Luís
Nassif: Xadrez das eleições, geopolítica e o jogo real por trás da disputa
A
eleição presidencial de 2026 será o confronto mais polarizado desde a
redemocratização. O embate é plebiscitário, sem terceira via competitiva no
horizonte: de um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva; do outro, o
senador Flávio Bolsonaro.
Mas o
jogo é bem mais complexo. O cenário real envolve economia, geopolítica, guerra
de narrativas, plataformas digitais e uma série de variáveis externas que podem
redesenhar o tabuleiro.
O que
segue é uma análise estruturada dos seis centros de poder que organizam a
disputa, dos três cenários mais prováveis, dos riscos específicos de cada
candidatura e — no limite — da pergunta que pode decidir tudo.
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I. O Paradoxo Que Define o Cenário
O
Brasil que chega a 2026 vive uma contradição: os indicadores macroeconômicos
são razoáveis, mas a sensação cotidiana é de aperto. O crescimento projetado
gira em torno de 2,3%, o desemprego está em patamares historicamente baixos e a
inflação opera dentro da meta — mas a taxa Selic na casa dos 15% age como um
freio de mão puxado sobre a economia real.
O custo
do crédito corrói o orçamento das famílias, especialmente da classe média, que
sente trabalhar apenas para pagar juros. Financiamento da casa, juro do cartão,
crédito do pequeno negócio: tudo isso pesa muito mais no humor do elevador do
que qualquer variação no PIB. O mercado projeta a Selic recuando para algo
próximo de 12% ao final de 2026 — mas se esse alívio não for sentido na prática
antes das urnas, os bons números não reduzirão a sensação de mal-estar das
famílias.
Esse
paradoxo. Uma eleição que vence nos índices, mas perde na percepção, é uma
eleição perdida. E o governo que não conseguir transformar desempenho econômico
em expectativa de futuro estará em terreno movediço — mesmo com os dados a seu
favor.
PIB
cresce. Humor do elevador despenca.Esse é o dilema central do incumbente em
2026.
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II. Os Dois Lados do Tabuleiro
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Lula: os ativos e o risco narrativo
Lula
entra na disputa com três vantagens estruturais: a máquina federal, a memória
social acumulada em quatro mandatos e o antibolsonarismo como força de coesão.
A seu favor pesa também a legitimidade democrática — o presidente que
sobreviveu à tentativa de golpe de 2023 carrega um ativo simbólico que nenhum
indicador consegue produzir artificialmente.
Mas seu
risco maior é narrativo. Um governo que entrega bons números sem traduzir isso
em experiência cotidiana corre o risco de se tornar gestor do presente — e, na
prática política, gestor do presente é alvo fácil para quem vende mudança. A
fadiga de um quarto mandato, a ausência de um projeto de futuro em linguagem
simples e a tendência de reagir em vez de pautar são suas maiores
vulnerabilidades.
Há
ainda o risco de subestimar o ecossistema digital da direita. A eleição de 2026
terá inteligência artificial, vídeo curto, rede religiosa, indignação moral e
campanhas de contágio emocional em escala inédita. O TSE já aprovou regras
específicas para o ciclo eleitoral — inclusive restrições ao uso de IA —
justamente porque reconhece esse risco. Ignorá-lo seria um erro estratégico
grave.
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Flávio Bolsonaro: a herança e o desafio da moderação
Flávio
Bolsonaro herda marca, base e ecossistema. O sobrenome mobiliza três redes bem
organizadas e com alta capacidade de engajamento: o conservadorismo religioso,
o bolsonarismo digital e a direita ligada ao agronegócio e às forças de
segurança. É uma base sólida, leal e altamente motivada — o que garante piso
alto em qualquer cenário.
Mas o
problema estrutural é claro: para vencer, não basta segurar a base. É preciso
reduzir rejeição fora dela. É por isso que a chamada ‘operação Flávio moderado’
faz tanto sentido estratégico — a tentativa de reembalar a candidatura com
estética de direita responsável, palatável ao mercado financeiro e ao eleitor
urbano de centro que rejeita o radicalismo, mas também rejeita o PT.
