresário reconhecia, em conversas reservadas, a importância de sua rede de contatos em Brasília, afirmando ter feito “fortes amigos” e destacando a necessidade de apoio político para avançar no ambiente institucional brasileiro.

Outros elementos analisados reforçam essa hipótese. Um e-mail armazenado nos arquivos de Vorcaro indica que Antônio Rueda e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) tiveram assentos reservados em um helicóptero de empresa ligada ao banqueiro após o Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1, em 2024. Rueda não comentou o episódio, enquanto Nogueira confirmou presença no evento, mas negou ter utilizado a aeronave.

 

Fonte: Brasil 247

 

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