Como
a guerra está sendo noticiada no Irã
Os
primeiros relatos apareceram em telas estrangeiras, fora do alcance da maioria
dos iranianos.
Em 28
de fevereiro, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que
havia "sinais de que o tirano não existe mais" — indicando que o
líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, havia sido morto em um ataque
conjunto entre os EUA e Israel.
Os
iranianos que assistiam à televisão estatal, no entanto, encontraram silêncio.
Autoridades
do governo não confirmaram nem negaram a morte de Khamenei. Em um dos canais da
emissora estatal, o IRTV3, um apresentador de notícias pediu aos
telespectadores que "confiassem" nele e nas "informações mais
recentes" que o governo possuía.
Ele
descartou as notícias da morte de Khamenei como "rumores infundados",
que "em breve seriam revelados".
Foi
somente na manhã seguinte que a mídia estatal iraniana noticiou a morte de
Khamenei, horas depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, tê-la anunciado
publicamente nas redes sociais.
Desde o
início da guerra que, segundo relatos, matou mais de 1,2 mil pessoas no Irã e
se espalhou para o Líbano e os países árabes do Golfo, a mídia estatal iraniana
tem misturado fatos com ficção, apresentando uma versão oficial dos eventos
para seu público interno.
Embora
milhões de iranianos acompanhem canais de TV via satélite em língua persa com
sede no exterior, o acesso a informações independentes pode ser difícil.
Bloqueios
de internet, censura e canais restritos deixam os iranianos praticamente
isolados do mundo exterior durante períodos de agitação e conflito.
A BBC
acompanhou a primeira semana de cobertura da guerra pela mídia estatal iraniana
e constatou que ela centrou suas reportagens no sofrimento dos civis, em apelos
por retaliação contra seus "inimigos", em pressões por lealdade
pública à República Islâmica — e deu pouca atenção às instalações militares e
governamentais atingidas por Israel e pelos EUA.
Também
encontramos alguns exemplos de desinformação.
<><>
O aparato midiático do Irã
De
acordo com a organização Repórteres Sem Fronteiras, o Irã é um dos países mais
repressivos do mundo em termos de liberdade de imprensa.
Desde a
revolução de 1979, quando a República Islâmica do Irã foi estabelecida, todos
os meios de comunicação operam sob rígidas restrições. A maioria dos veículos
de notícias ocidentais e em língua persa — incluindo a BBC News Persa (serviço
de notícias da BBC no idioma) — está proibida de fazer reportagens no país.
Embora
as principais plataformas do regime sejam a TV e o rádio, ele também opera
online por meio de sites de notícias e redes como Instagram, Telegram e X. O
acesso a essas plataformas de mídia social de dentro do Irã geralmente requer
uma rede privada virtual (VPN).
Seu
aparato midiático se tornou a principal fonte de informação para as pessoas que
vivem no país, principalmente quando a internet é cortada.
"Eles
têm uma narrativa que estão propagando", diz Mahsa Alimardani, da
organização de direitos humanos Witness. "É a de que eles são bastante
vitoriosos e que suas forças armadas são muito fortes."
Diversos
veículos de comunicação estatais iranianos relataram que as forças iranianas
mataram ou feriram centenas de soldados americanos, inflando o número de baixas
inimigas.
Em 3 de
março, a agência de notícias Tasnim, uma agência semioficial associada à Guarda
Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), informou que 650 militares dos EUA
haviam sido mortos nos dois primeiros dias da guerra. A agência citou um
porta-voz da IRGC.
A
alegação foi repercutida por veículos de notícias globais de países como Índia,
Turquia e Nigéria.
Na
época, o Pentágono havia confirmado a morte de seis soldados americanos. Em 13
de março, o Comando Central dos EUA confirmou a morte de mais sete militares
americanos.
<><>
Distorcendo a realidade
As
novas tecnologias também estão ajudando a mídia estatal a disseminar
propaganda.
Em uma
publicação no Facebook, que já foi apagada, o canal de notícias estatal em
inglês, Press TV, compartilhou um vídeo de um prédio em chamas, com colunas de
fumaça subindo ao ar.
"Fumaça
sobe de um arranha-céu no Bahrein após o ataque do Irã", dizia a
descrição.
Mas uma
análise mais detalhada revelou detalhes incomuns no vídeo, como dois carros
aparentemente se fundindo em um só — um sinal de que o vídeo era falso e foi
feito usando IA.
