quinta-feira, 19 de março de 2026

Fernando Nogueira da Costa: Necroética na era dos drones

No livro Teoria do drone, Grégoire Chamayou analisa como a tecnologia dos drones subverte as categorias tradicionais da moralidade militar e impacta a saúde mental dos operadores. O drone não é apenas uma ferramenta técnica, mas é um dispositivo capaz de impor uma nova ética e uma nova psicologia da violência.

A adoção do drone provoca uma crise profunda no éthos militar tradicional. Historicamente, ele se fundamentava na bravura, na coragem e no espírito de sacrifício.

Segundo as categorias clássicas da guerra, o drone seria a “arma do covarde”, pois elimina qualquer reciprocidade na exposição ao perigo. Enquanto a ética do guerreiro exige o risco de “morrer se matar”, o drone permite “matar sem nunca poder ser morto”.

Grégoire Chamayou destaca o brasão do drone MQ-9 Reaper trazer a imagem da morte (a ceifeira) com o lema That others may die (“Que morram os outros”). Isso simboliza a passagem da guerra como combate (risco mútuo) para a guerra como abate unilateral ou caçada (risco unilateral).

Para legitimar a arma, defensores do armamentismo da extrema direita e da supremacia branca tentam redefinir “bravura”. Em vez de arriscar a própria vida, ela passaria a ser entendida como a “coragem” de fazer o trabalho sujo e de enfrentar a “repugnância” de observar graficamente o efeito dos próprios ataques na tela. Esta “redefinição da virtude” durará enquanto não enfrentar a repugnância dos compatriotas humanitários…

A psicologia do operador de drone é marcada por uma forma inédita de experiência mediada pela tecnologia. Grégoire Chamayou a chama de “experiência desmembrada”.

Ocorre uma ruptura entre o ato e suas consequências. O operador aperta um botão em um contêiner em Nevada (EUA) e vê uma explosão ocorrer a milhares de quilômetros no Irã. Essa distância física, combinada com a proximidade ocular das câmeras, cria uma “telepresença” paradoxal: o operador está próximo o suficiente para ver o rosto da vítima, mas totalmente imune à qualquer reação dela.

A interface da tela funciona como um “amortecedor moral”. Filtra a percepção e reduz seres humanos a representações matemáticas ou “imagens acionáveis” no monitor. Isto facilita o ato de matar, no caso, assassinar.

Uma das maiores cargas psíquicas é a oscilação cotidiana entre o “eu-de-guerra” e o “eu-de-paz”. O operador mata pessoas durante todo o dia e, quarenta minutos depois, está em casa ajudando os filhos com o dever de casa ou indo a um jogo de futebol. Exige apenas um esforço contínuo de compartimentação mental com liga-desliga de um “interruptor” psicológico…

Grégoire Chamayou contesta a ideia comum de operadores sofrerem de estresse pós-traumático clássico, pois este exige a pessoa ter sofrido uma ameaça direta à sua integridade física. A psicopatologia adequada para a Era do Drone seria o estresse traumático induzido pela perpetração, um trauma nascida não de ser uma vítima, mas de ser o agente da violência. É o trauma de quem assiste, em alta resolução, à destruição causada por ele mesmo, sem ter a justificativa do perigo imediato para si.

A verdadeira “psicopatologia” do drone pode estar na produção industrial de psiquismos compartimentados. Nesta  “fábrica de autômatos humanos”, há o recrutamento de indivíduos capazes de “desligar o interruptor” e não refletir sobre sua violência. Torna o crime invisível para o próprio autor porque ele se separa da relação entre o ato e a consequência.

A Teoria do drone mostra um éthos baseado na autopreservação absoluta e uma psiquê fragmentada pelo teletrabalho da morte. Nele, a maior “virtude” exigida é a capacidade técnica de não ter sentimentos de culpa e de separar mundos morais opostos.

Elimina-se o altruísmo, isto é, a tendência ou o comportamento de se importar com o bem-estar dos outros, agindo de forma desinteressada, com empatia e generosidade, sem esperar recompensas. Representa a ausência de egoísmo, envolvendo sacrifício pessoal para ajudar o próximo, sendo um conceito valorizado moralmente em religiões, filosofia e estudos evolucionários.

A necroética, conforme apresentada por Grégoire Chamayou em sua Teoria do drone, é descrita como uma nova filosofia da ética militar. Busca converter o drone – um instrumento de violência unilateral e sem riscos para o agressor – na arma “mais ética” ou “humanitária” já inventada.

