Oliveiros
Marques: O terrivelmente evangélico estaria blindando Vorcaro?
A
decisão do ministro do STF André Mendonça de restringir o acesso da CPI a parte
dos dados extraídos da quebra de sigilo do banqueiro Daniel Vorcaro levanta uma
dúvida inevitável: estamos diante de uma medida de proteção à intimidade ou de
uma blindagem seletiva?
O
argumento apresentado pelo magistrado — proteger a esfera privada do
investigado — é, em tese, legítimo. O problema está no timing e no recorte. A
preocupação com a intimidade não apareceu quando conversas pessoais do
banqueiro, inclusive de natureza íntima, vieram a público por vazamentos
atribuídos a membros da própria CPMI. Mas surge agora, justamente quando
começam a aparecer informações potencialmente sensíveis ao campo político.
Entre
elas, um dado que não passou despercebido: contatos de figuras públicas como
Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro constam nos aparelhos analisados pela
Polícia Federal. E é aqui que a discussão deixa de ser jurídica e passa a ser
política.
A
decisão do ministro abre uma questão central: quem define o que é “conversa de
cunho pessoal”? Em que medida diálogos entre um banqueiro investigado e agentes
políticos podem ser classificados como privados? A lógica indica o contrário.
Quando figuras públicas se relacionam com agentes econômicos envolvidos em
investigações, especialmente durante períodos críticos, a presunção não deveria
ser de intimidade, mas de interesse público.
O caso
que envolve Vorcaro ajuda a entender o tamanho do problema. A trajetória do
chamado “Master” passa pela compra do banco Máxima, operação aprovada sob a
gestão anterior do Banco Central, comandada por Campos Neto, e segue com uma
série de decisões administrativas do governo Bolsonaro que levantaram suspeitas
no mercado. Entre elas, o uso agressivo de instrumentos como precatórios e
crédito consignado, que cresceram sob marcos regulatórios permissivos. Mais
recentemente, a tentativa de aquisição pelo BRB, com apoio político explícito,
incluindo a atuação de Ibaneis Rocha, e aportes que envolveram figuras como o
governador bolsonarista do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, ampliam ainda mais
as possíveis conexões entre o banco e setores do poder.
Nesse
contexto, tratar eventuais conversas com parlamentares como meramente pessoais
parece, no mínimo, ingênuo. E, se forem de fato pessoais — um simples bate-papo
entre amigos —, o cenário pode ser ainda mais revelador. Afinal, proximidade
excessiva também é informação relevante. Explicaria, por exemplo, episódios
como o uso de aeronaves em campanhas políticas, levantando dúvidas sobre
financiamentos não declarados.
A
decisão de Mendonça, portanto, não é neutra. Ela interfere diretamente na
capacidade investigativa da CPMI e levanta suspeitas sobre o alcance da
transparência em casos que envolvem poder econômico e político. O presidente da
CPMI, o senador Carlos Viana, bolsonarista e bem relacionado com a Igreja
Lagoinha de Nikolas e Vorcaro, se levantará contra a “canetada” de Mendonça?
Não creio.
Talvez
por isso não vejamos, desta vez, a habitual mobilização nas redes pedindo
impeachment de ministros do STF. Quando a possível blindagem atinge aliados, o
silêncio se impõe. E, sendo o ministro “terrivelmente evangélico”, como o
próprio Bolsonaro definiu sua indicação, suas decisões parecem, para alguns,
não apenas jurídicas, mas quase sagradas — como se estivessem, simbolicamente,
lavadas pelas águas do rio Jordão.
No fim,
resta a pergunta: trata-se de proteger a intimidade ou de limitar o alcance da
verdade?
• Camarote VIP de Vorcaro na Sapucaí
recebeu filho de Luiz Fux nos desfiles
Mensagens
recuperadas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro comprovam que o advogado
Rodrigo Fux, filho do ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux, foi
recebido na área VIP do camarote Alma Rio, na Marquês de Sapucaí, durante o
Carnaval de 2025. Os detalhes foram revelados nesta terça-feira (17) pela
coluna de Mônica Bergamo e mostram que Rodrigo esteve presente no Desfile das
Campeãs do Rio de Janeiro, em março daquele ano, como convidado pessoal do
empresário.
A
coluna de Mônica Bergamo teve acesso aos diálogos armazenados no aparelho de
Vorcaro, nos quais o banqueiro orienta uma assessora sobre a acomodação do
filho do ministro. Em determinado momento da troca de mensagens, o empresário
escreveu: "Fux, por [no espaço] VIP". Na sequência, a mesma assessora
consultou Vorcaro sobre a possibilidade de incluir a atriz Sophie Charlotte no
mesmo espaço reservado. A resposta foi direta: "Pode demais."
