Expansão
da soja em Mato Grosso pressiona Cerrado e povos indígenas
Em
2025, os sojicultores brasileiros ganharam um novo impulso com a guerra
tarifária entre Estados Unidos e China. As exportações nacionais da soja para o
mercado chinês no ano foram recorde: 85,4 milhões de toneladas, quase 80% dos
embarques totais do grão.
Em Mato
Grosso, a produção da oleaginosa já havia ganhado novos estímulos em 2019, em
parte pela tensão comercial entre o primeiro governo de Donald Trump e os
chineses. Além da demanda da China, a pavimentação de um trecho da rodovia
BR-163 viabilizou novas fronteiras agrícolas para os sojicultores, com a
ligação até portos no Pará. Desde então, as lavouras de soja no estado saltaram
3,4 milhões de hectares, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
O volume produzido, por sua vez, passou de 33 milhões de toneladas na safra de
2018/19 para 51 milhões na de 2024/25, um aumento de 51%.
A
produção avança principalmente no Cerrado, a savana mais biodiversa do planeta
e central para o abastecimento de água do país. Nascentes do bioma abastecem
oito das 12 regiões hidrográficas brasileiras.
Na
bacia do Rio Juruena, no oeste matogrossense, a consolidação das monoculturas —
não só de soja, mas também de milho e algodão — preocupa os povos da Terra
Indígena Tirecatinga. Eles relatam que as fazendas do entorno têm contaminado
os cursos d’água, plantas e frutas por agrotóxicos, e barram os rios com
pequenas usinas hidrelétricas.
Situada
entre os rios Buriti e Papagaio, a terra indígena tem 131 mil hectares e é casa
para 244 habitantes das etnias Terena, Nambikwara, Manoki e Rikbaktsa. O
território ocupa um décimo da área de Sapezal, município com o terceiro maior
valor de produção agropecuária em 2024.
“O
Cerrado sofre grandes ameaças por não ser visto como uma fonte de vida
natural”, diz Cleide Terena, liderança da TI Tirecatinga e presidente da
Thutalinãnsu, associação que reúne mulheres dos quatro povos do território. “É
aqui que temos nosso alimento, nossos remédios, nossa comida.”
A bacia
do Rio Juruena, um dos formadores do amazônico Tapajós, abrange 19 milhões de
hectares. Seu curso principal corre por 1.800 quilômetros, alimentado por
afluentes de águas cristalinas e velozes. “Em extensão territorial, é a maior
[bacia] de Mato Grosso e corresponde a mais de 60% da água que drena para o Rio
Tapajós, então é muito importante para a Amazônia e para o Cerrado”, diz
Andreia Fanzeres, coordenadora do Programa de Direitos Indígenas da Operação
Amazônia Nativa (Opan), organização não governamental e membro da Rede Juruena
Vivo.
Essa
bacia é sagrada para povos de dez etnias de 21 territórios, observa Fanzeres,
mas “é muito visível a dominância das lavouras de soja, milho e algodão frente
às áreas de Cerrado, que estão hoje restritas, em sua maioria, às terras
indígenas”.
No Alto
Juruena, 2 milhões de hectares de vegetação foram convertidos em agropecuária
de 1985 a 2024, conforme o MapBiomas. Hoje, as fazendas ocupam quase um terço
da área da bacia. “Quando eu era criança, nem todos os locais ao redor do nosso
território eram derrubados. Hoje, ficou só a nossa mata”, lamenta Cleide, que
nasceu na Tirecatinga e vive na aldeia Serra Azul, banhada pelo Rio Buriti.
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Novas fronteiras
A área
de plantio de soja em Mato Grosso passou de 9,7 milhões de hectares em 2019
para 13,1 milhões neste ano, segundo a Conab. Na safra de 2024/2025, a produção
recorde foi responsável por quase um terço dos 171,4 milhões de toneladas da
colheita nacional.
O
principal polo de produção do estado é a região Médio Norte, que compreende os
municípios nos arredores da BR-163, na porção amazônica do estado. Há novas
fronteiras agrícolas no extremo norte; nos vales dos rios Araguaia e Guaporé,
que correm do Cerrado para a Amazônia; e no oeste, onde está a bacia do
Juruena.
