quinta-feira, 19 de março de 2026

Como os novos presidentes sul-americanos podem influenciar as eleições no Brasil

A história política do continente sul-americano é marcada por uma recorrente interferência dos Estados Unidos e um movimento pendular, com domínio ora de governos mais à esquerda, ora de presidências mais à direita, além de certos momentos de equilíbrio entre os dois espectros políticos.

Em 2011, por exemplo, no primeiro ano de Dilma Rousseff (PT) à frente do governo brasileiro, dez dos 12 presidentes sul-americanos eram vinculados à esquerda ou à centro-esquerda, com um centrista na Colômbia (Juan Manuel Santos) e uma liderança de centro-direita no Chile (Sebastián Piñera). Duas décadas antes, em 1991, com Fernando Collor (PRN, à época) no Planalto, oito dos países da região tinham presidentes vinculados à direita ou à centro-direita, com apenas três lideranças de centro-esquerda.

Atualmente, com a posse do ultraconservador José Antonio Kast no Chile, os dois espectros estão em relativo equilíbrio: Argentina, Bolívia, Chile, Equador e Paraguai são governados pela direita, enquanto Brasil, Colômbia (que terá eleição no fim de maio), Guiana, Peru (que tem um presidente interino e terá eleições em abril), Suriname e Uruguai são comandados pela esquerda.

A divisão tem suas consequências. Na Argentina de Javier Milei, um brasileiro condenado pela tentativa de golpe em 8 de janeiro recebeu asilo inédito. Na posse de Kast, o destaque para os brasileiros foi a presença do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) e a ausência do presidente Lula (PT), representado pelo ministro de Relações Exteriores, chanceler Mauro Vieira.

Ainda que a eleição de uma onda de políticos de direita ou de esquerda em países sul-americanos não signifique necessariamente que as demais nações do continente vão seguir o exemplo, a história mostra que o contexto regional é capaz de influenciar o resultado. Para entender de que maneira o atual cenário na América do Sul influencia as eleições brasileiras deste ano, a Agência Pública apresentou essa questão a três especialistas na política do continente. Confira a seguir a visão dos internacionalistas consultados.

<><> Por que isso importa?

  • A posse do novo presidente do Chile, José Antônio Kast, alinhado ao discurso de extrema direita, deixa a América do Sul dividida entre governos mais progressistas ou mais conservadores.
  • A política nos países vizinhos tem influência nas eleições brasileiras, mesmo que de maneira indireta, segundo analistas.

>>> Regina Nitsch Bressan, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam) da USP, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em Integração da América Latina

O que a gente viu em Valparaíso, [no Chile] com a posse do Kast, não foi apenas uma cerimônia diplomática, foi um ensaio para a eleição brasileira. A presença de Flávio Bolsonaro e a ausência de Lula cristalizam essa nova dinâmica na região. Diferente de 2022, quando Lula surfava em uma onda rosa – não como a do começo do século, mas um cenário um pouco mais ameno – temos agora um cenário de um pêndulo que bate forte à direita.

O Flávio Bolsonaro estar lá e dizer ao eleitor brasileiro que o modelo conservador é a regra, não é exceção, é um baita ganho [para o campo da direita]. A foto do Flávio ao lado do Kast e do Milei serve para nacionalizar as promessas de sucesso que ele está plantando, como “prova” de que esse pode ser o melhor conceito para o Brasil.

A decisão de Lula de não comparecer após o convite de Kast ao senador Flávio mostra que o Itamaraty e o Planalto decidiram que o custo doméstico da imagem superava o ganho diplomático, então Lula evitou a armadilha de ser figurante num evento dominado pela estética da nova direita. Mas essa ausência alimenta a narrativa da oposição de que o governo atual está isolado em uma vizinhança que tem mudado de cor. O risco para o PT é que a integração regional, antes uma vitrine, vire um flanco aberto para críticas de ineficiência ideológica.

