Grafeno
ajuda a regenerar até 90% de ossos fraturados, mostra pesquisa
Experimentos
realizados com ratos de laboratório indicam que biomateriais à base de grafeno
podem contribuir significativamente para a regeneração óssea. Nos testes,
estruturas formadas pelo material promoveram a recuperação de quase 90% do dano
causado em fraturas induzidas nas cobaias cerca de um mês após o procedimento.
Os
resultados da pesquisa foram publicados na revista científica Scientific
Reports. O estudo foi coordenado por Daniela Franco Bueno, da Faculdade
Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, e por Guilherme Lenz e Silva,
da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).
Segundo
Bueno, os resultados obtidos indicam que a tecnologia pode avançar para testes
clínicos em humanos. “Essa tecnologia se encontra em uma fase avançada de
desenvolvimento pré-clínico”, afirmou. “Há um caminho claro para aplicação em
estudos clínicos nos próximos passos.”
Para
produzir os biomateriais, os pesquisadores utilizaram como matéria-prima o
chamado licor negro, um subproduto da indústria de papel e celulose composto
por resíduos de madeira dissolvida e outras moléculas orgânicas.
O
carbono extraído desse material foi combinado com estruturas nanométricas, como
grafeno, óxido de grafeno e nanografite. A composição também incluiu polímeros
derivados de quitosana e xantana, substâncias obtidas, respectivamente, de
crustáceos e bactérias.
De
acordo com os pesquisadores, esse tipo de biomaterial não funciona como uma
prótese permanente, como as estruturas metálicas utilizadas em alguns
tratamentos. Em vez disso, atua como uma estrutura temporária capaz de orientar
e estimular a regeneração natural do tecido ósseo.
“No
contexto da engenharia de tecidos, esses materiais atuam principalmente como
scaffolds [‘andaimes’] bioativos”, explicou Bueno. “São estruturas temporárias
que orientam, estimulam e aceleram a regeneração do tecido ósseo.”
A
interação do biomaterial com o organismo depende de fatores como o formato das
estruturas de carbono, o tamanho das partículas e a associação com outros
componentes. Esses aspectos influenciam a relação com células do corpo, como
macrófagos, osteoclastos e células-tronco, responsáveis por diferentes
processos de defesa, remodelação e formação do tecido ósseo.
Segundo
a pesquisadora, a combinação entre quitosana e grafeno foi um dos fatores que
favoreceram o resultado observado nos experimentos. Enquanto a quitosana
apresenta maior biocompatibilidade e capacidade de degradação controlada no
organismo, o grafeno facilita a adesão celular, a formação de vasos sanguíneos
e o processo de diferenciação das células ósseas.
“Essa
sinergia cria uma estrutura tridimensional que não é apenas um suporte físico,
mas um ambiente biologicamente ativo, capaz de estimular as células a formar
osso de maneira mais rápida, organizada e funcional”, afirmou.
Nos
experimentos descritos no estudo, os biomateriais foram utilizados para tratar
fraturas provocadas nas tíbias de 16 ratos machos. Diferentes formulações das
estruturas foram avaliadas, todas com taxas relevantes de recuperação óssea,
sendo o grafeno o material que apresentou o melhor desempenho.
Os
pesquisadores avaliam que a tecnologia pode ser aplicada tanto no tratamento de
fraturas quanto na reconstrução de perdas ósseas ou em casos de malformações
congênitas.
Entre
os próximos passos do estudo está a combinação dos biomateriais com
células-tronco, como as obtidas da polpa de dentes decíduos. De acordo com
Bueno, a estratégia pode ampliar a eficiência da regeneração.
“A
associação das células-tronco aos biomateriais acelera a formação óssea,
orquestrando a vascularização e a integração do tecido e tornando o processo
mais eficiente e biologicamente inteligente. Não estamos substituindo tecidos,
mas ensinando o corpo a regenerá-los”, conclui.
Fonte:
Correio Braziliense

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