Belo
Sun: mineradora canadense é acusada de pressionar indígenas na Volta Grande
Em
dezembro de 2025, dez associações indígenas, representando os povos Juruna
(Yudjá) e Arara da Volta Grande do Xingu, aprovaram, em assembleia, uma ata que
anulava oficialmente a consulta prévia que a mineradora canadense Belo Sun
afirmava ter realizado no processo de licenciamento. No documento, as
comunidades declararam o procedimento inválido e determinaram a suspensão de
quaisquer tratativas com a empresa. O recado era claro: o diálogo coletivo
estava encerrado.
O que
se seguiu, no entanto, teria sido uma estratégia de esvaziamento dessa decisão
coletiva. Representantes da mineradora teriam ignorado a deliberação das
associações e passado a procurar lideranças específicas em reuniões restritas,
denunciam os indígenas à Agência Pública. O objetivo, segundo denúncias formais
apresentadas pelas comunidades, era convencer indivíduos a reverem as posições
já manifestadas pelo grupo. A acusação de tática de fragmentação e de assédio
direto foi descrita em detalhes em um ofício da Associação Indígena Korina
Juruna da Aldeia Pakissamba (AIKOJUPA), protocolado junto ao Ministério Público
Federal (MPF) e à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
O
documento relata que as abordagens ocorreram sem solicitação formal de ingresso
nos territórios indígenas e sem o acompanhamento de qualquer órgão do Estado.
“Querem falar com poucas pessoas, sem ouvir as comunidades como um todo. A
gente está se sentindo acuada com esse empreendimento”, relata Eliete
Pakissamba, presidente da associação AIKOJUPA. Para as lideranças, a pressão
contínua e individualizada representa uma violação direta do modo tradicional
de organização dos povos da região, que deliberam coletivamente sobre o futuro
de seus territórios.
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“A Volta Grande não vai resistir”
A
denúncia de pressão corporativa sobre os indígenas ocorre em um cenário de
exaustão ambiental. Como mostrou o podcast da Pública, Xingu em disputa, série
narrativa em quatro episódios que mergulha na transformação forçada do rio
Xingu após Belo Monte, a região, considerada uma das áreas mais sensíveis e
biodiversas da Amazônia brasileira, opera no limite de sua capacidade de
resiliência. O território abriga comunidades indígenas, populações ribeirinhas
e agricultores familiares que dependem diretamente das águas do rio para a
pesca, a agricultura de subsistência e o transporte. Mas o rio não é mais o
mesmo.
Nos
últimos anos, os moradores da região têm testemunhado e relatado mudanças
profundas na dinâmica das águas, consequência direta da construção e da
operação da usina hidrelétrica de Belo Monte. A obra monumental desviou grande
parte da vazão natural do Xingu para um canal artificial, criando o que os
técnicos chamam, eufemisticamente, de Trecho de Vazão Reduzida. Na prática, a
mudança secou áreas cruciais para a reprodução da vida aquática.
Monitoramentos
independentes realizados na região registraram episódios recorrentes de
variações abruptas no nível do rio, especialmente durante o período crítico de
reprodução dos peixes. Para os Juruna, Xikrin, Xipaya, Curuaia e Arara, a
redução drástica do pescado tem consequências imediatas na alimentação das
famílias e na manutenção de seus modos de vida tradicionais.
“Nós já
estamos sofrendo os impactos de Belo Monte, com a água do rio baixando rápido e
prejudicando a piracema e a navegação”, afirma Eliete Pakissamba, resumindo a
angústia de quem vê o rio minguar. “Se vier mais um projeto desse porte [Belo
Sun], a Volta Grande não vai resistir.”
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A busca de ouro num ecossistema já fraturado
É
precisamente sobre esse ecossistema já fraturado que o projeto de mineração
industrial da Belo Sun pretende se instalar. O empreendimento, em processo de
licenciamento ambiental desde 2012, prevê a exploração de ouro em larga escala.
A sobreposição de grandes obras de infraestrutura acende alertas urgentes de
organizações socioambientais sobre os impactos cumulativos na região. A
instalação de uma mina a céu aberto ao lado de uma hidrelétrica que já alterou
o pulso do rio cria um cenário de risco imprevisível.
