sexta-feira, 20 de março de 2026

Maria Luiza Falcão: A História não terminou

No final dos anos 1980, quando o sistema soviético já dava sinais evidentes de colapso e pouco antes da queda do Muro de Berlim, o cientista político americano de origem japonesa Francis Fukuyama publicou o ensaio que se tornaria uma das interpretações mais influentes do período pós-Guerra Fria.

Em seu ensaio de 1989, posteriormente transformado no livro O fim da história e o último homem (1992), Fukuyama argumentou que a democracia liberal combinada com a economia de mercado havia se consolidado como a forma final de organização política e econômica das sociedades modernas.

Segundo essa interpretação, a humanidade teria alcançado o “ponto final de sua evolução ideológica”. Conflitos e crises continuariam a existir, mas não haveria mais um modelo alternativo capaz de rivalizar com o liberalismo político e o capitalismo de mercado.

Durante algum tempo, essa leitura pareceu convincente. A queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética pareciam indicar que a grande disputa ideológica do século XX havia terminado. A globalização avançava rapidamente, o comércio internacional se expandia e a integração financeira parecia consolidar um sistema econômico cada vez mais interdependente.

Não deixa de haver certa ironia histórica no fato de que a tese do “fim da história” tenha sido formulada por um intelectual americano de origem japonesa. Francis Fukuyama, nascido em Chicago, construiu sua interpretação do triunfo do liberalismo a partir de uma tradição filosófica profundamente europeia, inspirada sobretudo em Georg Wilhelm Friedrich Hegel e na leitura que dele fez o filósofo Alexandre Kojève. Naquele momento histórico, a vitória do modelo político e econômico do Ocidente parecia confirmar essa interpretação.

Mas a história, como frequentemente ocorre, mostrou-se muito mais complexa.

As décadas seguintes revelaram que as forças estruturais da política e da economia mundial estavam longe de ter se esgotado.

<><> O mundo que não seguiu o roteiro

As décadas seguintes revelaram fissuras profundas nessa visão otimista.

A crise financeira global de 2008 expôs a fragilidade estrutural do capitalismo financeirizado. As guerras do Oriente Médio demonstraram que o poder militar norte-americano não era capaz de reorganizar regiões inteiras do planeta. O retorno de nacionalismos e rivalidades geopolíticas também mostrou que a política internacional continuava longe de qualquer estabilidade duradoura.

Ao mesmo tempo, novos centros de dinamismo econômico começaram a emergir, deslocando gradualmente o eixo da economia mundial.

Se houve um fenômeno que mais claramente desafiou a tese do “fim da história”, esse fenômeno foi a ascensão da China.

<><> A sombra da China

Em poucas décadas, a China realizou uma transformação econômica de proporções históricas. De economia relativamente periférica no final dos anos 1970, tornou-se o maior polo industrial do planeta, líder em diversos setores tecnológicos emergentes e principal parceiro comercial de grande parte do mundo em desenvolvimento.

Mais do que o tamanho de sua economia, porém, é o tipo de modelo de desenvolvimento chinês que provoca inquietação em Washington. A China alcançou esse avanço sem adotar o receituário clássico do liberalismo econômico ocidental. Seu sistema combina planejamento estatal, coordenação industrial, empresas públicas estratégicas e abertura seletiva ao mercado internacional.

Esse arranjo institucional desafia diretamente uma das premissas centrais do debate dos anos 1990: a ideia de que a integração à economia global levaria inevitavelmente à convergência política e econômica em direção ao modelo liberal ocidental.

Nada disso ocorreu.

Em vez de convergir para o modelo ocidental, a China construiu uma trajetória própria de desenvolvimento e passou a disputar liderança tecnológica, industrial e financeira em diversos setores estratégicos.

Para parte significativa da elite estratégica norte-americana, essa ascensão representa não apenas um desafio econômico, mas também um desafio geopolítico e ideológico. A possibilidade de que um país que não segue o modelo liberal ocidental se torne um dos principais motores da economia mundial coloca em xeque a narrativa de que a democracia liberal e o capitalismo desregulado constituiriam o destino inevitável das sociedades modernas.

