As
mulheres pioneiras da luta pela saúde
Nos
Estados Unidos, a ocupação masculina das funções de cura começou mais tarde que
na Inglaterra ou na França, mas foi muito mais longe. Provavelmente, não há
nenhum país industrializado com menor porcentagem de médicas que os Estados
Unidos atualmente [década de 1970]: a Inglaterra tem 24%; a Rússia, 75%; os
Estados Unidos, apenas 7%. E enquanto a ocupação de parteira é uma atividade
próspera na Escandinávia, no Reino Unido e nos Países Baixos, aqui ela foi
praticamente proscrita no início do século XX. Na virada do século, a medicina
estava fechada a todas as mulheres, exceto a uma pequena minoria,
necessariamente abastada. O que sobrou foi a enfermagem, que não serviu, de
maneira alguma, para substituir os papéis autônomos que as mulheres haviam
experimentado no passado como parteiras e curandeiras em geral.
A
questão não é tanto de que forma as mulheres foram “deixadas de fora” da medicina e alojadas na
enfermagem, mas como essas categorias, em primeiro lugar, se formaram. Em
outras palavras: como uma categoria específica de pessoas dedicadas à cura,
composta apenas de homens brancos de classe média, conseguiu destituir toda a
concorrência de curandeiras populares, parteiras e outros praticantes do
cuidado que dominavam a cena médica estadunidense até o início do século XIX?
A
resposta convencional dos historiadores da medicina é que, obviamente, houve
apenas uma profissão médica verdadeira nos Estados Unidos, representada por um
pequeno grupo de homens cuja autoridade científica e moral evoluiu em um fluxo
ininterrupto a partir de Hipócrates, Galeno e dos grandes estudiosos médicos
europeus. Durante a formação do país, esses médicos tiveram de combater não
apenas os problemas rotineiros da doença e da morte, mas os abusos de uma série
de praticantes leigos — geralmente descritos como mulheres, ex-escravizados,
indígenas e bêbados vendedores de remédios sem prescrição. Felizmente para a
profissão médica, no final do século XIX o público estadunidense de repente
desenvolveu um respeito saudável pelo conhecimento científico dos médicos,
superou sua fé anterior em charlatões e concedeu à verdadeira profissão médica
um monopólio duradouro nas artes de curar.
A
verdadeira questão, contudo, não está nesse drama inventado sobre a ciência
versus a ignorância e a superstição, mas na longa história das lutas de classes
e de gênero do século XIX , em que se disputava o poder em todas as áreas da
vida. Quando mulheres ocupavam algum lugar na medicina, esse lugar estava na
medicina popular; quando essa medicina foi destruída, não havia mais espaço
para as mulheres, exceto no papel subserviente de enfermeira. O conjunto de
pessoas dedicadas à cura que se tornariam a profissão médica se distinguia não
tanto por suas associações com a ciência moderna quanto por suas associações
com o emergente establishment financeiro do país. Com todo o respeito que
devemos a Pasteur, Koch e a outros pesquisadores médicos europeus do século
XIX, é necessário ressaltar que foram os Carnegie e Rockefeller que intervieram
para assegurar a vitória final da profissão médica nos Estados Unidos.
Nos
anos 1800, o país dificilmente poderia ter um ambiente menos promissor para o
desenvolvimento da profissão médica — ou de qualquer profissão. Os poucos
médicos formalmente treinados que viviam nos Estados Unidos tinham imigrado da
Europa. Havia poucas escolas de medicina no país e pouquíssimas instituições de
ensino superior no geral. Recém-saído de uma guerra de libertação nacional, o
povo estadunidense em geral era hostil a qualquer tipo de profissionalismo e a
elitismos “estrangeiros”.
Na
Europa Ocidental, médicos treinados em universidades já tinham um século de
monopólio sobre o direito de recomendar tratamentos. Nos Estados Unidos, porém,
a prática médica era tradicionalmente aberta a qualquer um que demonstrasse
habilidades de cura, a despeito de instrução formal, raça ou sexo. Anne
Hutchinson, líder religiosa dissidente do século XVII, praticava a “medicina
geral”, assim como muitos pastores e suas esposas. O historiador da medicina
Joseph Kett relata que “um dos mais respeitados médicos no final do século
XVIII em Windsor, Connecticut, por exemplo, era um negro liberto chamado ‘Dr.
Primus’. Em Nova Jersey, até 1818, a prática médica, exceto em casos
extraordinários, estava majoritariamente nas mãos de mulheres”.
As
mulheres frequentemente dividiam consultórios com seus maridos: eles eram
responsáveis pela cirurgia; elas, pelo parto e pela ginecologia. O resto podia
ser compartilhado. Havia também a possibilidade de as mulheres praticarem o
ofício depois de desenvolverem habilidades tratando de membros da própria
família ou por meio do aprendizado com parentes ou curandeiros já
estabelecidos. Por exemplo, Harriet Hunt, uma das primeiras médicas formadas
nos Estados Unidos, interessou-se pela medicina após sua irmã ter ficado
doente. Ela trabalhou por um período com uma dupla de “médicos” composta de
marido e mulher, e então começou a aplicar tratamentos por conta própria. Só
mais tarde é que buscou treinamento formal.
Fonte:
Por Barbara Ehrenreich e Deirdre English, em Outra Saúde

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