O
obstáculo é que essa moderação é cenográfica — e a campanha adversária
certamente tentará deixar isso evidente. O histórico do clã Bolsonaro,
incluindo o caso das rachadinhas e as relações com milicianos amplamente
documentadas, pesa menos sobre a base dura e mais sobre o eleitor de centro que
a oposição precisa conquistar. Trocar o tom de voz sem trocar o conteúdo é uma
operação arriscada quando o adversário tem interesse direto em desmontá-la.
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III. Os Seis Centros Reais de Poder
A
eleição não será decidida apenas nas urnas. Há seis forças que organizam o jogo
e que operam simultaneamente — às vezes em direções opostas.
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1. O Voto Popular
Permanece
o eixo central, mas está fraturado em dois blocos emocionais distintos. Lula
tende a largar melhor onde pesam renda, memória social e medo do retorno
bolsonarista. Flávio cresce onde pesam antipetismo, conservadorismo moral,
segurança pública e rejeição ao ‘sistema político tradicional’. A eleição será
decidida por qual dessas emoções conseguir mobilizar mais eleitores indecisos:
alívio ou ressentimento.
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2. O Poder do Dinheiro
O
mercado não elege sozinho, mas define o que os analistas chamam de ‘clima de
viabilidade’ de uma candidatura — aquela percepção difusa de que um nome é ou
não é uma opção séria. Se os juros cederem e a renda melhorar antes das
eleições, Lula ganha oxigênio. Se o custo do crédito continuar esmagando
empresas e famílias, a oposição ganha narrativa. O Copom e o calendário
eleitoral estão, portanto, profundamente entrelaçados.
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3. A Mídia Tradicional
Perdeu
o monopólio do voto, mas mantém enorme influência sobre três coisas: definir o
assunto do dia, estabilizar ou destruir reputações e conceder — ou retirar — o
selo de ‘moderado’, ‘radical’, ‘responsável’ ou ‘perigoso’. É exatamente esse
mecanismo que sustenta a tentativa de reembalar Flávio como uma opção
conservadora legítima. Numa eleição decidida na margem, o velho ‘não é bem
aquele Bolsonaro’ pode fazer diferença — se a mídia corporativa decidir
colaborar com essa operação simbólica.
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4. As Plataformas Digitais
Este é
o motor oculto de 2026. Quem dominar WhatsApp, Telegram, os cortes virais no
YouTube, os influenciadores políticos e a microsegmentação religiosa terá uma
máquina de persuasão mais poderosa do que qualquer palanque físico. A TV ainda
pesa; o celular, hoje, pesa por dentro da cabeça. O TSE reconhece isso — e a
resposta das plataformas, sob proteção política de Washington em nome da
‘liberdade de expressão’, pode criar o que alguns analistas já chamam de
‘faroeste digital’: um ambiente de desinformação sem moderação efetiva, que
historicamente favorece a direita em sua capacidade de produção de conteúdo
emocional em escala.
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5. O Sistema Político
Congresso,
governadores, Centrão, bancadas temáticas, aparato federativo — essa engrenagem
decide financiamento, coligações, tempo de TV e capilaridade territorial.
Flávio tem potencial de reunir com mais facilidade os setores da direita
parlamentar, do agro e do conservadorismo religioso. Lula tem a vantagem da
máquina federal e de uma coalizão historicamente mais ampla — mas paga o preço
de governar com alianças que desgastam sua identidade e dificultam a clareza
narrativa.
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6. O Poder Externo
A
variável mais subestimada e, potencialmente, mais decisiva. Os Estados Unidos,
sob o que analistas chamam de ‘Corolário Trump’, deixaram de ser observadores
passivos na América Latina para operar como jogadores ativos. A reclassificação
de facções brasileiras — PCC e CV — como ameaças regionais e potenciais
organizações terroristas cria um instrumento retórico poderoso para a oposição,
que pode acusar Lula de condescendência com o crime organizado. A pressão
geoeconômica, os acordos de defesa regionais e a proteção às big techs criam um
ambiente que complica a postura de não-alinhamento do governo federal.