É importante dizer, a vitória de Kast foi decidida no binômio segurança mais imigração – os mesmos temas que pesquisas como Atlas e Datafolha mostram ser o calcanhar de Aquiles de Lula. A retórica de mão dura que agora emana de Santiago e Buenos Aires para cá, sobretudo com tanto apoio de Washington, pressiona muito o debate brasileiro para o campo da direita, não tem como ser diferente.

A eleição de 2026 não vai ser apenas sobre a economia, vai ser sobre quem oferece a sensação de ordem, porque uma coisa que a gente tem discutido muito nos congressos internacionais, é como a questão da violência [no âmbito] doméstico é um ponto nevrálgico nas discussões políticas atuais. A gente tem a impressão, às vezes, que o continente está buscando isso a qualquer custo.

Então, com a guinada do Chile, a situação muito tensa da Venezuela, o Brasil vai chegar em outubro com muitos desafios e se a direita vencer aqui, o projeto progressista de integração vai entrar numa hibernação profunda. Mas se o governo se mantiver aqui, o Brasil vira uma ilha de centro-esquerda que vai ser cercada por governos de ruptura da direita. É uma situação difícil, bem delicada.

>>> Clarissa Franzoi Dri, doutora em ciência política pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade de Bordeaux, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc) e pesquisadora colaboradora do Observatório Político Sul-Americano.

A presença da extrema direita no poder em diversos países é uma realidade do mundo todo, não é uma característica só da América Latina. Na verdade, há uma divisão, a gente não tem uma maioria de governos da extrema direita hoje no continente.

É verdade que as eleições no Brasil vão ser muito acirradas e polarizadas. O continente sempre tem uma influência, claro, mas eu não acho que o debate internacional é o ponto que mais vai pesar. Eu acho que as consequências econômicas dos eventos internacionais podem pesar mais do que a realidade política dos países vizinhos. Consequências da guerra do Irã, aumento nos preços, no custo de vida, no preço de combustíveis e alimentos. Isso pode ter mais presença no debate eleitoral do que as presidências argentina e chilena.

O presidente Lula dialoga muito bem com todos os partidos políticos no poder, e dialoga muito bem, inclusive, com o presidente Trump, que não é de uma ideologia próxima à do governo brasileiro, muito pelo contrário. Ele procura seguir a linha de diálogo, de mediação com diferentes forças políticas, sem intervenção em interesses domésticos, como é a tradição diplomática brasileira. Isso não era uma realidade da presidência anterior. No caso do presidente Bolsonaro, a gente tinha um alinhamento grande com os EUA sob o primeiro governo Trump. Com a eleição do Biden, isso muda radicalmente, e o presidente Bolsonaro começa a fazer visitas ao presidente russo, por exemplo. Não é essa a prática do atual governo brasileiro, que se relaciona com Estados mais do que com presidentes.

O chanceler brasileiro esteve na posse do presidente chileno, levou uma carta do presidente Lula. É natural que não haja uma proximidade ideológica entre eles, justamente porque são de alas ideológicas opostas, mas não há nenhum interesse do Brasil em se afastar dos vizinhos sul-americanos ou cortar relações nesse atual governo, diferente do que aconteceu no governo anterior.

>>> Gustavo Menon, pós-doutor em Direitos Humanos pela Universidade de Salamanca, docente credenciado do Prolam/USP e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB)

O cenário na região é de fragmentação política e desintegração econômica em meio a um mundo em conflagração. Do ponto de vista do plano internacional, diferentes tensões e conflitos difusos cada vez mais passam a dirigir a atuação das forças políticas na região. Quando nós olhamos para esse panorama mais amplo, [temos] a guerra na Eurásia [entre Rússia e Ucrânia], os conflitos que se espalharam pelo Oriente Médio e esse cenário de guerra comercial entre Estados Unidos e China. Quando a gente puxa os debates para a América Latina, vemos que essas correntes, essas plataformas políticas de extrema direita vem ganhando fôlego e vitalidade em um quadro que aponta exatamente para o crescimento desses projetos políticos.

