quinta-feira, 19 de março de 2026


 

Os pilares que mantêm o regime iraniano de pé

Dezoito dias após os Estados Unidos e Israel lançarem ataques contra o Irã, matarem o então líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei , já  nas primeiras horas da guerra e eliminarem outras lideranças políticas e militares, seria razoável supor um enfraquecimento fatal do centro de poder da República Islâmica .

"Com a guerra já na terceira semana, no entanto, está ficando claro que essa suposição não corresponde à realidade. A estrutura de poder do Irã superou o choque inicial", avalia o analista do Oriente Médio Habib Hosseini Fard.

Abalada, mas não eliminada, a Guarda Revolucionária do Irã continua atacando em várias frentes alvos dos EUA, Israel e em Estados árabes vizinhos sustentada por uma estrutura de comando descentralizada e bem conectada.

Esta parece ser a situação atual após a morte nesta terça-feira (17/03) de Ali Larijani, o chefe da Segurança Nacional iraniana. Larijani era uma das figuras mais poderosas e influentes do regime iraniano e apontado por muitos como o líder de facto do governo. Além dele, Israel também matou na mais recente onda de ataques Gholamreza Soleimani, comandante da força paramilitar Basij (responsável pela repressão popular e vinculada à Guarda).

O Comando Central dos EUA (Centcom) afirmou nesta segunda-feira que nas últimas duas semanas o Irã lançou mais de 300 ataques contra Omã, Arábia Saudita, Israel, Jordânia, Chipre, Turquia, Azerbaijão, Emirados Árabes Unidos, Catar, Iraque, Kuwait e Bahrein.

Também nesta segunda-feira, o Ministério da Defesa da Arábia Saudita informou que interceptou mais de 60 drones em seu espaço aéreo, o que ilustra a escala sem precedentes do conflito.Os Emirados Árabes Unidos também relataram uma morte em Abu Dhabi e um ferido, que, segundo as autoridades, foram vitimados por destroços de projéteis iranianos.

<><>Êxito das estruturas flexíveis de comando

Nesse contexto, o ministro do Exterior iraniano, Abbas Araghchi, descartou dar início a negociações, afirmando que não haverá cessar-fogo enquanto os EUA e Israel continuarem a atacar alvos iranianos. Ele aparenta ser capaz de contar com um aparato militar robusto, com a Guarda Revolucionária do Irã como o principal ator capaz de responder com flexibilidade a situações em constante mudança.

A Guarda Revolucionária foi criada após a Revolução Islâmica de 1979, quando os novos governantes desconfiavam das Forças Armadas formadas sob o regime do Xá [deposto pela revolução]. Seu mandato era evitar um golpe de Estado e proteger a ideologia do regime.

Juntamente com o Exército regular, a Guarda Revolucionária integra hoje as Forças Armadas do Irã e é subordinada ao líder religioso e político da República Islâmica, o aiatolá Mojtaba Khamenei. Estimativas afirmam que seu efetivo seja de até 200 mil soldados.

"Nas últimas duas décadas, a Guarda Revolucionária evoluiu de uma instituição hierárquica para uma estrutura em rede", afirma o especialista em Oriente Médio Habib Hosseinifard. "Os comandos provinciais têm ampla autoridade e podem operar independentemente do comando central."

Hosseinifard acrescenta que a "profundidade estratégica do Irã e as bases subterrâneas de mísseis também tornam impossível destruir suas capacidades militares em um curto período de tempo – uma realidade que explica a continuidade dos ataques, apesar das alegações dos EUA de destruição máxima".

Os EUA e Israel afirmaram ter atacado 15 mil alvos no Irã. Mesmo assim, o país consegue lançar ataques com foguetes contra cidades israelenses. Na manhã desta terça-feira, a embaixada dos EUA em Bagdá foi alvo de um bombardeio com drones e foguetes. Países do Golfo e navios no Golfo Pérsico também foram atingidos por ataques.

