Fernando
Nogueira da Costa: Necroética na era dos drones
No
livro Teoria do drone, Grégoire Chamayou analisa como a tecnologia dos drones
subverte as categorias tradicionais da moralidade militar e impacta a saúde
mental dos operadores. O drone não é apenas uma ferramenta técnica, mas é um
dispositivo capaz de impor uma nova ética e uma nova psicologia da violência.
A
adoção do drone provoca uma crise profunda no éthos militar tradicional.
Historicamente, ele se fundamentava na bravura, na coragem e no espírito de
sacrifício.
Segundo
as categorias clássicas da guerra, o drone seria a “arma do covarde”, pois
elimina qualquer reciprocidade na exposição ao perigo. Enquanto a ética do
guerreiro exige o risco de “morrer se matar”, o drone permite “matar sem nunca
poder ser morto”.
Grégoire
Chamayou destaca o brasão do drone MQ-9 Reaper trazer a imagem da morte (a
ceifeira) com o lema That others may die (“Que morram os outros”). Isso
simboliza a passagem da guerra como combate (risco mútuo) para a guerra como
abate unilateral ou caçada (risco unilateral).
Para
legitimar a arma, defensores do armamentismo da extrema direita e da supremacia
branca tentam redefinir “bravura”. Em vez de arriscar a própria vida, ela
passaria a ser entendida como a “coragem” de fazer o trabalho sujo e de
enfrentar a “repugnância” de observar graficamente o efeito dos próprios
ataques na tela. Esta “redefinição da virtude” durará enquanto não enfrentar a
repugnância dos compatriotas humanitários…
A
psicologia do operador de drone é marcada por uma forma inédita de experiência
mediada pela tecnologia. Grégoire Chamayou a chama de “experiência
desmembrada”.
Ocorre
uma ruptura entre o ato e suas consequências. O operador aperta um botão em um
contêiner em Nevada (EUA) e vê uma explosão ocorrer a milhares de quilômetros
no Irã. Essa distância física, combinada com a proximidade ocular das câmeras,
cria uma “telepresença” paradoxal: o operador está próximo o suficiente para
ver o rosto da vítima, mas totalmente imune à qualquer reação dela.
A
interface da tela funciona como um “amortecedor moral”. Filtra a percepção e
reduz seres humanos a representações matemáticas ou “imagens acionáveis” no
monitor. Isto facilita o ato de matar, no caso, assassinar.
Uma das
maiores cargas psíquicas é a oscilação cotidiana entre o “eu-de-guerra” e o
“eu-de-paz”. O operador mata pessoas durante todo o dia e, quarenta minutos
depois, está em casa ajudando os filhos com o dever de casa ou indo a um jogo
de futebol. Exige apenas um esforço contínuo de compartimentação mental com
liga-desliga de um “interruptor” psicológico…
Grégoire
Chamayou contesta a ideia comum de operadores sofrerem de estresse
pós-traumático clássico, pois este exige a pessoa ter sofrido uma ameaça direta
à sua integridade física. A psicopatologia adequada para a Era do Drone seria o
estresse traumático induzido pela perpetração, um trauma nascida não de ser uma
vítima, mas de ser o agente da violência. É o trauma de quem assiste, em alta
resolução, à destruição causada por ele mesmo, sem ter a justificativa do
perigo imediato para si.
A
verdadeira “psicopatologia” do drone pode estar na produção industrial de
psiquismos compartimentados. Nesta
“fábrica de autômatos humanos”, há o recrutamento de indivíduos capazes
de “desligar o interruptor” e não refletir sobre sua violência. Torna o crime
invisível para o próprio autor porque ele se separa da relação entre o ato e a
consequência.
A
Teoria do drone mostra um éthos baseado na autopreservação absoluta e uma
psiquê fragmentada pelo teletrabalho da morte. Nele, a maior “virtude” exigida
é a capacidade técnica de não ter sentimentos de culpa e de separar mundos
morais opostos.
Elimina-se
o altruísmo, isto é, a tendência ou o comportamento de se importar com o
bem-estar dos outros, agindo de forma desinteressada, com empatia e
generosidade, sem esperar recompensas. Representa a ausência de egoísmo,
envolvendo sacrifício pessoal para ajudar o próximo, sendo um conceito
valorizado moralmente em religiões, filosofia e estudos evolucionários.
A
necroética, conforme apresentada por Grégoire Chamayou em sua Teoria do drone,
é descrita como uma nova filosofia da ética militar. Busca converter o drone –
um instrumento de violência unilateral e sem riscos para o agressor – na arma
“mais ética” ou “humanitária” já inventada.
