Menino
palestino de 12 anos descreve ataque de Israel que matou sua família no carro
Nos
poucos momentos de silêncio após os disparos, antes de ser arrastado para fora
do carro da família, Khaled Bani Odeh, 12, pensou que era o único membro de sua
família que ainda estava vivo.
Segundos
antes, seus pais e dois irmãos mais novos haviam sido mortos a tiros através do
para-brisa por forças israelenses, enquanto voltavam para casa após uma ida às
compras em família na Cisjordânia ocupada por Israel.
Entre
os mortos estava Othman, de 7 anos — cego e com outra deficiência — morto
enquanto estava sentado no colo da mãe.
"Minha
mãe gritou uma última vez antes de ficar em silêncio", disse Bani Odeh.
"Meu pai recitou a Shahada [a declaração islâmica de fé] enquanto
morria."
Quando
as forças israelenses tentaram arrastar do carro seu único irmão sobrevivente,
Mustafa, Bani Odeh disse que tentou intervir.
"Eles
me puxaram para fora no lugar dele e começaram a pular nas minhas costas",
disse. "Depois me levaram para um canto e me interrogaram sobre quem
estava no carro. Eu disse que era minha mãe e meu pai. Eles me acusaram de
mentir e começaram a me espancar."
A
família de Ali Khaled Bani Odeh, 37, e de sua esposa, Waad, 35, estava a poucos
minutos de casa quando foi morta, na vila de Tammun, perto de Tubas
(Cisjordânia), pouco depois da meia-noite de sábado (14/3).
Os
parentes disseram que Bani Odeh (o pai) havia chegado recentemente a Tammun
após seis semanas trabalhando em um canteiro de obras em Israel, e que os
meninos haviam implorado para que ele os levasse às compras em Nablus, antes do
feriado de Eid al-Fitr (que marca o fim do Ramadã) previsto para o fim desta
semana.
Naquela
noite, enquanto eles voltavam das compras e de um jantar em Nablus, o Exército
israelense disse que seus soldados e a Polícia de Fronteira estavam operando em
Tammun para prender pessoas suspeitas de atividade terrorista contra forças de
segurança de Israel.
Segundo
o Exército, o carro da família Bani Odeh "acelerou em direção às forças,
que perceberam o perigo e responderam atirando".
Mas um
morador das proximidades, que vive acima da estrada, contou à BBC que estava
olhando pela janela quando o incidente aconteceu, após ouvir tiros esporádicos
mais adiante. Não estamos revelando seu nome para proteger sua identidade.
Ele
disse que o carro da família havia acabado de virar à esquerda para entrar em
sua rua, voltado para a subida, e havia parado completamente antes de qualquer
disparo, contradizendo a versão apresentada pelo Exército israelense.
A BBC
perguntou se ele havia ouvido algum aviso dado pelas forças israelenses ou
algum tiro de advertência.
"Não,
nada", disse. "Os disparos miraram diretamente o carro. Eu apenas
ouvi a mulher no carro gritando. As crianças pequenas estavam chorando antes de
serem mortas."
Um
relato do jornal americano New York Times descreve a mãe de Bani Odeh, Waad,
pedindo ao marido que encostasse o carro na estrada para que ela pudesse
procurar algo em sua bolsa.
O
Exército israelense afirmou que o incidente estava sendo investigado pelas
autoridades competentes.
A BBC
perguntou qual era a resposta do Exército de Israel às informações de que o
carro estava parado e teria sido alvo de disparos sem aviso prévio, e fomos
orientados a encaminhar nossa pergunta à polícia. O Exército israelense ainda
não respondeu.
Na casa
da família, Najah Bani Odeh, avó de Bani Odeh, estava sentada cercada por
pessoas em luto, envoltas em xales de lã e lenços de cabeça bem ajustados nas
cores preta, branca e marrom.
Ao lado
dela, ocasionalmente acariciado pelas mulheres, estava Mustafa, de 8 anos.
A avó
apontou para o curativo que atravessava o rosto do menino.
"São
estilhaços, vidros da janela do carro quando eles atiraram", disse.
"Ele precisa de uma operação para removê-los."
Ela
disse que a família não sabia da existência de qualquer operação militar na
vila enquanto voltava para casa.
"Eles
estavam passando pela área da escola onde as forças especiais estavam
escondidas. As crianças estavam cantando e se divertindo. Mohammed, que estava
na pré-escola, estava sentado entre a mãe e o pai quando foram atingidos pelos
tiros."
Ela
disse que Mohammed caiu no colo de Mustafa quando o tiroteio começou, cobrindo
as roupas de Mustafa com sangue.
Hassan
Fuqoha, um dos integrantes da equipe de ambulância do Crescente Vermelho
Palestino chamada ao local, disse à BBC que a cena havia sido completamente
diferente de outros incidentes aos quais havia atendido, e que ambos os pais e
uma das crianças estavam com parte da cabeça dilacerada.
"Vi
muitos estojos de balas, por toda parte ao redor do carro", disse.
"Foi um fogo muito intenso, diretamente contra o carro, não é
normal."
Moradores
disseram ter encontrado mais de 50 estojos de munição de fuzis de assalto, do
tipo usado pelas forças armadas israelenses, e os entregaram às autoridades.
Outro
estojo ainda estava visível, preso sob escombros à beira da estrada, perto de
onde manchas de sangue permaneciam espalhadas pelo chão.
O líder
do partido de oposição israelense Yesh Atid, Yair Lapid, criticou o governo de
Israel por não pedir desculpas à família pela morte das crianças.
"Um
menino de 7 anos com necessidades especiais não deveria morrer nas guerras dos
adultos", disse.
O uso
de força letal contra um carro civil que transportava quatro crianças voltou a
concentrar a atenção sobre como os soldados israelenses, fortemente armados,
respondem aos palestinos na Cisjordânia e sobre o que constitui uma ameaça.
Najah
Bani Odeh, a avó, me disse que a morte de seu filho, da nora e de dois netos
faz parte de um padrão de aumento da violência contra palestinos na
Cisjordânia, tanto por soldados israelenses quanto por colonos, que se
intensificou fortemente desde os ataques do Hamas contra Israel em 7 de outubro
de 2023.
"Um
colono ali sai em fúria ferindo homens, mulheres e crianças, e nós apenas nos
defendemos atirando pedras", disse.
"Eles
querem nos expulsar de nossas terras. Agora estão construindo muros ao redor
das terras que tomaram e atirando indiscriminadamente contra qualquer pessoa
que se aproxime."
Entre 7
de outubro de 2023 e 15 de março de 2026, o Escritório das Nações Unidas para a
Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês) afirma que
1.071 palestinos foram mortos na Cisjordânia, incluindo ao menos 233 crianças.
O órgão
afirma que 19 civis israelenses e 23 integrantes das forças de segurança de
Israel foram mortos ali entre outubro de 2023 e meados de outubro de 2025.
Fonte:
BBC News Persa

Nenhum comentário:
Postar um comentário