Regime
iraniano está 'intacto, mas degradado', segundo diretora de inteligência dos
EUA
A
principal autoridade de inteligência dos Estados Unidos afirmou na
quarta-feira (18/3) no Senado americano que o governo iraniano estava
"intacto" em meio aos ataques americanos e israelenses, mas "em
grande parte degradado".
Tulsi
Gabbard, diretora de Inteligência Nacional dos EUA, e outros altos integrantes
do governo de Donald Trump prestaram
depoimento por mais de duas horas em uma audiência no Senado sobre ameaças
globais aos EUA.
Foi a
primeira apresentação pública de inteligência do governo Trump desde o início
da guerra, no final de fevereiro, e ocorreu um dia após o diretor de
contraterrorismo renunciar, afirmando que o Irã não representava uma ameaça
iminente aos EUA. (leia mais abaixo)
Gabbard,
responsável por coordenar as operações de inteligência do país, também disse
que os EUA já previam problemas no Estreito de Ormuz, uma rota marítima
estratégica por onde são transportados cerca de 20% do petróleo mundial.
"A
IC [comunidade de inteligência] avalia que o regime no Irã parece estar
intacto, mas em grande parte degradado devido a ataques contra sua liderança e
capacidades militares", afirmou.
Ao lado
dos chefes da CIA (agência de inteligência dos EUA), do FBI (polícia federal
dos EUA), da Agência de Segurança Nacional e da Agência de Inteligência de
Defesa, Gabbard se recusou a responder, quando questionada repetidamente pelo
senador Jon Ossoff, do Partido Democrata (oposição ao governo Trump, do Partido
Republicano), se considerava o Irã uma ameaça iminente.
"A
única pessoa que pode determinar o que é ou não uma ameaça iminente é o
presidente", disse.
Desde o
início da guerra, parlamentares e analistas de ambos os partidos questionam por
que os EUA atacaram a República Islâmica e se o governo Trump tinha
conhecimento de possíveis problemas no Estreito de Ormuz, no sul do Irã.
Trump
afirmou que os ataques americanos e israelenses contra o Irã ocorreram
principalmente porque o Irã estaria desenvolvendo armas nucleares, o que
representaria ameaça aos EUA e a Israel.
Na
terça-feira (17/3), Joe Kent renunciou ao cargo de
diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, afirmando em carta
pública que o Irã "não representava ameaça iminente" aos EUA e que o
governo "começou esta guerra devido à pressão de Israel e seu poderoso
lobby americano".
Kent
tem 45 anos e é veterano da CIA e das forças especiais dos EUA, e é apoiador de
Trump de longa data. Com a sua saída, ele se torna a figura de mais alto
escalão do governo Trump a criticar publicamente a operação dos EUA e Israel no
Irã.
Na
carta endereçada a Trump, Kent afirmou que "altas autoridades
israelenses" e influentes jornalistas americanos semearam
"desinformação", levando o presidente a comprometer sua plataforma
"América em Primeiro Lugar".
O
diretor da CIA, John Ratcliffe, disse na quarta-feira (18/3) que discordava
dessa avaliação.
"Eu
acho que o Irã tem sido uma ameaça constante aos EUA por um longo período e
representava uma ameaça imediata neste momento", afirmou.
Gabbard
disse que os ataques dos EUA e de Israel no Oriente Médio "destruíram de
forma ampla" as capacidades militares do Irã.
Ela
também afirmou que a comunidade de inteligência avaliou que "o Irã estava
tentando se recuperar dos danos severos à sua infraestrutura nuclear sofridos
durante a chamada Guerra de 12 Dias no ano passado e continuava se recusando a
cumprir suas obrigações nucleares".
EUA e
Israel atacaram o Irã durante 12 dias, em junho de 2025, com o objetivo de
destruir possíveis capacidades de produção de uma bomba nuclear.
Em
declarações escritas preparadas para a audiência, Gabbard afirmou que esses
ataques "aniquilaram" o programa de enriquecimento nuclear do Irã e
que o país não havia feito "nenhum esforço" para reconstruí-lo. No
entanto, ela não leu essa última afirmação.
