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mais tijolos na parede da diversidade
A gente
precisa de mais filmes como Bacurau, Que horas ela volta?, Hoje eu quero voltar
sozinho, para engrossar a massa do cinema brasileiro. Aparecer um Bacuraua cada
um ou dois anos não é suficiente.”
Diretor
e roteirista, Kleber Mendonça Filho é jornalista de formação e trabalhava em
uma editoria de cultura quando foi convidado a assumir o cinema da Fundação
Joaquim Nabuco (Fundaj), em Recife. Entre suas primeiras produções, está Recife
frio (2009). Na lista dos longas, O som ao redor (2012), Aquarius (2016) e
Bacurau (2019) – este último recebeu o Prêmio do Júri do Festival de Cannes.
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LEIA A ENTREVISTA:
• Como foi a sua experiência como gestor,
como programador das salas da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) em Recife?
Programador, muitas vezes, trabalha de maneira solitária e cria os próprios
meios e as próprias reflexões.
KLEBER
MENDONÇA FILHO - Em 1998, eu era jornalista e escrevia para o Jornal do
Commercio na área de cultura. Soube que a Fundação Joaquim Nabuco, ligada ao
Ministério da Educação, tinha adquirido um equipamento de muito boa qualidade
de projeção em uma parceria com o Ministério da Cultura. Na época, a fundação
era uma instituição pública com um equipamento melhor do que a maior parte das
salas comerciais. Aí a Silvana Meireles, que era gestora da Fundaj, me deu uma
entrevista, e ela também estava à procura de uma política de programação e de
formação de público. De maneira um pouco desconcertante, ela perguntou se eu
não me interessaria em assumir isso. Eu ali, com caneta e bloco de anotação,
fazendo uma matéria, e ela veio com esse convite.
Eu era
um jovem jornalista da área de cultura, de cinema e já tinha alguns trabalhos
em vídeo. Era um videomaker e também já tinha organizado várias sessões em
entidades culturais da cidade. Então, o convite me pareceu uma surpresa, mas
aceitei, e foi o início de um trabalho muito prazeroso de compartilhar filmes
numa estrutura de cinema público com ingresso bem baixo e trazendo para o
Recife o que os cinemas comerciais não tinham interesse. Foram dezoito anos ao
todo. E acho que dezesseis desses anos formam época de ouro, porque a
instituição estava humanizada por um grupo que pensava cultura de maneira muito
livre. No primeiro ano, estávamos testando e buscando chegar a um formato.
Havia um ambiente completamente dominado pela ideia do cinema comercial. Mas
também havia uma sessão chamada Sessão de Arte em shopping, que conseguiu
monopolizar, durante oito anos, a ideia de “cinema de arte”. Esse, aliás, é um
termo que eu nunca adotei, não gosto. Muitas vezes, isso gera um adestramento
da mídia e do público pelo mercado. A Sessão de Arte havia estabelecido um
monopólio com certos tipos de filmes. Eu não elegi a Sessão de Arte como rival,
mas eles elegeram o Cinema da Fundação como rival porque, basicamente, eu não
teria acesso a nenhum dos filmes que eles fossem exibir. Ou só teria um mês
depois de eles passarem.
Era uma
coisa realmente draconiana e de mercado. Naquela época, eu já viajava muito
para festivais. Minha vantagem é que eu conhecia os filmes antes de eles
chegarem ao Brasil. Isso foi criando uma rede de pescar filmes quase como
guerrilha. A partir do segundo ou terceiro ano, a gente já tinha filas. As
distribuidoras passaram a preterir a Sessão de Arte e colocar o Cinema da
Fundação como primeira escolha. O Cinema da Fundação passou a ter um café, que
pertence a um cineasta muito jovem, o Leonardo Lacca. O cinema passou, então, a
ser um centro de união, como se fosse um vórtex do bem, de atrair pessoas e de
exibir clássicos, filmes de Cannes, de Veneza, filmes brasileiros e de
realizadores jovens. Atraímos também um cineclube, o Dissenso, que era da Universidade
Federal de Pernambuco. Mas existe a ideia de que o serviço público é péssimo no
Brasil.
Então
era muito bom quando as pessoas reagiam, principalmente quem ia pela primeira
vez ao Cinema da Fundação: “Poxa, mas o som aqui é incrível, eu achava que
seria uma porcaria por causa do preço”. Hoje, você vai a um multiplex e o
ingresso não vale R$ 40. Na época, um equipamento analógico era quase como se
cada máquina tivesse sua própria personalidade. Mas, com o digital, os
parâmetros são muito bem definidos. Um serviço ruim, uma imagem ruim ou um som
ruim são inaceitáveis em cinema. Os parâmetros são facilmente estabelecidos
atualmente. Então, foi um trabalho do qual tenho muito orgulho.
