quarta-feira, 18 de março de 2026

Como a guerra está sendo noticiada no Irã

Os primeiros relatos apareceram em telas estrangeiras, fora do alcance da maioria dos iranianos.

Em 28 de fevereiro, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que havia "sinais de que o tirano não existe mais" — indicando que o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, havia sido morto em um ataque conjunto entre os EUA e Israel.

Os iranianos que assistiam à televisão estatal, no entanto, encontraram silêncio.

Autoridades do governo não confirmaram nem negaram a morte de Khamenei. Em um dos canais da emissora estatal, o IRTV3, um apresentador de notícias pediu aos telespectadores que "confiassem" nele e nas "informações mais recentes" que o governo possuía.

Ele descartou as notícias da morte de Khamenei como "rumores infundados", que "em breve seriam revelados".

Foi somente na manhã seguinte que a mídia estatal iraniana noticiou a morte de Khamenei, horas depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, tê-la anunciado publicamente nas redes sociais.

Desde o início da guerra que, segundo relatos, matou mais de 1,2 mil pessoas no Irã e se espalhou para o Líbano e os países árabes do Golfo, a mídia estatal iraniana tem misturado fatos com ficção, apresentando uma versão oficial dos eventos para seu público interno.

Embora milhões de iranianos acompanhem canais de TV via satélite em língua persa com sede no exterior, o acesso a informações independentes pode ser difícil.

Bloqueios de internet, censura e canais restritos deixam os iranianos praticamente isolados do mundo exterior durante períodos de agitação e conflito.

A BBC acompanhou a primeira semana de cobertura da guerra pela mídia estatal iraniana e constatou que ela centrou suas reportagens no sofrimento dos civis, em apelos por retaliação contra seus "inimigos", em pressões por lealdade pública à República Islâmica — e deu pouca atenção às instalações militares e governamentais atingidas por Israel e pelos EUA.

Também encontramos alguns exemplos de desinformação.

<><> O aparato midiático do Irã

De acordo com a organização Repórteres Sem Fronteiras, o Irã é um dos países mais repressivos do mundo em termos de liberdade de imprensa.

Desde a revolução de 1979, quando a República Islâmica do Irã foi estabelecida, todos os meios de comunicação operam sob rígidas restrições. A maioria dos veículos de notícias ocidentais e em língua persa — incluindo a BBC News Persa (serviço de notícias da BBC no idioma) — está proibida de fazer reportagens no país.

Embora as principais plataformas do regime sejam a TV e o rádio, ele também opera online por meio de sites de notícias e redes como Instagram, Telegram e X. O acesso a essas plataformas de mídia social de dentro do Irã geralmente requer uma rede privada virtual (VPN).

Seu aparato midiático se tornou a principal fonte de informação para as pessoas que vivem no país, principalmente quando a internet é cortada.

"Eles têm uma narrativa que estão propagando", diz Mahsa Alimardani, da organização de direitos humanos Witness. "É a de que eles são bastante vitoriosos e que suas forças armadas são muito fortes."

Diversos veículos de comunicação estatais iranianos relataram que as forças iranianas mataram ou feriram centenas de soldados americanos, inflando o número de baixas inimigas.

Em 3 de março, a agência de notícias Tasnim, uma agência semioficial associada à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), informou que 650 militares dos EUA haviam sido mortos nos dois primeiros dias da guerra. A agência citou um porta-voz da IRGC.

A alegação foi repercutida por veículos de notícias globais de países como Índia, Turquia e Nigéria.

Na época, o Pentágono havia confirmado a morte de seis soldados americanos. Em 13 de março, o Comando Central dos EUA confirmou a morte de mais sete militares americanos.

<><> Distorcendo a realidade

As novas tecnologias também estão ajudando a mídia estatal a disseminar propaganda.

Em uma publicação no Facebook, que já foi apagada, o canal de notícias estatal em inglês, Press TV, compartilhou um vídeo de um prédio em chamas, com colunas de fumaça subindo ao ar.

"Fumaça sobe de um arranha-céu no Bahrein após o ataque do Irã", dizia a descrição.

Mas uma análise mais detalhada revelou detalhes incomuns no vídeo, como dois carros aparentemente se fundindo em um só — um sinal de que o vídeo era falso e foi feito usando IA.

