quarta-feira, 18 de março de 2026

Maria Luiza Falcão: Quando a guerra sabota o clima

Há algo de profundamente perverso no tempo histórico em que vivemos. Enquanto a ciência insiste, com crescente urgência, que a humanidade dispõe de uma janela cada vez mais estreita para conter o aquecimento global, as grandes potências seguem agindo como se a guerra pudesse ser separada da crise climática. Não pode. A devastação militar, a corrida armamentista, a destruição de infraestrutura, a revalorização geopolítica do petróleo e o colapso da cooperação internacional fazem da guerra um dos maiores sabotadores contemporâneos das metas climáticas.

É nesse sentido que a situação criada por Donald Trump e Benjamin Netanyahu ultrapassa o terreno da geopolítica regional e entra diretamente no coração do problema climático mundial. A guerra contra o Irã, iniciada no fim de fevereiro e já no seu 17º dia em 16 de março de 2026, não apenas multiplica mortos, deslocados e destruição material. Ela também empurra o mundo de volta à lógica do combustível fóssil, da segurança energética militarizada e da emergência permanente — exatamente o oposto do que seria necessário para uma transição ecológica planejada.

O caso do Estreito de Ormuz é emblemático. Não se trata mais de uma hipótese longínqua evocada por analistas para assustar mercados. O estreito, por onde passa cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito transportados no mundo, já é uma rota sob grave interrupção, com Washington pressionando outros países a enviar forças navais para tentar mantê-lo aberto. Quando o fluxo energético global fica ameaçado nesse nível, o sistema internacional não reage com serenidade climática. Reage com pânico fóssil. Reage reforçando escoltas navais, ampliando a militarização da infraestrutura energética e recolocando o petróleo no centro da estratégia de sobrevivência econômica.

A escalada militar começa a produzir efeitos ainda mais perturbadores quando atinge os sistemas básicos de sobrevivência das populações. Notícias divulgadas neste sábado indicam que a guerra já ameaça inclusive o fornecimento de água em partes da região. Infraestruturas essenciais — usinas elétricas, sistemas de bombeamento, redes de distribuição e instalações de dessalinização — dependem de energia e estabilidade logística para funcionar. Quando essas estruturas entram em colapso ou operam sob risco constante, milhões de pessoas passam a enfrentar não apenas o medo das bombas, mas também a ameaça da sede. A guerra, nesse sentido, transforma-se em um multiplicador de crises: destrói cidades, interrompe cadeias energéticas e compromete até o acesso à água potável. Em uma região já marcada por estresse hídrico e temperaturas extremas agravadas pelas mudanças climáticas, o resultado pode ser devastador.

Eis a contradição central: há anos se repete, nas conferências do clima, que a transição energética exige previsibilidade, coordenação, financiamento, planejamento industrial e redução acelerada da dependência de carvão, petróleo e gás. Mas a guerra faz exatamente o contrário. Ela introduz ruptura de oferta, especulação, choques de preços, medo de desabastecimento e pressões para expandir a produção e o transporte de combustíveis fósseis. Em vez de acelerar o abandono do velho paradigma energético, o conflito o ressuscita sob a forma de urgência estratégica.

Isso não se limita ao petróleo que circula pelo Golfo. A própria máquina da guerra é intensiva em carbono. Operações militares, bombardeios, deslocamentos de tropas, reconstrução de cidades destruídas, produção de armamentos, logística de bases e sistemas de defesa elevam emissões direta e indiretamente.

Um estudo publicado na Nature Communications mostrou que guerras e aumentos persistentes de gastos militares elevam a intensidade de emissões de CO₂; e análises recentes do Conflict and Environment Observatory alertam que a escalada global do gasto militar compromete diretamente os objetivos da ação climática.

Em outras palavras: a guerra não é apenas um drama humanitário ou diplomático. Ela é também uma política climática regressiva, ainda que jamais se apresente assim. Cada míssil lançado, cada refinaria ameaçada, cada rota marítima militarizada, cada orçamento público deslocado da adaptação ecológica para a compra de armamentos contribui para aprofundar a distância entre o que os governos prometem nas cúpulas do clima e o que de fato fazem no mundo real.