"Embora
o uso de conteúdo gerado por IA em propaganda de guerra certamente não seja
novidade, o uso de falsificações de IA por grandes veículos de mídia estatal,
mesmo aqueles que não têm exatamente uma reputação de se ater à verdade, é
impressionante", diz Brett Schafer, diretor do centro de estudos britânico
Institute of Strategic Dialogue.
"O
uso repetido de deepfakes pela mídia estatal iraniana sugere que isso é uma
característica de sua cobertura de guerra, e não um erro."
Assim
como grande parte do conteúdo gerado por IA sobre a guerra que inundou as redes
sociais, não está claro quem o criou e de onde veio. No entanto, desde o início
da guerra, a BBC viu outros exemplos de imagens geradas por IA compartilhadas
por veículos governamentais para promover sua narrativa. Grande parte dessas
imagens é bem irrealista e tem a intenção de glorificar o Irã em vez de
enganar.
A Casa
Branca e o presidente dos EUA, Donald Trump, também compartilham rotineiramente
imagens ou vídeos assim gerados por IA. O primeiro-ministro israelense,
Benjamin Netanyahu, compartilhou recentemente no Instagram uma imagem gerada
por IA que o retrata, junto com Trump e o primeiro-ministro em tempos de
guerra, Winston Churchill, em uma pose triunfante. A publicação foi adicionada
por um veículo de notícias por meio do recurso de colaboração da plataforma de
mídia social.
<><>
Pequenas verdades
O
histórico do Irã de disseminar "pequenas verdades" juntamente com
informações falsas semeou dúvidas entre muitos críticos do regime dentro e fora
do país.
Quando
a mídia estatal iraniana noticiou, em 3 de março, que mais de 160 crianças e
funcionários foram mortos em um ataque a uma escola — no que especialistas
independentes dizem ter sido provavelmente uma operação dos EUA visando uma
base militar próxima — ela compartilhou uma imagem aérea de um funeral
coletivo.
Opositores
do governo alegaram que a imagem havia sido gerada por inteligência artificial.
Mas a imagem era real. Geolocalizamos a imagem em um cemitério a cerca de 3,7
km da escola, confirmando que as árvores, o traçado da estrada e um prédio
próximo correspondiam aos visíveis nas imagens de satélite.
Covas
recém-cavadas também aparecem em imagens de satélite do dia seguinte ao
funeral. No dia anterior, o solo estava sem buracos.
"Temos
que sustentar duas verdades ao mesmo tempo", diz Mahsa Alimardani, da
Witness. O regime iraniano frequentemente oculta provas quando é o perpetrador
de abusos, mas durante a guerra também investe pesadamente na documentação de
vítimas civis.
Embora
essa documentação possa servir à propaganda e à narrativa de guerra do Estado,
diz ela, isso não a torna automaticamente falsa.
Quando
se trata dos reportagens de veículos estatais do Irã, Alimardani observa que se
deve manter uma dose saudável de ceticismo.
• A última vez que os EUA tentaram — e
conseguiram — fazer uma mudança de regime no Irã
Os
iranianos conhecem esse dia como 28 Mordad, data em que um golpe de Estado
marcou um ponto de virada na história do país.
Era 19
de agosto de 1953 quando uma operação orquestrada pelas agências de
inteligência dos Estados Unidos (CIA) e do Reino Unido (MI6) depôs o
primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh, que havia sido eleito democraticamente.
O
golpe, apoiado pelos americanos e britânicos, não apenas redefiniu o destino do
povo iraniano, como também se provou um dos eventos mais cruciais da história
moderna do Oriente Médio: ele lançou as bases para a adoção de uma política
externa antiocidental no Irã e alterou fundamentalmente a geopolítica regional.
"O
golpe moldou profundamente a política iraniana moderna, e a queda de Mosaddegh
deixou um legado duradouro de raiva em relação aos Estados Unidos em particular
e ao Ocidente em geral", destaca a professora Simin Fadaee, catedrática de
Sociologia na Universidade de Manchester, na Inglaterra.
<><>
Uma missão no início da Guerra Fria
Hoje
sabemos o que aconteceu em 19 de agosto de 1953 porque, em 2013, 60 anos após
os eventos, a CIA admitiu pela primeira vez o seu envolvimento no golpe contra
Mohammad Mossadegh.
Em uma
série de documentos que deixaram de ser confidenciais e foram publicados pelo
Departamento de Estado americano, é possível conhecer os detalhes sobre a
operação que a CIA chamou de Operação Ajax, e o MI6, de Operação Boot.