<><> Como o Irã ainda pode lutar como um "Estado falido"

O analista político Reza Talebi destaca a estrutura interna do Irã e alerta contra suposições simplistas sobre um possível colapso do poder no país. "A noção de que um período de fragilidade estatal ou mesmo um 'Estado falido' levaria automaticamente à capitulação das forças militares não reflete as realidades estruturais do Irã", explica.

"Atores ideologicamente motivados dentro do aparato militar e de segurança estão intimamente ligados à própria existência do sistema", afirma Talebi. O analista destaca ainda que a Guarda Revolucionária não é meramente uma organização militar, mas também "controla estruturas de poder econômico e ideológico que se estendem muito além do Irã".

Isso inclui a força de elite Quds, uma unidade especial da Guarda Revolucionária responsável por operações no exterior, e milícias em todo o Oriente Médio que apoiam os objetivos do Irã, incluindo a destruição de Israel.

A organização também controla um conglomerado de construção chamado Khatam al Anbia, que desempenha um papel de liderança em inúmeros projetos estratégicos de infraestrutura e investimentos multimilionários. A empresa foi criada no final da década de 1980 para reconstruir o país após a guerra com o Iraque.

"Essas interconexões orgânicas tornam uma renúncia rápida ou voluntária ao poder extremamente difícil", pontua Talebi. "Se apenas a camada externa do sistema for enfraquecida, isso não causa necessariamente um colapso. Em vez disso, pode aumentar as tensões e intensificar os conflitos internos dentro do aparato de poder."

O especialista avalia que, em caso de queda do regime, uma situação semelhante a que ocorreu na  Síriaou Afeganistão seria mais provável do que uma transferência ordenada de poder.

<><> Colapso completo improvável

Talebi, portanto, acredita que "um aparato de segurança totalmente colapsado não é necessariamente o objetivo" dos EUA e de Israel. Da perspectiva israelense, uma estrutura de segurança enfraquecida, mas ainda funcional em Teerã, poderia ser mais previsível do que um vácuo total de poder.

De acordo com Hosseini Fard, os EUA e Israel parecem agora buscar enfraquecer as capacidades militares remanescentes do Irã e reabrir o Estreito de Ormuz, enquanto realizam ataques direcionados a instituições de segurança para impulsionar protestos internos.

No entanto, um cessar-fogo em um futuro próximo ou um colapso da Guarda Revolucionária são improváveis, avalia Fard. Ele pontua que, após o choque inicial, o Irã criou deliberadamente um cenário de incertezas no Estreito de Ormuz, aumentando a pressão sobre a economia global. Além disso, com ataques à infraestrutura e bases militares na região do Golfo, as dimensões regionais do conflito continuam a se expandir.

"O cenário mais provável é a continuação da guerra, seja em seu nível atual ou de forma ampliada", conclui.

¨      Morte de Ali Larijani aprofunda crise de liderança do Irã em meio à Guerra

O ataque aéreo de Israel que matou o chefe de segurança do IrãAli Larijani, na terça-feira (17/3), tirou de cena um dos políticos mais experientes e influentes da República Islâmica do Irã em um momento crítico.

Larijani não era um comandante militar, mas ocupava posição central nas decisões estratégicas do Irã.

Como secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, ele sentava no coração da tomada de decisões relacionadas a guerra, diplomacia e segurança nacional.

Sua voz tinha peso no sistema iraniano, particularmente ao lidar com o confronto contra os Estados Unidos e Israel.

Depois da morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em 28/2, Larijani adotou um tom desafiador, sinalizando que o Irã estava se preparado para um longo conflito.

Sua morte, agora confirmada pela mídia estatal do Irã, ocorre em meio a uma ampla campanha na qual diversas autoridades sêniores do Irã foram mortas em questão de semanas. Esse padrão sugere, aliás, um esforço específico para enfraquecer a estrutura de liderança do Irã durante a guerra.