Ela
inverte a tradição moral da guerra. Historicamente, exigia o sacrifício e a
exposição do corpo do guerreiro ao perigo.
Sob
esse novo regime, a preservação da vida do soldado nacional, visto como o
“cidadão de uniforme”, é elevada a um dever supremo, situando-se acima da
segurança dos civis estrangeiros no campo de batalha. Vida estrangeira não
importa aos militares e aos supremacistas brancos americanos…
Nessa
hierarquização das vidas, admite-se a preservação de um único soldado nacional
justificar o “dano colateral” de um número indefinido de civis estrangeiros.
Essa lógica substitui o princípio universalista do Direito Internacional por um
“nacionalismo da autopreservação vital”.
Os
defensores de extrema-direita da arma (e da “supremacia branca”) argumentam o
drone ser humanitário, justamente, por “salvar vidas”. No caso, só as vidas de
tripulações deixadas de ser expostas ao combate.
Alguns
filósofos da ética militar, chegam a afirmar “o uso de drones ser moralmente
obrigatório”, porque ordenar alguém correr um risco letal desnecessário seria
inadmissível. Os americanos desumanos só pensam em si.
Dentro
dessa “lógica do mal menor”, o drone é apresentado como um progresso moral em
relação a bombardeios do passado, justificando-se pela suposta capacidade de
moderar os males causados aos soldados americanos.
A
“necroética” sustenta-se no argumento de a precisão tecnológica do drone
permite distinguir melhor entre terroristas e civis inocentes. Grégoire
Chamayou aponta a precisão com a qual o míssil atinge um ponto não garante a
identificação daquele indivíduo como “alvo legítimo” tenha sido correta. Ele
compara esse sofisma à guilhotina: a precisão da lâmina em separar a cabeça do
corpo não diz nada sobre a culpa ou inocência do condenado.
O
paradoxo é o drone, ao suprimir a possibilidade de combate real, anular os
próprios critérios (como a “ameaça iminente”) de diferenciação entre um
combatente e um civil inocente no solo.
A
necroética despersonaliza a violência, tratando o extermínio como “uma medida
técnico-administrativa”, baseada em cálculos e probabilidades. Na prática,
sistemas de contagem de corpos classificam todos os indivíduos em idade militar
em uma zona de ataque como combatentes, exceto caso se prove postumamente eles
serem inocentes.
Decisões
sobre bombardeios são tomadas com base em softwares como o bug-splat (“inseto
esmagado”). Calculam taxas aceitáveis de mortes civis como variáveis
matemáticas de uma decisão burocrática.
Em
suma, a necroética é caracterizada como uma “doutrina do bem matar” com drones.
Utiliza a linguagem do direito e da moral para atenuar a violência contra os
compatriotas e garantir a aceitabilidade social de uma arma transformadora da
guerra em uma campanha de abate unilateral.
• Os data centers aceleram o esgotamento
do planeta
Enquanto
governos competem para atrair investimentos para centros de dados,
especialistas alertam que as demandas de energia e água da infraestrutura
digital podem agravar as crises globais de clima e água, com o Brasil agora no
centro das atenções.
Usamos
a conveniência do armazenamento em nuvem, do streaming de vídeo e da
inteligência artificial, mas poucos param para questionar o verdadeiro custo
ambiental dessa infraestrutura tecnológica. Eles estão se tornando vilões
silenciosos na luta contra as mudanças climáticas e a escassez de recursos
naturais.
No caso
do Brasil, em 25/2/2026, caducou a MP que criava o Redate e, no mesmo dia, a
Câmara dos Deputados aprovou projeto de incentivo fiscal para investimentos em
centros de processamento de dados, no Projeto que cria o Redata, Regime
Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (o texto ainda vai ao
Senado).
Incentivos
fiscais visam atrair operadoras internacionais para o país, exercendo enorme
pressão sobre os recursos hídricos e a infraestrutura de geração e distribuição
de energia, que já são críticos.
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O apetite insaciável das gigantes digitais por energia
De
acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), essas instalações já
representam aproximadamente 2% de toda a eletricidade gerada no mundo — um
número que deverá dobrar até 2030, impulsionado pelo crescimento exponencial da
digitalização e de tecnologias como a inteligência artificial generativa.
“Um
único centro de dados de grande escala pode consumir tanta eletricidade quanto
uma cidade de porte médio”, explica Ana Carvalho, pesquisadora de
sustentabilidade digital da Universidade de São Paulo. “Em países onde a matriz
energética ainda depende fortemente de combustíveis fósseis, isso se traduz
diretamente em aumento das emissões de gases de efeito estufa.”