"Embora o uso de conteúdo gerado por IA em propaganda de guerra certamente não seja novidade, o uso de falsificações de IA por grandes veículos de mídia estatal, mesmo aqueles que não têm exatamente uma reputação de se ater à verdade, é impressionante", diz Brett Schafer, diretor do centro de estudos britânico Institute of Strategic Dialogue.

"O uso repetido de deepfakes pela mídia estatal iraniana sugere que isso é uma característica de sua cobertura de guerra, e não um erro."

Assim como grande parte do conteúdo gerado por IA sobre a guerra que inundou as redes sociais, não está claro quem o criou e de onde veio. No entanto, desde o início da guerra, a BBC viu outros exemplos de imagens geradas por IA compartilhadas por veículos governamentais para promover sua narrativa. Grande parte dessas imagens é bem irrealista e tem a intenção de glorificar o Irã em vez de enganar.

A Casa Branca e o presidente dos EUA, Donald Trump, também compartilham rotineiramente imagens ou vídeos assim gerados por IA. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, compartilhou recentemente no Instagram uma imagem gerada por IA que o retrata, junto com Trump e o primeiro-ministro em tempos de guerra, Winston Churchill, em uma pose triunfante. A publicação foi adicionada por um veículo de notícias por meio do recurso de colaboração da plataforma de mídia social.

<><> Pequenas verdades

O histórico do Irã de disseminar "pequenas verdades" juntamente com informações falsas semeou dúvidas entre muitos críticos do regime dentro e fora do país.

Quando a mídia estatal iraniana noticiou, em 3 de março, que mais de 160 crianças e funcionários foram mortos em um ataque a uma escola — no que especialistas independentes dizem ter sido provavelmente uma operação dos EUA visando uma base militar próxima — ela compartilhou uma imagem aérea de um funeral coletivo.

Opositores do governo alegaram que a imagem havia sido gerada por inteligência artificial. Mas a imagem era real. Geolocalizamos a imagem em um cemitério a cerca de 3,7 km da escola, confirmando que as árvores, o traçado da estrada e um prédio próximo correspondiam aos visíveis nas imagens de satélite.

Covas recém-cavadas também aparecem em imagens de satélite do dia seguinte ao funeral. No dia anterior, o solo estava sem buracos.

"Temos que sustentar duas verdades ao mesmo tempo", diz Mahsa Alimardani, da Witness. O regime iraniano frequentemente oculta provas quando é o perpetrador de abusos, mas durante a guerra também investe pesadamente na documentação de vítimas civis.

Embora essa documentação possa servir à propaganda e à narrativa de guerra do Estado, diz ela, isso não a torna automaticamente falsa.

Quando se trata dos reportagens de veículos estatais do Irã, Alimardani observa que se deve manter uma dose saudável de ceticismo.

        A última vez que os EUA tentaram — e conseguiram — fazer uma mudança de regime no Irã

Os iranianos conhecem esse dia como 28 Mordad, data em que um golpe de Estado marcou um ponto de virada na história do país.

Era 19 de agosto de 1953 quando uma operação orquestrada pelas agências de inteligência dos Estados Unidos (CIA) e do Reino Unido (MI6) depôs o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh, que havia sido eleito democraticamente.

O golpe, apoiado pelos americanos e britânicos, não apenas redefiniu o destino do povo iraniano, como também se provou um dos eventos mais cruciais da história moderna do Oriente Médio: ele lançou as bases para a adoção de uma política externa antiocidental no Irã e alterou fundamentalmente a geopolítica regional.

"O golpe moldou profundamente a política iraniana moderna, e a queda de Mosaddegh deixou um legado duradouro de raiva em relação aos Estados Unidos em particular e ao Ocidente em geral", destaca a professora Simin Fadaee, catedrática de Sociologia na Universidade de Manchester, na Inglaterra.

<><> Uma missão no início da Guerra Fria

Hoje sabemos o que aconteceu em 19 de agosto de 1953 porque, em 2013, 60 anos após os eventos, a CIA admitiu pela primeira vez o seu envolvimento no golpe contra Mohammad Mossadegh.

Em uma série de documentos que deixaram de ser confidenciais e foram publicados pelo Departamento de Estado americano, é possível conhecer os detalhes sobre a operação que a CIA chamou de Operação Ajax, e o MI6, de Operação Boot.

