Experimentos
indicam que agrotóxicos e fertilizantes desequilibram ecossistemas aquáticos
Em meio
à expansão do setor sucroenergético brasileiro que demanda uso intensivo de
defensivos agrícolas, pesquisa da USP alerta para os impactos desses
contaminantes na base da cadeia alimentar aquática, com efeitos indiretos sobre
peixes e outros predadores. O estudo mostra que os macroinvertebrados
bentônicos — como larvas de insetos, moluscos e minhocas — estão entre os
organismos mais sensíveis às substâncias. A aplicação isolada ou combinada do
inseticida fipronil e do herbicida 2,4-D (herbicida), além da vinhaça — resíduo
líquido da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar —, levou ao
desaparecimento de predadores e a desequilíbrios ecossistêmicos. A contaminação
comprometeu funções essenciais desempenhadas por esses organismos, como a
decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e o controle
populacional de espécies.
A
coleta e a análise das amostras de água, assim como o monitoramento dos
macroinvertebrados, foram realizados em tanques experimentais (mesocosmos)
instalados a céu aberto, próximos a áreas agrícolas no município de Itirapina
(SP), onde a cana-de-açúcar é a principal atividade econômica. As observações
ocorreram 7, 14, 28, 75 e 150 dias após a exposição aos contaminantes.
Os
resultados foram publicados no artigo científico Impacts of pesticides and
vinasse on the composition and functional diversity of aquatic
macroinvertebrates exposed in a mesocosm system, assinado, entre outros
autores, pela professora Raquel Aparecida Moreira, da Faculdade de Zootecnia e
Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, e pelo pesquisador Thandy Junio da Silva
Pinto, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
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Vinhaça
A
professora Raquel destaca que os resultados confirmaram a toxicidade da vinhaça
e seu elevado potencial de impacto ambiental, especialmente quando aplicada em
conjunto com agrotóxicos, prática comum na agricultura brasileira. Segundo a
pesquisadora, a vinhaça é um resíduo líquido da produção de etanol a partir da
cana-de-açúcar e é utilizada como fertilizante, por [td1.1]fertirrigação. O
produto apresenta altas concentrações de nutrientes, como potássio, magnésio,
fósforo e nitrogênio.
“É
justamente a elevada carga de nutrientes e de matéria orgânica que compromete o
ecossistema aquático”, relata. A vinhaça analisada apresentou Demanda
Bioquímica de Oxigênio (DBO) de 46.500 miligramas por litro e Demanda Química
de Oxigênio (DQO) de 107.000 miligramas por litro — indicadores de grande
quantidade de matéria orgânica e alto consumo de oxigênio na água.
“A
redução do oxigênio pode ter consequências graves. Se os níveis caem muito,
peixes e outros organismos aquáticos podem morrer por asfixia. Por isso, a DBO
é um dos principais parâmetros para medir a qualidade da água e o grau de
poluição de rios e lagoas”, explica Raquel.
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Contaminação por fertilizantes e agrotóxicos potencializa efeitos
Thandy
da Silva Pinto- afirma que, nas amostras em que a vinhaça foi aplicada junto
aos agrotóxicos, houve prolongamento da permanência do fipronil na água e
aceleração da degradação do 2,4-D em subprodutos (metabólitos) que, segundo o
pesquisador podem ser tão ou mais tóxicos que a molécula original.
De
acordo com o pesquisador, essas alterações químicas tiveram impacto direto
sobre a fauna aquática. “Na prática, o ecossistema deixa de funcionar de forma
equilibrada, mesmo que nem todas as espécies desapareçam”, diz. Nos tanques
contaminados com 2,4-D, foi registrado aumento de organismos conhecidos como
coletores-catadores — que se alimentam de partículas orgânicas — e redução
acentuada de raspadores, grupo essencial no controle de algas, sobretudo na
amostragem realizada aos 75 dias.
O
fipronil foi o contaminante mais tóxico. Nas amostras contaminadas com
inseticida, os pesquisadores observaram ausência total de predadores após a
exposição. O mesmo ocorreu quando os dois agrotóxicos foram aplicados em
conjunto.
Já nos
ambientes com aplicação exclusiva de vinhaça, houve predominância de predadores
e redução de coletores-catadores. Quando a vinhaça e os agrotóxicoss foram
utilizados simultaneamente, os coletores-catadores permaneceram até o sétimo
dia, mas posteriormente foram registradas mudanças significativas na composição
dos grupos funcionais, evidenciando o efeito combinado dos poluentes.
Os
pesquisadores destacam que os resultados reforçam a necessidade de
monitoramento contínuo e de critérios mais rigorosos para o uso combinado de
agrotóxicos e fertilizantes em áreas próximas a corpos d’água. Segundo eles, a
adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis é fundamental para reduzir os
riscos de contaminação e evitar impactos duradouros sobre a biodiversidade e o
equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.
Fonte:
Jornal da USP

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