<><> A autocrítica de Fukuyama

Curiosamente, o próprio Fukuyama começou a reconhecer algumas dessas tensões.

Em obras posteriores, como The Origins of Political Order (2011) e Political Order and Political Decay (2014), ele reformulou parte de seu argumento original. Em vez de simplesmente afirmar a vitória definitiva do liberalismo, passou a enfatizar que uma ordem política estável depende da combinação de três elementos institucionais fundamentais: um Estado forte, capaz de implementar políticas públicas; o império da lei, que submete governantes e governados às mesmas normas; e a responsabilização democrática dos governos perante a sociedade.

Mais importante ainda, Fukuyama introduziu o conceito de decadência política. Instituições que um dia funcionaram bem podem, ao longo do tempo, tornar-se capturadas por interesses organizados e incapazes de responder às novas demandas sociais. O resultado é a perda de eficiência do Estado, o bloqueio das reformas e a crescente desconfiança da população em relação às instituições democráticas.

<><> A crítica que veio antes

Muito antes dessa revisão parcial do próprio Fukuyama, diversos pensadores marxistas já haviam apontado uma fragilidade fundamental na tese do “fim da história”.

A democracia liberal não opera em um vazio social. Ela se desenvolve dentro de economias capitalistas que tendem a produzir concentração crescente de riqueza e poder econômico.

Esse processo inevitavelmente se traduz em influência política.

Grandes conglomerados financeiros, corporações multinacionais e elites econômicas passam a exercer influência crescente sobre governos, parlamentos e políticas públicas. O resultado é aquilo que muitos analistas descrevem como captura do Estado.

Sob essa perspectiva, aquilo que Fukuyama identifica como “decadência política” não seria apenas uma disfunção institucional ocasional, mas uma consequência estrutural da própria dinâmica do capitalismo contemporâneo.

<><> Trump e o retorno da História

É nesse contexto mais amplo que as decisões estratégicas de Donald Trump precisam ser analisadas.

A escalada militar contra o Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz recolocam o mundo diante de um cenário típico das grandes disputas geopolíticas do século XX: competição por rotas energéticas, rearranjos de alianças e disputas abertas por influência regional.

Longe de consolidar a ordem liberal internacional, essas ações tendem a acelerar exatamente o processo oposto.

Conflitos prolongados drenam recursos, ampliam instabilidades e reforçam a percepção global de que a liderança norte-americana se tornou errática e imprevisível. Ao mesmo tempo, essas crises frequentemente acabam criando oportunidades estratégicas para outras potências que buscam ampliar seu espaço de influência no sistema internacional.

<><> Um mundo novamente em conflito

A grande ironia histórica é evidente.

Enquanto Fukuyama imaginava que a humanidade caminhava para uma era de estabilidade liberal, o início do século XXI tem sido marcado pelo retorno das rivalidades geopolíticas, pela fragmentação da economia global e pela emergência de novos centros de poder.

A história não terminou.

Ela apenas entrou em uma nova fase — possivelmente mais instável, mais competitiva e mais imprevisível do que aquela que muitos imaginaram no entusiasmo do pós-Guerra Fria.

Pepe Escobar: Como Irã e China deram forma ao tabuleiro da guerra

A resposta de dupla-via da China à guerra dos Estados Unidos-Israel contra o Irã reflete uma estratégia geopolítica e econômica mais ampla, que vai do campo de batalha ao sistema financeiro global.  

A resposta oficial da China ao Sindicato Epstein – ou Estados Unidos e Israel – sobre a guerra contra o Irã vem se dando por duas vias paralelas – um porta-voz diplomático e outro militar. 

Tradução: a China vê a guerra tanto como uma tensão  político-diplomática extrema e como uma ameaça militar.  

O porta-voz militar da China, um coronel do Exército de Libertação Popular (ELP), fala por meio de metáforas. Foi ele quem disse explicitamente que os Estados Unidos são “viciados em guerra”, com apenas 250 anos de história e apenas 16 de paz.  