É o que aconteceu na Bolívia, após mais de 20 anos do [partido político socialista] MAS junto ao poder, essa guinada que presenciamos no Chile e o fortalecimento do campo bolsonarista frente à realidade brasileira. E sem mencionar a própria organicidade do fenômeno de Javier Milei na Argentina. Há um arco de forças heterogêneas que acabam, de certa forma, convergindo nesses projetos, que são muito conectados com ações extremistas.

E vale notar que esse campo da extrema direita na região se conecta em grande medida a partir do espelhamento de algumas políticas e discursos chefiados por parte dos EUA. Há uma aderência em termos de programa político e econômico com o Trump e esse cenário acaba se dilatando para toda a América Latina. Nós temos outros casos, por exemplo, na América Central, de presidentes que estão muito antenados em agendas de cerceamento de direitos, com medidas de austeridade econômica e que seguem esse ideário articulado por parte de Washington. É o caso do governo de Nayib Bukele em El Salvador.

A esquerda, por sua vez, tenta de certa forma adotar o discurso da soberania e da democracia para a conformação de frentes mais amplas que saiam em defesa [dessas bandeiras] nos países latino-americanos. Esse ano, como se sabe, é um ano decisivo frente à eleição presidencial no Brasil e na Colômbia, países atualmente governados por projetos mais à esquerda. Mas veja que o quadro é de fragilidades para esses setores, uma vez que nós presenciamos no início do ano essa política de ingerência dos EUA na América do Sul, que acabou culminando no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Além disso, vale citar as fortes pressões por parte da Casa Branca indo em direção ao regime cubano, pressionando a ilha nesse cenário de fragilidades [em termos de] uma política mais ampla de soberania energética. Com a continuidade dessas guerras no plano internacional, é bem provável que esse cenário de agudização das contradições se reflita ainda mais na região.

Em meio a esse mundo em conflagração, a América Latina, por ser essa região primária-exportadora-analógica no comércio internacional e por se encontrar nesse cenário de fragmentação política e desintegração econômica, [não tem] medidas mais amplas de cooperação, de orquestração regional e de integração que possam dar resposta efetivas a esse cenário, essa atmosfera de profundas incertezas e grandes instabilidades.

¨      Petro questiona países da América Latina por estarem ‘de joelhos’ aos EUA

Durante discurso em evento realizado em Bogotá, nesta terça-feira (17/03), o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, criticou os governos da América Latina que, segundo ele, “pararam de falar com o mundo, porque estão de joelhos” para os Estados Unidos.

Na declaração, Petro enfatizou que, segundo ele, a América Latina “precisa reconstruir eixos multilaterais que falem uns pelos outros, e não bilateralmente e de forma subserviente”.

“Estamos testemunhando a construção da barbárie”, alertou o mandatário colombiano, sobre o papel de governos que, segundo ele, “se sujeitam às diretrizes que lhe são impostas”, sem detalhar quem estaria impondo essas diretrizes, embora esteja implícito que se refere aos Estados Unidos.

A declaração também não especifica quais governos estariam se sujeitando a tal situação.

Em outro momento, o presidente se referiu ao papel da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) como uma voz unificada para a região, e lembrou que ele entregará a presidência pro tempore do organismo em abril, a um sucessor que ainda não foi definido.

“A reunião da CELAC, onde estou entregando a presidência, terá apenas um presidente, o que vai receber (a presidência pro tempore). Assim, a América Latina se deixa arruinar dessa forma, parou de falar no mundo porque está de joelhos. Ou será que não temos nada a dizer ao mundo?”, questionou Petro.

<><> Lógica da guerra aberta

Em outro momento do discurso, o presidente da Colômbia advertiu sobre a ampliação à América Latina da “lógica da guerra aberta” promovida pelos Estados Unidos, e instou os países da região a não normalizarem o bombardeamento do território das diferentes nações.

