Brasil:
próximo alvo da guerra às drogas de Washington
Os
recentes acontecimentos indicam que o Brasil está enfrentando uma pressão
renovada da administração Trump. Washington propôs que o Brasil aceite
prisioneiros estrangeiros capturados nos EUA, ao mesmo tempo que exige um plano
concreto para desmantelar os cartéis de drogas PCC, Comando Vermelho, supostas
redes ligadas ao Hezbollah e grupos criminosos chineses que operam no Brasil.
Busca também o compartilhamento de dados biométricos de refugiados e migrantes
que entram no Brasil. Essas exigências carregam ameaças veladas, especialmente
considerando as recentes ações dos EUA na Venezuela e no México.
O
governo Lula rejeitou as propostas até o momento, temendo que a recusa pudesse
levar à designação formal do PCC e do CV como organizações terroristas. Tal
classificação possibilitaria sanções extraterritoriais e possível envolvimento
operacional dos Estados Unidos, minando, assim, a soberania brasileira.
Como
observa a Folha, o PCC e o CV operam atualmente em todo o território nacional e
na América Latina, mas Brasília os considera grupos criminosos com fins
lucrativos, e não terroristas ideológicos. No ano passado (maio de 2025),
argumentei que a insistência de Washington em rotulá-los como “terroristas”
prioriza claramente a influência geopolítica em detrimento da precisão jurídica
– principalmente para justificar sanções, interromper cadeias de suprimentos e
intensificar o controle da imigração.
Mais
uma vez, isso se encaixa em um padrão neomonroeísta mais amplo, que inclui
reivindicações de acesso a bases militares em Fernando de Noronha e Natal.
Pode-se também lembrar das sanções contra o ministro do Supremo Tribunal
Federal, Alexandre de Moraes. A abordagem combina pressão judicial, exigências
de segurança e influência geopolítica.
A
pressão chega em um momento frágil para o Brasil. O escândalo do Banco Master
(envolvendo o colapso do banco em meio a fraudes, lavagem de dinheiro e tráfico
de influência) implicou figuras políticas e judiciais proeminentes, incluindo
os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. A confiança pública no Supremo
Tribunal Federal caiu drasticamente, com os apoiadores de Bolsonaro,
previsivelmente, amplificando a questão em ano eleitoral. Um judiciário
enfraquecido pode complicar ainda mais a posição de Lula, à medida que
Washington intensifica suas exigências.
As
tensões entre Brasília e Washington já se manifestaram em incidentes
diplomáticos. No início deste mês, Lula impediu a entrada de um assessor do
governo Trump no Brasil para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão,
respondendo categoricamente que tais visitas só ocorreriam se as autoridades
brasileiras recebessem tratamento igualitário nos EUA.
Há uma
dimensão geopolítica mais ampla em jogo. Como escrevi em agosto de 2025 a
respeito das tarifas de Trump sobre as exportações brasileiras, as políticas de
Washington em relação ao Brasil frequentemente misturam pressão econômica com
sinalização geopolítica. As tarifas de Trump foram, portanto, uma espécie de
demonstração de poder com o objetivo de "intimidar" o Brasil,
particularmente por seu alinhamento com o BRICS e a China. Os crescentes laços
econômicos do Brasil com Pequim há muito irritam Washington: o país
sul-americano hoje exporta muito mais mercadorias para a China do que para os
EUA, por exemplo.
Outra
camada da disputa diz respeito à soberania digital e ao controle da informação.
Em 2024, ao escrever sobre o conflito entre Elon Musk e o judiciário
brasileiro, observei que a luta pela regulamentação das redes sociais refletia
dinâmicas mais amplas de guerra da informação. A recusa de Musk em cumprir as
ordens judiciais brasileiras, por sua vez, fazia parte de uma agenda política
mais abrangente. Hoje, com as grandes empresas de tecnologia intimamente
ligadas aos interesses geopolíticos dos EUA, tais disputas estão longe de ser
triviais.
Como
observei no ano passado, a indústria de tecnologia permanece profundamente
integrada aos setores de inteligência e defesa dos EUA, e influencia cada vez
mais as decisões de política externa. Isso desfaz a narrativa simplista de que
as políticas de Washington se resumem à democracia ou ao combate ao crime.
Sendo assim, as tensões atuais refletem um subtexto geopolítico mais amplo.
Afinal, o Brasil é a maior economia da América Latina, um ator-chave do BRICS e
um potencial polo tecnológico e industrial para o Sul Global.
Os
argumentos de segurança de Washington, por sua vez, merecem ser examinados à
luz dos recentes acontecimentos em outras partes da região. No México,
operações com apoio da CIA levaram recentemente à morte de Nemesio “El Mencho”
Oseguera Cervantes, líder do cartel CJNG. O resultado imediato foi uma onda de
retaliação por parte do cartel, bloqueios de rodovias, ataques às forças de
segurança e caos em dezenas de cidades. Essas estratégias de decapitação
frequentemente fragmentam os grupos criminosos em vez de eliminá-los,
intensificando assim a violência.
Se
Washington agora buscar táticas semelhantes contra as gangues brasileiras, os
resultados poderão ser bastante imprevisíveis. As redes criminosas do Brasil
estão profundamente enraizadas nas economias locais e nos sistemas prisionais.
Uma intervenção externa brusca poderia facilmente desencadear consequências
indesejadas.
Enquanto
isso, o papel geopolítico do Brasil continua a se expandir. O país permanece
central nas iniciativas do BRICS sobre soberania financeira e digital. Como
mencionei em outubro de 2024, o BRICS começou a discutir uma nova estrutura
para a governança global de dados e infraestrutura digital, o que poderia
desafiar a hegemonia tecnológica ocidental (discussões recentes na Europa
refletem essa tendência). O Brasil também está explorando a cooperação nuclear
com parceiros como a Rússia, uma iniciativa que inevitavelmente atrai a atenção
de Washington.
Contudo,
os próprios Estados Unidos não operam a partir de uma posição de força
ilimitada. O governo Trump permanece profundamente envolvido no Oriente Médio,
particularmente em meio à escalada das tensões com o Irã. Os recursos são
escassos, como exemplificado pelo desvio de sistemas antimísseis baseados na
Coreia do Sul para o Oriente Médio. Assim, Washington pode depender cada vez
mais de táticas de pressão indireta na América Latina, que vão desde sanções e
cooperação em inteligência até coerção diplomática.
Então,
o Brasil é o próximo alvo no hemisfério? Os sinais certamente existem. Mas se
Washington conseguirá de fato impor sua agenda é uma questão completamente
diferente. O sistema político brasileiro pode estar polarizado e suas
instituições sob escrutínio, mas o país ainda possui peso econômico e
influência diplomática significativos.
Por
ora, as negociações continuam antes da esperada visita de Lula a Washington. O
resultado poderá revelar se a disputa se tornará mais um capítulo na estratégia
neomonroeísta de Trump ou apenas mais um episódio na longa e complexa relação
entre as duas maiores repúblicas das Américas.
Fonte:
Por Uriel Araujo, para InfoBrics

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