Gabriel
Santos: Quem chora pelos mortos no Irã?
No
último dia de fevereiro, faziam apenas algumas horas que os Estados Unidos e o
Estado de Israel atacaram militarmente o Irã. As notícias que chegavam da mídia
internacional e eram reproduzidas no Brasil já falavam sobre o grande número de
mortos e resultados do ataque. Eis que o jornal O Estado de São Paulo,
vulgo Estadão, aquele mesmo que anunciava em suas páginas pessoas
negras escravizadas como anúncio, publicou o editorial: “Ninguém vai chorar
pelo Irã”.
Que
este jornal, assim como toda grande mídia burguesa, seja a Folha de S.
Paulo, ou a Rede Globo, iriam fazer de seu noticiário uma
correria de transmissão dos interesses de Washington e propaganda da guerra
estadunidense, era um fato de notório saber. Porém, as declarações do Estadão no
dito editorial chocam pela sinceridade com que os pensamentos do jornal e de
parte de nossa classe dominante foram colocados.
O
jornal começa fazendo uma distinção e dividindo o planeta entre aquilo que
acredita ser o mundo civilizado e o restante. Este mundo civilizado é chamado
depois do Ocidente, e fica apontado que sua liderança é os EUA e que Israel faz
parte dele.
O Estadão continua
a afirmar que o regime do Irã é nefasto, o país seria um pária e uma ameaça
constante a esse mundo civilizado. O jornal coloca que o bombardeio ao país
persa seria legítimo. Por fim, termina dizendo que seja qual for as motivações
da guerra, ela seria justa, e que a questão seria até onde Donald Trump quanto
o Estado de Israel estariam dispostos a fazer e os limites éticos que teriam
que ultrapassar para derrotar o Irã.
O Estadão não
somente faz propaganda da guerra, mas a endeusa, a justifica, e pede mais e
mais carnificina. É interessante que a aspas que abrem o editorial é uma frase
de Donald Trump, o presidente estadunidense envolvido em acusações estupro e
pedofilia. Assim como, vale notar, que a frase final é uma citação a um
discurso de Benjamin Netanyahu, o presidente sionista que comete um genocídio
em Gaza e assassinou milhares de crianças. São estes os que o jornal elege como
representantes de um mundo civilizado, um pedófilo e um genocida, dois
criminosos de guerra.
Diferente
do que afirma o Estadão, o ataque militar dos EUA e de Israel ao
Irã não é legítimo nem justificável. O ataque viola a soberania do país persa,
garantida pela Carta das Nações Unidas. Tanto os EUA quanto o Irã são países
fundadores da ONU, portanto tem sua soberania, suas obrigações com a Carta e
com os demais Estados membros. Ao atacar militarmente o Irã desta forma, os EUA
rompe com o direito internacional.
Imaginemos
que a China resolvesse bombardear o Japão para garantir o acesso a ilhas
disputadas no Pacífico. O discurso da mídia seria outro. Ou que o Irã
resolvesse bombardear “Israel” para garantir sua soberania. Os gostos pessoais
não podem ser justificáveis para legitimar ações que rompem o direito
internacional e que colocam o mundo em uma situação de conflito escalonado.
O
ataque estadunidense ocorreu inclusive poucas horas após negociações onde Iran
aceita as exigências dos EUA para limitação do programa de desenvolvimento de
tecnologia nuclear iraniana. Ou seja, o país persa aceitou o que foi proposto
por Donald Trump e mesmo assim foi atacado.
A falsa
narrativa de que o Irã estaria produzindo armas nucleares vem sendo usado desde
a década de 90 do século passado, a mais de 30 anos por Benjamin Netanyahu, e
já foi desmentida várias vezes. O próprio Aiatolá Ali Khamenei chegou a
escrever uma fatwa, ou seja, um pronunciamento legal como um
especialistas da religião, proibindo o uso de energia nuclear para fins
militares ainda na virada do século.
Ali
Khamenei acreditava que armas de destruição em massa eram incompatíveis com a
ética islâmica, e essa posição foi seguida por líderes iranianos civis,
militares e religiosos.
