Onde
você guarda o seu estuprador?
Diante
de tantos casos de estupro que abarrotaram a mídia estes dias, me vi tomada de
muita raiva. Uma adolescente de 17 anos foi estuprada coletivamente pelo
ex-namorado e seus comparsas. O estupro de uma senhora de 71 anos pelo
motorista do ônibus, uma criança de 12 anos tendo estupros diários chancelados
pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais. O estupro, inclusive, de uma freira
de 82 anos, assassinada em seguida. Não sou de xingar, mas nesses momentos me
vem um sonoríssimo “filhos da puta” à cabeça. Só que não poderia haver equívoco
maior. Esse xingamento é só mais um sinal de como a nossa linguagem é
patriarcal. Estupradores não são filhos da puta, muito menos filhos da mãe. São
filhos do patriarcado, porque são o ápice da expressão patriarcal em todo seu
horror.
Não faz
muito tempo, escrevi o texto “Onde você guarda o seu estuprador? Os homens e a
urgência de destruir “o mandato da masculinidade”. Qual era mesmo a raiva da
época? Ah, sim, um médico anestesista que estuprava uma mulher na mesa de
cirurgia de sua cesárea e o vídeo dessa cena grotesca sendo violentamente
reproduzido na mídia, espetacularizando a violência e revitimizando a
parturiente estuprada, como se não bastasse a notícia.
Lembro
de um cartaz de uma manifestante divulgado em foto pelo Mídia Ninja:
“Estupradores são filhos saudáveis do patriarcado”. Uma amiga me corrigiu: “são
filhos diletos do patriarcado”. É verdade, porque filhos saudáveis do
patriarcado são quase todos os homens. E mulheres também, por certo, como a
juíza que instigava uma criança estuprada que acabara de completar 11 anos de
idade a seguir com a gravidez: “Você pode aguentar mais um pouquinho?”. Essa é
bem filha dileta do patriarcado. Mas aqui quero falar dos homens.
É que
precisamos falar dos homens, ou melhor, falar do que constitui a masculinidade,
com muita urgência. Está faltando demais essa parte do debate. E mais do que
isso, precisamos que os homens falem da masculinidade e do patriarcado. Que
falem conosco, mas que, sobretudo, falem entre si, com seus pais e filhos, com
seus amigos e colegas, que não se calem mais. Porque aí está a chave para
compreender o estupro e o estuprador. O que compõe e estrutura o estupro é o
machismo. Nós, mulheres, já nos demos conta disso, sabemos bem o que significa
ter um corpo feminino num mundo patriarcal. É preciso agora que vocês, homens,
se deem conta. Há um estuprador em potencial em todo homem.
Já
posso até ver chegando os homens de bem para dizer que “não, não, nem todo
homem”. Nem todo homem é estuprador, mas os estupradores são todos, ou quase
todos, homens. E ainda por cima “homens de bem”. São médicos e enfermeiros,
pastores e padres e políticos. Homens e cidadãos ilustres. Alguns mais famosos,
como o João de Deus, alguns que acabam de ganhar celebridade, como o médico
anestesista que angariou novos seguidores no Instagram, alguns menos famosos,
escondidos nos bons lares brasileiros.
Depois
chegarão outros homens que dirão “mas eu sou um homem de família”. Também já
sabemos que a grande maioria das vítimas de estupro, 8 de cada 10 casos, no
Brasil, foram abusadas por pessoas próximas, conhecidas. Os estupradores são,
muitas vezes, pais, padrastos, irmãos, tios, primos, avôs, homens de família e
homens da família.