O
Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária (Imea), entidade privada sem
fins lucrativos, projeta 16,62 milhões de hectares de lavouras de soja na safra
estadual de 2033/2034, com produção de 64,5 milhões de toneladas. “Todas essas
regiões mais marginais do estado, que antes não tinham corredores de logística,
têm expandido suas áreas com a viabilidade econômica dos últimos anos”, diz
Lucas Beber, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Soja
(Aprosoja) de Mato Grosso.
A
tensão das relações comerciais entre Estados Unidos e China se agravou em
fevereiro de 2025, com a aplicação de sucessivas tarifas extras. Em abril, a
China anunciou uma retaliação, taxando em 34% as importações dos Estados
Unidos, incluindo a soja. O país asiático zerou as compras dos sojicultores
estadunidenses, e o Brasil tinha estoque para atender à nova demanda. “A
primeira guerra comercial viabilizou a expansão da área, e a segunda tem
mantido as exportações brasileiras firmes”, diz Beber. Mato Grosso foi
responsável por 30% da soja exportada pelo país no ano passado, ou 32 milhões
de toneladas.
Em
outubro, EUA e China anunciaram uma trégua. Segundo a Casa Branca, os chineses
se comprometeram a comprar 12 milhões de toneladas de soja ainda este ano, além
de 25 milhões anuais até 2028. Mas a China manteve a tarifa à oleaginosa
estadunidense em 13%.
Os
produtores brasileiros seguem otimistas. “Mesmo que haja um acordo, acredito
que a China vai sempre priorizar a soja brasileira por conta da insegurança e
instabilidade nas negociações com os Estados Unidos”, diz Beber.
Durante
o entrave tarifário, continua Beber, as grandes multinacionais estadunidenses,
como Bunge, Cargill e ADM, suspenderam as compras de soja dos EUA, mas
mantiveram as exportações para a China por meio do grão brasileiro, a uma
tarifa zero de exportação.
De
acordo com a Trase, que monitora as cadeias produtivas de commodities de
diversos países, Cargill, Bunge e ADM são os principais exportadores de soja no
Brasil, com 35,6% do total de exportações em 2022 — quase metade dos 33,4
milhões de toneladas que essas três exportaram foram para a China.
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Lavouras indígenas
Em Mato
Grosso, o cultivo em larga escala de soja não se limita às grandes fazendas. Em
novembro, durante a COP30, o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro,
celebrou a licença de operação das lavouras de soja mecanizadas da Copihanama,
cooperativa formada por indígenas das etnias Haliti Paresi, Nambikwara e
Manoki. A autorização inédita para territórios indígenas foi concedida pelo
Ibama no mês anterior. À reportagem, o órgão confirmou as informações.
Baseada
no município de Campo Novo do Parecis, vizinho a Sapezal, a Copihanama
administra 20 mil hectares de lavouras de soja em terras indígenas do estado,
entre as quais a TI Tirecatinga.
A
história da ocupação agropecuária nessa região, conhecida como Chapada dos
Parecis, ajuda a entender a relação de parte dos povos originários com a
produção de commodities. Nos anos 1940, missionários jesuítas se instalaram na
região da Tirecatinga e atraíram indígenas de diversas etnias. Quando deixaram
o território, no início dos anos 1970, nem todos os povos conseguiram retornar
aos locais de origem, pois colonos sulistas já tinham avançado com monoculturas
sobre o Cerrado matogrossense.
No
final da década de 1970, quando Geraldo Terena e outras lideranças indígenas se
organizaram para delimitar a Tirecatinga, o clima era de violência, mas ele
observa que a tensão diminuiu após a definição dos limites do território em
1983.
Antes
disso, nas décadas de 1940 e 1950, a extração de látex representava a principal
fonte de renda na Tirecatinga. Depois, com a crise da borracha, muitos
indígenas do território foram trabalhar nas fazendas vizinhas.
Uma
nova alternativa de receita para a Tirecatinga só viria em 2004, quando os
indígenas decidiram cultivar soja em uma área de 1.120 hectares, implementando
agricultura mecanizada. “A lavoura está bem distante de nascente, de área onde
se coleta palha, de onde se coleta fruta do mato. Fizemos em um ponto bem
estratégico, orientados pelos mais velhos”, diz Ademil Iamexi, da etnia Manoki
e coordenador da produção de soja na TI.