O MPF
endossa essas preocupações e aponta que o processo de licenciamento da Belo Sun
apresenta pendências técnicas substanciais. Segundo o órgão, o Estudo do
Componente Indígena — documento fundamental que avalia os impactos do
empreendimento sobre os povos da região — não foi integralmente validado pelas
autoridades competentes. Tanto a Funai quanto a Secretaria de Meio Ambiente do
Estado do Pará também identificaram lacunas significativas no estudo
apresentado pela mineradora.
Entre
as falhas apontadas, estão a ausência de uma análise específica sobre as
populações indígenas que vivem fora de terras formalmente demarcadas e a
insuficiência de informações sobre algumas comunidades que poderiam ser
afetadas pelo projeto. Mais grave ainda, segundo o MPF, os estudos não
analisaram de forma aprofundada os impactos cumulativos entre o projeto
minerário e a usina hidrelétrica de Belo Monte. O rio, na visão técnica
apresentada, parece suportar infinitas intervenções.
Outro
ponto de questionamento do MPF envolve exatamente o processo de consulta às
comunidades, o qual as associações indígenas anularam em dezembro. Segundo o
Ministério Público, parte das reuniões realizadas durante o processo foi
conduzida por consultorias privadas contratadas pela própria mineradora. A
consulta prévia, livre e informada é um direito garantido pela Convenção 169 da
Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. A
convenção estabelece que esse processo deve ser conduzido pelo Estado. Para o
MPF, a delegação dessa responsabilidade a empresas pagas pelo empreendimento
compromete, irremediavelmente, a validade da consulta.
O
histórico do licenciamento da Belo Sun é marcado por idas e vindas
institucionais. Em 2020, a Funai chegou a conceder anuência para a emissão da
licença prévia do empreendimento. Posteriormente, no entanto, a própria
autarquia revisou sua posição, passando a alertar para a possibilidade concreta
de violação de direitos dos povos indígenas não aldeados. A Funai solicitou
complementações ao componente indígena do plano ambiental e determinou que
novas licenças não deveriam ser emitidas sem a manifestação clara das
comunidades afetadas.
Apesar
de todas as controvérsias e pendências, o conflito ganhou um novo e explosivo
capítulo judicial no dia 13 de fevereiro de 2026. O desembargador federal
Flávio Jardim, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), proferiu uma
decisão que restabeleceu a licença de instalação do empreendimento, reacendendo
a disputa em torno da mina. Na decisão, o magistrado argumentou que o Estudo do
Componente Indígena foi elaborado com dados primários e que a consulta às
comunidades teria sido realizada corretamente.
Segundo
o desembargador, o processo de consulta “foi aparentemente realizado de boa-fé,
de modo participativo e transparente, em pleno respeito às práticas e às formas
de organização tradicionais das comunidades envolvidas”. O entendimento
contrasta frontalmente com as denúncias de assédio e de fragmentação relatadas
pelas próprias comunidades, tanto à reportagem quanto ao documento encaminhado
ao MPF e à Funai.
A
resposta indígena à decisão judicial e à pressão corporativa não se deu nos
tribunais, mas na ocupação física do espaço institucional. Desde o dia 23 de
fevereiro de 2026, mais de 100 indígenas — das etnias Juruna, Xikrin, Xipaya,
Curuaya e Arara — estão acampados no prédio da coordenação regional da Funai,
em Altamira, no Pará. O protesto contra o avanço da Belo Sun é liderado pelo
Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu.
Na
última segunda-feira, 9 de março, as lideranças participaram de uma reunião
virtual tensa com representantes do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), do
MPF e da Funai. O encontro terminou sem encaminhamentos concretos, frustrando
as expectativas de uma solução. A ocupação em Altamira segue ganhando corpo,
com a chegada contínua de novos apoiadores vindos de aldeias da região e de
outros territórios solidários à causa.
As
lideranças são categóricas: a mobilização continuará até que a autorização do
projeto seja definitivamente suspensa. Em documentos entregues à Funai e ao
MPF, as mulheres indígenas reiteram o alerta de que a região já enfrenta
pressões ambientais insuportáveis e que novos empreendimentos significam o
agravamento de uma tragédia anunciada sobre o território.