É precisamente por isso que a ofensiva articulada por Trump e Netanyahu tem implicações muito mais amplas do que as justificativas apresentadas em nome de “segurança” ou “dissuasão”. Ao incendiar uma região central para o mercado global de energia, ambos ajudam a reorganizar prioridades do sistema internacional em torno da guerra, não da descarbonização. E isso acontece quando a agenda climática já vinha enfrentando enormes dificuldades.

Na COP30, uma nova análise da Organização das Nações Unidas (ONU) estimou que, mesmo com avanços recentes, os planos nacionais levariam a uma queda de apenas 12% nas emissões globais até 2035 em relação a 2019 — progresso insuficiente diante da escala do desafio. O espaço para atrasos já era mínimo; sob uma guerra prolongada, ele se torna ainda menor.

Existe ainda uma dimensão política menos visível, mas igualmente grave. A crise climática depende de cooperação internacional em larga escala. Exige confiança mínima entre Estados, instituições multilaterais capazes de coordenar metas, regras de financiamento e compartilhamento tecnológico. A guerra destrói exatamente esse ambiente. Ela substitui a linguagem da cooperação pela da coerção; a diplomacia climática pela diplomacia da intimidação; os fundos para a transição por orçamentos de defesa; os pactos multilaterais por alianças militares ad hoc. Quando a política internacional entra em estado de beligerância permanente, a governança do clima se torna refém da lógica do inimigo.

Nesse cenário sombrio, a China aparece como uma contradição importante. Segue sendo grande consumidora de carvão, e isso não deve ser minimizado, mas, ao mesmo tempo, foi justamente a expansão acelerada das energias renováveis que permitiu ao país registrar, em 2025, a primeira queda anual da geração termelétrica em uma década. A Reuters também destacou, no começo de 2026, que a China continua ampliando fortemente sua capacidade em solar, eólica e armazenamento, consolidando-se como o principal polo mundial da infraestrutura de energia limpa. Ou seja, enquanto parte do Ocidente reacende a geopolítica do petróleo sob escolta militar, a China oferece um vetor oposto: o de uma transformação produtiva em que a segurança energética tende a se apoiar mais em capacidade industrial limpa do que em guerras por controle de rotas e regiões estratégicas.

Isso não significa idealizar Pequim, mas reconhecer a natureza da bifurcação histórica em curso. De um lado, a segurança definida em termos militares, dependente de frotas, bases, petróleo e imposição de força. De outro, a segurança definida em termos de investimento produtivo, tecnologia energética e reestruturação de longo prazo. A primeira amplia o risco climático. A segunda, ainda que incompleta e contraditória, aponta para uma saída mais racional.

Trump e Netanyahu operam no sentido inverso, reforçando a ideia de que a ordem internacional pode continuar baseada em supremacia militar e em controle coercitivo de regiões-chave. Essa visão não apenas é moralmente devastadora; ela é climaticamente suicida. Não se pode pretender defender o planeta mantendo intacta a centralidade estratégica do petróleo. Não se pode falar em transição ecológica enquanto se normaliza a explosão de guerras em áreas decisivas para a energia global. Não se pode pedir sacrifícios à população civil em nome do clima enquanto trilhões são canalizados para destruição, rearmamento e confrontação geopolítica.

O ponto mais grave é que a guerra não adia apenas metas abstratas para 2030 ou 2050. Ela reorganiza o presente. Ela muda preços relativos, prioridades fiscais, discursos políticos e hierarquias estratégicas. Ao fazer isso, cria inércia institucional e econômica contrária à transição. O resultado é simples: cada mês de guerra torna mais difícil, mais cara e mais politicamente improvável a transformação ecológica de que o mundo necessita.