“Milhares, não sei quantas toneladas de explosivos caíram no Oriente Médio, mais potentes do que a bomba atômica lançada sobre Nagasaki. E caíram na vizinha Venezuela e na Colômbia. E não foi por acaso que pescadores colombianos foram mortos”, acrescentou.

Petro concluiu sua declaração dizendo que “isso (lógica da guerra aberta) está se espalhando, e agora parece que querem um conflito entre Equador e Colômbia. Desse jeito, não vamos chegar a lugar nenhum”.

¨      Reportagem indica possível pagamento de propina a Milei em golpe com criptomoeda

O meio digital argentino El Destape divulgou nesta segunda-feira (16/03) uma reportagem que mostra documentos, áudios e mensagens de texto recuperadas do celular de Mauricio Novelli, empresário ligado ao escândalo de estelionato com a criptomoeda $LIBRA, em fevereiro de 2025.

Segundo a publicação, o conteúdo das mensagens indica possíveis pagamentos feitos por Novelli ao presidente da Argentina, Javier Milei, e a sua irmã, Karina Milei, que é Secretária-Geral da Presidência.

Em algumas das mensagens é possível ler indicações de documentos nomeados como “Pago Javier Kari” enviados pelo empresário em datas que coincidem com visitas feitas pelo próprio à Casa Rosada – encontros que constam na agenda oficial da sede do Poder Executivo argentino.

Ademais, a reportagem afirma que essas informações não são novas, e que o procurador Eduardo Taiano, responsável pelo caso, já teria em mãos esses documentos, áudios e mensagens de texto há meses, mas que não levou adiante a investigação a respeito do possível envolvimento de Milei e sua irmã.

Nesta mesma segunda-feira, a Comissão de Investigação da Câmara dos Deputados, que apura o caso no Legislativo argentino, anunciou que fará uma denúncia formal contra o procurador Taiano.

<><> Viva La Libertad Project

O escândalo da criptomoeda $LIBRA ocorreu no dia 14 de fevereiro de 2025, quando o presidente da Argentina usou seu perfil na rede social X para divulgar a divisa virtual afirmando que ela seria um “incentivo ao crescimento da economia argentina financiando pequenas empresas” o país, e acrescentando que ela seria parte de um suposto “Viva La Libertad Project” (‘Projeto Viva a Liberdade’, em tradução livre).

O nome do projeto faz referência ao slogan de campanha de Milei em 2023, e do próprio governo argentino a partir da posse do mandatário: “Viva La Libertad, Carajo” (“Viva a Liberdade, Caralho”).

A mensagem publicada por Milei ficou no ar por cinco horas e levou à alta do valor dos tokens. Porém, esse valor desabou em questão de minutos, causando perdas significativas para quem seguiu o conselho do mandatário.

<><> Chequeado

O sobe e desce no valor da moeda gerou a suspeita de que tudo seria parte de um esquema de pirâmide organizado por aliados de Milei que detinham todo o estoque da criptomoeda, e que aproveitaram o tuíte para vender tudo quando o valor estava em alta, graças à especulação gerada pelo apoio do presidente à divisa, e que após finalizado o estoque o preço despencou naturalmente.

Segundo o diário Pagina/12, durante o período de alta gerado pelo tuíte, a os tokens teriam alcança lucros entre US$ 70 milhões (cerca de R$ 400 milhões) e US$ 100 milhões (cerca de R$ 570 milhões) em poucas horas. Estima-se que mais de 40 mil pessoas teriam perdido dinheiro no golpe, a grande maioria delas argentinas, embora há registros de reclamações de compradores nos Estados Unidos, no Canadá e em países europeus.

Embora o golpe tenha sido colocado em prática em fevereiro de 2025, as investigações do caso reúnem provas de que Milei recebeu na Casa Rosada, entre outubro de 2024 e janeiro e 2025, a alguns os empresários envolvidos – não apenas Novelli como também Manuel Terrones Godoy, Sergio Morales e o norte-americano Hayden Davis.

 

Fonte: Por Rafael Oliveira, da Agencia Pública/Opera Mundi

 

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