"O golpe militar que derrubou Mossadegh e seu gabinete da Frente Nacional foi realizado sob a direção da CIA como um ato de política externa dos EUA, concebido e aprovado nos mais altos escalões do governo", afirmou um dos documentos divulgados recentemente.

A operação foi dirigida pelo oficial de alta patente da CIA, Kermit Roosevelt (neto do ex-presidente Theodore Roosevelt).

Após a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria estava em curso e, na década de 1950, o Irã era estrategicamente crucial para o Ocidente.

Primeiro, o país se localiza em uma área geográfica e politicamente crucial para impedir o acesso soviético ao Golfo Pérsico e a disseminação do comunismo na região.

Segundo, as lucrativas reservas de petróleo do Irã, descobertas em 1909, eram efetivamente controladas pela Companhia Britânica Anglo-Iraniana de Petróleo (AIOC), posteriormente conhecida como British Petroleum, e agora como BP.

A AIOC administrava a produção sob um acordo de concessão, com direitos exclusivos e lucrativos para explorar e extrair petróleo em grande parte do Irã.

Essas prioridades, no entanto, foram ameaçadas quando Mohammad Mossadegh foi eleito primeiro-ministro em 1951, de forma democrática.

<><> Mohammad Mossadegh e a nacionalização do petróleo

Embora o Irã permanecesse uma monarquia constitucional, com o xá Reza Pahlavi como chefe de Estado, a eleição de Mossadegh marcou um passo significativo na evolução democrática do país.

Mossadegh era um político moderado de esquerda cujo principal objetivo no poder era nacionalizar a indústria petrolífera iraniana.

A medida foi extremamente popular no Irã, mas provocou grande consternação no Ocidente, particularmente no Reino Unido, quanto ao futuro daquela que era então sua maior e mais lucrativa empresa no mundo.

"O Reino Unido tentou reverter essa nacionalização, que ameaçava sua influência econômica e estratégica no Irã, especialmente após a perda da colônia indiana", explica Simin Fadaee.

"E os Estados Unidos temiam que Mossadegh abrisse as portas para uma maior influência soviética, especialmente dada a presença de um significativo movimento comunista e socialista no país."

Os britânicos tentaram negociar com Mossadegh, mas o primeiro-ministro rejeitou qualquer envolvimento estrangeiro na indústria petrolífera iraniana.

O Reino Unido então buscou a ajuda dos Estados Unidos, argumentando que Mossadegh representava uma ameaça à luta contra o comunismo.

E assim começou a conspiração para derrubar o primeiro-ministro iraniano.

O plano britânico era substituir Mossadegh pelo general Fazlollah Zahedi — que eles consideravam um aliado mais flexível — para agir sob as ordens do xá, que simpatizava com os interesses ocidentais e era firmemente anticomunista.

Documentos americanos divulgados revelam que Kermit Roosevelt chegou ao Irã em julho de 1953.

Ele imediatamente se encontrou com agentes iranianos, organizou o apoio de oficiais do Exército e buscou aliados entre o clero islâmico.

Roosevelt também se comunicou com o xá Reza Pahlavi, que havia fugido recentemente do país após uma tentativa anterior de derrubar o primeiro-ministro ter fracassado.

Como explica Simin Fadaee, a operação da CIA e do MI6 foi "cuidadosamente planejada".

"Ela combinou manipulação política, guerra psicológica e tumultos de rua. Eles financiaram e organizaram figuras e grupos de oposição entre políticos influentes, militares e clérigos, e realizaram campanhas de propaganda em larga escala para retratar Mossadegh como uma ameaça à estabilidade", detalha ele.

Também foram orquestrados protestos e tumultos de rua, que rapidamente semearam o caos e desestabilizaram o país.

Em meio ao tumulto, o general Zahedi mobilizou o Exército para restaurar a ordem e, por meio da força militar, derrubou o governo e prendeu o primeiro-ministro.

Os documentos mostram que vários clérigos estiveram envolvidos no golpe, incluindo o proeminente aiatolá Abol Gashem Kashani, que desempenhou um papel fundamental.

Mossadegh foi julgado por traição e condenado a três anos de prisão.

Posteriormente, foi colocado em prisão domiciliar e passou o resto da vida nessa condição até sua morte, em 1967.