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O que diz Belo Sun
Procurada
pela reportagem para comentar as denúncias de assédio e as falhas apontadas no
licenciamento, a Belo Sun Mineração Ltda. informou que não responderia aos
pontos específicos do questionário. Em nota protocolar, a companhia limitou-se
a afirmar que as questões relacionadas ao projeto estão sendo discutidas nas
esferas judiciária e administrativa.
“A
companhia reafirma que atua em conformidade com a legislação aplicável,
respeita as instituições, os ritos de licenciamento e as comunidades
potencialmente envolvidas, mantendo compromisso com diálogo e transparência nos
canais apropriados”, declarou a mineradora. Para as lideranças indígenas na
Volta Grande, no entanto, o diálogo oferecido nos bastidores tem se parecido
mais com uma tentativa sistemática de cooptação em um território que, espremido
entre barragens e escavadeiras, luta para não desaparecer.
• Ferrovia e obras de infraestrutura
ameaçam território sagrado A’uwẽ Xavante, denunciam lideranças
Reunido
em assembleia, o povo A’uwẽ Xavante denunciou o avanço desenfreado de grandes
empreendimentos e obras de infraestrutura no entorno de territórios sagrados. O
evento ocorreu entre os dias 5 e 7 de março de 2026, na Aldeia Wairenê, na
Terra Indígena Parabubure, em Campinápolis (MT).
A
assembleia, organizada pela Associação Xavante Warã, reuniu cerca de 40
lideranças de nove terras indígenas com o objetivo de discutir os impactos
socioambientais de grandes obras de infraestrutura que ameaçam o território
tradicional do Cerrado, chamado pelos A’uwẽ de “Ró”.
“O Ró é
o corpo do povo Xavante. Quando ferem a terra com grandes obras sem o nosso
consentimento, ferem o coração de cada A’uwẽ”
“O Ró é
o corpo do povo Xavante. Quando ferem a terra com grandes obras sem o nosso
consentimento, ferem o coração de cada A’uwẽ”, destacaram as lideranças em
carta aberta de repúdio do povo A’uwẽ Xavante contra a construção da Ferrovia
de Integração Centro-Oeste (EF-354/FICO).
O
território Xavante é atravessado pela construção da EF-354/FICO e por rodovias
federais e estaduais, como a BR-080. Também é impactado por hidrelétricas e
pela hidrovia ao longo do Rio das Mortes, rio sagrado que delimita as terras
A’uwẽ. A FICO e outros empreendimentos e projetos de infraestrutura planejados
representam uma ameaça existencial ao povo.
“FICO
afetará os A’uwẽ, cerca de 25 mil pessoas que vivem em onze terras indígenas
fragmentadas dentro do território tradicional A’uwẽ, no Mato Grosso”
Segundo
levantamento da Sociedade de Antropologia das Terras Baixas da América do Sul
(SALSA – Society for the Anthropology of Lowland South America), “a FICO
afetará os A’uwẽ, cerca de 25 mil pessoas que vivem em onze terras indígenas
fragmentadas dentro do território tradicional A’uwẽ, no leste do estado de Mato
Grosso”. O estudo aponta ainda que o empreendimento poderá atingir 24 terras
indígenas na Amazônia Legal — 23 em Mato Grosso e uma em Rondônia.
Segundo
os indígenas, não houve Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) antes da
implementação das obras, conforme prevê a Convenção 169 da Organização
Internacional do Trabalho (OIT). Trata-se de um direito dos povos, e qualquer
projeto deve respeitar essa Convenção, assegura José Alves de Oliveira, do
Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e representante da Missão Salesiana.
“Lideranças
indígenas relatam que há pressões e tentativas de coação”
Em
fevereiro deste ano, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia
Brasileira (Coiab) denunciou irregularidades no processo de consulta da
EF-354/FICO. “Lideranças indígenas relatam que há pressões e tentativas de
coação, inclusive com discursos de que a recusa ao empreendimento implicaria
perda de recursos de mitigação e compensação, o que configura vício de
consentimento no processo de consulta.”