• Numa entrevista para este livro com o
Adhemar Oliveira, que programa o Espaço Itaú há anos em São Paulo, ele
descreveu um método próprio de programação. No seu caso, como você resumiria a
experiência de programação da Fundaj? Além disso, que públicos foram sendo
mobilizados pela curadoria? Como você viu a mudança desse público e a relação
com a cidade?
KMF -
São perguntas complexas. Em primeiro lugar, sou um grande admirador do Adhemar.
A história da exibição cinematográfica do Brasil passa por Adhemar, ele alterou
muito a forma de se olhar para isso. E Adhemar tem mais de cinquenta salas para
programar. Eu tive, no máximo, duas na fundação. Sempre vi o trabalho que fiz
lá como artesanal. Nunca tive nenhuma pretensão de passar para um nível
industrial de trabalho dentro da área de cinema.
Meus
próprios filmes, aliás, eu considero artesanais. Eu tomo parte de cada um dos
processos de fazer meus filmes. E o trabalho na fundação era absolutamente
artesanal. Minha preocupação principal era apresentar uma janela diversa para a
ideia de cinema. O cinema não existe apenas nos Estados Unidos. Se você for um
extraterrestre, visitar a Terra e analisar a programação de um multiplex, vai
perguntar se só existe filme feito em um país. As estatísticas estão todas
baseadas na produção hollywoodiana. Na verdade, o trabalho de programação era
tentar mostrar que o mundo é bem largo e bem diverso. Muita gente fala línguas
diferentes, e existem muitas maneiras de fazer filmes neste mundo, inclusive o
cinema norte-americano e hollywoodiano. E isso foi uma surpresa, um choque,
para algumas pessoas que achavam que cinemas como o da Fundação só deveriam
exibir filmes dentro de uma ideia de diversidade que excluiria o cinema
americano.
Quando,
por exemplo, em 1999, na mostra de final de ano, programei não só Manoel de
Oliveira, mas Takeshi Kitano e Matrix, algumas pessoas reagiram: “Peraí,
Matrix?! Aquele que passou no multiplex?”. “Sim, é um bom filme de ficção
científica, você deveria vir assistir aqui com o som do Cinema da Fundação”.
São pequenas coisas que fazem parte de uma programação e que ajudam a quebrar
preconceitos. Não sei se vocês já viram Fucking Åmål, de um jovem cineasta
sueco. É um filme adolescente sobre duas meninas que se apaixonam na escola. É
superlindo, superdoce e muito acessível. Ao mesmo tempo, mostra que pessoas se
apaixonam por outras pessoas e elas são do mesmo sexo. Quando você exibe um
filme desses durante cinco semanas e 3 mil pessoas vão ver, há algum tipo de
avanço na percepção delas sobre cultura, comportamento e uma ideia de cinema. E
elas não estão falando inglês. Estão falando sueco. São pequenas contribuições
que você acha que fez, colocando um tijolo a mais na parede da diversidade. Não
estou falando da diversidade LGBT, estou falando de diversidade de cinema.
O
público muito jovem, que foi educado à base de super-heróis e de todo tipo de
filme que faz parte do cinema comercial, dos multiplex, desenvolveu uma crosta
que, às vezes, é difícil quebrar. Hoje você vê, por exemplo, uma série
brasileira como Coisa mais linda já toda empacotada dentro de um sistema
estético da Netflix internacional. Então, é muito importante você apresentar
filmes diferentes e que falam outras línguas. Quanto à segunda parte da
pergunta, é impossível não entrar num lado agridoce da percepção desse trabalho
que eu fiz e que, na verdade, percebo no Brasil inteiro. É verdade que o Cinema
da Fundação conquistou repercussão e público; que o ingresso era até cinco
vezes mais barato que o do circuito comercial; que também oferecia projeção e som
melhores do que a maior parte dos cinemas comerciais; além de que a sala
principal da fundação ficava em um prédio maravilhoso do ponto de vista
arquitetônico. Mas, para além de tudo disso, não descarto a possibilidade de
ter havido uma falha do próprio trabalho, que é estrutural na própria sociedade
brasileira.