O
presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, recentemente declarou em entrevista de
que: “Com base na fatwa do Líder Supremo, do ponto de vista
ideológico, não estamos buscando armas nucleares de forma alguma, e, seja qual
for a forma que desejem verificar, estamos preparados”. Vale destacar também
que no ano passado, em 2025, o Diretor-Geral da Agência Internacional de
Energia Atômica, Rafael Mariano Grossi, afirmou que não foi encontrado no Irã
provas e elementos de que o país estivesse enriquecendo urânio para outros fins
que não fossem o energético, descartando que houvesse indícios de que se
estariam produzindo armamento nuclear.
O Estadão mente
ao afirmar sem provas de que o Irã buscava armamento nuclear, e mente ao dizer
que o país é uma ameaça à estabilidade na região. Basta somente vermos que no
último ano, antes deste conflito, o Estado de Israel atacou militarmente o
Líbano, a Síria, o Iêmen, o Iraque, o próprio Irã e comete uma ocupação ilegal
e um genocídio na Palestina.
Se
olharmos para o planeta, fica óbvio que é aquele que na visão do Estadão é
o grande líder do mundo civilizado que representa um perigo. Os Estados Unidos
acabaram de invadir a Venezuela e sequestrar seu presidente, ameaçam anexar a
Groenlândia, e ao longo da história recente deixaram rastro de destruição por
todo Oriente Médio.
Além
das mentiras contadas, o que o Estadão quis dizer ao afirmar
que “ninguém vai chorar pelo Irã”? Qual foi a mensagem? O jornal acha que
governantes pedófilos e criminosos de guerra podem assassinar quem bem entender
para alcançar seus interesses?
Quando
este revelador editorial do Estadão foi publicado, já se
haviam notícias do bombardeio estadunidense a uma escola de educação infantil
para meninas. Trump, Netanyahu, e seus ministros, assassinaram mais de 150
crianças. Tanto os mísseis sionistas como os estadunidenses têm uma precisão
absurda, atacando membros do governo iraniano em suas casas. Porém, o primeiro
local escolhido para ser bombardeado pelos países do mundo civilizado foi uma
escola feminina. Ainda assim, o jornal publica um texto afirmando que ninguém
vai chorar pelo Irã.
Este
ato, além de insensível e desumano, também é revelador da lógica e visão de
mundo deste jornal e de quem ele representa. Vale lembrar das inúmeras matérias
falando sobre os quatro soldados americanos que morreram ao invadir e tentar
assassinar inocentes no Irã. Estes soldados tiveram seus nomes e rostos
revelados, seus hobbies ditos, suas famílias entrevistadas. Soubemos sobre
eles, se tentou uma aproximação entre eles e o público, se buscou criar um laço
de empatia. Algo que não ocorreu com os mais de 1600 civis mortos no Irã.
Ao
afirmar que ninguém chora pelo Irã, temos a desumanização dos habitantes do
país, e daqueles que são assassinados pelas bombas sionistas e estadunidenses.
Essa desumanização se baseia em um racismo implícito, porém notório, pois
inferioriza povos e cria uma hierarquização entre eles.
Povos
não brancos, aqueles excluídos do pacto Ocidental, são tratados como um Outro.
Um ser distante, ou melhor, um objeto distante. Distante não apenas do Ocidente
e de seus valores. Mas distante do traço divisório entre o que é a humanidade.
Assim, o povo iraniano, como este Outro, está afastado de nós. Ele não faz
parte do Ocidente, não constrói o mundo civilizado, ele representa uma outra
coisa, é uma ameaça. Não merece nosso cuidado, nosso respeito, e suas mortes
não merecem nossa atenção ou empatia.
Eles
são menos humanos do que os ocidentais que representam valores superiores. Eles
são menos civilizados do que aqueles que lançam bombas, os sufocam com sanções
econômicas, e a vida daquelas meninas mortas são de menor valor comparado aos
criminosos que governam na Casa Branca.
