quarta-feira, 18 de março de 2026

Como cautela de aliados dos EUA mostra que não há solução rápida para crise com Irã aberta por Trump

Ao longo dos seus dois mandatos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nunca se conteve ao criticar (e até mesmo atacar) os aliados de Washington na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Mas sua mais recente afirmação, de que deixar de garantir a segurança do Estreito de Ormuz seria "muito ruim para o futuro da Otan", chama atenção para sua compreensão sobre o propósito da aliança.

"A Otan foi criada como uma aliança de defesa", declarou à BBC nesta segunda (16/3) o ex-chefe do Estado-Maior do Reino Unido, o general Nick Carter.

"Não foi uma aliança projetada para que um dos aliados lançasse uma guerra por escolha e obrigasse todos os demais a seguir", segundo ele. "Não sei se este é o tipo de Otan a que todos nós gostaríamos de pertencer."

Vindo de um presidente que, apenas dois meses atrás, reivindicava de forma veemente a Groenlândia (que é território soberano de outro membro da Otan, a Dinamarca), seus últimos comentários trazem uma certa ironia.

Isso talvez ajude a explicar porque algumas das reações foram um tanto incisivas.

Um porta-voz do governo alemão declarou que a guerra com o Irã "não tem nada a ver com a Otan". Já o ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, pareceu tratar com desdém a ideia de que as modestas marinhas europeias pudessem fazer alguma diferença.

"O que Trump espera de algumas poucas fragatas europeias que a poderosa Marinha americana não pode fazer?", questionou ele.

"Esta guerra não é nossa. Nós não a iniciamos."

Mas nada disso deverá ocultar o fato de que existe, agora, a necessidade urgente — e cada vez maior — de uma solução para a crise no Golfo.

bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz pelo Irã, exceto por alguns poucos navios que transportam seu próprio petróleo para aliados como a China e a Índia, deixou os governos ocidentais lutando para encontrar uma solução.

A crise pode ter sido acionada pela decisão de Trump de ir à guerra, mas precisa ser solucionada rapidamente, antes que os impactos à economia global se tornem mais graves.

E já se sabe ao certo que não há solução rápida.

Na sua entrevista coletiva desta segunda (16/3), o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, declarou que estão em andamento conversas destinadas a elaborar um "plano viável" com os Estados Unidos e os parceiros europeus e do Golfo, mas "ainda não chegamos ao ponto de tomar decisões".

<><> Minas no mar

O primeiro-ministro britânico fez referência a sistemas autônomos de busca de minas que, segundo ele, já se encontram na região.

O navio caça-minas HMS Middleton está no porto de Portsmouth, no Reino Unido, para um grande trabalho de manutenção. Com isso, esta é a primeira vez em décadas que nenhum navio de limpeza de minas britânico se encontra na região do Golfo.

No seu lugar, a Marinha Real Britânica deve oferecer drones marinhos recém-desenvolvidos, projetados para detectar e neutralizar minas, sem colocar as tripulações em risco.

Mas um dos problemas enfrentados por Trump é que a dragagem de minas, antes uma função importante de quase todas as marinhas do mundo, deixou de ser uma grande prioridade há muito tempo.

O ex-comandante da Marinha Real Britânica Tom Sharpe afirmou que a mais recente tecnologia do país neste campo ainda não foi testada em combate.

"Provavelmente, iremos descobrir nas próximas semanas se funciona ou não", declarou ele à BBC.

Carter afirma que a última vez em que nações ocidentais realizaram uma grande operação de retirada de minas no mar ocorreu em 1991, quando o Iraque minou as águas em torno do Kuwait, para evitar um desembarque anfíbio na Primeira Guerra do Golfo.

"Levamos 51 dias para limpar as minas", contou ele. "Nenhuma marinha investiu nisso na escala em que deveria ter feito, muito menos os americanos."

Os navios caça-minas especializados da classe Avenger da Marinha dos Estados Unidos são construídos com cascos de madeira, para evitar acionar minas navais magnéticas.

Todos eles estão sendo retirados de serviço e substituídos por navios de combate no litoral, da classe Independence, que também usam uma série de sistemas não tripulados.

Mas a dragagem de minas não é a única questão.

A Guarda Revolucionária iraniana também pode usar barcos rápidos armados, drones navais "suicidas" e mísseis localizados na costa para interromper a navegação.

Fotografias recentes, publicadas pela agência de notícias iraniana Fars News, parecem mostrar grandes quantidades de barcos e drones armazenados em túneis subterrâneos. Elas indicam que Teerã vem se preparando há muito tempo para este momento.

Trump indicou que manter aberto o Estreito de Ormuz pode envolver ataques ao litoral iraniano.

Ele declarou estar buscando "quem derrube pessoas más que estão ao longo do litoral".

Os Estados Unidos já atacaram barcos lança-minas em portos iranianos, mas é difícil encontrar muitos aliados de Washington dispostos a acompanhá-los, especialmente se a missão envolver o deslocamento de tropas em terra.

Em um ambiente repleto de possíveis riscos, não surpreende que os países hesitem em se envolver. Eles preferem pedir o fim da escalada do conflito, como fez o governo britânico, como a forma mais garantida de liberar o Estreito de Ormuz.