Segundo
relatos à organização, o processo de consulta não tem sido transparente nem
plenamente participativo. “O processo tem sido conduzido sob chantagens
indiretas, sem estrutura adequada para participação ampla e com dificuldades
deliberadas de comunicação entre territórios fragmentados”, aponta a
organização indígena.
“O
processo tem sido conduzido sob chantagens indiretas, sem estrutura adequada
para participação ampla e com dificuldades de comunicação”
Entre
os impactos previstos pelo traçado da ferrovia e por outras obras de
infraestrutura estão o desmatamento, alterações nos regimes hídricos, processos
erosivos e o aumento da pressão fundiária, o que leva ao agravamento dos
conflitos e das vulnerabilidades já existentes.
Para a
Coiab, “compensações financeiras não recompõem perdas territoriais, degradação
ambiental ou danos culturais. Problemas como insegurança alimentar, invasões
por madeireiros e fragilização da organização comunitária tendem a se
intensificar com grandes empreendimentos, especialmente quando conduzidos sem
respeito pleno aos direitos coletivos”.
“Compensações
financeiras não recompõem perdas territoriais, degradação ambiental ou danos
culturais”
A
avaliação da organização indígena vai ao encontro do levantamento realizado
pela SALSA, que aponta que os “indicadores de saúde entre os A’uwẽ já revelam
impactos severamente negativos — incluindo alta mortalidade infantil e doenças
crônicas — relacionados à restrição territorial, contaminação ambiental e
mudanças alimentares”.
É nesse
contexto que as lideranças A’uwẽ Xavante, reunidas em assembleia, manifestam
publicamente “nosso profundo repúdio e preocupação” com o avanço desenfreado de
grandes empreendimentos e obras de infraestrutura no território e no entorno
das áreas indígenas.
“Outra
preocupação dos A’uwẽ Xavante é a proximidade do traçado da ferrovia de aldeias
antigas, cemitérios e locais atuais de coletas”
No
documento, as lideranças cobram o direito de serem consultadas sobre qualquer
projeto ou ação que impacte seu “Ró”. “Não somos apenas espectadores dos
processos de licenciamento; somos os guardiões milenares desta terra”, afirmam.
No
início do mês, uma delegação de 16 lideranças A’uwẽ Xavante, de diversas
comunidades, esteve em Brasília para cobrar a demarcação da Terra Indígena
Areões e a continuidade dos processos de revisão de limites das áreas do povo.
Também denunciaram os impactos de grandes empreendimentos ferroviários, a falta
de consulta livre, prévia e informada e a pressão de setores do agronegócio. Na
ocasião, os indígenas foram enfáticos: “A gente quer a demarcação do nosso
território e não ferrovias”.
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“A gente quer a demarcação do nosso território e não ferrovias”
Outra
reivindicação dos indígenas é que “o licenciamento de grandes obras não pode
ser visto de forma isolada”, pois a combinação de rodovias, hidrelétricas e do
avanço da soja está “sufocando” os povos e a biodiversidade do Cerrado e da
Amazônia, biomas de grande importância não apenas para os povos tradicionais.
Outra
preocupação dos A’uwẽ Xavante é a proximidade do traçado da ferrovia de aldeias
antigas, cemitérios e locais atuais de coleta de recursos naturais essenciais
para a vida nas aldeias e para a ritualidade — aspectos que teriam sido
“ignorados nos procedimentos de licenciamento da estrada de ferro”, aponta a
Nota Técnica sobre as afetações da FICO/EF-354 sobre os direitos territoriais
do povo A’uwẽ Xavante, da Associação Brasileira de Antropologia (ABA),
divulgada em agosto de 2025.
“Não
aceitaremos que o ‘progresso’ econômico seja construído sobre o apagamento da
nossa cultura e a degradação do nosso meio ambiente. Permaneceremos em
vigilância constante e utilizaremos todos os meios legais e tradicionais para
proteger o que nos pertence por direito originário”, conclui o documento
assinado pelas lideranças da TI Parabubure e representantes das nove terras
indígenas Xavante de Mato Grosso.
“Não
aceitaremos que o ‘progresso’ econômico seja construído sobre o apagamento da
nossa cultura e a degradação do nosso meio ambiente”
Fonte:
Por Leandro Barbosa, da Agência Pública/Cimi

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