quinta-feira, 19 de março de 2026

Iván Cepeda: a trajetória do candidato que propõe uma “revolução ética” na Colômbia

A política colombiana prepara-se para um novo capítulo com a consolidação de Iván Cepeda Castro como candidato presidencial do Pacto Histórico (PH) para 2026. Sua figura, no entanto, transcende a conjuntura eleitoral e encarna uma das trajetórias mais coerentes na defesa dos direitos humanos e, ao mesmo tempo, uma das antagonistas históricas do uribismo.

No último dia 8 de março, a Colômbia realizou eleições legislativas e consultas interpartidárias. No Congresso, as forças se distribuíram sobretudo entre o PH e o Centro Democrático (CD). O primeiro obteve a maioria de votos no Senado, conquistando cinco cadeiras a mais do que há quatro anos, com quase 4,4 milhões de votos (22,82%). Por sua vez, o CD conquistou quatro cadeiras adicionais, com quase 3 milhões de votos (15,63%). Em terceiro lugar ficou o Partido Liberal, que perdeu uma cadeira, mas manteve 13, com 11,7% dos votos.

Nas consultas interpartidárias, das quais Cepeda não participou por decisão do Conselho Nacional Eleitoral, a senadora Paloma Valencia se posicionou como vencedora da Grande Consulta pela Colômbia, com 45,70% dos votos — isto é, 3,2 milhões.

Posteriormente, o candidato anunciou como companheira de chapa para a vice-presidência a reconhecida líder indígena do povo nasa, Aída Quilcué. A atual senadora tem desempenhado um papel destacado no Conselho Regional Indígena do Cauca (CRIC) e em espaços internacionais como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), onde atuou em temas de paz e direitos coletivos.

<><> A herança de uma luta

Nascido em Bogotá em 24 de outubro de 1962, Iván Cepeda Castro representa uma das figuras mais emblemáticas da esquerda colombiana contemporânea, e sua biografia está indissoluvelmente ligada à violência política que marcou a história recente do país.

Senador pelo PH e membro da Comissão Segunda do Senado, foi também um dos principais arquitetos da política de “paz total” do governo de Gustavo Petro. Filho do senador Manuel Cepeda Vargas, dirigente da União Patriótica (UP) assassinado em 9 de agosto de 1994 por agentes do Estado em colaboração com paramilitares, e de Yira Castro, vereadora de Bogotá pela União Nacional de Oposição, falecida em 1981, Cepeda herdou uma tradição de militância comunista que marcaria o rumo de sua vida.

Sua formação acadêmica inclui estudos de filosofia na Universidade São Clemente de Ohrid, na Bulgária, e uma especialização em direito internacional humanitário na Universidade Católica de Lyon, na França. No entanto, foi o magnicídio de seu pai — posteriormente reconhecido pela Corte Interamericana de Direitos Humanos como parte do genocídio político contra a UP — que o impulsionou da docência em estética na Universidade Javeriana para a defesa dos direitos humanos e para a política.

Em 2003, Cepeda cofundou o Movimento Nacional de Vítimas de Crimes de Estado (Movice), organização que reuniu milhares de familiares de vítimas de crimes cometidos por agentes estatais. Esse trabalho lhe rendeu ameaças que o obrigaram a exilar-se na França no ano 2000. Sua incursão na política eleitoral começou em 2009, com o Polo Democrático. Em 2010, foi eleito para a Câmara de Representantes com 35 mil votos — a quarta votação mais alta entre os candidatos de sua circunscrição.

Desde 2014, tem sido copresidente da Comissão de Paz e integrou a equipe negociadora do governo nos diálogos com o Exército de Libertação Nacional (ELN). Seu trabalho como facilitador nos diálogos de paz com as FARC, em 2012, assim como sua mediação na entrega do Clã do Golfo, o posicionaram como uma figura-chave nos processos de negociação com grupos armados.