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IV. O Efeito Trump e a Nova Geopolítica
O
cenário doméstico será fortemente influenciado pelo reposicionamento
estratégico dos Estados Unidos na América Latina. Washington não intervirá de
forma clássica — sem bigode e sem pasta 007. O que está em curso é algo mais
moderno e mais difuso: pressão geoeconômica, influência sobre elites regionais,
guerra de narrativas, alinhamentos securitários e uso político do tema do crime
organizado.
O
‘tarifaço’ de 2025 já demonstrou que os EUA estão dispostos a usar barreiras
comerciais como instrumento de coerção política — condicionando o acesso ao
mercado ao alinhamento ideológico. Isso fragiliza a economia brasileira às
vésperas de um ciclo eleitoral e cria um dilema para Lula: qualquer aproximação
com Pequim ou Moscou será usada pela oposição como prova de ‘isolamento do
Ocidente’.
Há
também o cenário venezuelano. Uma eventual intervenção americana cercaria o
Brasil de governos fortemente alinhados a Washington — Equador, Paraguai,
Venezuela pós-Maduro. A oposição capitalizaria o medo, afirmando que ‘o próximo
pode ser aqui’, e isolaria ainda mais a posição de Lula no tabuleiro regional.
Não é necessário que isso aconteça para que o argumento seja usado — basta que
pareça plausível.
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V. Os Cisnes Negros
O termo
descreve eventos extremamente raros, imprevisíveis e com impacto gigantesco,
que depois de ocorrer parecem óbvios — como se todo mundo dissesse: “era claro
que isso ia acontecer”.
O
Brasil tem histórico documentado de eleger o improvável como protagonista. No
contexto de 2026, três choques externos poderiam redesenhar completamente a
disputa — e a lógica de cada campanha passaria de estratégia para
sobrevivência.
#
Choque do Petróleo
Um
conflito no Estreito de Ormuz ou escalada da tensão EUA-Irã poderia disparar o
preço do barril e recolocar a inflação no centro do debate. Lula se veria
diante de um dilema sem saída: intervir na Petrobras para segurar os preços e
afugentar o mercado financeiro, ou deixar os combustíveis subirem e perder a
periferia — o eleitorado que mais sente o peso do diesel caro no orçamento
mensal.
# O
Precedente Regional
Uma
intervenção americana na Venezuela que derrubasse o que resta do chavismo
reposicionaria o Brasil como o único governo independente em um entorno cada
vez mais alinhado a Washington. A oposição transformaria o isolamento regional
em ameaça doméstica — e Flávio se apresentaria como o candidato que garante
‘proteção americana’ ao Brasil em um momento de tempestade geopolítica.
#
Pânico Bancário Doméstico
A
liquidação de instituições financeiras de médio porte — como o risco sistêmico
envolvendo o Banco Master — poderia gerar desconfiança sistêmica, fuga de
capitais e pressão cambial severa. Com o dólar em trajetória de alta e a Selic
travada para conter a inflação importada, o crédito desapareceria de vez. Nesse
ambiente, o debate eleitoral deixaria de ser sobre projetos e passaria a ser
sobre uma única pergunta: quem o brasileiro quer no comando durante uma
tempestade? Mas é uma hipótese menos provável.
Com o
Cisne Negro, a eleição deixa de ser sobre projetos de país e passa a ser
decidida pelo medo — e pelo nome que parece mais seguro para atravessar a
crise.
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VI. Os Três Cenários Mais Prováveis
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Cenário A — Lula vence apertado
Condição:
Cenário-base. Probabilidade média-alta.
Os
juros começam a ceder no segundo semestre de 2026, e a melhora da renda real
chega a tempo de ser sentida antes das urnas. A candidatura adversária mantém
rejeição alta fora do núcleo bolsonarista — a operação de moderação não
convence o eleitor de centro. Lula consegue transformar indicadores em
narrativa de estabilidade e apresenta um projeto de futuro minimamente
coerente. A eleição vai para o segundo turno com vantagem estreita, decidida
nos grandes centros urbanos.
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Cenário B — Flávio vira o jogo
Condição:
Probabilidade média. Depende de acumulação de fatores adversos.