Ainda
que nem todos os homens sejam “filhos diletos do patriarcado”, é preciso
entender o papel crucial de cada um na sua manutenção. Como bem colocou Rita
Segato, não é o estupro que sustenta o patriarcado. O estupro é tão somente uma
expressão aguda do patriarcado, como é o feminicídio, duas pontas extremas do
mesmo iceberg. O que sustenta o patriarcado, sua “argamassa hierárquica”, nos
termos de Segato, são os mínimos gestos, como quando rimos de um comentário
machista, por exemplo. As piadas, as coisas que achamos em geral uma pequena
bobagem e deixamos passar. Homens estão pouco dispostos a confrontar outros
homens, porque isso coloca em xeque sua virilidade, produz uma rachadura na
fratria. Essa conivência vai dos pequenos gestos aos mais graves, vai da piada
ao estupro, e faz de cada homem conivente uma peça primordial na manutenção
desse quadro sinistro. O machismo cotidiano é a argamassa do estupro. Nos
surpreendemos com a quantidade de estupros na sociedade, uma assombrosa
pandemia, mas não entendemos que está tudo estruturado para tanto. O estupro é
um crime intrinsecamente ligado à masculinidade tal como esta é constituída em
nossa sociedade.
Uma das
pesquisas mais interessantes já feitas sobre o tema até hoje foi aquela
realizada pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher (NEPEM), da
Universidade de Brasília, nos anos 90. Ali, ao ouvir presos por estupro na
Papuda, penitenciária masculina do DF, desfizeram-se muitas das crenças que
tínhamos a respeito de estupradores. A partir desta pesquisa, Rita Segato pode
entender uma chave importante do patriarcado, que é o estupro, e uma chave
importante sobre o autor desse crime: que o estuprador é cumpridor de um
mandato, o mandato da masculinidade. Certamente, hoje, sua obra é a que chega
mais perto do entendimento do estupro. A antropóloga afirma que o estupro não é
um ato sexual, mas um ato disciplinador, ou seja, um crime de poder. O estuprador
é, no fundo, um moralizador, cumpridor de um “mandato de masculinidade”. Para
Rita Segato, todo homem é vítima desse “mandato”, que nada mais é do que ter de
demonstrar permanentemente que é homem, exibir virilidade, poder e força para
outros homens. No imaginário do homem estuprador estão os outros homens, para
os quais precisa demonstrar seus atributos. O gozo não é sexual, é um gozo de
poder. A libido vem de demonstrar a outros homens que também pode subjugar, que
é merecedor de seu lugar na fratria.
A
demonstração de virilidade a outros homens é, no entanto, uma demonstração
jamais acabada. Um homem jamais chega a ser homem de forma definitiva — a
masculinidade é uma prova constante. Se o indivíduo foi homem a vida inteira,
mas um belo dia acordou de manhã e decidiu passar um batom, foi tudo por água
abaixo. O mandato da masculinidade é um fardo deveras pesado de se carregar. O
valor de um homem está sempre posto à prova por outros homens, o ser masculino
é refém do olhar masculino alheio, do olhar dos pares que vai chancelá-lo,
dizer que, “sim, muito bem, você é muito macho”. Quem carrega esse fardo são os
egos fragilíssimos que a masculinidade constrói — egos frágeis porque não se
sustentam por si só, precisando se alimentar de um outro, na maioria das vezes
uma outra, que eles subalternizam, controlam, põem em seu devido lugar. É “a
exação de tributos” de que fala Rita Segato.
Ao
analisar o discurso dos estupradores, Rita Segato, em “As estruturas
elementares da violência” (tradução publicada no Brasil em 2025), pode entender
algumas facetas do estupro: seu caráter moralizador, como castigo “a uma mulher
genérica que saiu de sua posição de subordinada”; seu caráter de “afronta a
outro homem, para restaurar o poder perdido para ele”; e o estupro “como
demonstração de força, poder perante pares”. Ao demonstrar que pode submeter
uma mulher e que pode dela “extrair tributos”, o homem garante seu acesso à
“fratria”, à “confraria viril”, ao “clube dos homens”.