A tragédia, portanto, é dupla. Morrem pessoas sob bombas e morre, um pouco mais, a já frágil possibilidade de coordenação global contra o aquecimento do planeta. O mesmo sistema internacional que se mostra incapaz de proteger civis também se mostra incapaz de proteger as condições mínimas de habitabilidade da Terra. E isso não é coincidência. É expressão de uma ordem que continua tratando o poder militar como solução, quando ele é parte decisiva do problema.

Se o mundo quiser realmente enfrentar a emergência climática, terá de romper não apenas com os combustíveis fósseis, mas também com a lógica política que os sustenta. Terá de reconhecer que militarização, guerra e transição ecológica são situações cada vez mais incompatíveis. E terá de dizer com clareza o que muitos preferem calar: as guerras de Trump e Netanyahu não apenas incendeiam o Oriente Médio. Elas ajudam a incendiar o próprio futuro climático da humanidade.

¨      Trump gera reação negativa por comentário sobre guerra ao Irã: 'Talvez nem devêssemos estar lá'

No domingo, Donald Trump gerou forte reação negativa ao sugerir que os esforços dos EUA para proteger o Estreito de Ormuz eram desnecessários – e que “talvez nem devêssemos estar lá”, já que seu país possui reservas de petróleo suficientes.

O presidente fez o comentário contraditório a repórteres a bordo do Air Force One, depois de implorar aos aliados europeus e da OTAN que entrassem na guerra contra o Irã para ajudar os EUA a garantir o controle do estreito em meio à maior interrupção no fornecimento de petróleo da história.

“Na verdade, estou exigindo que esses países intervenham e protejam seu próprio território – porque é o território deles”, disse ele.

“Eles deveriam vir e nos ajudar a protegê-lo. Poderíamos até argumentar que talvez nem devêssemos estar lá, porque não precisamos disso. Temos muito petróleo. Somos o maior produtor mundial, duas vezes mais.”

Trump foi criticado nos estágios iniciais da guerra de três semanas entre os EUA e Israel no Irã por não apresentar razões claras para o lançamento de ataques militares. Desde então, ele fez uma série de declarações contraditórias, incluindo dizer ao Reino Unido, que ele chamou de " outrora um grande aliado ", que sua ajuda não era necessária na Operação Epic Fury.

Seu comentário de domingo foi igualmente questionado em uma reação imediata nas redes sociais por parte de críticos que o acusaram de iniciar uma guerra desnecessária – e depois exigiram que outros interviessem para ajudá-lo a encerrá-la.

Uma das publicações mencionava as famílias dos 13 militares americanos mortos no conflito até domingo – e como elas poderiam reagir à sugestão do presidente de que “nem deveriam estar lá”.

O primo do sargento técnico Tyler Simmons, um dos seis militares da Força Aérea mortos na queda de um avião-tanque de reabastecimento americano na semana passada, disse à afiliada da ABC News em Ohio, WCMH, que a família está vivenciando "o pior pesadelo que poderíamos imaginar".

“Isso poderia ter sido evitado”, disse Stephan Douglas em entrevista antes dos comentários de Trump na noite de domingo. “Não precisávamos estar nessa guerra. Isso é injustificável, e é isso que temos.”

Em outro caso, um editor do site progressista MeidasTouch republicou uma resposta a um vídeo do comentário de Trump "nem deveria estar lá", que dizia: "Desculpe, o que foi isso?"

Trump fez essas declarações no mesmo dia em que reverteu sua posição anterior sobre ajuda externa e intensificou a pressão sobre diversos outros países para que se envolvessem na defesa do estreito.

Austrália, França e Japão estão entre os países que afirmaram não ter planos de enviar navios de guerra. Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido, disse na segunda-feira que estava trabalhando com aliados europeus em um "plano viável" para reabrir o estreito, mas insistiu que o país "não será arrastado para uma guerra mais ampla".

Xavier Bettel, vice-primeiro-ministro de Luxemburgo, afirmou que seu país não cederá à "chantagem" dos EUA.

Durante a coletiva de imprensa de domingo, quando o presidente retornava a Washington após um fim de semana em Mar-a-Lago, seu resort na Flórida, Trump sugeriu que o esforço dos EUA para garantir a segurança do estreito era para o benefício de outros países.