O
mal-estar econômico persiste — os juros não caem o suficiente, o crédito
permanece inacessível e a sensação de estagnação domina o cotidiano. Lula chega
à campanha sem narrativa de futuro, em modo reativo. A mídia corporativa e o
sistema político normalizam Flávio como ‘conservador elegível’. A direita vence
a guerra das plataformas com pautas de segurança pública e moral. O eleitorado
de centro, cansado e ansioso, migra para a promessa de mudança.
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Cenário C — Turbulência institucional
Condição:
Cenário menos provável — mas recorrente na história recente do Brasil.
Um
grande escândalo, uma crise de segurança grave, um choque entre Poderes ou um
evento externo inesperado redesenha a agenda antes das eleições. O debate sobre
projetos é substituído pela lógica de sobrevivência. Nesse ambiente, a eleição
pode ser decidida por fatores que não estavam no radar de nenhuma campanha — e
o eleitor, desorientado, tende a buscar o nome que oferece mais sensação de
controle.
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VII. O Que Lula Precisaria Fazer para Consolidar a Vitória
Indicadores
não são suficientes. Programas não são suficientes. O que está em jogo é a
capacidade de construir um eixo histórico — uma narrativa que dê sentido ao
presente e projete um futuro desejável. Isso exige pelo menos cinco movimentos
simultâneos.
• Transformar indicadores em experiência
vivida. O governo precisa falar menos de macro e mais do juro do cartão, do
financiamento da casa, do custo da comida, do crédito para o pequeno negócio e
da renda do trabalho. Eleição não é prova de econometria — é prova de sensação
térmica.
• Apresentar um projeto de futuro em
linguagem simples. Algo como um tripé entre reindustrialização e tecnologia,
soberania energética e infraestrutura, e proteção social com mobilidade real.
Sem isso, a campanha vira ‘vote em mim porque o outro é pior’ — o que ganha uma
eleição, mas não reconstrói legitimidade.
• Disputar a narrativa de segurança
pública. Este talvez seja o ponto mais negligenciado. Se Lula deixar segurança
como monopólio retórico da direita, Flávio cresce em redutos onde o governo
deveria ser competitivo. É preciso uma proposta que una inteligência policial,
combate ao crime financeiro, controle de armas e proteção territorial — sem
abrir mão da linguagem dos direitos.
• Desmontar preventivamente a moderação
cenográfica de Flávio. Em termos políticos, não panfletários: mostrar que não
se troca o conteúdo apenas trocando o tom de voz. O sobrenome carrega história
— e história tem registros.
• Construir maioria moral, não apenas
eleitoral. Recolocar 2026 como disputa entre dois projetos: Estado nacional com
desenvolvimento e democracia versus coalizão conservadora com dependência
externa, radicalização social e economia financeirizada. Só assim Lula sai do
papel de incumbente cansado e volta ao de fiador de um ciclo histórico.
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VIII. Síntese Final: A Pergunta que Decide Tudo
O jogo
real de 2026 não é sobre quem tem mais apoio hoje. É sobre quem consegue
organizar melhor a percepção do país nos doze meses que antecedem as urnas.
Lula
tem mais Estado, mais memória social, mais legitimidade democrática e melhores
condições objetivas de defender seu governo. Flávio tem uma direita mobilizada,
um ecossistema digital agressivo e uma chance real de ser ‘reembalado’ como
opção aceitável para um eleitorado de centro que rejeita o radicalismo — mas
que também está cansado.
O
centro da disputa não estará nos extremos. Estará nos eleitores que ainda não
decidiram, que sentem o aperto do crédito caro, que desconfiam do passado
bolsonarista mas não estão convencidos de que o presente governo os representa.
Esses eleitores serão disputados com emoção, narrativa e sensação de futuro —
não com planilhas.
Se 2026
for lida como eleição sobre futuro, Lula tem caminho. Se for lida como eleição
sobre mal-estar, Flávio entra no jogo para valer.
A
equação final é simples de enunciar e difícil de resolver: o incumbente precisa
transformar o presente em promessa. E o desafiante precisa convencer que a
herança do passado ficou para trás. Quem conseguir isso primeiro — e de forma
mais crível — define a eleição mais importante do Brasil desde 2022.
Fonte:
Jornal GGN

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