Em 26 de outubro de 2025, Cepeda obteve 64,40% dos votos e venceu a consulta interna do PH, com 1,5 milhão de votos. Superou, assim, a ex-ministra da Saúde Carolina Corcho e o ex-prefeito de Medellín Daniel Quintero, tornando-se o candidato da coalizão para as eleições presidenciais, cujo primeiro turno será realizado em 31 de maio.

<><> Contra Uribe e o establishment — vale a redundância

A relação entre Iván Cepeda e Álvaro Uribe Vélez constitui um dos capítulos mais intensos da política colombiana recente, cujas raízes se estendem por mais de uma década de confrontos judiciais e midiáticos. A origem do conflito remonta às investigações conduzidas em 2014 pelo agora candidato sobre as supostas relações entre o paramilitarismo e congressistas e políticos — um fenômeno conhecido como “parapolítica”.

Em meio a um debate no Congresso da República, Cepeda atreveu-se a expor publicamente o então senador do CD, questionando-o por supostos vínculos com as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). Uribe respondeu abandonando o recinto e dirigindo-se à Corte Suprema de Justiça (CSJ) para denunciar Cepeda por suposta manipulação de testemunhas. A denúncia se baseava em entrevistas que ele vinha realizando desde 2011 com reclusos como Juan Guillermo Monsalve, administrador da fazenda Guacharacas, propriedade da família Uribe Vélez.

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A guinada inesperada ocorreu em 16 de fevereiro de 2018, quando a Corte determinou que não havia provas contra Cepeda e, ao contrário, encontrou indícios de que Uribe e seu advogado, Diego Cadena, teriam tentado influenciar testemunhas para desacreditar o senador. Em 24 de julho de 2018, a CSJ convocou Álvaro Uribe para prestar depoimento por suposto suborno de testemunhas em processo penal e fraude processual.

O processo judicial estendeu-se por mais de sete anos e, em 4 de agosto de 2020, a CSJ ordenou a prisão domiciliar de Uribe por risco de obstrução da justiça, após analisar uma série de conversas — mais de 27 mil provas de áudio — e um documento de mais de 1.500 páginas. A medida durou aproximadamente dois meses, até que o ex-presidente renunciou ao mandato de senador, perdeu o foro privilegiado e o caso foi transferido para a justiça ordinária.

Em 28 de julho de 2025, a juíza da 44ª Vara Penal do Circuito de Bogotá condenou Uribe a 12 anos de prisão domiciliar, considerando-o culpado de fraude processual e suborno em processo penal. No entanto, em 21 de outubro daquele ano, o Tribunal Superior de Bogotá revogou a condenação em segunda instância e o absolveu de todas as acusações. O caso continua pendente de um recurso extraordinário de cassação perante a CSJ.

O confronto ultrapassou o âmbito jurídico e se transformou em uma guerra midiática marcada por contradições e verdades ocultas. As trajetórias cruzadas de ambos representam meio século de confronto ideológico: de um lado, o uribismo, com seu discurso de segurança democrática e mão dura; de outro, Cepeda, erguido como a voz das vítimas dessa mesma política. Essa disputa consolidou sua imagem como o principal adversário político e ético do ex-presidente e do que ele denomina “neofascismo”, representado pelas forças uribistas no Congresso e nas regiões.

<><> O desafio de uma candidatura

O programa de governo de Iván Cepeda se articula em torno da luta contra a corrupção, da equidade social e da proteção ambiental, sob o que ele denomina uma “revolução ética”, acompanhada de um diálogo nacional. Ele tem reiterado que sua eventual administração não se limitará a promover “reformas cosméticas”, mas buscará impulsionar transformações estruturais no modelo econômico e social do país.