"O
golpe militar que derrubou Mossadegh e seu gabinete da Frente Nacional foi
realizado sob a direção da CIA como um ato de política externa dos EUA,
concebido e aprovado nos mais altos escalões do governo", afirmou um dos
documentos divulgados recentemente.
A
operação foi dirigida pelo oficial de alta patente da CIA, Kermit Roosevelt
(neto do ex-presidente Theodore Roosevelt).
Após a
Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria estava em curso e, na década de 1950, o
Irã era estrategicamente crucial para o Ocidente.
Primeiro,
o país se localiza em uma área geográfica e politicamente crucial para impedir
o acesso soviético ao Golfo Pérsico e a disseminação do comunismo na região.
Segundo,
as lucrativas reservas de petróleo do Irã, descobertas em 1909, eram
efetivamente controladas pela Companhia Britânica Anglo-Iraniana de Petróleo
(AIOC), posteriormente conhecida como British Petroleum, e agora como BP.
A AIOC
administrava a produção sob um acordo de concessão, com direitos exclusivos e
lucrativos para explorar e extrair petróleo em grande parte do Irã.
Essas
prioridades, no entanto, foram ameaçadas quando Mohammad Mossadegh foi eleito
primeiro-ministro em 1951, de forma democrática.
<><>
Mohammad Mossadegh e a nacionalização do petróleo
Embora
o Irã permanecesse uma monarquia constitucional, com o xá Reza Pahlavi como
chefe de Estado, a eleição de Mossadegh marcou um passo significativo na
evolução democrática do país.
Mossadegh
era um político moderado de esquerda cujo principal objetivo no poder era
nacionalizar a indústria petrolífera iraniana.
A
medida foi extremamente popular no Irã, mas provocou grande consternação no
Ocidente, particularmente no Reino Unido, quanto ao futuro daquela que era
então sua maior e mais lucrativa empresa no mundo.
"O
Reino Unido tentou reverter essa nacionalização, que ameaçava sua influência
econômica e estratégica no Irã, especialmente após a perda da colônia
indiana", explica Simin Fadaee.
"E
os Estados Unidos temiam que Mossadegh abrisse as portas para uma maior
influência soviética, especialmente dada a presença de um significativo
movimento comunista e socialista no país."
Os
britânicos tentaram negociar com Mossadegh, mas o primeiro-ministro rejeitou
qualquer envolvimento estrangeiro na indústria petrolífera iraniana.
O Reino
Unido então buscou a ajuda dos Estados Unidos, argumentando que Mossadegh
representava uma ameaça à luta contra o comunismo.
E assim
começou a conspiração para derrubar o primeiro-ministro iraniano.
O plano
britânico era substituir Mossadegh pelo general Fazlollah Zahedi — que eles
consideravam um aliado mais flexível — para agir sob as ordens do xá, que
simpatizava com os interesses ocidentais e era firmemente anticomunista.
Documentos
americanos divulgados revelam que Kermit Roosevelt chegou ao Irã em julho de
1953.
Ele
imediatamente se encontrou com agentes iranianos, organizou o apoio de oficiais
do Exército e buscou aliados entre o clero islâmico.
Roosevelt
também se comunicou com o xá Reza Pahlavi, que havia fugido recentemente do
país após uma tentativa anterior de derrubar o primeiro-ministro ter
fracassado.
Como
explica Simin Fadaee, a operação da CIA e do MI6 foi "cuidadosamente
planejada".
"Ela
combinou manipulação política, guerra psicológica e tumultos de rua. Eles
financiaram e organizaram figuras e grupos de oposição entre políticos
influentes, militares e clérigos, e realizaram campanhas de propaganda em larga
escala para retratar Mossadegh como uma ameaça à estabilidade", detalha
ele.
Também
foram orquestrados protestos e tumultos de rua, que rapidamente semearam o caos
e desestabilizaram o país.
Em meio
ao tumulto, o general Zahedi mobilizou o Exército para restaurar a ordem e, por
meio da força militar, derrubou o governo e prendeu o primeiro-ministro.
Os
documentos mostram que vários clérigos estiveram envolvidos no golpe, incluindo
o proeminente aiatolá Abol Gashem Kashani, que desempenhou um papel
fundamental.
Mossadegh
foi julgado por traição e condenado a três anos de prisão.
Posteriormente,
foi colocado em prisão domiciliar e passou o resto da vida nessa condição até
sua morte, em 1967.