Apesar de declarações e posições linha-dura contra o Ocidente, Larijani costumava ser descrito dentro do Irã como um pragmático. Ele combinava lealdade ideológica com uma abordagem tecnocrática, preferindo estratégias calculadas à retórica.

Larijani era profundamente cético em relação à reaproximação com potências ocidentais, como os EUA, mas ele esteva envolvido em esforços diplomáticos, e foi um dos principais envolvidos no fechamento do acordo de cooperação de longo prazo firmado entre o Irã e a China.

Até ser morto, Larijani estava à frente do gerenciamento de três crises enormes.

A primeira crise era a própria guerra com Israel e os EUA. Larijani argumentava que o Irã precisava estar preparado para um sofrimento prolongado e para expandir o conflito na região e além, incluindo o fechamento do Estreito de Ormuz, hidrovia por onde são transportados cerca de 20% do petróleo e gás do mundo.

A segunda crise era a onda de manifestações dentro do Irã, que começou ligada a insatisfações econômicas, mas rapidamente se transformou em uma série de protestos que buscavam derrubar o comando da República Islâmica do Irã. A resposta violenta do governo iraniano a esses protestos deixou milhares de manifestantes mortos ao redor do país.

A terceira crise é sobre o programa nuclear do Irã e as negociações emperradas com o governo dos EUA, ambos agora abalados pelos ataques americanos e israelenses.

Sua remoção deixa essas questões sem solução e as transfere para um sucessor ainda desconhecido, que enfrentará uma situação extremamente frágil. Embora o Irã tenha demonstrado resiliência, em parte ao provocar turbulências nos mercados globais de energia, seu espaço aéreo permanece aberto a novos ataques. Qualquer nova figura de alto escalão enfrentará o risco imediato de ser assassinado por Israel ou pelos EUA.

Isso pode deslocar ainda mais o poder em direção aos militares. Declarações recentes do presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, sugerem que as unidades das Forças Armadas receberam ampla autoridade para agir caso a liderança superior fique incapacitada. Na prática, isso pode significar decisões tomadas com mais rapidez, mas com menor coordenação central.

Também há sinais de que a liderança enfrenta dificuldades para administrar a sucessão. O Irã tem adiado anúncios públicos e mantido algumas figuras, incluindo o novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, em grande parte fora de vista. Não está claro se isso ocorre por razões de segurança ou por incerteza interna.

No curto prazo, o desfecho mais provável é uma situação mais volátil: uma postura militar mais dura na guerra e repressão mais severa no país.

O chefe do Exército iraniano, general Amir Hatami, também ameaçou lançar uma retaliação "decisiva" pela morte de Larijani.

"No momento e local apropriados, será dada uma resposta decisiva, dissuasiva e que causará arrependimento à criminosa América e ao regime sionista sanguinário", afirmou Hatami em comunicado.

Ele acrescentou que a morte do chefe de segurança e de outros "mártires serão vingadas".

Com o tempo, porém, um sistema que continua a perder figuras de alto escalão pode ter cada vez mais dificuldade para funcionar de forma eficaz, especialmente em um país com mais de 90 milhões de habitantes.

O impacto da morte de Larijani, portanto, não se limita à perda de um único dirigente. Ela aprofunda uma crise de liderança que pode afetar tanto o rumo da guerra quanto a própria estabilidade do Estado iraniano.

¨      Trump torra US$ 1 bi por dia no Irã; “narcisista maligno”, diz Sachs – 12/03

Passadas quase duas semanas após Donald Trump ordenar o início da guerra contra o Irã, críticos advertem que o conflito poderia ser o início da Terceira Guerra Mundial, que existe o risco do uso de armamento nuclear e que também poderia marcar o começo do fim de sua presidência.