Quando
o senador democrata Mark Warner questionou a omissão, ela disse que precisou
reduzir suas falas porque estavam "longas demais".
"Então
a senhora optou por omitir as partes que contradizem o presidente",
questionou Warner, referindo-se à justificativa de Trump de que a ação militar
contra o Irã era necessária devido ao desenvolvimento de armas nucleares.
Parlamentares
também perguntaram qual foi o grau de envolvimento das autoridades de
inteligência na decisão de Trump de atacar o Irã. O senador Angus King,
independente pelo Estado do Maine, perguntou se eles estavam "na
sala" com o presidente no momento da "decisão final".
Ratcliffe
disse ter participado de "dezenas e dezenas" de reuniões com o
presidente, mas afirmou não saber se houve um "único momento específico em
que a decisão foi tomada".
King
também perguntou se as autoridades de inteligência haviam alertado Trump de que
o Irã poderia atacar o Estreito de Ormuz durante um conflito com os EUA. Desde
o início da guerra entre EUA, Israel e Irã, o país tem, na prática,
interrompido o fluxo nessa importante rota de transporte de petróleo.
"O
presidente recebe informações de inteligência constantemente", disse
Ratcliffe. Ele acrescentou que o Pentágono se preparou para possíveis ataques
do Irã a "interesses dos EUA em instalações energéticas na região" e
"adotou medidas de proteção".
A
comunidade de inteligência já tinha uma "avaliação de longa data" de
que o Irã "provavelmente controlaria o Estreito de Ormuz", afirmou
Gabbard. Segundo ela, o Departamento de Defesa dos EUA adotou "medidas de
planejamento preventivo" com base nesse cenário.
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EUA e Israel não vão conseguir desestabilizar o sistema
político do Irã, diz chanceler iraniano após morte de Larijani
O
ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou nesta quarta-feira (18) que a
morte Ali Larijani, líder efetivo do regime desde o início da guerra, não
desestabilizará o sistema político de Teerã e que EUA e Israel não conseguirão esse objetivo com seus bombardeios.
“Não
sei por que os americanos e os israelenses ainda não entenderam este ponto: a
República Islâmica do Irã possui uma estrutura política forte, com instituições
políticas, econômicas e sociais estabelecidas. (...) A presença ou ausência de
um único indivíduo não afeta essa estrutura”, disse Abbas Araqchi.
A
declaração ocorreu em entrevista para o jornal "Al Jazeera",
conglomerado catari que cobre o Oriente Médio, após Larijani ter sido
assassinado por um bombardeio israelense na noite de segunda-feira. A morte dele foi confirmada pelo
regime do Irã apenas no final da tarde de terça-feira, no horário de Brasília.
Segundo
Araqchi, foi assim na morte do líder supremo Ali Khamenei e seguirá dessa
maneira agora com Larijani. "Se o ministro das Relações Exteriores viesse
a ser morto, inevitavelmente haveria outra pessoa para ocupar o cargo",
acrescentou, em referência a ele mesmo. A fala remete a uma decisão de Khamenei
antes do conflito, de nomear múltiplas camadas de sucessão para cargos-chave do
regime.
O
chanceler iraniano também afirmou na entrevista que a doutrina nuclear
iraniana não deve mudar de forma significativa —Teerã sempre negou ter a
intenção de desenvolver armas atômicas e afirma que seu programa nuclear tem
fins pacíficos. Na terça-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, voltou a dizer que "não
podemos permitir que lunáticos tenham armas nucleares", em referência ao
Irã.
Ele
lembrou que o novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, ainda não se
manifestou publicamente sua opinião sobre o tema de armas nucleares e disse que
seu antecessor se opunha a elas.
O
chanceler iraniano também falou à "Al Jazeera" sobre o Estreito de
Ormuz, vital rota do petróleo mundial que foi fechada pelo Irã no início da
guerra. Ele disse acreditar que, após o fim do conflito, os países banhados
pelo Golfo Pérsico —incluindo o Irã e nações árabes— deveriam elaborar um novo
protocolo para o estreito para garantir uma passagem segura dos navios e sob
condições alinhadas aos interesses dos países da região.