<><>
O retorno do xá e a revolução de 1979
Reza
Pahlavi retornou ao poder em 1953 como monarca do Irã.
Ele
assumiu poder absoluto e inaugurou uma era de repressão e violações dos
direitos humanos.
"O
golpe lançou as bases para um longo período de autoritarismo, cujas
consequências ainda vemos hoje", afirma o professor Fadaee.
"Reza
Pahlavi rapidamente consolidou seu controle criando, com a ajuda da CIA, a
infame agência de inteligência Sazman-e Ettel'at va Amniyat-e Keshvar (Savak).
Ele proibiu todos os partidos de oposição e silenciou e prendeu ativistas
envolvidos no movimento pela nacionalização do petróleo, entre outros."
O xá
governou por mais de duas décadas, um período que coincidiu com um rápido
crescimento econômico — para alguns iranianos —, o que tornou o Irã um dos
países mais desiguais do mundo.
Assim,
a queda de Mossadegh e a consolidação do poder do xá lançaram as bases para a
ascensão do fervor nacionalista iraniano que levou à revolução de 1979, que
derrubou a monarquia persa de 2,5 mil anos e a substituiu por uma república
islâmica.
Liderado
pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, o novo regime teocrático instituiu uma lei
religiosa rigorosa e severas restrições sociais, reverteu políticas
pró-ocidentais e adotou uma política externa ideológica que alterou
radicalmente a geopolítica regional.
Como
explica Simin Fadaee, "logo após a revolução, a república islâmica
estabeleceu rapidamente sua própria polícia secreta, a Sazman-e Ettelaat Va
Amniat Meli Iran (Savama), que utilizava muitos dos mesmos métodos brutais da
Savak".
<><>
As consequências da revolução
Após a
revolução de 1979, as hostilidades começaram nas relações entre os Estados
Unidos e o Irã.
Em
novembro daquele ano, um grupo de manifestantes invadiu a embaixada dos EUA em
Teerã, e fez reféns diplomatas e outros cidadãos americanos.
O
sequestro durou 444 dias. Durante esse período, em abril de 1980, os Estados
Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã, algo que permanece até os dias
de hoje.
Em
resposta ao ataque à embaixada e ao sequestro de cidadãos americanos,
Washington impôs severas sanções econômicas contra o Irã.
Além
disso, os EUA apoiaram o Iraque durante a guerra de oito anos que aquele país
travou contra o Irã na década de 1980, um conflito que tirou a vida de centenas
de milhares de iranianos e prejudicou gravemente os esforços de reconstrução
política e econômica do país.
Por
décadas, as sanções americanas tiveram um impacto enorme na economia iraniana,
que nos últimos anos tem sido assolada por uma inflação galopante e a
desvalorização da moeda, o que tem pressionado severamente os orçamentos
familiares.
Em
março de 2025, o Banco Mundial estimou que entre 35% e 40% dos iranianos viviam
abaixo da linha da pobreza.
Simin
Fadaee, professora da Universidade de Manchester, afirma que, todos os anos, no
aniversário do golpe de 1953, ela e muitos outros iranianos se perguntam qual
teria sido o destino do país se os EUA e o Reino Unido não tivessem conspirado
para derrubar a incipiente democracia do país.
Os
iranianos ainda estariam lutando por seus direitos básicos? As relações entre o
Irã e o Ocidente seriam melhores? Os atuais ataques dos EUA e de Israel contra
o Irã teriam sido evitados?
"Não é fácil especular em retrospectiva Como a guerra está sendo noticiada no Irã
Os
primeiros relatos apareceram em telas estrangeiras, fora do alcance da maioria
dos iranianos.
Em 28
de fevereiro, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que
havia "sinais de que o tirano não existe mais" — indicando que o
líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, havia sido morto em um ataque
conjunto entre os EUA e Israel.
Os
iranianos que assistiam à televisão estatal, no entanto, encontraram silêncio.
Autoridades
do governo não confirmaram nem negaram a morte de Khamenei. Em um dos canais da
emissora estatal, o IRTV3, um apresentador de notícias pediu aos
telespectadores que "confiassem" nele e nas "informações mais
recentes" que o governo possuía.
Ele
descartou as notícias da morte de Khamenei como "rumores infundados",
que "em breve seriam revelados".
Foi
somente na manhã seguinte que a mídia estatal iraniana noticiou a morte de
Khamenei, horas depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, tê-la anunciado
publicamente nas redes sociais.