<><> O retorno do xá e a revolução de 1979

Reza Pahlavi retornou ao poder em 1953 como monarca do Irã.

Ele assumiu poder absoluto e inaugurou uma era de repressão e violações dos direitos humanos.

"O golpe lançou as bases para um longo período de autoritarismo, cujas consequências ainda vemos hoje", afirma o professor Fadaee.

"Reza Pahlavi rapidamente consolidou seu controle criando, com a ajuda da CIA, a infame agência de inteligência Sazman-e Ettel'at va Amniyat-e Keshvar (Savak). Ele proibiu todos os partidos de oposição e silenciou e prendeu ativistas envolvidos no movimento pela nacionalização do petróleo, entre outros."

O xá governou por mais de duas décadas, um período que coincidiu com um rápido crescimento econômico — para alguns iranianos —, o que tornou o Irã um dos países mais desiguais do mundo.

Assim, a queda de Mossadegh e a consolidação do poder do xá lançaram as bases para a ascensão do fervor nacionalista iraniano que levou à revolução de 1979, que derrubou a monarquia persa de 2,5 mil anos e a substituiu por uma república islâmica.

Liderado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, o novo regime teocrático instituiu uma lei religiosa rigorosa e severas restrições sociais, reverteu políticas pró-ocidentais e adotou uma política externa ideológica que alterou radicalmente a geopolítica regional.

Como explica Simin Fadaee, "logo após a revolução, a república islâmica estabeleceu rapidamente sua própria polícia secreta, a Sazman-e Ettelaat Va Amniat Meli Iran (Savama), que utilizava muitos dos mesmos métodos brutais da Savak".

<><> As consequências da revolução

Após a revolução de 1979, as hostilidades começaram nas relações entre os Estados Unidos e o Irã.

Em novembro daquele ano, um grupo de manifestantes invadiu a embaixada dos EUA em Teerã, e fez reféns diplomatas e outros cidadãos americanos.

O sequestro durou 444 dias. Durante esse período, em abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã, algo que permanece até os dias de hoje.

Em resposta ao ataque à embaixada e ao sequestro de cidadãos americanos, Washington impôs severas sanções econômicas contra o Irã.

Além disso, os EUA apoiaram o Iraque durante a guerra de oito anos que aquele país travou contra o Irã na década de 1980, um conflito que tirou a vida de centenas de milhares de iranianos e prejudicou gravemente os esforços de reconstrução política e econômica do país.

Por décadas, as sanções americanas tiveram um impacto enorme na economia iraniana, que nos últimos anos tem sido assolada por uma inflação galopante e a desvalorização da moeda, o que tem pressionado severamente os orçamentos familiares.

Em março de 2025, o Banco Mundial estimou que entre 35% e 40% dos iranianos viviam abaixo da linha da pobreza.

Simin Fadaee, professora da Universidade de Manchester, afirma que, todos os anos, no aniversário do golpe de 1953, ela e muitos outros iranianos se perguntam qual teria sido o destino do país se os EUA e o Reino Unido não tivessem conspirado para derrubar a incipiente democracia do país.

Os iranianos ainda estariam lutando por seus direitos básicos? As relações entre o Irã e o Ocidente seriam melhores? Os atuais ataques dos EUA e de Israel contra o Irã teriam sido evitados?

"Não é fácil especular em retrospectiva Como a guerra está sendo noticiada no Irã

Os primeiros relatos apareceram em telas estrangeiras, fora do alcance da maioria dos iranianos.

Em 28 de fevereiro, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que havia "sinais de que o tirano não existe mais" — indicando que o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, havia sido morto em um ataque conjunto entre os EUA e Israel.

Os iranianos que assistiam à televisão estatal, no entanto, encontraram silêncio.

Autoridades do governo não confirmaram nem negaram a morte de Khamenei. Em um dos canais da emissora estatal, o IRTV3, um apresentador de notícias pediu aos telespectadores que "confiassem" nele e nas "informações mais recentes" que o governo possuía.

Ele descartou as notícias da morte de Khamenei como "rumores infundados", que "em breve seriam revelados".

Foi somente na manhã seguinte que a mídia estatal iraniana noticiou a morte de Khamenei, horas depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, tê-la anunciado publicamente nas redes sociais.