O Alma
Rio, camarote onde Rodrigo Fux foi recebido, era fruto de uma associação entre
Vorcaro e o empresário Álvaro Garnero. O dono do Banco Master contribuiu com o
financiamento do empreendimento e destinava a seus convidados particulares um
espaço ainda mais exclusivo, localizado no terceiro andar da estrutura — um
nível acima da área VIP convencional. Com a prisão do banqueiro e a liquidação
do banco, Garnero ficou sem o aporte e passou a comercializar os acessos ao
local por R$ 7 mil por noite.
Diante
das revelações, Rodrigo Fux se manifestou para negar qualquer laço de amizade
com o banqueiro e descartar a existência de vínculo profissional entre os dois.
Segundo ele, Vorcaro tentou estabelecer uma aproximação comercial, mas as
tratativas não avançaram. "Nunca tivemos relação comercial, nunca advoguei
para ele", declarou o advogado.
A
presença do filho do ministro no camarote de Vorcaro amplia o debate sobre os
vínculos do ex-banqueiro com membros da Suprema Corte. O caso já havia ganhado
contornos delicados com a divulgação de que o Banco Master celebrou um contrato
de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes,
esposa do ministro Alexandre de Moraes. Outro ponto de atenção envolve o
ministro Dias Toffoli: fundos associados a Vorcaro adquiriram participação em
um resort no Paraná pertencente a uma empresa da qual Toffoli era sócio.
No
campo judicial, a situação de Daniel Vorcaro é de crescente gravidade. No
início deste mês, o ministro André Mendonça determinou sua segunda prisão e
ordenou sua transferência para uma unidade penitenciária de segurança máxima no
Distrito Federal. Na semana passada, ao votar no STF sobre a manutenção da
custódia do ex-banqueiro, o ministro Luiz Fux foi favorável à permanência de
Vorcaro atrás das grades.
• Empresa de Vorcaro pagou R$ 165 milhões
a galeria de arte em SP
Uma
empresa vinculada ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso por fraudes bancárias,
realizou transferências que somam R$ 165 milhões a uma galeria de arte
localizada em São Paulo. As informações foram divulgadas nesta terça-feira (17)
pelo portal Metrópoles e integram o conjunto de documentos sob análise da
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS.
Os
investigadores obtiveram acesso às anotações pessoais de Vorcaro após a quebra
de sigilo do empresário. O material indica que o dono do Banco Master teria
orientado os pagamentos à Almeida & Dale Galeria de Arte, conhecida no
mercado nacional pela curadoria de alto padrão, a partir de abril de 2024.
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A empresa intermediária e os pagamentos
Os
repasses foram realizados por meio da Super Empreendimentos e Participações
S.A., identificada pelas autoridades como uma intermediária utilizada pelo
banqueiro para operações financeiras suspeitas. A empresa já havia sido
apontada como canal de pagamento a operadores de atividades ilícitas, entre
eles os ex-servidores do Banco Central Bellini Santana e Paulo Sérgio Neves de
Souza, além de integrantes do grupo criminoso denominado "A Turma".
No
total, a Super Empreendimentos realizou nove pagamentos à galeria entre 2024 e
2025. A primeira transferência, de R$ 10 milhões, ocorreu em 4 de abril de
2024, seguida por outras duas parcelas de mesmo valor nos meses subsequentes. A
partir de maio de 2025, foram registradas seis parcelas mensais de R$ 22,5
milhões cada, completando o montante de R$ 165 milhões.
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As obras adquiridas
Entre
os artistas cujas obras foram compradas à galeria estão nomes de peso do
mercado nacional e internacional: Beatriz Milhazes, Sergio Camargo, Tomie
Ohtake, Tracey Emin e Os Gemeos. Uma obra do escultor norte-americano Alexander
Calder também chegou a ser adquirida, mas foi posteriormente devolvida à
galeria.
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A galeria se pronuncia
A
Almeida & Dale confirmou sua participação nas negociações, mas ressaltou
que atuou apenas como intermediária e que nunca manteve contato direto com os
dirigentes da empresa compradora. Em nota, a galeria afirmou que realizou uma
"intermediação, entre abril de 2022 e abril de 2025, para a venda de obras
para a Super Empreendimentos".
O
estabelecimento ainda destacou que "todas as negociações foram conduzidas
por meio de um intermediário independente e um advisor especializado no mercado
de arte que representava a Super Empreendimentos".
Sobre a
regularidade fiscal das operações, a galeria foi categórica: "A Almeida
& Dale emitiu regularmente notas fiscais referentes às comissões recebidas
nessas operações, em estrita conformidade com a legislação". A nota
reforça ainda que "seus sócios e colaboradores jamais tiveram contato
direto com os sócios ou dirigentes da empresa compradora".