Outra
chave para compreender a irmandade masculina, o “clube dos homens”, é perceber
o aspecto absolutamente homoafetivo da heterossexualidade masculina, como
apontado por Marilyn Frye em “Políticas da Realidade: Ensaios sobre Teoria
Feminista”, de 1983. Frye entendeu que, apesar de manter relações sexuais
exclusivamente com mulheres, os homens hétero cultivam o amor por outros
homens, pelos quais guardam admiração e respeito, a quem “imitam, idolatram e
com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com
quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração,
reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua
maioria esmagadora, outros homens”. Em outras palavras, tudo que diz respeito
ao amor, os homens guardam para outros homens. Para as mulheres, “reservam
gentileza, generosidade ou paternalismo” e delas esperam “devoção, servitude e
sexo.”
Trocando
em miúdos, grande parte do que chamamos de masculinidade e heterossexualidade
é, na verdade, uma exacerbação do mundo masculino e um rechaço ao feminino,
que, em outras palavras, podemos chamar de misoginia. Para ser homem, é preciso
ter seu referente de valor e admiração no mundo dos homens. Não é preciso
somente extrair valor da subalternização do feminino, demonstrar sua
virilidade, mas confirmar esse valor perante os pares. Isso torna os homens
reféns do olhar dos outros homens, porque é do olhar e da confirmação dos pares
que recebem também o seu valor, a sua potência. Segundo Rita Segato, “a
humanidade do sujeito masculino está tão comprometida por sua virilidade, que
ele não se vê podendo ser pessoa digna de respeito se não tem o atributo de
alguma potência — potência sexual, bélica, de força física, econômica,
intelectual, moral, política”. Em outras palavras, no fundo, é de uma
fragilidade imensa o ego masculino, pois precisa exibir “potências”, exibir o
“consumo” de corpos femininos, seu “poder moralizante” sobre as mulheres, e ser
ratificado, aprovado pela fratria, seus pares, seu grupo, para se confirmar.
É
urgente entendermos o quão sinistra é a construção da masculinidade e como,
contraditoriamente, ela produz egos frágeis, egos que não se sustentam por si,
egos que estão sempre à prova. O patriarcado é uma máquina avassaladora de
fazer sujeitos frágeis, defensivos, fracos e, por isso, ao mesmo tempo,
violentos, abusivos, autoritários, controladores, moralizadores. A violência,
como necessidade da “exação de tributos”, é a prova mais contundente de sua
debilidade.
Lembro
daquela genial campanha que nos interpelava: “onde você guarda seu racismo?”.
Precisamos somar urgentemente a essa pergunta uma outra: “onde você guarda o
seu machismo?”. Talvez, ainda mais urgente, seja cada homem se perguntar todos
os dias: “onde você guarda o seu estuprador?”.
Você
guarda o seu estuprador quando se cala, quando entende que o estupro não é um
problema seu, quando resguarda o estuprador ao lado, seu irmão, seu primo, seu
colega. Você guarda o seu estuprador quando ri de piadas machistas ou se cala.
Você guarda o seu estuprador quando é cúmplice de violências e crimes pelo
silêncio, pela conivência. Isso também é guardar o seu estuprador.
Quando
cada homem tiver a coragem de remexer suas gavetas para entender que o problema
do estupro é, sim, um problema seu, um passo importante terá sido dado para
desfazer esse crime que persiste, grassa e recrudesce em pleno século XXI.
Encontrar onde está guardado o estuprador em você, homem, é o primeiro passo, o
mais digno, para desfazer “o mandato da masculinidade”.
É que
passou da hora de entendermos que estupradores não são os monstros dos
infernos. Nem os monstros das esquinas. Estupradores não são monstros, ponto.
São homens comuns. Homens de bem. Homens de e da família. Os joãos que se dizem
de deus e outros messias. São um macho vil dentro de cada homem, um machinho
raso, egóico e autoritário e, no fundo, bem no fundo, frágil, fraco, covarde.
Homem,
não guarde o seu estuprador.
Fonte:
Por Danú Gontijo, em Outras Palavras

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