O
problema não se limita ao enorme volume de energia consumida, porque os centros
de dados também exercem uma pressão considerável sobre as redes locais de
distribuição de eletricidade. Em áreas metropolitanas densamente povoadas, a
instalação de centros de dados pode sobrecarregar redes já pressionadas,
aumentando o risco de apagões e exigindo bilhões em melhorias de
infraestrutura.
Cada
megawatt alocado para centros de dados de IA é um megawatt indisponível para
residências ou indústrias. Os governos precisam avaliar o interesse público
sobre as inevitáveis compensações energéticas, que surgirão à medida que que o
uso pessoal e corporativos da IA se intensificar.
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Água é o recurso invisível da economia digital
Se o
consumo de energia dos centros de dados é alarmante, seu consumo de água também
é preocupante, embora bem menos divulgado publicamente. Isto acontece porque a
água é essencial para os sistemas de refrigeração, que mantêm as salas de
servidores em temperaturas operacionais seguras, evitando o superaquecimento,
que pode ser custoso e causar danos.
“Um
centro de dados típico pode consumir entre três e cinco milhões de litros de
água por dia, o equivalente ao consumo diário de água de uma cidade de 30.000
habitantes”, alerta Roberto Mendes, engenheiro especializado em eficiência
hídrica. “Em regiões que já enfrentam estresse hídrico, como o sudeste do
Brasil, isso pode agravar significativamente a escassez de água potável.”
A
competição por recursos hídricos entre centros de dados e comunidades locais já
se tornou uma realidade em diversas partes do mundo. Em Mesa, no Arizona (EUA),
moradores protestaram contra a construção de um vasto complexo de centros de
dados que, segundo projeções, consumiria bilhões de litros de água anualmente
em uma região desértica.
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O paradoxo da sustentabilidade digital
O
crescimento desregulado dos centros de dados põe em risco a própria
sustentabilidade da alegada revolução digital. Quanto mais avançamos rumo a uma
economia impulsionada por dados, inteligência artificial e computação em nuvem,
maior se torna a demanda por infraestrutura física, que consome enormes
quantidades de recursos.
“Estamos
vivendo um paradoxo: muitas tecnologias digitais prometem soluções para
problemas ambientais, mas sua própria infraestrutura pode estar agravando esses
mesmos problemas”, observa Carlos Martins, professor de Estudos Ambientais da
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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O caminho para uma infraestrutura digital sustentável
Especialistas
concordam que a solução não está em interromper a revolução digital, mas em
repensá-la sob uma perspectiva sustentável. “Precisamos de políticas públicas
que incentivem a eficiência energética e hídrica, juntamente com investimentos
em pesquisa de tecnologias mais limpas”, argumenta Martins.
Para os
consumidores, a consciência do impacto ambiental de suas escolhas digitais
também é importante. Desde o streaming de vídeo em alta definição até o
armazenamento ilimitado de fotos e vídeos na nuvem, cada clique gera uma pegada
ecológica.
“O
futuro da computação sustentável dependerá de um delicado equilíbrio entre
inovação tecnológica e responsabilidade ambiental”, conclui Carvalho. “Devemos
garantir que nossa crescente sede por dados não resulte em um planeta mais
quente e seco para as gerações futuras.”
Com a
expansão contínua da economia digital, o desafio de conciliar o crescimento
tecnológico com a gestão ambiental torna-se cada vez mais urgente.
Os
centros de dados são, simultaneamente, os pilares da modernidade digital e
monumentos ao nosso crescente impacto sobre os recursos naturais do planeta.
É
fundamental ressaltar que a construção de centros de dados mais eficientes e a
redução do consumo de energia, por si só, não serão suficientes para diminuir a
pegada climática das tecnologias digitais. O que se faz necessário, na verdade,
é uma redução das emissões em toda a cadeia de valor, incluindo sua utilização
como componentes em outros produtos e serviços.
Para
lidar com os impactos ambientais transfronteiriços em condições de concorrência
leal, será necessária maior transparência, responsabilidades claramente
definidas e cooperação entre empresas e governos ao longo das cadeias de
abastecimento globais.
O que
individualmente podemos fazer
Questione
a necessidade — armazene na nuvem apenas os dados que você realmente precisa.
Escolha provedores com compromissos ambientais genuínos — priorize empresas de
tecnologia com metas de sustentabilidade claras e confiáveis. Apoie políticas
públicas — defenda regulamentações que exijam eficiência energética e hídrica
dos operadores de data centers. Reduza seu consumo digital — transmitir em
resoluções mais baixas e excluir arquivos desnecessários regularmente
contribuem para reduzir a demanda de processamento.
Fonte:
A Terra é Redonda/EcoDebate

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