Desde o início da guerra que, segundo relatos, matou mais de 1,2 mil pessoas no Irã e se espalhou para o Líbano e os países árabes do Golfo, a mídia estatal iraniana tem misturado fatos com ficção, apresentando uma versão oficial dos eventos para seu público interno.

Embora milhões de iranianos acompanhem canais de TV via satélite em língua persa com sede no exterior, o acesso a informações independentes pode ser difícil.

Bloqueios de internet, censura e canais restritos deixam os iranianos praticamente isolados do mundo exterior durante períodos de agitação e conflito.

A BBC acompanhou a primeira semana de cobertura da guerra pela mídia estatal iraniana e constatou que ela centrou suas reportagens no sofrimento dos civis, em apelos por retaliação contra seus "inimigos", em pressões por lealdade pública à República Islâmica — e deu pouca atenção às instalações militares e governamentais atingidas por Israel e pelos EUA.

Também encontramos alguns exemplos de desinformação.

<><> O aparato midiático do Irã

De acordo com a organização Repórteres Sem Fronteiras, o Irã é um dos países mais repressivos do mundo em termos de liberdade de imprensa.

Desde a revolução de 1979, quando a República Islâmica do Irã foi estabelecida, todos os meios de comunicação operam sob rígidas restrições. A maioria dos veículos de notícias ocidentais e em língua persa — incluindo a BBC News Persa (serviço de notícias da BBC no idioma) — está proibida de fazer reportagens no país.

Embora as principais plataformas do regime sejam a TV e o rádio, ele também opera online por meio de sites de notícias e redes como Instagram, Telegram e X. O acesso a essas plataformas de mídia social de dentro do Irã geralmente requer uma rede privada virtual (VPN).

Seu aparato midiático se tornou a principal fonte de informação para as pessoas que vivem no país, principalmente quando a internet é cortada.

"Eles têm uma narrativa que estão propagando", diz Mahsa Alimardani, da organização de direitos humanos Witness. "É a de que eles são bastante vitoriosos e que suas forças armadas são muito fortes."

Diversos veículos de comunicação estatais iranianos relataram que as forças iranianas mataram ou feriram centenas de soldados americanos, inflando o número de baixas inimigas.

Em 3 de março, a agência de notícias Tasnim, uma agência semioficial associada à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), informou que 650 militares dos EUA haviam sido mortos nos dois primeiros dias da guerra. A agência citou um porta-voz da IRGC.

A alegação foi repercutida por veículos de notícias globais de países como Índia, Turquia e Nigéria.

Na época, o Pentágono havia confirmado a morte de seis soldados americanos. Em 13 de março, o Comando Central dos EUA confirmou a morte de mais sete militares americanos.

<><> Distorcendo a realidade

As novas tecnologias também estão ajudando a mídia estatal a disseminar propaganda.

Em uma publicação no Facebook, que já foi apagada, o canal de notícias estatal em inglês, Press TV, compartilhou um vídeo de um prédio em chamas, com colunas de fumaça subindo ao ar.

"Fumaça sobe de um arranha-céu no Bahrein após o ataque do Irã", dizia a descrição.

Mas uma análise mais detalhada revelou detalhes incomuns no vídeo, como dois carros aparentemente se fundindo em um só — um sinal de que o vídeo era falso e foi feito usando IA.

"Embora o uso de conteúdo gerado por IA em propaganda de guerra certamente não seja novidade, o uso de falsificações de IA por grandes veículos de mídia estatal, mesmo aqueles que não têm exatamente uma reputação de se ater à verdade, é impressionante", diz Brett Schafer, diretor do centro de estudos britânico Institute of Strategic Dialogue.

"O uso repetido de deepfakes pela mídia estatal iraniana sugere que isso é uma característica de sua cobertura de guerra, e não um erro."

Assim como grande parte do conteúdo gerado por IA sobre a guerra que inundou as redes sociais, não está claro quem o criou e de onde veio. No entanto, desde o início da guerra, a BBC viu outros exemplos de imagens geradas por IA compartilhadas por veículos governamentais para promover sua narrativa. Grande parte dessas imagens é bem irrealista e tem a intenção de glorificar o Irã em vez de enganar.