Ela inverte a tradição moral da guerra. Historicamente, exigia o sacrifício e a exposição do corpo do guerreiro ao perigo.

Sob esse novo regime, a preservação da vida do soldado nacional, visto como o “cidadão de uniforme”, é elevada a um dever supremo, situando-se acima da segurança dos civis estrangeiros no campo de batalha. Vida estrangeira não importa aos militares e aos supremacistas brancos americanos…

Nessa hierarquização das vidas, admite-se a preservação de um único soldado nacional justificar o “dano colateral” de um número indefinido de civis estrangeiros. Essa lógica substitui o princípio universalista do Direito Internacional por um “nacionalismo da autopreservação vital”.

Os defensores de extrema-direita da arma (e da “supremacia branca”) argumentam o drone ser humanitário, justamente, por “salvar vidas”. No caso, só as vidas de tripulações deixadas de ser expostas ao combate.

Alguns filósofos da ética militar, chegam a afirmar “o uso de drones ser moralmente obrigatório”, porque ordenar alguém correr um risco letal desnecessário seria inadmissível. Os americanos desumanos só pensam em si.

Dentro dessa “lógica do mal menor”, o drone é apresentado como um progresso moral em relação a bombardeios do passado, justificando-se pela suposta capacidade de moderar os males causados aos soldados americanos.

A “necroética” sustenta-se no argumento de a precisão tecnológica do drone permite distinguir melhor entre terroristas e civis inocentes. Grégoire Chamayou aponta a precisão com a qual o míssil atinge um ponto não garante a identificação daquele indivíduo como “alvo legítimo” tenha sido correta. Ele compara esse sofisma à guilhotina: a precisão da lâmina em separar a cabeça do corpo não diz nada sobre a culpa ou inocência do condenado.

O paradoxo é o drone, ao suprimir a possibilidade de combate real, anular os próprios critérios (como a “ameaça iminente”) de diferenciação entre um combatente e um civil inocente no solo.

A necroética despersonaliza a violência, tratando o extermínio como “uma medida técnico-administrativa”, baseada em cálculos e probabilidades. Na prática, sistemas de contagem de corpos classificam todos os indivíduos em idade militar em uma zona de ataque como combatentes, exceto caso se prove postumamente eles serem inocentes.

Decisões sobre bombardeios são tomadas com base em softwares como o bug-splat (“inseto esmagado”). Calculam taxas aceitáveis de mortes civis como variáveis matemáticas de uma decisão burocrática.

Em suma, a necroética é caracterizada como uma “doutrina do bem matar” com drones. Utiliza a linguagem do direito e da moral para atenuar a violência contra os compatriotas e garantir a aceitabilidade social de uma arma transformadora da guerra em uma campanha de abate unilateral.

•        Os data centers aceleram o esgotamento do planeta

Enquanto governos competem para atrair investimentos para centros de dados, especialistas alertam que as demandas de energia e água da infraestrutura digital podem agravar as crises globais de clima e água, com o Brasil agora no centro das atenções.

Usamos a conveniência do armazenamento em nuvem, do streaming de vídeo e da inteligência artificial, mas poucos param para questionar o verdadeiro custo ambiental dessa infraestrutura tecnológica. Eles estão se tornando vilões silenciosos na luta contra as mudanças climáticas e a escassez de recursos naturais.

No caso do Brasil, em 25/2/2026, caducou a MP que criava o Redate e, no mesmo dia, a Câmara dos Deputados aprovou projeto de incentivo fiscal para investimentos em centros de processamento de dados, no Projeto que cria o Redata, Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (o texto ainda vai ao Senado).

Incentivos fiscais visam atrair operadoras internacionais para o país, exercendo enorme pressão sobre os recursos hídricos e a infraestrutura de geração e distribuição de energia, que já são críticos.

<><> O apetite insaciável das gigantes digitais por energia

De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), essas instalações já representam aproximadamente 2% de toda a eletricidade gerada no mundo — um número que deverá dobrar até 2030, impulsionado pelo crescimento exponencial da digitalização e de tecnologias como a inteligência artificial generativa.

“Um único centro de dados de grande escala pode consumir tanta eletricidade quanto uma cidade de porte médio”, explica Ana Carvalho, pesquisadora de sustentabilidade digital da Universidade de São Paulo. “Em países onde a matriz energética ainda depende fortemente de combustíveis fósseis, isso se traduz diretamente em aumento das emissões de gases de efeito estufa.”

