quarta-feira, 18 de março de 2026

Canabidiol e crianças: o que é mito e o que a ciência já comprovou

Para muitas famílias, lidar diariamente com crises convulsivas intensas em crianças é uma realidade exaustiva e angustiante. Quando os tratamentos convencionais deixam de surtir efeito, surge a dúvida inevitável: o canabidiol (CBD) pode oferecer uma alternativa?

Nos últimos anos, pesquisas científicas vêm apontando resultados encorajadores. Em epilepsias graves e resistentes, como as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut, e também em quadros associados à esclerose tuberosa, o CBD tem demonstrado reduzir tanto a frequência quanto a intensidade das crises, trazendo melhora significativa para as crianças e para o ambiente familiar.

Uma meta-análise publicada em 2023 na Experimental Neurology reforçou o benefício e a segurança do canabidiol como terapia complementar. Já no Brasil, um ensaio clínico conduzido pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e divulgado em 2024 na Trends in Psychiatry and Psychotherapy avaliou um extrato rico em CBD em 60 crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os pesquisadores observaram avanços nas áreas de interação social, ansiedade e comportamento, com efeitos adversos leves em menos de 10% dos participantes.

Essas evidências motivaram organismos internacionais como OMS e FDA, além da Anvisa, a reconhecerem o CBD como uma opção terapêutica válida e segura, desde que utilizado com prescrição e acompanhamento médico, conforme determina a RDC nº 327/2019.

Pensando nisso, a Click Cannabis, healthtech que democratiza o acesso à cannabis medicinal no Brasil, separou uma lista de suposições comuns no uso de canabidiol em crianças, desmistificando falácias e evidenciando benefícios. Confira:

<><> “O CBD é uma droga e causa dependência” - Mito

O canabidiol é um composto não psicoativo da Cannabis sativa e não gera dependência. A OMS (2018) e revisões recentes, como as publicadas na JAMA Network Open (2023), confirmam seu bom perfil de tolerabilidade e a baixa incidência de efeitos adversos — geralmente leves e reversíveis.

“O CBD não altera a consciência nem o comportamento. Quando indicado com critério correto e acompanhado de perto, pode representar uma alternativa segura em quadros graves, como as epilepsias refratárias”, explica o Dr. Felipe Nascimento, médico parceiro da Click Cannabis. Ele reforça que a supervisão profissional e a procedência do produto são indispensáveis, com controle laboratorial e registro adequado.

<><> “Qualquer tipo de CBD pode ser usado em crianças” - Mito

Há diferenças importantes entre produtos. Apenas formulações autorizadas pela Anvisa e submetidas a rigoroso controle de pureza são seguras para o uso infantil. Produtos irregulares podem conter níveis elevados de THC, além de solventes e metais pesados, oferecendo riscos à saúde.

“A procedência e a transparência são fundamentais. Não é um suplemento natural qualquer, é um composto terapêutico que exige padrão farmacêutico e acompanhamento profissional”, alerta Nascimento.

<><> “O CBD cura várias doenças” - Mito

O CBD não é uma cura. Trata-se de um tratamento adjuvante, com eficácia já comprovada para epilepsias refratárias como Lennox-Gastaut e Dravet. Outras possíveis aplicações — como no autismo, na ansiedade e nos distúrbios do sono — seguem em investigação. Embora os resultados preliminares sejam promissores, a comunidade científica é categórica: ainda é necessário ampliar o corpo de evidências antes de expandir as indicações.

<><> “Por ser natural, o CBD não tem efeitos colaterais” - Mito

Apesar do bom perfil de segurança, o CBD pode provocar sonolência, redução do apetite e diarreia, especialmente em doses altas ou quando associado a outros medicamentos. Estudos também apontam possíveis alterações em enzimas hepáticas (ALT/AST), reforçando a importância do monitoramento médico contínuo.

Para João Drummond, COO da Click Cannabis, o avanço é contínuo. Embora ainda haja desafios no uso da cannabis medicinal na infância, a ciência e a informação vêm ampliando horizontes. “Nosso papel é levar informação qualificada e mostrar que existe um caminho ético, regulamentado e baseado em evidência para o uso responsável do CBD”, afirma.

•        Autismo: canabidiol mostra efeitos em sono, ansiedade e irritação

O uso da cannabis medicinal tem avançado em diversas áreas da saúde, incluindo o tratamento de condições neurológicas e comportamentais. Entre elas, está o Transtorno do Espectro Autista (TEA), quadro que pode envolver desafios na comunicação, interação social, ansiedade e sensibilidade sensorial.

Para Guilherme de Almeida, presidente da Autistas Brasil, a nova resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que amplia o acesso regulatório à cannabis medicinal é especialmente relevante no tratamento do autismo. “Para a população autista, a cannabis medicinal não é um tratamento pontual, mas muitas vezes um recurso terapêutico permanente, integrado ao cuidado em saúde”, aponta.

Foi nesse cenário que Camila Monteiro optou por tratar o autismo nível 2 da filha de 4 anos, Giovanna, com cannabis medicinal. Diante de comportamentos como dificuldades na fala, atraso no desenvolvimento da linguagem e autoagressão, a neurologia apresentou duas possibilidades de tratamento: iniciar uma medicação convencional ou realizar uma experiência terapêutica com canabidiol. “Após a conversa entre os pais, a decisão foi pela cannabis medicinal, considerando a preferência por uma alternativa natural e a intenção de evitar, sempre que possível, a medicalização tradicional”, lembra.

A escolha não gerou resistência no âmbito familiar, social ou entre amigos, conforme relatado ao Correio. “Ao contrário, a decisão foi bem recebida e acompanhada por um olhar positivo das pessoas próximas”, Camila celebra. 