“É quase como se fizéssemos isso por hábito, mas também o fazemos por causa de alguns aliados muito bons que temos no Oriente Médio”, disse ele.

Trump afirmou estar conversando com diversos países que, em sua opinião, poderiam ajudar, mas não os identificou. Em uma publicação anterior nas redes sociais, ele disse esperar que China, França, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e outros participassem.

Em entrevista ao Financial Times no domingo, seu tom foi mais ameaçador, alertando que a OTAN enfrenta um futuro "muito ruim" se não ajudar os EUA a proteger o estreito de ataques iranianos.

Ele também disse ao jornal que "pode ​​adiar" a viagem para a cúpula com Xi Jinping, presidente da China, esta semana, até saber se a China, aliada do Irã, ajudaria.

¨      A AIE vai considerar a liberação de mais reservas de petróleo, já que a guerra com o Irã mantém os preços elevados

O órgão regulador mundial do setor energético vai considerar a possibilidade de liberar mais reservas emergenciais de petróleo bruto no mercado global para conter a alta dos preços do petróleo, após alertar que os mercados levarão tempo para se recuperar da crise em curso no Estreito de Ormuz.

Fatih Birol, chefe da Agência Internacional de Energia, afirmou que seus membros continuam a manter grandes reservas de petróleo para emergências, mesmo após terem concordado com a maior liberação de petróleo bruto do governo na história do mercado, o que significa que mais reservas de petróleo para emergências ainda podem ser liberadas "conforme e se necessário".

Isso ocorreu quando o preço do petróleo Brent subiu quase 3% nos primeiros minutos após a abertura do mercado na segunda-feira, chegando a cerca de US$ 106,50 o barril. Posteriormente, caiu cerca de 2%, mas ainda era negociado a pouco mais de US$ 100 o barril.

Cerca de 100 milhões de barris de reservas emergenciais de petróleo serão disponibilizados para compradores na Ásia esta semana, na primeira liberação de um volume planejado de 400 milhões de barris de petróleo bruto no mercado global para compensar a perda de exportações dos países do Golfo, o que causou um aumento de 40% nos preços globais do petróleo neste mês.

“Apesar dessa grande liberação, ainda temos muitos estoques restantes”, disse Birol. “Essa liberação atual, uma vez concluída, reduzirá os estoques de emergência nos países da AIE em apenas cerca de 20%.”

Birol alertou que, embora as reservas de emergência forneçam uma proteção temporária, é vital reabrir o Estreito de Ormuz para permitir que o petróleo e o gás do Golfo cheguem ao mercado global.

Na segunda-feira, Donald Trump reiterou seu apelo aos líderes mundiais para que ajudem a desbloquear o Estreito de Ormuz, que antes da crise transportava um quinto do petróleo bruto transportado por via marítima dos maiores produtores mundiais para os compradores internacionais.

“Alguns estão muito entusiasmados com isso, e outros não ”, disse Trump aos repórteres. “Alguns são países que ajudamos por muitos e muitos anos. Nós os protegemos de fontes externas terríveis, e eles não se mostraram tão entusiasmados. E o nível de entusiasmo importa para mim.”

Os EUA retaliaram ao bloqueio efetivo do Irã à vital rota comercial de petróleo com o ataque do fim de semana à ilha de Kharg , que abriga a infraestrutura responsável pela exportação de cerca de 90% do petróleo bruto do país do Oriente Médio.

Embora as forças armadas dos EUA não tenham danificado o centro petrolífero, o ataque aumentou ainda mais as preocupações com a produção de petróleo bruto no Golfo, que está em queda devido ao fechamento forçado dos campos petrolíferos pelos produtores.

Birol afirmou que os governos globais devem estar preparados para a possibilidade de o conflito se prolongar por mais algum tempo e alertou que o comércio global de energia levará algum tempo para se recuperar, mesmo após o fim do conflito.

 

Fonte: Brasil 247/Te Guardian

 

Nenhum comentário: