O
poder silencioso dos números
Em
visita ao Brasil neste mês, a relatora especial da ONU sobre violência contra
mulheres e meninas, Reem Alsalem, mobilizou uma agenda que não passou
despercebida. Suas críticas às políticas de reconhecimento de identidade de
gênero e à inclusão de pessoas trans encontraram eco em espaços institucionais
e midiáticos. No dia 5, esteve no Senado, em reunião da Comissão de Direitos
Humanos e Legislação Participativa, presidida por Damares Alves. Antes disso,
participou, em São Paulo, de um evento promovido pela organização Matria,
conhecida por posições contrárias à inclusão de pessoas trans. Em entrevista ao
site Poder360, reiterou seu posicionamento.
Mas há
algo que me interessa mais do que o conteúdo imediato dessas falas. Há uma
engrenagem menos visível, porém decisiva, que sustenta esse tipo de circulação.
É sobre ela que precisamos falar.
Ao
longo da minha pesquisa e, mais recentemente, no livro Programa de travesti:
educação & mídia, venho insistindo em um ponto que parece simples, mas que
ainda escapa ao debate público. A força de uma página, de um discurso ou de uma
posição não está apenas no que se diz, mas em como isso se espalha e em quantas
pessoas, mesmo em silêncio, sustentam essa circulação.
Uma
página transfóbica não cresce apenas com aplausos, ela cresce com presença,
cresce com seguidores que não comentam, não curtem, não compartilham, mas estão
lá! Pessoas que dizem estar ali apenas para observar, monitorar, entender. Só
que, nas dinâmicas digitais, observar não é só observador. Seguir é um gesto
que pesa imensamente nesse mundo digital.
Os
algoritmos não leem intenção, eles leem volume. Cada novo seguidor aumenta a
densidade daquele perfil, amplia seu alcance, empurra suas postagens para mais
pessoas. Não importa se há concordância ou repulsa. O que importa é que há
número. E número, hoje, é sinônimo de relevância.
É nesse
ponto que a coisa se torna mais delicada, porque o número de seguidores passa a
operar como uma espécie de certificado informal de legitimidade. Uma página com
muitos seguidores parece, aos olhos de fora, uma página que representa um
debate consistente, uma demanda social expressiva, um grupo significativo de
pessoas. Ainda que, na prática, esse público seja heterogêneo, contraditório e,
muitas vezes, crítico.
O
problema é que essa nuance desaparece quando o número vira argumento.
É assim
que determinados discursos, mesmo quando atravessados por violência simbólica,
conseguem ocupar espaços institucionais com aparência de equilíbrio. Não porque
sejam majoritários, mas porque aprenderam a performar maioria. Isso acontece na
maioria das páginas, por isso as métricas agora vendem a visualização.
Aprenderam a usar a lógica das plataformas a seu favor.
Quando
um perfil acumula milhares de seguidores, ele se torna mais convidável. Mais
citável. Mais "relevante". Passa a circular em entrevistas,
audiências, eventos. O número se converte em capital simbólico. E esse capital,
por sua vez, retroalimenta a própria visibilidade.
Há aqui
uma armadilha sutil: a ideia de que seguir para vigiar seria uma prática
inofensiva ignora que estamos inseridos em uma economia de atenção que
transforma qualquer presença em valor. O olhar crítico, quando capturado por
essa lógica, pode acabar alimentando exatamente aquilo que pretende questionar.
Não se
trata de defender o isolamento ou a ignorância estratégica. Trata-se de
compreender o funcionamento dessas arquiteturas. Porque, se não entendermos
como esses números operam, continuaremos tratando como espontâneo aquilo que é,
em grande medida, produzido.
A mídia
nunca foi apenas um espelho. Ela sempre foi um dispositivo de construção de
realidade. O que muda agora é a velocidade e a forma como essa construção se
ancora em métricas. Seguidores, visualizações, engajamento e tudo isso compondo
uma gramática que redefine o que aparece como importante, legítimo, urgente.
E
talvez seja esse o ponto mais inquietante: uma vez que não estamos diante
apenas de discursos que disputam sentidos, estamos diante de sistemas que
transformam quantidade em autoridade e que confundem presença com adesão. E
que, ao fazer isso, criam a sensação de que há um grande debate em curso,
quando muitas vezes o que há é a amplificação reiterada de uma mesma violência,
o que chamarei de pedagogia do cabresto.
Entender
isso é o primeiro passo. O segundo, mais difícil, é decidir como queremos
participar dessa circulação.
Fonte:
Por Sara York

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