Ele, com toda a clareza, coloca os Estados Unidos como uma ameaça global. E, claramente, também como uma ameaça moral (itálicos meus). 

O Presidente chinês Xi Jinping está firmemente focado em estabelecer uma conexão duradoura entre o marxismo e o confucionismo. 

A grande contribuição de Confúcio para o pensamento político foi o uso preciso da linguagem. Apenas aquele que fala com metáforas precisas e peso moral é capaz de governar uma nação.  

A China, portanto, vem desenvolvendo com máximo cuidado uma firme crítica moral e ética da guerra eletiva desencadeada pelos Estados Unidos contra o Irã. Enfatizando o fato de que esse é o ataque de uma nação que perdeu sua bússola moral. 

O Sul Global entende perfeitamente a mensagem.  

Além disso, os fatos no campo de batalha mostram que a China também alterou as regras da guerra no Irã. 

A rede iraniana está agora totalmente conectada ao sistema de satélite BeiDou.  Isso explica por que o Irã agora ataca com precisão, e que cada movimento do combo Estados Unidos-Israel se depara com um Muro Digital da tecnologia chinesa (mais de 40 satélites BeiDou em órbita). E explica também a  excelente precisão dos mísseis iranianos e sua crescente resistência a interferências.

Como parte de sua Parceria Estratégica Ampla de 25 anos, a China também forneceu ao Irã radares de longo alcance, integrados a sistemas de satélite. O principal resultado é a resposta muito mais rápida do Irã, se comparada à da guerra de doze dias.  

A Rússia ajudou em uma linha paralela, permitindo que o Irã aplicasse o muito que a Rússia aprendeu na Ucrânia sobre sistemas ocidentais como o Patriot e o IRIS-T. Não se trata  de táticas de saturação de drones em massa, mas sim de aprender o modo russo de coordenar enxames de drones com saraivadas de mísseis balísticos. É exatamente isso que está operndo de forma devastadora nos estágios mais recentes da Operação  True Promise IV.  

<><> Jogando Go: é tudo uma questão de petroyuan 

Foquemos agora a questão do Estreito de Hormuz. A principal jogada é o Irã só permitir o trânsito de navios-petroleiros cuja carga tenha sido negociada em petroyuan. Nada de dólares. Nada de euros. Só yuans.  

A China, de fato, já começou a eliminar o sistema Bretton Woods/petrodólar em dezembro de 2022, quando Pequim convidou as petromonarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) a negociar petróleo e gás na Bolsa de Valores de Xangai. 

Agora, acoplemos tudo o que foi dito acima ao 15º Plano Quinquenal chinês, que acaba de ser discutido e aprovado em Pequim.  

É isso que se chama visão sistêmica profunda.

De maneira bastante holística, os planejadores de Pequim fixaram um crescimento do PIB de quatro por cento; a economia digital avançando para 12,5 por cento do PIB; soluções de energia verde para 25 por cento; qualidade de água de superfície para 85 por cento; uma avalanche de patentes de alto valor, tudo isso e ainda mais, igualmente tabulado, com metas difíceis de serem atingidas e indicadores obrigatórios até 2030. 

O que significa que os chineses estão tratando economia, segurança energética, ecologia, educação e saúde como se fossem órgãos de um mesmo corpo saudável. É assim que a urbanização alimenta a produtividade: um grande volume de investimentos em Pesquisa & Desenvolvimento alimenta um número cada vez maior de patentes, as patentes alimentam a economia digital e as soluções de energia verde alimentam a independência estratégica.  

O Plano Quinquenal mais recente mostra conclusivamente que a China vem planejando meticulosamente assumir a liderança do futuro tecnológico que se avizinha. E isso vai muito além de 2030, até chegar a meados do século. 