Araqchi
também disse que os efeitos globais da guerra, que entrou em seu 19º dia nesta
quarta-feira, estão apenas começando. O Irã lançou mísseis de fragmentação
contra Israel na madrugada desta quarta como retaliação pela morte de Larijani.
Israel devolveu a agressão com mísseis contra o território iraniano. Já o
Exército dos EUA afirmou ter bombardeado o sul do Irã com
bombas de penetração.
Eu
também ouvi os rumores, mas ainda não tenho uma notícia precisa. Não entendo
por que os americanos e os israelenses ainda não perceberam que a República
Islâmica do Irã possui uma estrutura estável e enraizada, que abrange dimensões
políticas, econômicas e sociais. A presença ou ausência de uma pessoa não afeta
essa estrutura política.
É claro
que os indivíduos desempenham papéis, cada um com sua importância. Uns são
melhores, outros mais fracos, outros menos influentes. Mas o ponto essencial é
que a estrutura política no Irã é totalmente sólida. Já tivemos líderes de
grande relevância que foram martirizados, mas o sistema continuou funcionando e
um sucessor foi escolhido. Qualquer pessoa que seja martirizada, a situação
permanece a mesma. Mesmo que o ministro das Relações Exteriores seja morto,
sempre haverá alguém para substituí-lo.
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Medo de ser novo alvo
Qualquer
pessoa pode ser alvo. Nos últimos dias vimos que atacam em qualquer lugar sem
hesitação. Até agora, 53 hospitais foram atingidos. Muitas escolas, incluindo a
escola de Minab que ficou famosa, foram atacadas, resultando na morte de 168
alunos. Até bancos e inúmeros edifícios residenciais foram bombardeados.
Figuras políticas, civis, estudantes e professores universitários — todos os
tipos de pessoas foram alvo. É possível que ataquem até o ministro das Relações
Exteriores. Mas eu, como os demais, permaneço firme, trabalhando pelos
objetivos e interesses do país, sem medo de derramar sangue por nossa pátria.
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Ataques a países vizinhos
Nós não
ampliamos a guerra. A guerra já é ampla por si só. Avisamos nossos amigos na
região sobre isso anteriormente, por uma razão muito simples: se os EUA nos
atacarem, nossas forças armadas e mísseis não podem alcançar os EUA
diretamente. Portanto, somos obrigados a atingir as bases militares americanas
na região e seus equipamentos. Infelizmente, essas bases estão espalhadas por
toda a região e localizadas em países amigos. Essa é a natureza da guerra.
Quando os EUA nos atacam de milhares de milhas de distância, é natural que
nossa resposta ocorra na região.
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Mortes de civis em ataques do Irã
Em
primeiro lugar, fico realmente surpreso que o mundo não fale sobre os ataques
contra áreas residenciais no Irã, escolas e hospitais. Posso afirmar com
segurança que não atacamos alvos civis em países vizinhos. Pode haver danos
colaterais, mas esse não é nosso objetivo. Quando atacamos bases americanas, é
natural que qualquer local com concentração de americanos ou instalações
relacionadas seja atingido. Alguns desses locais podem estar próximos a áreas
urbanas. Isso não é culpa nossa, mas dos EUA, que retiraram suas forças das
bases militares e as transferiram para hotéis nas cidades.
No
geral, é o comportamento dos EUA que levou a região a essa situação. Reconheço
que os países amigos e os povos da região estão incomodados. Por isso, o Sr.
Pezeshkian pediu desculpas às populações locais, já que nossa resposta aos
ataques americanos pode ter causado transtornos. Mas tudo isso é culpa dos EUA.
Nós não iniciamos esta guerra; apenas nos defendemos.
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Netanyahu incita iranianos a derrubarem o governo
O
primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que o país está
atuando para enfraquecer o governo do Irã, após a morte de figuras de alto
escalão iranianas em operações recentes. Segundo ele, a estratégia tem como
objetivo incitar a própria população iraniana a promover mudanças políticas
internas. As declarações foram divulgadas em vídeo gravado e repercutidas pela
imprensa internacional.