A aventura bélica contra o Irã é a guerra estadunidense com menor apoio da opinião pública em décadas. Essa falta de respaldo popular, combinada com suas consequências tanto imediatas quanto de longo prazo para a estabilidade do Oriente Médio — inclusive entre aliados tradicionais de Washington —, seus efeitos sobre a economia mundial, sobretudo pelo preço do petróleo, e o gasto fenomenal (algumas estimativas apontam cerca de um bilhão de dólares por dia), levam alguns analistas a considerar que essa decisão militarista debilitará politicamente Trump, tanto dentro do país quanto diante da comunidade internacional.

Outros especialistas preveem que o conflito pode resultar em um desastre ainda maior. O especialista em assuntos geopolíticos Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia, adverte: “Já estamos nas primeiras etapas da Terceira Guerra Mundial”, em um conflito que, segundo ele, não diz respeito apenas ao Irã, mas à hegemonia estadunidense em um mundo que Washington já não controla. À frente está “um homem louco”, um “narcisista maligno” já sem freios.

Em recente entrevista a Danny Haiphong, Sachs relatou prever uma “catástrofe econômica global” provocada pelo mercado do petróleo. Além disso, o perigo é que Trump não sabe o que está fazendo e “é como Roma nas mãos de Nero ou Calígula”. Ele sublinhou: “Já não estamos em uma ordem constitucional, mas em um tipo de loucura nos Estados Unidos.”

Para o coronel reformado Lawrence Wilkerson, ex-assessor de Colin Powell quando este era secretário de Estado no governo de George Bush durante a guerra contra o Iraque, uma das maiores preocupações é a possibilidade de que Israel opte por usar armas nucleares na guerra contra o Irã e contra aliados de Teerã no Oriente Médio.

Em entrevista ao programa Democracy Now, Wilkerson acusou: “Este governo cometeu mais crimes de guerra nos últimos dias do que qualquer outro país desde Adolf Hitler. Bombardeamos incessantemente. Destruímos uma escola, um hospital, pessoas.”

Ele também advertiu que Trump e sua equipe calcularam muito mal esse conflito e que não será algo que possam “vencer” no final. De fato, afirmou: “O que estamos testemunhando agora são os passos iniciais da retirada do império estadunidense do Levante e do Oriente Médio em geral”. Argumentou ainda que Benjamin Netanyahu avaliou a situação e “acredita-se que esteja pronto para usar uma arma nuclear” se as coisas piorarem.

Wilkerson acrescentou prever que “este é o fim da presidência Trump”, quando ele tiver de responder pelas crescentes baixas que ocorrerão e pelas mentiras usadas para justificar essa guerra, além das acusações de que atua a serviço de Israel.

Enquanto isso, os resultados preliminares da investigação oficial sobre o bombardeio a uma escola primária no sul do Irã — pelo qual Trump e seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, inicialmente responsabilizaram o próprio Irã — indicam que mísseis estadunidenses foram os responsáveis pelas 175 mortes, a maioria delas alunas e professores, informou o New York Times. Fontes oficiais não identificadas afirmaram que se tratou de um erro na identificação do alvo e que foram usadas coordenadas baseadas em “dados desatualizados”.

O incidente alimentou as dúvidas do público sobre a ofensiva militar. Além disso, a guerra não está gerando o “patriotismo” desejado pela Casa Branca. Segundo pesquisas recentes, a maioria dos estadunidenses se opõe ao conflito contra o Irã.

Ainda mais notável é que se trata da guerra estadunidense com o menor nível de apoio em mais de 80 anos, informou o New York Times: apenas 41% a apoiam.

Outras sondagens registram níveis ainda mais altos de desaprovação — uma análise da Reuters apontou apenas 27% de apoio, enquanto outra pesquisa da NPR/PBS registrou 36%. Ainda assim, oito em cada dez republicanos continuam apoiando o presidente, embora já haja sinais de desgaste.

 

Fonte: DW Brasil/BBC News Persa/Diálogos do Sul Global


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