Desde o
início da guerra que, segundo relatos, matou mais de 1,2 mil pessoas no Irã e
se espalhou para o Líbano e os países árabes do Golfo, a mídia estatal iraniana
tem misturado fatos com ficção, apresentando uma versão oficial dos eventos
para seu público interno.
Embora
milhões de iranianos acompanhem canais de TV via satélite em língua persa com
sede no exterior, o acesso a informações independentes pode ser difícil.
Bloqueios
de internet, censura e canais restritos deixam os iranianos praticamente
isolados do mundo exterior durante períodos de agitação e conflito.
A BBC
acompanhou a primeira semana de cobertura da guerra pela mídia estatal iraniana
e constatou que ela centrou suas reportagens no sofrimento dos civis, em apelos
por retaliação contra seus "inimigos", em pressões por lealdade
pública à República Islâmica — e deu pouca atenção às instalações militares e
governamentais atingidas por Israel e pelos EUA.
Também
encontramos alguns exemplos de desinformação.
<><>
O aparato midiático do Irã
De
acordo com a organização Repórteres Sem Fronteiras, o Irã é um dos países mais
repressivos do mundo em termos de liberdade de imprensa.
Desde a
revolução de 1979, quando a República Islâmica do Irã foi estabelecida, todos
os meios de comunicação operam sob rígidas restrições. A maioria dos veículos
de notícias ocidentais e em língua persa — incluindo a BBC News Persa (serviço
de notícias da BBC no idioma) — está proibida de fazer reportagens no país.
Embora
as principais plataformas do regime sejam a TV e o rádio, ele também opera
online por meio de sites de notícias e redes como Instagram, Telegram e X. O
acesso a essas plataformas de mídia social de dentro do Irã geralmente requer
uma rede privada virtual (VPN).
Seu
aparato midiático se tornou a principal fonte de informação para as pessoas que
vivem no país, principalmente quando a internet é cortada.
"Eles
têm uma narrativa que estão propagando", diz Mahsa Alimardani, da
organização de direitos humanos Witness. "É a de que eles são bastante
vitoriosos e que suas forças armadas são muito fortes."
Diversos
veículos de comunicação estatais iranianos relataram que as forças iranianas
mataram ou feriram centenas de soldados americanos, inflando o número de baixas
inimigas.
Em 3 de
março, a agência de notícias Tasnim, uma agência semioficial associada à Guarda
Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), informou que 650 militares dos EUA
haviam sido mortos nos dois primeiros dias da guerra. A agência citou um
porta-voz da IRGC.
A
alegação foi repercutida por veículos de notícias globais de países como Índia,
Turquia e Nigéria.
Na
época, o Pentágono havia confirmado a morte de seis soldados americanos. Em 13
de março, o Comando Central dos EUA confirmou a morte de mais sete militares
americanos.
<><>
Distorcendo a realidade
As
novas tecnologias também estão ajudando a mídia estatal a disseminar
propaganda.
Em uma
publicação no Facebook, que já foi apagada, o canal de notícias estatal em
inglês, Press TV, compartilhou um vídeo de um prédio em chamas, com colunas de
fumaça subindo ao ar.
"Fumaça
sobe de um arranha-céu no Bahrein após o ataque do Irã", dizia a
descrição.
Mas uma
análise mais detalhada revelou detalhes incomuns no vídeo, como dois carros
aparentemente se fundindo em um só — um sinal de que o vídeo era falso e foi
feito usando IA.
"Embora
o uso de conteúdo gerado por IA em propaganda de guerra certamente não seja
novidade, o uso de falsificações de IA por grandes veículos de mídia estatal,
mesmo aqueles que não têm exatamente uma reputação de se ater à verdade, é
impressionante", diz Brett Schafer, diretor do centro de estudos britânico
Institute of Strategic Dialogue.
"O
uso repetido de deepfakes pela mídia estatal iraniana sugere que isso é uma
característica de sua cobertura de guerra, e não um erro."
Assim
como grande parte do conteúdo gerado por IA sobre a guerra que inundou as redes
sociais, não está claro quem o criou e de onde veio. No entanto, desde o início
da guerra, a BBC viu outros exemplos de imagens geradas por IA compartilhadas
por veículos governamentais para promover sua narrativa. Grande parte dessas
imagens é bem irrealista e tem a intenção de glorificar o Irã em vez de
enganar.