Em cerca de um mês de uso, Giovanna passou a apresentar mudanças significativas. “A fala tornou-se mais clara, com palavras mais completas e formação de frases. O contato visual passou a ocorrer com mais frequência, incluindo a chamada triangulação do olhar, e a socialização apresentou melhora expressiva”, a mãe descreve. “Episódios de heteroagressão e autoagressão, como bater a cabeça com frequência e estados constantes de irritabilidade, praticamente cessaram.”

Atualmente, Camila nota eventuais desregulações da pequena, desencadeadas em situações pontuais de frustração. “Com o uso do canabidiol, a rotina tornou-se mais organizada. Antes do tratamento, possivelmente já havia desconfortos ou incômodos que não podiam ser identificados com clareza, em razão da dificuldade de comunicação. Com a evolução da fala, tornou-se mais fácil compreender o que ela sente e precisa”, argumenta.

O acompanhamento médico de Giovanna ocorre, em média, a cada seis meses. “Após cerca de nove meses de uso do canabidiol, as mudanças são consideradas extremamente positivas”, diz Camila. “A convivência tornou-se mais estável. Ela brinca, cria histórias, realiza trocas com amigos e interage com terapeutas. O tratamento inclui acompanhamento em fonoaudiologia, terapia ocupacional e método Denver, todas potencializadas com o canabidiol. Hoje nós temos outra criança em casa.”

<><> Cannabis e autismo: o que a ciência diz

No corpo humano, existe um sistema responsável por interagir com compostos semelhantes aos presentes na cannabis: o sistema endocanabinoide. Ele é formado por receptores espalhados pelo cérebro, sistema nervoso e diversos tecidos do organismo, além de moléculas produzidas naturalmente pelo próprio corpo. Esse sistema atua como uma espécie de regulador interno, ajudando a manter o equilíbrio de diferentes funções fisiológicas, como humor, sono, dor, apetite, memória e respostas inflamatórias. Quando ativado, contribui para ajustar e modular esses processos, participando da manutenção do que a medicina chama de homeostase, ou seja, o equilíbrio do organismo.

Segundo a médica Juliana Bogado, especialista em canabidiol, tataraneta do cientista Vital Brazil, que criou o Instituto Butantan, e Coordenadora Acadêmica EndoPure Academy, medicamentos a base de canabinoides — em especial formulações ricas em canabidiol (CBD) e com baixos teores de THC — atuam como ferramenta complementar no TEA modulando o sistema endocanabinoide, reduzindo neuroinflamação, regulando a excitabilidade neuronal e a liberação de neurotransmissores.

“Além do efeito neuromodulador, há impacto em vias serotoninérgicas e em receptores TRPV1 e 5-HT1A, contribuindo para efeitos ansiolíticos, estabilizadores do humor, melhora do sono e redução de comorbidades, como ansiedade, epilepsia, infecções respiratórias recorrentes, entre outros”, acrescenta.

Os sintomas que apresentam melhor resposta ao tratamento com canabinóides incluem irritabilidade, agitação psicomotora, auto e heteroagressividade, ataques de raiva, automutilação, hiperatividade, distúrbios do sono e ansiedade. Bogado ressalta que alguns estudos também apontam melhora na atenção, cognição, linguagem expressiva e interação social, embora ainda seja necessário evidências científicas mais robustas.

Para pessoas com TEA, é recomendado níveis reduzidos de endocanabinoides como anandamida. Também têm sido observadas alterações na sinalização de receptores CB1/CB2 em autistas, fato que pode favorecer irritabilidade, agressividade e crises sensoriais. Nesse cenário, a especialista aponta o canabidiol como um restaurador de equilíbrio. “Atuando como um ‘freio’”, ilustra.

Outro ponto observado com o tratamento canábico, principalmente o CBD e o CBN, é a melhora do sono. "Ao promover sono mais reparador, observa-se, em muitos pacientes, impacto positivo secundário em autorregulação emocional, atenção, aprendizagem, consolidação de memória e redução de comportamentos desafiadores diurnos, favorecendo o desenvolvimento global e o engajamento em intervenções terapêuticas como fonoaudiologia e terapias comportamentais", explica Bogado.

Segundo a médica, a modulação global da irritabilidade, agitação, ansiedade e distúrbios do sono pode permitir, em alguns pacientes, a redução gradual de doses de antipsicóticos e outros psicofármacos. "O objetivo é reduzir a carga sintomática, melhorar a responsividade às intervenções psicoeducacionais e, quando possível, reduzir as outras medicações convencionais", afirma.

Apesar dos benefícios apontados, Bogado lembra que o tratamento exige acompanhamento médico. "É fundamental manter acompanhamento periódico, orientar sobre possíveis efeitos colaterais (sonolência, alterações de apetite, irritabilidade paradoxal), interações medicamentosas e garantir que o tratamento siga as normas regulatórias vigentes da Anvisa, do CFM e de princípios de medicina baseada em evidências", destaca.

“Ao reduzir comportamentos disruptivos, melhorar sono, modular ansiedade e favorecer maior regulação emocional, o tratamento com canabinoides pode ampliar a capacidade de participação em atividades de vida diária, terapias e contextos sociais, promovendo maior funcionalidade e autonomia progressiva em muitos pacientes com TEA. Indiretamente, essa melhora se traduz em alívio da sobrecarga dos cuidadores, redução de internações ou intervenções de urgência, e melhor qualidade de vida familiar, com mais previsibilidade da rotina e menor nível de estresse crônico no domicílio”, finaliza Bogado.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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