A Casa Branca e o presidente dos EUA, Donald Trump, também compartilham rotineiramente imagens ou vídeos assim gerados por IA. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, compartilhou recentemente no Instagram uma imagem gerada por IA que o retrata, junto com Trump e o primeiro-ministro em tempos de guerra, Winston Churchill, em uma pose triunfante. A publicação foi adicionada por um veículo de notícias por meio do recurso de colaboração da plataforma de mídia social.

<><> Pequenas verdades

O histórico do Irã de disseminar "pequenas verdades" juntamente com informações falsas semeou dúvidas entre muitos críticos do regime dentro e fora do país.

Quando a mídia estatal iraniana noticiou, em 3 de março, que mais de 160 crianças e funcionários foram mortos em um ataque a uma escola — no que especialistas independentes dizem ter sido provavelmente uma operação dos EUA visando uma base militar próxima — ela compartilhou uma imagem aérea de um funeral coletivo.

Opositores do governo alegaram que a imagem havia sido gerada por inteligência artificial. Mas a imagem era real. Geolocalizamos a imagem em um cemitério a cerca de 3,7 km da escola, confirmando que as árvores, o traçado da estrada e um prédio próximo correspondiam aos visíveis nas imagens de satélite.

Covas recém-cavadas também aparecem em imagens de satélite do dia seguinte ao funeral. No dia anterior, o solo estava sem buracos.

"Temos que sustentar duas verdades ao mesmo tempo", diz Mahsa Alimardani, da Witness. O regime iraniano frequentemente oculta provas quando é o perpetrador de abusos, mas durante a guerra também investe pesadamente na documentação de vítimas civis.

Embora essa documentação possa servir à propaganda e à narrativa de guerra do Estado, diz ela, isso não a torna automaticamente falsa.

Quando se trata dos reportagens de veículos estatais do Irã, Alimardani observa que se deve manter uma dose saudável de ceticismo.

•        A última vez que os EUA tentaram — e conseguiram — fazer uma mudança de regime no Irã

Os iranianos conhecem esse dia como 28 Mordad, data em que um golpe de Estado marcou um ponto de virada na história do país.

Era 19 de agosto de 1953 quando uma operação orquestrada pelas agências de inteligência dos Estados Unidos (CIA) e do Reino Unido (MI6) depôs o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh, que havia sido eleito democraticamente.

O golpe, apoiado pelos americanos e britânicos, não apenas redefiniu o destino do povo iraniano, como também se provou um dos eventos mais cruciais da história moderna do Oriente Médio: ele lançou as bases para a adoção de uma política externa antiocidental no Irã e alterou fundamentalmente a geopolítica regional.

"O golpe moldou profundamente a política iraniana moderna, e a queda de Mosaddegh deixou um legado duradouro de raiva em relação aos Estados Unidos em particular e ao Ocidente em geral", destaca a professora Simin Fadaee, catedrática de Sociologia na Universidade de Manchester, na Inglaterra.

<><> Uma missão no início da Guerra Fria

Hoje sabemos o que aconteceu em 19 de agosto de 1953 porque, em 2013, 60 anos após os eventos, a CIA admitiu pela primeira vez o seu envolvimento no golpe contra Mohammad Mossadegh.

Em uma série de documentos que deixaram de ser confidenciais e foram publicados pelo Departamento de Estado americano, é possível conhecer os detalhes sobre a operação que a CIA chamou de Operação Ajax, e o MI6, de Operação Boot.

"O golpe militar que derrubou Mossadegh e seu gabinete da Frente Nacional foi realizado sob a direção da CIA como um ato de política externa dos EUA, concebido e aprovado nos mais altos escalões do governo", afirmou um dos documentos divulgados recentemente.

A operação foi dirigida pelo oficial de alta patente da CIA, Kermit Roosevelt (neto do ex-presidente Theodore Roosevelt).

Após a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria estava em curso e, na década de 1950, o Irã era estrategicamente crucial para o Ocidente.

Primeiro, o país se localiza em uma área geográfica e politicamente crucial para impedir o acesso soviético ao Golfo Pérsico e a disseminação do comunismo na região.

Segundo, as lucrativas reservas de petróleo do Irã, descobertas em 1909, eram efetivamente controladas pela Companhia Britânica Anglo-Iraniana de Petróleo (AIOC), posteriormente conhecida como British Petroleum, e agora como BP.