A Casa
Branca e o presidente dos EUA, Donald Trump, também compartilham rotineiramente
imagens ou vídeos assim gerados por IA. O primeiro-ministro israelense,
Benjamin Netanyahu, compartilhou recentemente no Instagram uma imagem gerada
por IA que o retrata, junto com Trump e o primeiro-ministro em tempos de
guerra, Winston Churchill, em uma pose triunfante. A publicação foi adicionada
por um veículo de notícias por meio do recurso de colaboração da plataforma de
mídia social.
<><>
Pequenas verdades
O
histórico do Irã de disseminar "pequenas verdades" juntamente com
informações falsas semeou dúvidas entre muitos críticos do regime dentro e fora
do país.
Quando
a mídia estatal iraniana noticiou, em 3 de março, que mais de 160 crianças e
funcionários foram mortos em um ataque a uma escola — no que especialistas
independentes dizem ter sido provavelmente uma operação dos EUA visando uma
base militar próxima — ela compartilhou uma imagem aérea de um funeral
coletivo.
Opositores
do governo alegaram que a imagem havia sido gerada por inteligência artificial.
Mas a imagem era real. Geolocalizamos a imagem em um cemitério a cerca de 3,7
km da escola, confirmando que as árvores, o traçado da estrada e um prédio
próximo correspondiam aos visíveis nas imagens de satélite.
Covas
recém-cavadas também aparecem em imagens de satélite do dia seguinte ao
funeral. No dia anterior, o solo estava sem buracos.
"Temos
que sustentar duas verdades ao mesmo tempo", diz Mahsa Alimardani, da
Witness. O regime iraniano frequentemente oculta provas quando é o perpetrador
de abusos, mas durante a guerra também investe pesadamente na documentação de
vítimas civis.
Embora
essa documentação possa servir à propaganda e à narrativa de guerra do Estado,
diz ela, isso não a torna automaticamente falsa.
Quando
se trata dos reportagens de veículos estatais do Irã, Alimardani observa que se
deve manter uma dose saudável de ceticismo.
• A última vez que os EUA tentaram — e
conseguiram — fazer uma mudança de regime no Irã
Os
iranianos conhecem esse dia como 28 Mordad, data em que um golpe de Estado
marcou um ponto de virada na história do país.
Era 19
de agosto de 1953 quando uma operação orquestrada pelas agências de
inteligência dos Estados Unidos (CIA) e do Reino Unido (MI6) depôs o
primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh, que havia sido eleito democraticamente.
O
golpe, apoiado pelos americanos e britânicos, não apenas redefiniu o destino do
povo iraniano, como também se provou um dos eventos mais cruciais da história
moderna do Oriente Médio: ele lançou as bases para a adoção de uma política
externa antiocidental no Irã e alterou fundamentalmente a geopolítica regional.
"O
golpe moldou profundamente a política iraniana moderna, e a queda de Mosaddegh
deixou um legado duradouro de raiva em relação aos Estados Unidos em particular
e ao Ocidente em geral", destaca a professora Simin Fadaee, catedrática de
Sociologia na Universidade de Manchester, na Inglaterra.
<><>
Uma missão no início da Guerra Fria
Hoje
sabemos o que aconteceu em 19 de agosto de 1953 porque, em 2013, 60 anos após
os eventos, a CIA admitiu pela primeira vez o seu envolvimento no golpe contra
Mohammad Mossadegh.
Em uma
série de documentos que deixaram de ser confidenciais e foram publicados pelo
Departamento de Estado americano, é possível conhecer os detalhes sobre a
operação que a CIA chamou de Operação Ajax, e o MI6, de Operação Boot.
"O
golpe militar que derrubou Mossadegh e seu gabinete da Frente Nacional foi
realizado sob a direção da CIA como um ato de política externa dos EUA,
concebido e aprovado nos mais altos escalões do governo", afirmou um dos
documentos divulgados recentemente.
A
operação foi dirigida pelo oficial de alta patente da CIA, Kermit Roosevelt
(neto do ex-presidente Theodore Roosevelt).
Após a
Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria estava em curso e, na década de 1950, o
Irã era estrategicamente crucial para o Ocidente.
Primeiro,
o país se localiza em uma área geográfica e politicamente crucial para impedir
o acesso soviético ao Golfo Pérsico e a disseminação do comunismo na região.
Segundo,
as lucrativas reservas de petróleo do Irã, descobertas em 1909, eram
efetivamente controladas pela Companhia Britânica Anglo-Iraniana de Petróleo
(AIOC), posteriormente conhecida como British Petroleum, e agora como BP.