No
início, os indígenas fizeram parceria com fazendeiros de municípios vizinhos,
que forneciam “os insumos — semente, adubo, combustível — e as máquinas, e nós
entrávamos com a mão de obra e a terra”, diz Ademil. Os fazendeiros, depois,
compravam a produção. O plantio também acontecia nos territórios vizinhos, as
TIs Utiariti e Paresi. Juntas, as três compõem um corredor de 1,1 milhão de
hectares de Cerrado.
Mas
logo os indígenas precisaram assinar termos de ajustamento de conduta com a
Funai, o Ibama e o Ministério Público. Em 2018, o Ibama aplicou pelo menos R$
59 milhões em multas a fazendeiros e R$ 2 milhões a associações indígenas por
plantarem soja transgênica em terras indígenas, como prevê a Lei 11.460. Os
produtores indígenas negociaram a redução da multa e se adequaram às
condicionantes do órgão ambiental.
Entre
as adequações, o acordo exigiu a realização de estudos ambientais e mapeamento
das nascentes e reforçou que a atividade agrícola deve ocorrer para o usufruto
exclusivo dos povos indígenas, conforme prevê a Constituição Federal. Em 2019,
foi criada a cooperativa para comercializar a produção.
Na
Tirecatinga, os indígenas plantam soja na primeira safra e milho na segunda,
com renda média anual de R$ 500 mil e R$ 300 mil, respectivamente. Os lucros
são distribuídos entre os habitantes do território. De acordo com Ademil, na
safra da soja cada pessoa recebe até R$ 2 mil por ano. Na de milho, a divisão é
por aldeia e rende de R$ 20 mil a R$ 40 mil para cada, dependendo da população.
Com a
licença do Ibama, Ademil destaca que a Copihanama terá acesso ao Plano Safra do
Governo Federal, para obter crédito a juro mais acessível e adquirir maquinário
e estrutura. Hoje precisam alugar os equipamentos de fazendeiros. Ainda assim,
os territórios indígenas não devem expandir as atividades mesmo com o
aquecimento do mercado, afirma Ademil. “Desde 2004 aqui não foi aumentado nem
um palmo. A nossa produção vai se manter nas 50 mil sacas de soja e 40 mil de
milho.”
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Ferrogrão: promessa e discórdia
A
produção de soja de Mato Grosso é escoada principalmente para os portos de
Santos, em São Paulo; de Barcarena, no Pará; e de Manaus, no Amazonas — os três
por meio da BR-364 e da hidrovia do Rio Madeira —, além de Santarém, no Pará,
via BR-163. Apesar das várias saídas, Lucas Beber, da Aprosoja MT, considera
que o principal gargalo do estado é o frete ferroviário.
A
aposta do agronegócio para resolver a questão é a Ferrogrão, muito contestada
por ambientalistas e povos indígenas. Idealizada em 2016 por ADM, Amaggi,
Bunge, Cargill e Louis Dreyfus, a ferrovia pretende seguir o trajeto da BR-163
de Sinop, em Mato Grosso, ao distrito de Miritituba, no município paraense de
Itaituba, atravessando 933 quilômetros de Amazônia.
A
Ferrogrão terá uma capacidade de escoamento de até 65 milhões de toneladas de
soja e milho por ano. Para o agronegócio, isso estimularia a competitividade e
traria uma economia de R$ 8 bilhões anuais ao transporte de grãos. A Aprosoja
projeta que a ferrovia será o modal para metade da soja de Mato Grosso.
O
empreendimento, em fase de estudos pela Agência Nacional de Transportes
Terrestres (ANTT), aguarda a conclusão do julgamento de uma ação no Supremo
Tribunal Federal sobre a redução de 862 hectares do Parque Nacional do
Jamanxim, na Amazônia paraense, área que seria desmatada pela obra. Em outubro,
o ministro Alexandre de Moraes votou a favor da mudança e foi acompanhado por
Luís Roberto Barroso.
Moraes
também adicionou ao seu voto uma proposta de Barroso para acrescentar até 51,1
mil hectares ao parque nacional, como compensação ambiental. Ainda em outubro,
o ministro Flávio Dino pediu vista, suspendendo o julgamento. Os autos foram
devolvidos para que os trâmites sigam no último mês de fevereiro. O Ibama
aguarda o resultado para retomar o processo de licenciamento ambiental. A ANTT,
por sua vez, planeja encaminhar em breve o estudo para análise do Tribunal de
Contas da União. O Ministério dos Transportes planeja o leilão para setembro de
2026.