O
perfil do público permaneceu durante 18 anos, especialmente o de classe média,
e diria que 70% de pessoas brancas. Houve uma sessão especial de Mãe só há uma,
da Anna Muylaert, que, inclusive, foi à sessão. Foi uma sessão maravilhosa na
sala nova, em Casa Forte. No final, um garoto de dezenove anos, negro, veio
falar comigo: “Estou impressionado com esta sala. Por que eu nunca tinha vindo
aqui antes?”. Combinamos de ele vir naquela semana conversar, junto com o grupo
de amigos dele que gostavam de cinema e moravam em Monteiro, um bairro vizinho,
a quinhentos metros da fundação. A gente conversaria sobre como divulgar isso
em Monteiro.
No dia
marcado, o telefone tocou e o segurança da portaria disse que havia um rapaz
para me ver. E, pela primeira vez em dezoito anos, chegou um grupo de rapazes,
negros, escoltados pelo segurança. Você começa a ver uma série de problemas na
própria instituição, na sociedade brasileira, quanto à separação que existe ali
entre os bairros: separações de classe e de raça. Esse é um tom um pouco amargo
do trabalho, o fato de ele não ter conseguido quebrar esse comportamento. A
gente atraiu um público muito grande, mas um público que já era o público que,
historicamente na cidade do Recife, apreciava o cinema que a gente oferecia.
• Seus filmes tratam sobre a voracidade
mercadológica, o que em Aquarius, por exemplo, se traduz em uma cena na qual
empresários batem à porta do apartamento de Clara, interpretada por Sônia
Braga. Seu próximo projeto, sobre as salas de cinema no Recife, trará novamente
esse tema? A invasão do mercado, que também chegou aos cinemas de rua nessa
disputa de espaços na cidade, não só de modo concreto, mas também simbólico,
estará presente nesse novo trabalho?
KMF -
Acho que vai ser um filme-ensaio, o que significa que muita gente, em geral,
vai chamar de documentário. Meus filmes são apresentações sobre como funciona a
sociedade, basicamente. Já tenho 50 anos, vi mudanças acontecerem na minha
frente, a gente viveu naturalmente os últimos anos do sistema de exibição
cinematográfica, antes de ele ser trocado pelo multiplex. Hoje, no Recife,
visitando alguns lugares, você tem ruínas arquitetônicas, que eu chamo de
arqueológicas também, de costumes que já não existem mais, do século 20. É
pouco tempo atrás. Mas existe a divisão dos dois séculos, já soa mais
dramático.
Então,
é um filme muito sobre arqueologia do século 20 relacionada à ideia do cinema
como espaço de aglomeração em massa e o impacto social que isso tinha nas
cidades. O mercado decidiu que, a partir dos anos 1990, quase como um sistema
de irrigação de água, todo mundo seria direcionado para os shoppings, porque
era onde estaria o interesse de ganhar dinheiro. E o filme fala sobre a questão
do mercado, como o mercado manipula a cidade para os seus desejos e os seus
fins. Um dia, o Marcelo Mendes me ligou, acho que em 2000, para falar do Buena
Vista Social Club[: “Por ser um filme que tem tido uma aceitação muito grande,
eu liguei para o pessoal do multiplex, mas eles não quiseram”. Buena Vista já
tinha feito 150 mil espectadores entre Rio e São Paulo, com seis cópias. Aí eu
falei: “Eles acham que é um documentário, não vão querer exibir um
documentário. Mas que maravilha que a gente vai poder entrar com o filme!”.
O Buena
Vista, claro, virou a maior bilheteria na época do Cinema da Fundação, mais de
8 mil pessoas foram ver. E, no último dia, quando o filme ia sair de cartaz,
veio uma ligação do multiplex: “Vocês podem separar uma cópia, que a gente vai
estrear o filme amanhã”. Isso para mim é o mercado. O mercado é meio cego, ele
não pensa, só come. O Bacurau fez 27 mil espectadores no São Luiz, no centro do
Recife. Só perdeu para as salas Itaú, todas juntas, do Adhemar, na Augusta,
onde ele fez 34 mil espectadores. Veja, Bacurau, um filme daqui, de um cara que
foi ao São Luiz a vida inteira, enchendo o São Luiz terça-feira de tarde com
fila ao redor do quarteirão, como acontecia quando eu era criança e ia ver
Apertem os cintos… o piloto sumiu, Superman II, sabe? É realmente incrível.
Então, o filme é muito sobre um jeito de ir ao cinema que foi declarado
extinto, mas que, na verdade, existe em muitas cidades do mundo. Prefiro não
vê-lo como um documentário, mas como um ensaio.