De
acordo com esta lógica racista, o colonizado não é aquele que tem sua terra
invadida, sua terra roubada, sua pátria destruída. Na ótica colonial, o
colonizado é apenas o oposto do colonizador. Ele é o Outro, ele é menos humano.
O colonizado não tem história própria, mas é sempre um complemente a história
do colonizador. Se o colonizador, aquele ser universal ocidental, representa as
benesses morais, e a boa virtude, o colonizado representa seu oposto. Se o
colonizador representa a ciência, a iluminação, o progresso, a liberdade, o
colonizado por sua vez, é o atrasado, o imoral. É aquele que precisa evoluir ao
nível do colonizador.
O
colonizado passa a estar à margem da regra civilizacional. Seu sistema
político, sua sociedade, sua ética, são inferiores. Portanto, o papel do
colonizador é trazer o colonizado e sua sociedade para a luz, para a
civilização. Deste modo, o colonizador passa a assumir o papel, e também o
fardo civilizatório. A colonização deixa de ser um ato de opressão diante do
outro, para se tornar um ato de salvação do próprio colonizado.
Assim,
o colonizador abandona o papel de colonizador, assumindo para si a imagem e a
figura de ser um herói. Este herói passa a educar e salvar o colonizado de sua
própria barbárie. O colonizado por sua vez, ao se recusar abrir mão de seu
sistema político, de sua cultura, e de suas tradições, se torna o vilão.
Essa
lógica se reproduz no cenário internacional entre Estados, com os países
imperialistas assumindo essa figura de herói e o papel civilizatório. Os
Estados Unidos, portanto, ao lançar bombas não estão atacando uma Nação
soberana e infringindo o direito internacional. Estão levando liberdade para o
Iran. Estão salvando o país de seu atraso civilizacional, de sua cultura
arcaica, e da barbárie. O Iran e os iranianos ao se recusarem a ser salvos se
tornam vilões.
Essa
relação dicotômica entre colonizador e colonizado, que a passa a se tornar uma
dicotomia entre herói e vilão. Nesse cenário passa a ser inserida uma outra
dualidade, a relação morte – vida. No momento que este Outro é inferiorizado, e
hierarquicamente ele é colocado como subalterno socialmente, culturalmente,
politicamente e etnicamente. Seu valor é menor em comparação ao de um Ocidental
(seu colonizador).
No
momento que esse outro se torna um vilão ao se recusar assumir o colonizador
como seu herói, e não aceitar os valores ocidentais como superiores, este vilão
pode e deve ser confrontado. E neste confronto, sua vida de menor valor se
encontra com o único destino a ela reservado, o da morte.
Na
visão do colonizador, aquele que tem vida inferior tem apenas dois caminhos: ou
aceita ser salvo ou se torna um vilão. E ao resistir o processo de colonização
e defender sua pátria, este vilão tem apenas um único rumo em sua roda da
fortuna, o de ser morto.
No
instante que antagoniza com o colonizador, e este outro se transforma em vilão,
a morte dele se torna um processo quase de justiça por parte do suposto herói.
O ato de matar por parte do herói não é o ato de tirar uma vida, mas é visto
como livrar a terra de seres inferiores. A morte do vilão se torna não somente
desejada, um ato de justiça, uma morte justificável, mas em essência é um
processo menor, algo natural do movimento de civilizar um povo, um efeito
colateral normalizado. Portanto, não devemos nos escandalizar ou sequer ter
empatia com a morte de mais de 100 crianças que estavam numa escola, ou de
quase mil civis, ou com um genocídio praticado em Gaza.
O Estadão ao
afirmar que ninguém vai chorar pelo Irã, o faz por acreditar que a cultura
islâmica e que a civilização persa são inferiores a civilização judaico-cristã,
por acreditar que as vidas iranianas são inferiores e sem valor. Por se achar
socialmente e eticamente superior aos iranianos.