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O contexto das investigações
Daniel
Vorcaro está preso no âmbito das investigações que apuram fraudes bancárias
associadas ao Banco Master. O esquema investigado pela CPMI do INSS envolve
suspeitas de desvios de recursos públicos e o uso de pessoas jurídicas como
camadas para movimentação de valores.
A
identificação dos pagamentos à galeria de arte aprofunda o escrutínio sobre a
rede de empresas e operadores ligados ao banqueiro, ampliando o alcance das
apurações em curso no Congresso Nacional.
• Ex-presidente do BRB cita Rueda em
mensagens com Vorcaro, do Banco Master
Uma
troca de mensagens entre o então presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo
Henrique Costa, e o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revela
menções ao presidente do União Brasil, Antônio Rueda, durante negociações
envolvendo a venda da instituição financeira. O conteúdo foi extraído do
celular de Vorcaro e integra investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF)
e pela CPMI do INSS, informa o jornal O Globo.
Vorcaro
costumava registrar capturas de tela de conversas de WhatsApp e armazená-las em
seu aparelho. Um desses registros, salvo no início de 2025, mostra Costa
informando que havia conversado com Rueda e indicando que o dirigente
partidário também teria interesse em dialogar com o banqueiro. O material,
segundo investigadores, reforça a rede de conexões políticas mobilizada por
Vorcaro em meio à tentativa de reestruturar o Banco Master.
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Mensagens indicam alinhamento entre os envolvidos
No
diálogo analisado, Costa relata frustração com uma reunião realizada
anteriormente, sem detalhar os interlocutores, e reafirma apoio a Vorcaro.
“Sempre é sempre mesmo”, escreveu o então presidente do BRB. Em resposta, o
empresário também manifestou alinhamento, no contexto das negociações para
socorrer a instituição financeira, que enfrentava dificuldades no mercado.
As
investigações buscam esclarecer o conteúdo e o alcance das tratativas
mencionadas, especialmente no que diz respeito à eventual participação de
agentes políticos na operação.
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Defesa nega irregularidades e cita rotina institucional
Procurado,
Paulo Henrique Costa afirmou, por meio de advogados, que “mensagens foram
trocadas no contexto do exercício regular de suas responsabilidades como
presidente do Banco de Brasília (BRB), no âmbito das relações institucionais e
comerciais mantidas pelo banco".
A
defesa acrescentou que “comunicações entre dirigentes de instituições
financeiras fazem parte da rotina do mercado e não substituem os processos
formais de análise, governança e deliberação colegiada que regem a atuação do
BRB”. Também destacou que “todas as decisões relacionadas às operações em
discussão foram submetidas às instâncias técnicas e de governança competentes,
sempre orientadas pela defesa dos interesses do BRB”.
Já
Antônio Rueda declarou que “não comenta diálogos privados” que, segundo ele,
teriam sido divulgados de forma irregular. O dirigente afirmou ainda que “não
possui qualquer relação” com Vorcaro, “além de contatos sociais eventuais, como
ocorre com diversas pessoas do meio político e empresarial”. A defesa de
Vorcaro informou que não se manifestará.
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Operação bilionária e suspeitas de fraude
À época
das conversas, BRB e Banco Master negociavam uma operação para tentar
reequilibrar a instituição privada. O banco público anunciou a compra de 58% do
capital do Master por cerca de R$ 2 bilhões, mas a transação foi barrada pelo
Banco Central, que posteriormente decretou a liquidação da instituição por
suspeitas de fraude e incapacidade de honrar compromissos financeiros.
As
investigações apontam que o BRB teria adquirido carteiras de crédito
consideradas fictícias do Master. Segundo a Polícia Federal, o volume de
fraudes pode chegar a R$ 12,2 bilhões. Os investigadores identificaram
“indícios de participação consciente dos dirigentes do BRB no suposto esquema
fraudulento engendrado pelos gestores do Banco Master”.
Em
depoimentos ao Supremo Tribunal Federal (STF), no fim do ano passado, Costa e
Vorcaro negaram irregularidades, embora tenham apresentado versões divergentes
sobre o conhecimento da origem dos ativos sob suspeita.
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Rede de contatos políticos sob investigação
Uma das
linhas de apuração busca entender como Vorcaro teria obtido apoio para uma
operação considerada de alto risco. Segundo relatos, o empresário reconhecia,
em conversas reservadas, a importância de sua rede de contatos em Brasília,
afirmando ter feito “fortes amigos” e destacando a necessidade de apoio
político para avançar no ambiente institucional brasileiro.
Outros
elementos analisados reforçam essa hipótese. Um e-mail armazenado nos arquivos
de Vorcaro indica que Antônio Rueda e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) tiveram
assentos reservados em um helicóptero de empresa ligada ao banqueiro após o
Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1, em 2024. Rueda não comentou o
episódio, enquanto Nogueira confirmou presença no evento, mas negou ter
utilizado a aeronave.
Fonte:
Brasil 247

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