sexta-feira, 20 de março de 2026

As mulheres pioneiras da luta pela saúde

Nos Estados Unidos, a ocupação masculina das funções de cura começou mais tarde que na Inglaterra ou na França, mas foi muito mais longe. Provavelmente, não há nenhum país industrializado com menor porcentagem de médicas que os Estados Unidos atualmente [década de 1970]: a Inglaterra tem 24%; a Rússia, 75%; os Estados Unidos, apenas 7%. E enquanto a ocupação de parteira é uma atividade próspera na Escandinávia, no Reino Unido e nos Países Baixos, aqui ela foi praticamente proscrita no início do século XX. Na virada do século, a medicina estava fechada a todas as mulheres, exceto a uma pequena minoria, necessariamente abastada. O que sobrou foi a enfermagem, que não serviu, de maneira alguma, para substituir os papéis autônomos que as mulheres haviam experimentado no passado como parteiras e curandeiras em geral.

A questão não é tanto de que forma as mulheres foram  “deixadas de fora” da medicina e alojadas na enfermagem, mas como essas categorias, em primeiro lugar, se formaram. Em outras palavras: como uma categoria específica de pessoas dedicadas à cura, composta apenas de homens brancos de classe média, conseguiu destituir toda a concorrência de curandeiras populares, parteiras e outros praticantes do cuidado que dominavam a cena médica estadunidense até o início do século XIX?

A resposta convencional dos historiadores da medicina é que, obviamente, houve apenas uma profissão médica verdadeira nos Estados Unidos, representada por um pequeno grupo de homens cuja autoridade científica e moral evoluiu em um fluxo ininterrupto a partir de Hipócrates, Galeno e dos grandes estudiosos médicos europeus. Durante a formação do país, esses médicos tiveram de combater não apenas os problemas rotineiros da doença e da morte, mas os abusos de uma série de praticantes leigos — geralmente descritos como mulheres, ex-escravizados, indígenas e bêbados vendedores de remédios sem prescrição. Felizmente para a profissão médica, no final do século XIX o público estadunidense de repente desenvolveu um respeito saudável pelo conhecimento científico dos médicos, superou sua fé anterior em charlatões e concedeu à verdadeira profissão médica um monopólio duradouro nas artes de curar.

A verdadeira questão, contudo, não está nesse drama inventado sobre a ciência versus a ignorância e a superstição, mas na longa história das lutas de classes e de gênero do século XIX , em que se disputava o poder em todas as áreas da vida. Quando mulheres ocupavam algum lugar na medicina, esse lugar estava na medicina popular; quando essa medicina foi destruída, não havia mais espaço para as mulheres, exceto no papel subserviente de enfermeira. O conjunto de pessoas dedicadas à cura que se tornariam a profissão médica se distinguia não tanto por suas associações com a ciência moderna quanto por suas associações com o emergente establishment financeiro do país. Com todo o respeito que devemos a Pasteur, Koch e a outros pesquisadores médicos europeus do século XIX, é necessário ressaltar que foram os Carnegie e Rockefeller que intervieram para assegurar a vitória final da profissão médica nos Estados Unidos.

Nos anos 1800, o país dificilmente poderia ter um ambiente menos promissor para o desenvolvimento da profissão médica — ou de qualquer profissão. Os poucos médicos formalmente treinados que viviam nos Estados Unidos tinham imigrado da Europa. Havia poucas escolas de medicina no país e pouquíssimas instituições de ensino superior no geral. Recém-saído de uma guerra de libertação nacional, o povo estadunidense em geral era hostil a qualquer tipo de profissionalismo e a elitismos “estrangeiros”.

Na Europa Ocidental, médicos treinados em universidades já tinham um século de monopólio sobre o direito de recomendar tratamentos. Nos Estados Unidos, porém, a prática médica era tradicionalmente aberta a qualquer um que demonstrasse habilidades de cura, a despeito de instrução formal, raça ou sexo. Anne Hutchinson, líder religiosa dissidente do século XVII, praticava a “medicina geral”, assim como muitos pastores e suas esposas. O historiador da medicina Joseph Kett relata que “um dos mais respeitados médicos no final do século XVIII em Windsor, Connecticut, por exemplo, era um negro liberto chamado ‘Dr. Primus’. Em Nova Jersey, até 1818, a prática médica, exceto em casos extraordinários, estava majoritariamente nas mãos de mulheres”.

As mulheres frequentemente dividiam consultórios com seus maridos: eles eram responsáveis pela cirurgia; elas, pelo parto e pela ginecologia. O resto podia ser compartilhado. Havia também a possibilidade de as mulheres praticarem o ofício depois de desenvolverem habilidades tratando de membros da própria família ou por meio do aprendizado com parentes ou curandeiros já estabelecidos. Por exemplo, Harriet Hunt, uma das primeiras médicas formadas nos Estados Unidos, interessou-se pela medicina após sua irmã ter ficado doente. Ela trabalhou por um período com uma dupla de “médicos” composta de marido e mulher, e então começou a aplicar tratamentos por conta própria. Só mais tarde é que buscou treinamento formal.

 

Fonte: Por Barbara Ehrenreich e Deirdre English, em Outra Saúde

 

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