  • O candidato destacou a necessidade de enfrentar a “macrocorrupção colombiana” como pilar central de sua gestão. Propõe reformas institucionais que garantam maior transparência na contratação pública, sanções exemplares para os responsáveis por desvios de recursos estatais e o fortalecimento da independência dos organismos de controle.
  • Na área econômica, defende um modelo produtivo sustentável baseado na industrialização, na inovação tecnológica e no fortalecimento do campo colombiano, acompanhado de uma reforma tributária progressiva que reduza a carga sobre as classes trabalhadoras e aumente a contribuição dos grandes capitais.
  • Sua visão inclui transformar a Colômbia em “uma potência mundial da vida, uma potência agroalimentar e biodiversa”. Propõe converter as regiões mais esquecidas — hoje marcadas por enclaves do narcotráfico — em territórios de desenvolvimento, com acesso a água potável, energias limpas e redes de transporte terrestres, fluviais e ferroviárias que conectem a economia camponesa aos mercados nacionais e internacionais.
  • Em segurança e paz, propõe completar a implementação do Acordo de Havana de 2016 — sendo o próximo governo o último no cronograma previsto — e avançar nas negociações com o ELN. Um elemento central dessa agenda é a “transformação dos territórios” e a substituição de economias ilícitas por economias produtivas, no marco de uma revolução agrária.

O candidato afirma que, caso chegue à Presidência, sua primeira medida será “convocar a preparação do diálogo nacional” a partir de maio próximo, buscando consensos em temas como “a paz, a segurança, o problema do narcotráfico e das economias ilícitas, e a necessidade de uma reforma agrária”. Esse diálogo poderia se materializar por meio de uma Assembleia Constituinte com limites e agenda definidos, ou por decisões legislativas e medidas executivas.

Em política externa, Cepeda tem manifestado posições críticas em relação à ingerência dos Estados Unidos na região. Em um ato realizado em Madri no dia 7 de janeiro passado, rejeitou qualquer forma de agressão ou intervenção e afirmou que esse tipo de ação ameaça a paz regional, o direito internacional e a estabilidade econômica da América Latina, acrescentando: “Não somos uma colônia nem um protetorado”. Também alertou para a reativação da Doutrina Monroe, sob o que chamou de “corolário Trump”, que define a América Latina como um espaço de dominação estratégica e ameaça à soberania regional.

Na ocasião, lançou um contundente chamado à formação de um grande movimento global para enfrentar o que qualificou como uma “internacional neofascista”, afirmando que “derrotar o neofascismo não é uma consigna, é uma condição para preservar a vida”. Essa posição antecipa uma política externa de caráter marcadamente anti-imperialista e de solidariedade latino-americana, com possíveis implicações para as relações com a Venezuela e outros países vizinhos caso chegue à Presidência.

Após a vitória do PH nas eleições legislativas do último 8 de março, Cepeda enviou uma mensagem a seus adversários: Hoje começa nosso segundo tempo. Com uma bancada forte e comprometida, iniciaremos uma nova etapa de transformações. Aprofundar as mudanças, dizemos a nossos adversários, não é extremismo, nem significa dividir o país; significa apenas torná-lo mais justo, mais próspero e mais humano.Iván Cepeda

Sua candidatura é, em si mesma, um plebiscito sobre a memória histórica, a justiça e o modelo de sociedade que a Colômbia deseja construir, com repercussões inevitáveis para o equilíbrio político de toda a América do Sul.

¨      Díaz-Canel denuncia ameaça norte-americana de derrubar ordem constitucional em Cuba

O presidente da República de Cuba, Miguel Díaz-Canel, denunciou a escalada da hostilidade por parte dos Estados Unidos (EUA), observando que o governo estadunidense ameaça publicamente e quase diariamente derrubar a ordem constitucional na nação caribenha pela força.

Por meio de sua conta oficial na rede social X, o chefe de Estado cubano alertou sobre as ambições imperialistas de Washington de se apoderar dos recursos, propriedades e economia da ilha, usando como pretexto as dificuldades econômicas que o próprio bloqueio dos EUA gerou ao longo de mais de seis décadas.

Díaz-Canel foi enfático ao afirmar que a crise atual é resultado direto de uma feroz guerra econômica meticulosamente orquestrada pela Casa Branca. “Eles usam um pretexto ultrajante: as severas limitações da economia fragilizada que eles vêm atacando e tentando isolar há mais de seis décadas”, enfatizou o presidente.

O líder cubano descreveu essas ações como uma punição coletiva contra todo o povo cubano, com o objetivo de forçá-lo a se render, sufocando seus setores vitais, como energia e alimentos.