Às
vésperas da COP30, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e pequenos
agricultores percorreram a “Rota da Soja” de Sinop a Belém, em protesto contra
projetos de infraestrutura do agronegócio, como a Ferrogrão, que consideram
motores de desmatamento, poluição e conflitos de terra. “Estamos saindo de um
lugar onde a soja nasce para mostrar que o impacto não termina aqui. O que
começa no Cerrado destrói rios e modos de vida no Baixo Tapajós”, disse, na
ocasião, Vivi Borari, comunicadora e ativista do movimento Tapajós Vivo.
Dias
depois, 300 indígenas e representantes de movimentos sociais ocuparam balsas
graneleiras na região da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, em Santarém.
Alessandra Korap, liderança da TI Munduruku, protestou: “É contraditório o
governo falar sobre compromissos climáticos em Belém enquanto acelera uma
ferrovia desenhada para baratear o custo da exportação da soja, expandir portos
no Tapajós, e ainda pressionar nossas terras”.
Andreia
Fanzeres, da Opan, observa que os povos indígenas de Mato Grosso apoiam os
protestos contra a Ferrogrão, diante das ameaças às bacias do Tapajós e do
Xingu. Contudo, pairam incertezas de como a ferrovia afetaria o Cerrado no
estado. “Eu imagino que, se sair uma nova via de escoamento que amplia a
possibilidade de <><> Cerrado
vulnerável
Para
Lucas Beber, da Aprosoja MT, não será necessário desmatar novas áreas para
atender à maior demanda e capacidade de escoamento, pois o avanço da soja tem
acontecido principalmente sobre pastagens. “Mato Grosso, tranquilamente,
viraria da noite para o dia mais de 5,5 milhões de hectares de pecuária [para
soja], mas ainda não tem viabilidade econômica”, diz.
Beber
ressalta ainda que o Código Florestal obriga imóveis rurais do estado a
manterem reservas legais — 80% da área em propriedades na Amazônia, e 35% no
Cerrado —, além das áreas de proteção permanente na mata ciliar.
Enquanto
o plantio da soja em Mato Grosso se ampliou em 3,4 milhões de hectares de 2019
a 2025, conforme a Conab, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)
registrou no estado 470 mil hectares de desmatamento em zonas de Cerrado e 1,2
milhão nas de Amazônia. A área de pecuária, por sua vez, se manteve no patamar
de aproximadamente 20 milhões de hectares de 2019 a 2024, segundo o MapBiomas.
Para Paula Bernasconi, líder de engajamento da plataforma Trase na América do
Sul, isso significa que as pastagens estão migrando para novas áreas como
resultado do avanço da sojicultura, e consequentemente resultando em mais
desmatamento associado à expansão da oleaginosa. “Cada ano tem uma imensa
quantidade de floresta e vegetação sendo convertida em pastagens, que se
deslocam empurradas pela soja”, diz.
Segundo
a Trase, a cadeia da soja no Brasil teve relação com o desmatamento de quase
800 mil hectares de vegetação nativa em 2022. Foram pelo menos 260 mil no
Cerrado, principalmente na região do Matopiba — fronteira agrícola composta
pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — e em Mato Grosso.
A Trase
analisa dados regionais de desmatamento para identificar o quanto foi
convertido para determinada commodity, como a soja. A plataforma, então, leva
em conta os padrões de fornecimento das cadeias para identificar o potencial
risco de exposição da produção das empresas à supressão da vegetação.
As
estadunidenses Bunge (77,7 mil hectares), Cargill (55 mil) e ADM (39 mil), a
chinesa Cofco (67,8 mil) e a brasileira NovaAgri (46 mil) são os grupos
exportadores com maior risco de ligação com o desmatamento, de acordo com a
plataforma.
Para
André Guimarães, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da
Amazônia (Ipam), a crescente demanda pode aumentar a pressão sobre florestas e
vegetação nativa. “Hoje, o desmatamento joga contra a nossa capacidade de
produção futura. Mesmo que haja aumento de demanda, esse crescimento tem que
acontecer em novos moldes: intensificação da produção, reforma de pastagem,
substituição de pastagem para lavoura, integração lavoura-pecuária-floresta.”