• Bacurau fez mais de 700 mil espectadores
no Brasil, isso diante de um mercado cada vez mais concentrado no produto
norte-americano. Como você acha que Bacurau conseguiu pegar não só o cinéfilo
do Espaço Itaú Augusta, mas também o frequentador de UCI, do cinema mais na
periferia?
KMF - É
muito difícil tentar entender por que um filme deu certo ou errado. Por
exemplo, os filmes dos anos 1970 têm uma legião gigantesca de admiradores. São
ríspidos, não são regulados no tom para serem vistos por crianças de 12 anos,
que é o que o mercado, em grande parte, faz. O mercado entra para tentar te
regular. Uma das coisas mais fascinantes dos padrões estabelecidos é a questão
da nudez. Você vê um homem em casa, cuidando do seu jardim, completamente nu, e
as pessoas dizem: “Ahhh, por que esse homem está nu?”.
As
pessoas ficam nuas em casa! São pequenos elementos que o mercado considera
ríspidos, mas que, para mim, são naturais. Não estou me esforçando para chocar
ninguém ao mostrar um homem andando para lá e para cá nu. Uma pessoa fez uma
pergunta esses dias num debate: “É, mas por que ela precisava ser gorda?”. E a
galera foi em cima. Não precisei nem responder. Isso mostra a maneira como as
pessoas foram adestradas a ver filmes. Bacurau é uma história que faz parte da
humanidade. Muita gente vê Bacurau e se lembra não só daquele momento em que a
pessoa sofreu bullying na escola, ou viu alguém sofrendo. Faz lembrar as
guerras e as injustiças do mundo. Ele veio num momento muito triste do país, em
que a quantidade de injustiças foi se amontoando de maneira muito
impressionante.
• As salas públicas da Spcine fizeram
perto de 2 milhões de espectadores nas comunidades de São Paulo. O projeto teve
que parar agora na pandemia – como todas as salas de cinema do mundo –, e
quando reabrir, a gente não sabe o que será. Uma coisa que marcou muito essa
experiência nossa foi perceber o quanto é importante a questão da convivência,
de a sala de cinema ser um espaço coletivo, de encontro. Como você enxerga o
cinema se reinventando após este momento tão radical?
KMF - O
grande trunfo do cinema é a ideia de sair de casa. Você, claro, pode ver muita
coisa em casa, em alta definição, mas faz parte da nossa vida ir ao cinema.
Houve a crise dos anos 1950, principalmente nos Estados Unidos, com a chegada
da televisão, e dez anos depois no Brasil; nos anos 1980, dois novos
obstáculos: o videocassete e a TV a cabo; e dos anos 1990 até hoje, as
ramificações da presença da Internet. Mas o cinema sempre foi protegido pelo
próprio mercado. Então o mercado protegia a ideia de ir ao cinema criando a
separação entre o que você pode ver no cinema e o que pode ver na televisão, no
vídeo, na televisão a cabo, na Internet.
O que
está me preocupando hoje é que, já antes da pandemia, a voracidade da
tecnologia estava oferecendo uma variedade muito grande de formas de consumir o
produto cinema. Inclusive, já com o pensamento de se ter um premium TVoD –
significa que você poderia pagar até US$ 100 para ver, no dia do lançamento, o
novo Vingadores. Aí eu fico preocupado, porque essa é uma ideia de jovens
executivos americanos formados em Harvard, Stanford ou Yale da área de
business. Não são pessoas que entendem de cinema, elas só entendem de números.
É o
capitalismo da cobra que vai mordendo o próprio rabo. Esse comportamento
autofágico é, na verdade, o que faz o capitalismo ser inviável. Com a pandemia,
eles têm uma grande desculpa para testar esse sistema. A Universal está
lançando alguns dos títulos que tinham guardado para as salas de cinema direto
em TVoD também. A Paramount acabou de vender para a Netflix por US$ 57 milhões
um filme que ia para o cinema.
• A Diamond iria lançar The Trial of the
Chicago 7, mas não vai mais…
KMF
- Ainda bem que eu trabalho com uma
distribuidora que não é só amiga, mas que compartilha a visão de que o filme
tem que ser incrível tanto nas salas de cinema quanto na próxima fase, que é
vender para televisões, VoD, etc. Ele precisa ter o máximo de carreira que
puder ter. Se ele tem potencial, que seja explorado da melhor maneira possível,
até em home video, que é uma coisa que já está praticamente descartada pelas
distribuidoras. A gente vendeu 5 mil DVDs de Bacurau e está em 2,5 mil
Blu-rays. São números, infelizmente, anormais.
