Yoná
dos Santos: Bolsa Família – êxitos redistributivos, desafios estruturais
Na
semana passada, durante uma interlocução com um economista acerca dos limites
das políticas de transferência de renda, reconheci que a literatura
internacional confirma os efeitos positivos de transferir renda para mulheres:
melhora na alocação de recursos no lar, aumento da autonomia financeira e do
poder de decisão, além de ganhos duradouros.
Não
obstante, apresentei uma crítica segundo a qual tais mecanismos, embora
essenciais, podem reforçar desigualdades estruturais de gênero ao delegarem à
mulher a responsabilidade exclusiva pelo cumprimento das condicionalidades, sem
promover sua autonomia econômica ou transformar as relações de poder no
interior da família.
Diante
do argumento, meu interlocutor devolveu-me uma pergunta direta: “Ok, Yoná, a
crítica é consistente, mas qual é a alternativa?” Foi essa questão –
aparentemente simples, mas de profunda densidade teórica e política – que me
moveu a escrever este breve texto.
Políticas
redistributivas, como os Programas de Transferência de Renda Condicionada
(CCTs), operam uma transferência explícita de recursos entre grupos sociais,
alterando marginalmente a distribuição de renda e acionando debates normativos
acerca de justiça social, mérito e o papel do Estado. No caso brasileiro, o
Programa Bolsa Família (PBF) ilustra como uma política redistributiva pode
alcançar estabilidade ao longo do tempo — fenômeno que o modelo de coalizões de
defesa (Advocacy Coalition Framework) ajuda a explicar.
A
sustentabilidade do programa não derivou apenas de conjunturas favoráveis, mas
da atuação persistente de uma coalizão formada por burocratas, pesquisadores,
gestores municipais e movimentos sociais, que defendeu a política, protegeu-a
de tentativas de desmonte e promoveu aprendizado orientado – sobretudo por meio
de avaliações de impacto que aperfeiçoaram o desenho das condicionalidades.
O
Programa Bolsa Família insere-se em uma tradição latino-americana de programas
de transferência de renda condicionada cujo marco inaugural foi o Progresa
(depois Oportunidades), implantado no México em 1997.
Criado
em 2003, substituído pelo Auxílio Brasil em 2021 e retomado com sua denominação
original em 2023, o programa opera atualmente com as seguintes regras:
elegibilidade com renda mensal por pessoa de até R$ 218,00; valor base de R$
600,00 por família, acrescido de benefícios por criança, gestante e
adolescente; condicionalidades que vinculam o benefício à frequência escolar e
a compromissos de saúde; e a Regra de Proteção, que permite a permanência no
programa por até 12 meses quando a renda se eleva para até meio salário mínimo.
A
crítica endereçada ao programa não é à sua existência, mas à divisão sexual do
trabalho que ele pressupõe e reforça. Ao estruturar-se em torno da figura da
mãe responsável, o Programa Bolsa Família delega às mulheres – majoritariamente
negras e periféricas – a tarefa de garantir o cumprimento das
condicionalidades, sem questionar por que essa responsabilidade recai sobre
elas nem oferecer políticas que redistribuam o trabalho de cuidado.
A
mulher é tomada como representante do grupo familiar, mas sua identidade é ali
reduzida à função de cuidadora. O programa não altera as bases estruturais da
desigualdade de gênero: apoia-se na realidade já desigual para funcionar, sem
oferecer contrapartidas como creches, políticas de corresponsabilidade
masculina ou reconhecimento econômico do trabalho reprodutivo.
Como
observa Sylvia Chant (2006), ao recorrerem à responsabilidade feminina sob o
discurso do empoderamento, esses programas intensificam a carga de trabalho das
mulheres na gestão do bem-estar familiar. Para a autora, isso institucionaliza
e aprofunda a feminização da responsabilidade, processo pelo qual o Estado
transfere para as mulheres, por meio da política pública, o ônus do cuidado e
da reprodução social, sem que haja contrapartida na divisão dessas tarefas com
os homens ou com o próprio poder público.
Essa
crítica ganha densidade quando incorporamos a dimensão interseccional. A lógica
do programa atinge todas as mulheres, mas incide de forma particularmente aguda
sobre mulheres negras periféricas chefes de família. Inseridas em um contexto
de racismo estrutural, precariedade laboral e ausência de suporte
institucional, essas mulheres já acumulam múltiplas jornadas. A
responsabilização pelo cumprimento das condicionalidades soma-se a um conjunto
de opressões que inclui informalidade, desemprego, violência territorial e
sobrecarga do cuidado.
Pesquisas
qualitativas em São Paulo revelam que, mesmo antes de se tornarem elegíveis ao
Bolsa Família, muitas já acumulavam sozinhas todas as responsabilidades de
cuidado e reprodução familiar, enquanto seus companheiros mantinham trajetórias
profissionais ascendentes.
Quando,
após separações ou reconfigurações familiares, passam a acessar o benefício, já
o fazem a partir de uma trajetória marcada por sobrecarga crônica,
descontinuidade educacional e precariedade laboral. Relatos sobre parentes que
deixaram de receber o auxílio por descumprimento das condicionalidades
escolares evidenciam como as exigências do programa recaem desproporcionalmente
sobre as mulheres.
Dados
recentes do Ministério do Desenvolvimento Social indicam avanços importantes:
entre maio de 2023 e julho de 2025, 6,55 milhões de famílias saíram da situação
de pobreza no Cadastro Único, o que representa 14,17 milhões de pessoas que
melhoraram de vida. Trata-se de uma melhora inequívoca.
No
entanto, a questão de fundo permanece: políticas redistributivas bem-sucedidas
podem aliviar a pobreza, mas, se dissociadas de lutas por reconhecimento e de
transformações nas estruturas de gênero e raça, correm o risco de administrar
desigualdades sem transformar as bases que as sustentam.
Como
alerta Nancy Fraser, há um potencial conflito entre políticas redistributivas e
políticas de reconhecimento: enquanto as primeiras buscam corrigir
desigualdades materiais, as segundas visam combater hierarquias de status e
padrões culturais de subordinação. O Programa Bolsa Família é exitoso no
primeiro registro, mas permanece aquém no segundo.
Compreender
o Programa Bolsa Família, portanto, exige articular múltiplas camadas –
estrutural, institucional e histórico-social – reconhecendo que políticas
públicas na América Latina operam sob constrangimentos sistêmicos, mas também
constituem espaços de disputa. A crítica aqui apresentada não nega a
importância da transferência de renda; reivindica que ela seja acompanhada de
políticas que redistribuam o cuidado, enfrentem o racismo estrutural e promovam
a autonomia econômica das mulheres para além da gestão da pobreza.
Essa é
a alternativa que a pergunta do economista provocou: não abandonar o programa,
mas transformá-lo em vetor efetivo de emancipação. Isso implica desenhá-lo não
apenas para transferir renda, mas para incidir sobre as estruturas que
organizam a divisão sexual e racial do trabalho. Implica também vincular a
transferência de renda a políticas universais de cuidado – creches, escolas de
qualidade em tempo integral, licenças parentais compartilhadas – que liberem
tempo para as mulheres e redistribuam responsabilidades entre Estado, mercado e
famílias.
Fonte: A Terra é Redonda

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