O que
o Estadão, Donald Trump e Benjamin Netanyahu, não levam em
consideração é que essa civilização persa que eles julgam e afirmam ser
inferior, e que eles querem derrubar é uma civilização milenar. Uma civilização
forjada e formada a partir da matemática, da filosofia, da arquitetura, da
literatura e da poesia, que tem mais de um milênio de continuidade cultural.
A
poesia persa sobrevive e molda a literatura mundial a séculos. De Omar Khayyam,
passando por Rumi e Hafez. Este último tendo vivido no século XIV, ou seja,
antes das grandes navegações e das revoluções burguesas, escreveu obras que até
os dias atuais estão presentes na casa da maioria dos iranianos, seja dos
habitantes do interior ou das grandes cidades. Rumi, que faleceu no século XIII
tem desde então seu túmulo visitado por séculos.
Infelizmente
quando falamos do Irã, por conta do estereótipo racista e da inferiorização que
esta nação sofre, as pessoas pensam em uma população de agressores, cuidadores
de cabras e homens bombas, quando na verdade falamos de uma civilização que por
mais de 700 anos recita os versos de seus poetas e entrega flores em seus
túmulos.
Uma
outra característica do povo iraniano está mais ligada ao islamismo. A nação
iraniana tem em seu ethos político o martírio como um elemento
central e de valor considerado nobre. Foi no martírio do Imam Hussein (as),
filho de Ali (as) e neto do Profeta Muhammad (saws), que tivemos o nascimento
do xiismo. Este martírio, lembrado até os dias atuais, é conhecido como Ashura,
onde após ser traído, Hussein (as) e seus 60 homens que restaram entraram em
confronto com os mais de 10 mil soldados de seu rival.
Antes
de ir de encontro à morte, Hussein (as) disse a um soldado inimigo: “Acaso
pretende me assustar com a morte? Acredita que me matando irão resolver seus
problemas? Fácil é a morte no caminho que leva a glória. Podem fazer algo além
de me matar? Não pode destruir minha honra, é minha nobreza não temer a morte”.
É este
martírio um elemento central do que forja o Irã. Um povo que não teme a morte
se ela for feita na luta por algo maior. Uma nação forjada por versos que
atravessam séculos, pela poesia em sua alma e pela espada em sua coluna
vertebral, não se curvará e nem será derrotada com facilidade. Caso Donald
Trump e Benjamin Netanyahu entrem em uma guerra sem fim, o povo iraniano lutará
até a vitória ou até o martírio, mas não aceitará se render ao inimigo como
sinal de humilhação. São esses valores, da honra e da poesia, que Donald Trump
e o Estadão não podem sequer imaginar.
Aqui no
Brasil o papel de uma esquerda consequente é seguir trabalhando junto do
presidente Lula para denunciar a agressão imperialista ao Irã, e o perigo que
os EUA e o Estado sionista representam a humanidade. A luta pela paz é uma luta
revolucionária em nosso tempo. A República Islâmica do Irã tem o direito de se
defender como nação soberana das agressões de países estrangeiros. A paz
significa o fim das ações militares expansionistas sionistas na região, o fim
das sanções econômicas unilaterais impostas pelos EUA ao país persa, o direito
do Irã ter sua autonomia energética.
Por
fim, diferente do Estadão, nós, humanistas sofremos e choramos com
o que ocorre no Irã diante da agressão ilegal e da guerra causada pela sede de
sangue dos EUA e do Estado de Israel.
Em
memória das meninas mortas na escola primária Shajarah Tayyebeh, nós nos
levantamos diariamente na busca por construir um mundo melhor, mais justo e
mais igualitário. Um mundo onde bombas não sobrevoem sobre nenhuma criança,
onde quer que elas estejam.
Que
Deus os receba e conforte o coração das famílias. Que nós consigamos manter a
fé no futuro, esse não-lugar que vem sendo devorado por ricos e poderosos. E
seguir firme sem perder a fé na humanidade.
Que Ali
(as) e sua espada nos dê força, e Hussein (as) e seu exemplo nos dê coragem.
Fonte:
A Terra é Redonda

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