Embora
o Cerrado concentre a expansão da produção da oleaginosa, não é coberto por
instrumentos de proteção como a Moratória da Soja, acordo no qual as principais
traders se comprometem a não adquirir produção de áreas desmatadas na Amazônia
após 2008. Na visão de Bernasconi, compromissos desse tipo deveriam se estender
para outros biomas, pois “o Cerrado acaba ficando muito mais exposto e
dependente da análise de cada empresa e de cada sistema individual”.
Já a
floresta amazônica pode ficar mais exposta, uma vez que, em janeiro deste ano,
grandes traders, como Cargill, Bunge e ADM, anunciaram o abandono do pacto que
há 20 anos vinha sendo bem-sucedido para controlar o desmatamento pela soja no
bioma.
À
Mongabay, a Bunge disse que os dados não estabelecem uma conexão entre as
fazendas e a empresa, e sim “informações generalizadas de áreas geográficas das
fazendas que podem fornecer, direta ou indiretamente, para qualquer empresa que
opere na região”. A Bunge acrescentou que tem compromisso de zerar o
desmatamento em determinadas áreas da América do Sul, e para isso verifica “a
conformidade socioambiental de seus fornecedores antes da compra e do
recebimento dos grãos”. Além disso, adota um sistema de rastreabilidade e
monitoramento que, segundo a empresa, alcançou no final de 2024 “100% de
rastreabilidade e monitoramento de suas compras diretas e indiretas de soja em
regiões prioritárias do Cerrado brasileiro”.
A
NovaAgri afirmou que segue “os mais rígidos padrões de segurança, qualidade e
sustentabilidade”, monitora as áreas de produção de grãos e investe em
auditoria independente.
A Cofco
Internacional afirmou que “segue rígidos controles para aquisição de soja no
país”, com “extensiva análise de níveis de desmatamento e conversão em suas
cadeias de soja, tendo seus processos auditados por empresas externas”. A
empresa disse estar comprometida em eliminar, globalmente, o desmatamento nas
cadeias de soja e milho.
A ADM
reconheceu que “o desmatamento e a conversão da vegetação são desafios
relevantes para o setor” e que segue “padrões rigorosos, auditados por terceira
parte, definidos em nossa Política de Proteção de Florestas, Biodiversidade e
Comunidades e, por isso, intensificamos nossos esforços em rastreabilidade e
transparência”.
A
Cargill não retornou o contato da Mongabay. Leia a íntegra das notas das
empresas.
Conforme
a Trase, 45% da soja produzida no Cerrado e exportada estava coberta por
programas empresariais para zerar o desmatamento. “É importante que esses
sistemas avancem na forma de detecção e rastreamento, mas também em
transparência”, diz Bernasconi.
Os
sojicultores se preparam para a Lei de Desmatamento da União Europeia, que
entrará em vigor em 30 de dezembro deste ano para grandes e médios operadores.
Para entrar no mercado europeu, a lei exige o rastreamento completo da cadeia
de valor de commodities como a soja, mas vale apenas para ecossistemas
florestais. No Cerrado, a exigência exclui 75,5 milhões de hectares de
formações savânicas e campestres.
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O temor dos agrotóxicos
Na
Tirecatinga, os povos indígenas sentem os efeitos das atividades agrícolas no
entorno — além da soja, há cultivo de algodão e milho principalmente no período
de entressafra. Cleide Terena, presidente da organização Thutalinãnsu, relata
que aviões pulverizadores sobrevoam a aldeia Serra Azul e despejam agrotóxicos
nas lavouras vizinhas.
A
Thutalinãnsu encomendou uma pesquisa à Universidade Federal de Mato Grosso e à
Opan, para entender se, e em que medida, os agrotóxicos afetam os alimentos, as
caças, as frutas, as plantas medicinais e a água dos rios na terra indígena. Os
pesquisadores identificaram resíduos de 11 diferentes inseticidas, fungicidas e
herbicidas em 88% das amostras de plantas medicinais e frutíferas do
território.
A
partir da análise, publicada em dezembro de 2022, os moradores da aldeia Serra
Azul decidiram não consumir mais a água do Rio Buriti e aguardam estudos mais
aprofundados. Esperam também a perfuração de um poço artesiano, para acessar
água livre do risco de contaminação. Enquanto isso, precisam comprar água
mineral na cidade de Sapezal, buscar em outras aldeias com poços ou serem
abastecidos por caminhões-pipa. “Hoje, se bebo água do rio, eu sinto dor de
estômago. Não é mais aquela água saudável”, diz Cleide.