A AIOC administrava a produção sob um acordo de concessão, com direitos exclusivos e lucrativos para explorar e extrair petróleo em grande parte do Irã.

Essas prioridades, no entanto, foram ameaçadas quando Mohammad Mossadegh foi eleito primeiro-ministro em 1951, de forma democrática.

<><> Mohammad Mossadegh e a nacionalização do petróleo

Embora o Irã permanecesse uma monarquia constitucional, com o xá Reza Pahlavi como chefe de Estado, a eleição de Mossadegh marcou um passo significativo na evolução democrática do país.

Mossadegh era um político moderado de esquerda cujo principal objetivo no poder era nacionalizar a indústria petrolífera iraniana.

A medida foi extremamente popular no Irã, mas provocou grande consternação no Ocidente, particularmente no Reino Unido, quanto ao futuro daquela que era então sua maior e mais lucrativa empresa no mundo.

"O Reino Unido tentou reverter essa nacionalização, que ameaçava sua influência econômica e estratégica no Irã, especialmente após a perda da colônia indiana", explica Simin Fadaee.

"E os Estados Unidos temiam que Mossadegh abrisse as portas para uma maior influência soviética, especialmente dada a presença de um significativo movimento comunista e socialista no país."

Os britânicos tentaram negociar com Mossadegh, mas o primeiro-ministro rejeitou qualquer envolvimento estrangeiro na indústria petrolífera iraniana.

O Reino Unido então buscou a ajuda dos Estados Unidos, argumentando que Mossadegh representava uma ameaça à luta contra o comunismo.

E assim começou a conspiração para derrubar o primeiro-ministro iraniano.

O plano britânico era substituir Mossadegh pelo general Fazlollah Zahedi — que eles consideravam um aliado mais flexível — para agir sob as ordens do xá, que simpatizava com os interesses ocidentais e era firmemente anticomunista.

Documentos americanos divulgados revelam que Kermit Roosevelt chegou ao Irã em julho de 1953.

Ele imediatamente se encontrou com agentes iranianos, organizou o apoio de oficiais do Exército e buscou aliados entre o clero islâmico.

Roosevelt também se comunicou com o xá Reza Pahlavi, que havia fugido recentemente do país após uma tentativa anterior de derrubar o primeiro-ministro ter fracassado.

Como explica Simin Fadaee, a operação da CIA e do MI6 foi "cuidadosamente planejada".

"Ela combinou manipulação política, guerra psicológica e tumultos de rua. Eles financiaram e organizaram figuras e grupos de oposição entre políticos influentes, militares e clérigos, e realizaram campanhas de propaganda em larga escala para retratar Mossadegh como uma ameaça à estabilidade", detalha ele.

Também foram orquestrados protestos e tumultos de rua, que rapidamente semearam o caos e desestabilizaram o país.

Em meio ao tumulto, o general Zahedi mobilizou o Exército para restaurar a ordem e, por meio da força militar, derrubou o governo e prendeu o primeiro-ministro.

Os documentos mostram que vários clérigos estiveram envolvidos no golpe, incluindo o proeminente aiatolá Abol Gashem Kashani, que desempenhou um papel fundamental.

Mossadegh foi julgado por traição e condenado a três anos de prisão.

Posteriormente, foi colocado em prisão domiciliar e passou o resto da vida nessa condição até sua morte, em 1967.

<><> O retorno do xá e a revolução de 1979

Reza Pahlavi retornou ao poder em 1953 como monarca do Irã.

Ele assumiu poder absoluto e inaugurou uma era de repressão e violações dos direitos humanos.

"O golpe lançou as bases para um longo período de autoritarismo, cujas consequências ainda vemos hoje", afirma o professor Fadaee.

"Reza Pahlavi rapidamente consolidou seu controle criando, com a ajuda da CIA, a infame agência de inteligência Sazman-e Ettel'at va Amniyat-e Keshvar (Savak). Ele proibiu todos os partidos de oposição e silenciou e prendeu ativistas envolvidos no movimento pela nacionalização do petróleo, entre outros."

O xá governou por mais de duas décadas, um período que coincidiu com um rápido crescimento econômico — para alguns iranianos —, o que tornou o Irã um dos países mais desiguais do mundo.