O problema não se limita ao enorme volume de energia consumida, porque os centros de dados também exercem uma pressão considerável sobre as redes locais de distribuição de eletricidade. Em áreas metropolitanas densamente povoadas, a instalação de centros de dados pode sobrecarregar redes já pressionadas, aumentando o risco de apagões e exigindo bilhões em melhorias de infraestrutura.

Cada megawatt alocado para centros de dados de IA é um megawatt indisponível para residências ou indústrias. Os governos precisam avaliar o interesse público sobre as inevitáveis compensações energéticas, que surgirão à medida que que o uso pessoal e corporativos da IA se intensificar.

<><> Água é o recurso invisível da economia digital

Se o consumo de energia dos centros de dados é alarmante, seu consumo de água também é preocupante, embora bem menos divulgado publicamente. Isto acontece porque a água é essencial para os sistemas de refrigeração, que mantêm as salas de servidores em temperaturas operacionais seguras, evitando o superaquecimento, que pode ser custoso e causar danos.

“Um centro de dados típico pode consumir entre três e cinco milhões de litros de água por dia, o equivalente ao consumo diário de água de uma cidade de 30.000 habitantes”, alerta Roberto Mendes, engenheiro especializado em eficiência hídrica. “Em regiões que já enfrentam estresse hídrico, como o sudeste do Brasil, isso pode agravar significativamente a escassez de água potável.”

A competição por recursos hídricos entre centros de dados e comunidades locais já se tornou uma realidade em diversas partes do mundo. Em Mesa, no Arizona (EUA), moradores protestaram contra a construção de um vasto complexo de centros de dados que, segundo projeções, consumiria bilhões de litros de água anualmente em uma região desértica.

<><> O paradoxo da sustentabilidade digital

O crescimento desregulado dos centros de dados põe em risco a própria sustentabilidade da alegada revolução digital. Quanto mais avançamos rumo a uma economia impulsionada por dados, inteligência artificial e computação em nuvem, maior se torna a demanda por infraestrutura física, que consome enormes quantidades de recursos.

“Estamos vivendo um paradoxo: muitas tecnologias digitais prometem soluções para problemas ambientais, mas sua própria infraestrutura pode estar agravando esses mesmos problemas”, observa Carlos Martins, professor de Estudos Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

<><> O caminho para uma infraestrutura digital sustentável

Especialistas concordam que a solução não está em interromper a revolução digital, mas em repensá-la sob uma perspectiva sustentável. “Precisamos de políticas públicas que incentivem a eficiência energética e hídrica, juntamente com investimentos em pesquisa de tecnologias mais limpas”, argumenta Martins.

Para os consumidores, a consciência do impacto ambiental de suas escolhas digitais também é importante. Desde o streaming de vídeo em alta definição até o armazenamento ilimitado de fotos e vídeos na nuvem, cada clique gera uma pegada ecológica.

“O futuro da computação sustentável dependerá de um delicado equilíbrio entre inovação tecnológica e responsabilidade ambiental”, conclui Carvalho. “Devemos garantir que nossa crescente sede por dados não resulte em um planeta mais quente e seco para as gerações futuras.”

Com a expansão contínua da economia digital, o desafio de conciliar o crescimento tecnológico com a gestão ambiental torna-se cada vez mais urgente.

Os centros de dados são, simultaneamente, os pilares da modernidade digital e monumentos ao nosso crescente impacto sobre os recursos naturais do planeta.

É fundamental ressaltar que a construção de centros de dados mais eficientes e a redução do consumo de energia, por si só, não serão suficientes para diminuir a pegada climática das tecnologias digitais. O que se faz necessário, na verdade, é uma redução das emissões em toda a cadeia de valor, incluindo sua utilização como componentes em outros produtos e serviços.

Para lidar com os impactos ambientais transfronteiriços em condições de concorrência leal, será necessária maior transparência, responsabilidades claramente definidas e cooperação entre empresas e governos ao longo das cadeias de abastecimento globais.

O que individualmente podemos fazer

Questione a necessidade — armazene na nuvem apenas os dados que você realmente precisa. Escolha provedores com compromissos ambientais genuínos — priorize empresas de tecnologia com metas de sustentabilidade claras e confiáveis. Apoie políticas públicas — defenda regulamentações que exijam eficiência energética e hídrica dos operadores de data centers. Reduza seu consumo digital — transmitir em resoluções mais baixas e excluir arquivos desnecessários regularmente contribuem para reduzir a demanda de processamento.

 

Fonte: A Terra é Redonda/EcoDebate

 

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