Do
mirante da Serra Azul, um tapete verde se perde no horizonte, cortado pelo
sinuoso Rio Buriti, iluminado por um sol vermelho. “Aqui, nosso Cerrado é rico
em diversidade de plantas medicinais”, diz Terezinha Amazokairo, mãe de Cleide.
Ela nasceu no território em 1964 e formou-se em Biologia para estudar o uso
tradicional das plantas nativas, um conhecimento que se perdia no território.
“Nossas plantas e frutas perto da divisa estão todas contaminadas. Eu vou lá
pegar um tipo de raiz ou uma erva, ingiro aquilo e, em vez de fazer bem para
minha saúde, vai me prejudicar, causando diarreia, náuseas, dor de cabeça”,
afirma.
Na
estrada de terra batida que divide o sul do território indígena e as fazendas,
em uma manhã de outubro, uma máquina pulverizava agrotóxicos em uma lavoura
próxima à aldeia Vale do Buriti, onde há uma escola indígena. “É preocupante.
Os fazendeiros vizinhos aplicam e às vezes deixam correr para a água”, diz
Ademil, coordenador dos cultivos de soja na Tirecatinga.
Morador
da aldeia Recanto do Moxi, Ademil consome água do cristalino Rio Papagaio, mas
se preocupa porque tem “córregos que nascem na área do fazendeiro, que tem
lavoura perto e gado na beira”. Sabe que quando chove “tudo vai para o Papagaio
e a água fica bem turva.”
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Rios barrados
Em
meados dos anos 2000, no princípio do boom global das commodities, grupos do
agronegócio começaram a elaborar projetos de centrais geradoras hidrelétricas
(CGH) e pequenas centrais hidrelétricas (PCH) na bacia do Juruena. No curso
principal, “a construção de uma sequência de usinas interrompeu o fluxo de água
e alterou a dinâmica de peixes e da pesca, e acendeu um alerta no final de
2008”, diz Fanzeres, coordenadora do programa de direitos indígenas da OPAN.
A
organização monitora os projetos hidrelétricos desde 2019, como membro da Rede
Juruena Vivo. No boletim de outubro, identificou 185 empreendimentos
hidrelétricos na bacia do Juruena (123 em planejamento, 24 em construção e 38
em operação). “Vimos uma maior pressão sobre os rios da bacia do Juruena na
medida em que o agronegócio ampliava sua produção e suas fronteiras”, explica
Fanzeres, coautora do relatório.
Nos
últimos seis anos, o número de projetos de CGHs — que produzem até 5 MW — na
bacia passou de 42 para 88. Como este modelo de usina não exige estudo e
relatório de impacto ambiental (EIA-Rima), “quaisquer impactos que venham a
provocar são subestimados e não são passíveis de nenhum tipo de compensação”,
observa. Para Fanzeres, os projetos deveriam ser analisados pelo órgão
ambiental de maneira cumulativa, e não individual.
Segundo
a OPAN, a grande preocupação no Juruena é a sub-bacia do Rio Papagaio, onde há
42 usinas em planejamento, o maior número da bacia. O rio divide as terras
indígenas Tirecatinga e Utiariti, e é alimentado pelos rios Buriti e Sacre, que
separam as áreas dos territórios e das fazendas. No Sacre, uma série de
empreendimentos está em processo “bem acelerado”. “Os rios que estão prestes a
ser barrados para as sequências de hidrelétricas sustentam o turismo
etnoambiental na região”, diz Fanzeres.
No Rio
Buriti, a única PCH — que produz até 30 megawatts — instalada em uma
propriedade vizinha gera impactos visíveis, segundo moradores da Tirecatinga, e
no curso do rio ainda há outras duas usinas em construção e 14 em planejamento.
Suyani
Terena, filha de Cleide e vice-presidente da Thutalinãnsu, questiona qual será
o futuro do Rio Buriti. “Na época da seca, a água baixa muito e as pedras
chegam a aparecer. A gente não vê o rio com aquela quantidade de água de antes.
Hoje, para estar cheio, só na época da chuva”, diz Suyani. “Nossa preocupação
agora é saber até quando o Cerrado vai continuar florescendo, sendo resistente
aos agrotóxicos, às usinas.”
Fonte:
Mongabay

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