De
acordo com a declaração, Netanyahu comentou a suposta morte de Ali Larijani,
chefe do Conselho de Segurança Nacional do Irã, e do comandante da força Basij,
Gholamreza Soleimani. O premiê israelense afirmou que Israel está “minando esse
regime na esperança de dar ao povo iraniano uma chance de removê-lo”, conforme
relato divulgado pela cobertura internacional do episódio.
No
vídeo, Netanyahu classificou Larijani como “o chefe da Guarda Revolucionária –
aquele grupo de bandidos que realmente governa o Irã”. Ele também se referiu a
Soleimani como “um dos seus assistentes, que espalham terror nas ruas de Teerã
e de outras cidades do Irã contra a própria população”.
O líder
israelense também revelou ter conversado no dia anterior com o presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, sobre ações conjuntas na região do Golfo. Segundo
ele, há coordenação entre os dois países em operações militares. “Estamos
ajudando nossos amigos americanos no Golfo”, declarou. “Há cooperação entre
nossas forças aéreas e navais, entre mim, o presidente Trump e sua equipe.
Vamos ajudar tanto por meio de ataques indiretos – criando enorme pressão sobre
o regime iraniano – quanto por operações diretas".
Ao
final da declaração, Netanyahu indicou que novas ações podem ocorrer nos
próximos dias, sem detalhar os planos. “Há muitas outras surpresas pela frente.
Com uma estratégia inteligente, travaremos a guerra. Não vamos revelar todas as
nossas estratégias aqui, mas, como eu disse — há muitas”, afirmou.
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'Não podemos permitir que lunáticos tenham armas
nucleares', diz Trump sobre o Irã
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse durante evento na Casa Branca nesta
terça-feira (17) que “não podemos permitir que lunáticos tenham armas
nucleares”, em referência ao Irã.
A
declaração foi dada ao lado do primeiro-ministro da Irlanda, Micheál Martin, em
reunião no tradicional encontro do Dia de São Patrício, que acabou dominada por
perguntas sobre o Oriente Médio.
Trump
ainda disse que vai levar ao menos 10 anos para que os iranianos
"recuperem todo o dano que já lhes foi causado".
Ao ser
questionado sobre o impacto da guerra para países como a Irlanda, que enfrentam
alta nos preços de energia, Trump alegou que a ofensiva tem como objetivo
eliminar uma ameaça nuclear.
“Tenho
muitos amigos da Irlanda, e eles estão muito felizes por eu estar me livrando
de uma potência nuclear, um terrorista nuclear”, afirmou.
O
presidente, que tem mudado o discurso sobre a duração esperada do conflito
várias vezes, afirmou nesta terça que a guerra "não deve se
prolongar".
“Assim
que essa guerra terminar, o que acontecerá em breve, os preços vão despencar.
Podem apostar”, declarou.
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Encontro marcado por guerra e diplomacia
A
reunião ocorreu na Casa Branca como parte da tradicional visita anual do líder
irlandês a Washington. O encontro, que normalmente tem tom simbólico, foi
marcado neste ano pela escalada do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos
e Israel.
Apesar
do foco na guerra, Trump também destacou a relação econômica entre os dois
países e disse que o comércio bilateral deve crescer rapidamente.
Já
Micheál Martin adotou um tom mais diplomático e ressaltou os laços históricos
entre as nações, além da contribuição da comunidade irlandesa para os Estados
Unidos.
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Sem ajuda da Otan
Para
além da relação entre os EUA e Irlanda, Trump também comentou o não apoio dos
países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Trump
disse que países da Otan, não concordaram em "se envolver com nossa
operação militar contra o regime terrorista do Irã". Afirmou estar
"desapontado" com a decisão, que chamou de "tola".
"Nós
não precisamos deles (sócios da Otan), mas eles deveriam ter
ajudado. Estão cometendo um erro muito tolo", disse Trump durante
encontro com o primeiro-ministro irlandês, Micheál Martin.
Antes,
em sua rede social Truth Social, ele ainda escreveu que "nós não
precisamos mais, nem desejamos, a ajuda dos países da Otan" e do Japão, da
Austrália e da Coreia do Sul — que também negaram o pedido de Trump.
Fonte:
BBC News Mundo/Brasil 247

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