A AIOC
administrava a produção sob um acordo de concessão, com direitos exclusivos e
lucrativos para explorar e extrair petróleo em grande parte do Irã.
Essas
prioridades, no entanto, foram ameaçadas quando Mohammad Mossadegh foi eleito
primeiro-ministro em 1951, de forma democrática.
<><>
Mohammad Mossadegh e a nacionalização do petróleo
Embora
o Irã permanecesse uma monarquia constitucional, com o xá Reza Pahlavi como
chefe de Estado, a eleição de Mossadegh marcou um passo significativo na
evolução democrática do país.
Mossadegh
era um político moderado de esquerda cujo principal objetivo no poder era
nacionalizar a indústria petrolífera iraniana.
A
medida foi extremamente popular no Irã, mas provocou grande consternação no
Ocidente, particularmente no Reino Unido, quanto ao futuro daquela que era
então sua maior e mais lucrativa empresa no mundo.
"O
Reino Unido tentou reverter essa nacionalização, que ameaçava sua influência
econômica e estratégica no Irã, especialmente após a perda da colônia
indiana", explica Simin Fadaee.
"E
os Estados Unidos temiam que Mossadegh abrisse as portas para uma maior
influência soviética, especialmente dada a presença de um significativo
movimento comunista e socialista no país."
Os
britânicos tentaram negociar com Mossadegh, mas o primeiro-ministro rejeitou
qualquer envolvimento estrangeiro na indústria petrolífera iraniana.
O Reino
Unido então buscou a ajuda dos Estados Unidos, argumentando que Mossadegh
representava uma ameaça à luta contra o comunismo.
E assim
começou a conspiração para derrubar o primeiro-ministro iraniano.
O plano
britânico era substituir Mossadegh pelo general Fazlollah Zahedi — que eles
consideravam um aliado mais flexível — para agir sob as ordens do xá, que
simpatizava com os interesses ocidentais e era firmemente anticomunista.
Documentos
americanos divulgados revelam que Kermit Roosevelt chegou ao Irã em julho de
1953.
Ele
imediatamente se encontrou com agentes iranianos, organizou o apoio de oficiais
do Exército e buscou aliados entre o clero islâmico.
Roosevelt
também se comunicou com o xá Reza Pahlavi, que havia fugido recentemente do
país após uma tentativa anterior de derrubar o primeiro-ministro ter
fracassado.
Como
explica Simin Fadaee, a operação da CIA e do MI6 foi "cuidadosamente
planejada".
"Ela
combinou manipulação política, guerra psicológica e tumultos de rua. Eles
financiaram e organizaram figuras e grupos de oposição entre políticos
influentes, militares e clérigos, e realizaram campanhas de propaganda em larga
escala para retratar Mossadegh como uma ameaça à estabilidade", detalha
ele.
Também
foram orquestrados protestos e tumultos de rua, que rapidamente semearam o caos
e desestabilizaram o país.
Em meio
ao tumulto, o general Zahedi mobilizou o Exército para restaurar a ordem e, por
meio da força militar, derrubou o governo e prendeu o primeiro-ministro.
Os
documentos mostram que vários clérigos estiveram envolvidos no golpe, incluindo
o proeminente aiatolá Abol Gashem Kashani, que desempenhou um papel
fundamental.
Mossadegh
foi julgado por traição e condenado a três anos de prisão.
Posteriormente,
foi colocado em prisão domiciliar e passou o resto da vida nessa condição até
sua morte, em 1967.
<><>
O retorno do xá e a revolução de 1979
Reza
Pahlavi retornou ao poder em 1953 como monarca do Irã.
Ele
assumiu poder absoluto e inaugurou uma era de repressão e violações dos
direitos humanos.
"O
golpe lançou as bases para um longo período de autoritarismo, cujas
consequências ainda vemos hoje", afirma o professor Fadaee.
"Reza
Pahlavi rapidamente consolidou seu controle criando, com a ajuda da CIA, a
infame agência de inteligência Sazman-e Ettel'at va Amniyat-e Keshvar (Savak).
Ele proibiu todos os partidos de oposição e silenciou e prendeu ativistas
envolvidos no movimento pela nacionalização do petróleo, entre outros."
O xá
governou por mais de duas décadas, um período que coincidiu com um rápido
crescimento econômico — para alguns iranianos —, o que tornou o Irã um dos
países mais desiguais do mundo.
Assim,
a queda de Mossadegh e a consolidação do poder do xá lançaram as bases para a
ascensão do fervor nacionalista iraniano que levou à revolução de 1979, que
derrubou a monarquia persa de 2,5 mil anos e a substituiu por uma república
islâmica.