<><> 'Esta guerra não é da Europa'

Mas, com as autoridades americanas e israelenses falando em uma campanha que ainda poderá levar várias semanas, esta não parece uma perspectiva imediata.

Paralelamente, será que os aliados poderão ser convencidos a enviar embarcações militares para escoltar navios mercantes através daquele estreito, vital para a navegação?

"A Alemanha não irá participar com suas forças armadas para garantir a segurança do Estreito de Ormuz", declarou Pistorius na segunda-feira.

A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou posteriormente que há um "claro desejo" de reforçar as operações navais da UE no Oriente Médio, mas os ministros das Relações Exteriores europeus se negaram a ampliar a missão naval existente no mar Vermelho.

"Esta guerra não é da Europa", destacou ela.

A União Europeia lançou em 2024 a Operação Aspides, para ajudar a combater as ameaças à navegação impostas pelos rebeldes houthis no Iêmen, apoiados pelo Irã. Mas, com apenas três navios de guerra, esta é uma operação relativamente modesta.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, afirmou que seu governo deseja saber de Israel e dos Estados Unidos "quando eles acreditam que terão atingido seus objetivos militares no Irã" antes de discutir novos acordos de segurança.

Dentre os principais aliados europeus, o presidente da França, Emmanuel Macron, talvez seja o mais disposto a se envolver. Ele declarou uma semana atrás que estava tentando reunir uma coalizão para escoltar navios e garantir a liberdade de navegação.

Mas Macron afirmou que isso só poderá acontecer quando a "fase mais quente" do conflito ficar para trás. E, poucos dias depois, sua ministra da Defesa, Catherine Vautrin, disse que não havia planos imediatos de envio de navios para o Estreito de Ormuz.

Tom Sharpe afirmou que uma possível operação de escolta seria muito mais complexa que a Operação Aspides. Ela enfrentaria ameaças vindas de três direções: do ar, da superfície e de baixo d'água.

"Ao contrário dos houthis, onde havia apenas a ameaça aérea, com o Irã você tem todas as três e irá querer tentar abater todas antes de ser atingido", explicou ele. "Isso nem sempre é possível."

No momento, os aliados de Trump, meio que atordoados, hesitam em se envolver na questão do Irã. Eles olham nervosos uns para os outros, sabendo que a inação, de fato, não está entre as opções disponíveis.

Starmer afirmou que a solução precisa envolver "o máximo de parceiros possível", mas que os militares britânicos precisam de garantias substanciais antes do seu deslocamento para uma missão potencialmente perigosa.

"Eles merecem, no mínimo, saber que irão fazer isso dentro da lei e com um plano adequado e bem pensado."

E, no estado atual das coisas, este plano não existe.

¨      Confiança de Trump permanece intacta — mas cada alternativa em relação ao Irã traz riscos

Na terceira semana de guerra dos Estados Unidos-Israel contra o Irã, Donald Trump se vê diante de decisões que podem definir o restante de sua presidência.

Embora o presidente americano esteja lidando com um conflito que corre risco de sair do controle, essas preocupações não aparecem em público.

Na segunda-feira (16/03), durante mais de uma hora de declarações públicas na Casa Branca, Trump falou sobre o que pensa do andamento da guerra — mas também sobre reformas no Kennedy Center, planos de construção de um salão de festas na Casa Branca, a Copa do Mundo deste ano, a saúde de um congressista republicano e vários outros assuntos sem relação direta entre si.

Foi o Trump de sempre: falando de forma improvisada e abordando uma grande variedade de assuntos.

No último fim de semana, ele jogou golfe em seu resort na Flórida. E, na plataforma Truth Social, dedicou quase tanto tempo criticando a Suprema Corte quanto falando sobre a guerra no Irã.

Embora Trump possa estar interessado em outros assuntos, ele se vê diante de uma lição que presidentes americanos anteriores aprenderam da maneira mais difícil: a de que uma guerra pode acabar dominando toda a presidência, querendo eles ou não.

E continuam surgindo sinais de que a guerra que Trump havia dito anteriormente estar "praticamente vencida" e "muito bem resolvida" agora pode se estender por semanas — ou até mais.

Na tarde de segunda-feira, o presidente americano anunciou que os EUA solicitaram o adiamento, por cerca de um mês, de uma viagem presidencial planejada à China no início de abril, por causa do conflito.

"A principal responsabilidade do presidente neste momento é garantir o sucesso contínuo da Operação Epic Fury [Fúria Épica, na tradução livre para o português]", afirmou a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, referindo-se ao nome dado à guerra contra o Irã.

Durante o fim de semana, o presidente publicou na rede social que ele estava reunindo uma coalizão de forças para ajudar a proteger o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, que tem sido ameaçado por ataques iranianos.

"Esperamos que a China, França, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e outros países afetados por essa restrição artificial enviem navios", escreveu.

"De um jeito ou de outro, em breve teremos o Estreito de Ormuz ABERTO, SEGURO e LIVRE!"

Desde esse apelo, contudo, vários países — incluindo Japão, Austrália e várias potências europeias — indicaram que não têm interesse em se juntar a essa coalizão.