Assim, a queda de Mossadegh e a consolidação do poder do xá lançaram as bases para a ascensão do fervor nacionalista iraniano que levou à revolução de 1979, que derrubou a monarquia persa de 2,5 mil anos e a substituiu por uma república islâmica.

Liderado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, o novo regime teocrático instituiu uma lei religiosa rigorosa e severas restrições sociais, reverteu políticas pró-ocidentais e adotou uma política externa ideológica que alterou radicalmente a geopolítica regional.

Como explica Simin Fadaee, "logo após a revolução, a república islâmica estabeleceu rapidamente sua própria polícia secreta, a Sazman-e Ettelaat Va Amniat Meli Iran (Savama), que utilizava muitos dos mesmos métodos brutais da Savak".

<><> As consequências da revolução

Após a revolução de 1979, as hostilidades começaram nas relações entre os Estados Unidos e o Irã.

Em novembro daquele ano, um grupo de manifestantes invadiu a embaixada dos EUA em Teerã, e fez reféns diplomatas e outros cidadãos americanos.

O sequestro durou 444 dias. Durante esse período, em abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã, algo que permanece até os dias de hoje.

Em resposta ao ataque à embaixada e ao sequestro de cidadãos americanos, Washington impôs severas sanções econômicas contra o Irã.

Além disso, os EUA apoiaram o Iraque durante a guerra de oito anos que aquele país travou contra o Irã na década de 1980, um conflito que tirou a vida de centenas de milhares de iranianos e prejudicou gravemente os esforços de reconstrução política e econômica do país.

Por décadas, as sanções americanas tiveram um impacto enorme na economia iraniana, que nos últimos anos tem sido assolada por uma inflação galopante e a desvalorização da moeda, o que tem pressionado severamente os orçamentos familiares.

Em março de 2025, o Banco Mundial estimou que entre 35% e 40% dos iranianos viviam abaixo da linha da pobreza.

Simin Fadaee, professora da Universidade de Manchester, afirma que, todos os anos, no aniversário do golpe de 1953, ela e muitos outros iranianos se perguntam qual teria sido o destino do país se os EUA e o Reino Unido não tivessem conspirado para derrubar a incipiente democracia do país.

Os iranianos ainda estariam lutando por seus direitos básicos? As relações entre o Irã e o Ocidente seriam melhores? Os atuais ataques dos EUA e de Israel contra o Irã teriam sido evitados?

"Não é fácil especular em retrospectiva sobre o que poderia ter acontecido, mas acredito que, internacionalmente, o golpe de 1953 abriu caminho para uma série de intervenções imperialistas e a derrubada de governos democraticamente eleitos em todo o Sul Global", diz Fadaee.

"Talvez os Estados Unidos tivessem pensado duas vezes antes de planejar golpes de Estado na Guatemala em 1954, no Congo em 1961 ou no Chile em 1973 se não tivessem conseguido derrubar Mohammad Mosaddegh no Irã."

"Internamente, acredito que o caminho do Irã rumo à democracia e à justiça social teria sido muito mais tranquilo, embora certamente não necessariamente fácil", afirma ela.

"Mas hoje, enquanto lutam por um futuro melhor, muitos iranianos conseguem perceber claramente como, 70 anos após o golpe que pôs fim à democracia, os conflitos internos ainda são influenciados por potências estrangeiras", conclui a professora.

 

Fonte: BBC Global Disinformation Unit e BBC Monitoringsobre o que poderia ter acontecido, mas acredito que, internacionalmente, o golpe de 1953 abriu caminho para uma série de intervenções imperialistas e a derrubada de governos democraticamente eleitos em todo o Sul Global", diz Fadaee.

"Talvez os Estados Unidos tivessem pensado duas vezes antes de planejar golpes de Estado na Guatemala em 1954, no Congo em 1961 ou no Chile em 1973 se não tivessem conseguido derrubar Mohammad Mosaddegh no Irã."

"Internamente, acredito que o caminho do Irã rumo à democracia e à justiça social teria sido muito mais tranquilo, embora certamente não necessariamente fácil", afirma ela.

"Mas hoje, enquanto lutam por um futuro melhor, muitos iranianos conseguem perceber claramente como, 70 anos após o golpe que pôs fim à democracia, os conflitos internos ainda são influenciados por potências estrangeiras", conclui a professora.

 

Fonte: BBC Global Disinformation Unit e BBC Monitoring


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