Liderado
pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, o novo regime teocrático instituiu uma lei
religiosa rigorosa e severas restrições sociais, reverteu políticas
pró-ocidentais e adotou uma política externa ideológica que alterou
radicalmente a geopolítica regional.
Como
explica Simin Fadaee, "logo após a revolução, a república islâmica
estabeleceu rapidamente sua própria polícia secreta, a Sazman-e Ettelaat Va
Amniat Meli Iran (Savama), que utilizava muitos dos mesmos métodos brutais da
Savak".
<><>
As consequências da revolução
Após a
revolução de 1979, as hostilidades começaram nas relações entre os Estados
Unidos e o Irã.
Em
novembro daquele ano, um grupo de manifestantes invadiu a embaixada dos EUA em
Teerã, e fez reféns diplomatas e outros cidadãos americanos.
O
sequestro durou 444 dias. Durante esse período, em abril de 1980, os Estados
Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã, algo que permanece até os dias
de hoje.
Em
resposta ao ataque à embaixada e ao sequestro de cidadãos americanos,
Washington impôs severas sanções econômicas contra o Irã.
Além
disso, os EUA apoiaram o Iraque durante a guerra de oito anos que aquele país
travou contra o Irã na década de 1980, um conflito que tirou a vida de centenas
de milhares de iranianos e prejudicou gravemente os esforços de reconstrução
política e econômica do país.
Por
décadas, as sanções americanas tiveram um impacto enorme na economia iraniana,
que nos últimos anos tem sido assolada por uma inflação galopante e a
desvalorização da moeda, o que tem pressionado severamente os orçamentos
familiares.
Em
março de 2025, o Banco Mundial estimou que entre 35% e 40% dos iranianos viviam
abaixo da linha da pobreza.
Simin
Fadaee, professora da Universidade de Manchester, afirma que, todos os anos, no
aniversário do golpe de 1953, ela e muitos outros iranianos se perguntam qual
teria sido o destino do país se os EUA e o Reino Unido não tivessem conspirado
para derrubar a incipiente democracia do país.
Os
iranianos ainda estariam lutando por seus direitos básicos? As relações entre o
Irã e o Ocidente seriam melhores? Os atuais ataques dos EUA e de Israel contra
o Irã teriam sido evitados?
"Não
é fácil especular em retrospectiva sobre o que poderia ter acontecido, mas
acredito que, internacionalmente, o golpe de 1953 abriu caminho para uma série
de intervenções imperialistas e a derrubada de governos democraticamente
eleitos em todo o Sul Global", diz Fadaee.
"Talvez
os Estados Unidos tivessem pensado duas vezes antes de planejar golpes de
Estado na Guatemala em 1954, no Congo em 1961 ou no Chile em 1973 se não
tivessem conseguido derrubar Mohammad Mosaddegh no Irã."
"Internamente,
acredito que o caminho do Irã rumo à democracia e à justiça social teria sido
muito mais tranquilo, embora certamente não necessariamente fácil", afirma
ela.
"Mas
hoje, enquanto lutam por um futuro melhor, muitos iranianos conseguem perceber
claramente como, 70 anos após o golpe que pôs fim à democracia, os conflitos
internos ainda são influenciados por potências estrangeiras", conclui a
professora.
Fonte:
BBC Global Disinformation Unit e BBC Monitoringsobre o que poderia ter acontecido, mas
acredito que, internacionalmente, o golpe de 1953 abriu caminho para uma série
de intervenções imperialistas e a derrubada de governos democraticamente
eleitos em todo o Sul Global", diz Fadaee.
"Talvez
os Estados Unidos tivessem pensado duas vezes antes de planejar golpes de
Estado na Guatemala em 1954, no Congo em 1961 ou no Chile em 1973 se não
tivessem conseguido derrubar Mohammad Mosaddegh no Irã."
"Internamente,
acredito que o caminho do Irã rumo à democracia e à justiça social teria sido
muito mais tranquilo, embora certamente não necessariamente fácil", afirma
ela.
"Mas
hoje, enquanto lutam por um futuro melhor, muitos iranianos conseguem perceber
claramente como, 70 anos após o golpe que pôs fim à democracia, os conflitos
internos ainda são influenciados por potências estrangeiras", conclui a
professora.
Fonte:
BBC Global Disinformation Unit e BBC Monitoring

Nenhum comentário:
Postar um comentário