"Não seremos arrastados para uma guerra mais ampla", afirmou o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, na segunda-feira, acrescentando que está aberto a um "plano coletivo viável" para lidar com a situação no estreito.

Isso deixa Trump diante de uma decisão difícil: se deve ou não comprometer plenamente a Marinha dos Estados Unidos na missão de garantir a segurança do estreito, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo.

Na segunda-feira, ele afirmou que os EUA estão destruindo os navios iranianos usados para lançar minas marítimas — que representam um grande risco para a navegação no estreito —, mas ressaltou que "basta apenas um".

"É um pouco injusto", disse. "Você vence uma guerra, mas eles não têm o direito de fazer o que estão fazendo."

Há alguns indícios de que os EUA estão se movimentando para manter suas opções militares em aberto.

Na última sexta-feira, a mídia americana noticiou que o presidente ordenou o envio de uma unidade anfíbia de fuzileiros navais, composta por 5 mil soldados e marinheiros, do Japão para o Oriente Médio.

Se Trump decidir agir, isso pode colocar as forças americanas em maior risco, devido à proximidade com o Irã.

Se não agir — e optar por anunciar que os Estados Unidos já atingiram seu objetivo de enfraquecer significativamente o poder militar iraniano e encerrar a campanha militar americana — o Irã poderia continuar representando uma ameaça ao tráfego marítimo, e o preço do petróleo permaneceria elevado.

Nesse segundo cenário, os EUA podem ter gasto dezenas de bilhões de dólares sem alterar de forma decisiva o equilíbrio de poder no Oriente Médio.

De acordo com Clifford Young, presidente de assuntos públicos e insights estratégicos da empresa de pesquisas Ipsos, uma alta prolongada nos preços de energia representaria uma ameaça política muito real para um presidente que já enfrenta uma situação delicada com a opinião pública americana.

Por enquanto, segundo ele, as pesquisas indicam que a base de apoio de Trump continua ao lado do presidente, mesmo que parte desses eleitores tenha dúvidas sobre a operação no Irã e sobre outros temas centrais, como imigração e tarifas.

A perda de apoio tem ocorrido mais nas margens, entre republicanos moderados e eleitores independentes.

Embora a popularidade do presidente — com índices de aprovação na faixa dos 40% — deva preocupar os republicanos, ainda há poucos sinais de que a guerra com o Irã esteja prejudicando Trump de forma significativa.

Isso, porém, pode mudar se o conflito começar a afetar aquilo que os americanos dizem mais se preocupar nas pesquisas: o custo de vida e o poder de compra.

Os preços, especialmente de moradia, alimentos e bens de consumo, continuam altos, mesmo com a queda da inflação geral ao longo do primeiro ano da presidência de Donald Trump.

No mínimo, a guerra no Irã desvia a atenção de Trump e de seu governo dos esforços para convencer a população de que o presidente está atento às suas preocupações econômicas.

E se o preço da gasolina nos postos — motivo de orgulho para Trump até recentemente — continuar alto, isso pode ter consequências sérias para sua posição política.

O preço médio atual de um galão de gasolina nos EUA, segundo a American Automobile Association, é de US$ 3,72, um aumento expressivo em relação à média de US$ 2,94 registrada um mês atrás.

"Isso simplesmente bagunça tudo", disse Young. "A agenda de tornar a vida do americano mais acessível financeiramente acaba sendo sabotada do ponto de vista republicano."

Do outro lado da equação de riscos para o presidente está o perigo muito real que acompanha a decisão de expandir as operações dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Com milhares de fuzileiros navais supostamente a caminho da região, Trump poderia empregar forças terrestres americanas para garantir a segurança do Estreito de Ormuz, controlar os terminais de exportação de petróleo do Irã ou localizar e desmantelar de forma mais completa partes do programa nuclear do país.

Qualquer uso de tropas americanas, porém, corre o risco de provocar uma reação mais forte da maioria da opinião pública dos Estados Unidos, que vê com desconfiança mais um possível envolvimento militar prolongado do país — inclusive entre muitos que acreditaram nas promessas de campanha de Donald Trump de evitar guerras no exterior.

"Existe um cansaço com guerras sem fim", disse Clifford Young. "Se colocarmos tropas em solo, isso representa um risco totalmente novo para o governo. Isso muda tudo."

Se o envolvimento dos EUA no Irã continuar limitado a uma campanha aérea, no entanto, Trump ainda terá tempo para recuperar sua posição política.

Embora os americanos possam ser rápidos em culpar o presidente pelos aumentos no preço da gasolina, essa irritação geralmente não dura muito se os preços voltam a cair.

As eleições legislativas de meio de mandato em novembro ainda estão a mais de sete meses, o que dá ao presidente tempo para buscar uma solução que evite uma crise econômica interna.

"Não precisamos de ninguém", disse Trump na segunda-feira. "Somos a nação mais forte do mundo."

O desafio para Trump, contudo, é que — com ou sem ajuda — nenhuma das opções que ele tem hoje está livre de riscos, e as chances de uma solução rápida e simples diminuem a cada dia.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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