“Eles pretendem e anunciam planos para tomar o controle do país, de seus recursos, de suas propriedades e até mesmo da própria economia, que buscam sufocar para nos forçar a render “, denunciou Díaz-Canel em sua publicação.

Em um contexto de alta tensão regional, marcado pela retórica intervencionista de figuras da administração americana, como o secretário de Estado Marco Rubio, o presidente cubano reafirmou a vontade soberana de sua nação.

Díaz-Canel afirmou que, diante de qualquer cenário de agressão externa, o país possui uma determinação inabalável. “Cuba está acompanhada de uma certeza: qualquer agressor externo encontrará uma resistência inexpugnável”, declarou ele sob a hashtag #CubaEstáFirme (Cuba Está Firme).

Esta nova denúncia surge num momento em que a ilha enfrenta uma situação energética crítica, agravada pela Ordem Executiva 14380 dos EUA, que visa ativamente o fornecimento de combustível a Cuba numa tentativa de forçar uma mudança de regime, paralisando o país.

<><> Guerra econômica e ameaças de intervenção imperial

O presidente Donald Trump intensificou sua hostilidade em relação a Cuba, chamando-a de nação enfraquecida e afirmando que seria uma honra tomar o controle da ilha pela força. Sob os auspícios da Ordem Executiva de 29 de janeiro, Washington impôs um embargo total de petróleo, classificando Cuba como uma ameaça extraordinária para justificar sanções contra países terceiros que tentem fornecer combustível.

Essa estratégia de estrangulamento econômico paralisou serviços vitais como hospitais e transportes, deixando o país sem petróleo bruto por mais de três meses . Enquanto o Secretário de Estado Marco Rubio promove essa punição coletiva como ferramenta política, o Presidente Miguel Díaz-Canel denuncia essas ações como violações do direito internacional e tentativas de subjugar o povo cubano por meio da fome e da privação de energia.

Especialistas apontam que essa escalada visa desviar a atenção dos fracassos internos de Trump, como a guerra paralisada no Irã e seus baixos índices de aprovação. Diante das ameaças de intervenção para forçar uma mudança de regime, Cuba mantém uma postura de resistência, alertando que qualquer agressão externa será recebida com a determinação inabalável de seu povo.

<><> O mundo rejeita a opressão contra o povo cubano

Apesar do bloqueio e das constantes ameaças da administração Trump, diversos países reafirmaram sua firme posição de solidariedade a Cuba, rejeitando a política de pressão máxima que busca estrangular a economia da ilha. Nações como Rússia e China lideraram a condenação internacional, classificando o bloqueio energético como uma interferência inaceitável e uma violação da soberania. Na região, a liderança do México , juntamente com os países do ALBA-TCP (como Venezuela, Nicarágua e Bolívia ), tem sido fundamental para manter o fornecimento de suprimentos e ajuda humanitária, desafiando as advertências de tarifas e sanções diretas emitidas por Washington.

Esse apoio multilateral foi fortemente sentido na Assembleia Geral das Nações Unidas , onde uma esmagadora maioria de 187 países, incluindo blocos importantes da África, Ásia e América Latina, historicamente votou contra o bloqueio, deixando os Estados Unidos e Israel em isolamento diplomático quase total. Da mesma forma, grupos de solidariedade e sindicatos em países europeus como Espanha, Itália e França organizaram comboios de ajuda humanitária para romper simbolicamente o bloqueio, demonstrando que a comunidade internacional reconhece as medidas de punição coletiva contra o povo cubano como um crime que viola o direito internacional humanitário.

A denúncia de Miguel Díaz-Canel nas redes sociais expõe que as ameaças dos EUA são um pretexto ultrajante para encobrir uma guerra econômica de seis décadas que agora atinge o setor energético. Diante desse cenário de planos de estrangulamento e interferência, o presidente reafirmou que Cuba mantém uma resistência inabalável, deixando claro que a soberania da ilha não está sujeita a chantagem ou à força de qualquer potência estrangeira.

 

Fonte: Misión Verdad/Opera Mundi

 

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