Ele foi
superbem em mídias, plataformas digitais, torrent. É muito interessante saber
que há uma procura grande pelo filme e, agora na pandemia, o sistema do mercado
está testando o novo sistema. Se esse sistema pegar – e claro que vai pegar,
porque as pessoas não estão indo ao cinema –, talvez a gente tenha uma mudança
de paradigma que me preocupa. Até agora, eu entendia que, contanto que você
tenha janela de proteção, vai todo mundo correr para as salas de cinema para
ver Bacurau. Porque o filme não está disponível em canto nenhum, ele está
passando na Cinemark, no Cinema da Fundação, no cinema do Adhemar. É lá que eu
vou ver. Mas agora, com a coisa do mercado comendo o próprio rabo e com a
pandemia, eu fico um pouco preocupado.
• Há momentos em que parece que o cinema
não é a principal janela para o distribuidor mais. O cinema funciona quase como
uma janela de transição. Falo de licenciamento de produtos, merchandising de
bonecos do Star Wars, por exemplo. Coisas que vão para loja de brinquedos. Isso
amplia o lucro. E, claro, o impacto de não haver o cinema como janela principal
será muito maior para as independentes. O cinema amortiza custos dos
produtores, mas quando o cara adquire o filme, ele já está pensando na outra
janela, não é só no cinema.
KMF - É
complexo. Estamos num momento bem dramático. Estou um pouco preocupado porque
sou um grande defensor da experiência cinematográfica – inclusive do ponto de
vista social. Quantos Cinemas da Fundação existem no Brasil? Acho que não
chegam a dez. Estou falando assim: sala com perfil público, ingresso barato,
projeção incrível, som fantástico, programação foda e de formação de público. O
Brasil tem 210 milhões de brasileiros. Não há dez salas. Contamos nos dedos de
uma mão as revistas de cinema que temos neste país.
É muito
impressionante, a pobreza. Quando a gente esteve com Fernando Haddad, eu falei:
a única coisa que eu acho da Spcine é que ela deveria cobrar ingresso. Um
ingresso muito barato, mas que cobrasse, porque o nosso business aqui não é
dinheiro, e sim promover uma ideia forte e real de diversidade. Passa pela
ideia de diversidade você exercer sua cidadania pagando para ver um filme.
Cinema não é de graça, cinema deveria ser acessível. Pagar R$ 50 para ver um
filme é para cair na gargalhada. Agora, a R$ 5, você está dando um sentido real
de cidadania para o espectador. O Recife teve um projeto aqui no Teatro do
Parque de ingresso a R$ 1 nos anos 1990, no início do Plano Real. Permaneceu
até 2009, quando fechou para fazer uma reforma interminável. Todo mundo sabia
que bastava chegar lá com R$ 1 que assistiria a um filme. Mas não era de graça.
• Sobre esse tema das salas, a
Universidade Federal do Pará investiu dinheiro próprio na construção de uma
sala de cinema, uma espécie de Fundaj, uma sala na contramão de tudo o que está
acontecendo no Brasil. Vai ser interessante acompanhar essa nova sala surgindo.
KMF -
Em alguns lançamentos de filmes, como no de O som ao redor, começou a haver
“cercadinhos” muito definidos em várias cidades do Brasil. E Recife, com
certeza, é uma delas. Exibidores que copiam um certo jeito de programar de
outro cinema, como o Cinema da Fundação, e tenta brecar filmes em outros
lugares pedindo exclusividade. Não é possível fazer isso, nem por conta do
argumento do valor do ingresso de uma sala pública em relação à sala comercial,
por exemplo.
Essa
quebra de perfil, o mercado também estabelece, mas precisa ser combatida pelos
exibidores. E só pode ser combatida pelos exibidores que tenham filmes que todo
mundo quer exibir. Aí se torna uma questão bem demonstrativa de como funciona a
mentalidade. Uma sala como essa no Pará vai ser inicialmente tratada como uma
sala café com leite. Ela não pode ser tratada como uma sala café com leite,
mas, sim, como uma sala real, mesmo que o ingresso seja barato.
• Salas como Spcine e Fundaj ajudam a
formar público…
KMFM-
Mas a gente precisa de mais filmes como Bacurau, Que horas ela volta?, Hoje eu
quero voltar sozinho, para engrossar a massa do cinema brasileiro. Aparecer um
Bacurau a cada um ou dois anos não é suficiente. Se o Divino amor tivesse vindo
depois de Bacurau, teria pegado um vácuo, um oxigênio interessante do
lançamento de Bacurau.
Fonte:
Entrevista com Kleber Mendonça, para Jacobin Brasil

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