Não é de admirar que a eliminação do petrodólar seja um elemento importante desse processo de mudança do atual sistema de relações internacionais. O Irã, agora, está oferecendo de bandeja essa possibilidade, ao substituir o petrodólar pelo petroyuan no ponto de estrangulamento mais crítico do planeta, pelo qual passam vinte por cento do petróleo global.  

O jogo do Irã não é militar; é financeiramente nuclear (itálicos meus) . O que facilita tudo é que o Irã já vem oferecendo o modelo a ser seguido pelo restante do Sul Global: quase 90 por cento das exportações de petróleo cru de Teerã são em yuan, usando o sistema de pagamento  CIPS. 

O Sul Global poderá, futuramente, adotar  esse modelo de grande simplicidade. Teerã não diz que o Estreito de Ormuz está bloqueado. Ele está bloqueado apenas para o hostil Sindicato Epstein  – os Estados Unidos – e seus minions que negociam em petrodólares. Rotas marítimas vêm sendo convertidas em filtros políticos em tempo real. À medida que o Sul Global migra para o petroyuan, o petrodólar hegemônico – desde1974 – vai para o buraco.

A essas alturas, todos os negociantes do planeta sabem como o petrodólar funciona. Após o choque do petróleo de  1973, o Conselho do Golfo (CCG) e a  OPEC concordaram, em 1974, que o petróleo só seria negociado em dólares dos Estados Unidos.  

Os exportadores terão, necessariamente, que reciclar seus lucros em dólar, convertendo-os de volta a títulos e ações do Tesouro dos Estados Unidos. O que reforça o  papel do dólar como moeda de reserva, financia os investimentos estadunidenses em tecnologia e o complexo industrial-militar e suas Guerras Eternas e, acima de tudo, financia de fato a impagável dívida dos Estados Unidos. 

China, Rússia e Irã, como membros dos  BRICS, estão na linha de frente dos esforços para fazer avançar os sistemas de pagamento alternativos, o que, crucialmente, implica o abandono do petrodólar. 

Isso, portanto, significa muito mais do que controlar o petróleo – a razão alegada para a caótica e improvisada “excursão” (terminologia de Trump) ao Irã. 

Para todos os fins práticos, os fatos no terreno já indicam um Colossal Fracasso. O que alcançou um outro patamar nunca antes visto foi o contragolpe. 

<><> A Guarda Revolucionária Islâmica segue  Sun Tzu 

Usar o Estreito de Ormuz como arma é puro Sun Tzu revisado pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI). Tanto um corredor de conectividade – o Estreito de Ormuz  - quanto uma moeda – o yuan – são agora armas de destruição imperial. Quem precisa de uma bomba nuclear? 

O que está em jogo é o controle do sistema financeiro global  – muito além de 2030, chegando até meados do século e mais além. O que estamos assistindo em tempo real são os persas jogando xadrez – que eles jogam como ninguém – mas com elementos do  weiqi  chinês (“Go”, em inglês). 

O Go é orgânico. Quando as pedrinhas usadas no jogo se conectam, elas moldam a forma e o controle de longo prazo por todo o tabuleiro. Em nosso caso, o tabuleiro geopolítico/geoeconômico. É tudo é uma questão de posicionamento, paciência, acúmulo de vantagens e estratégia de gerenciamento. 

Esse é o “segredo” de por que razão a guerra contra o Irã agora oferece à China a jogada decisiva. Há anos, Pequim, com infinita paciência, vem dando forma ao tabuleiro: criando um conjunto de instituições multilaterais, desempenhando um papel crucial nos BRICS e na Organização de Cooperação de Xangai (OCX), construindo as Novas Rotas da Seda (ICR), investindo em sistemas de pagamento alternativos e turbinando sua diplomacia. 

O Go é extremamente racional. Se você der forma ao tabuleiro da maneira correta, você não perderá. O jogo joga a si mesmo. É aí que estamos agora. E é por isso que o Vociferador Imperial, juntamente com seus puxa-sacos, facilitadores e vassalos, estão pasmos e petrificados: prisioneiros de seu próprio pântano de hubris.

 

Fonte: Brasil 247

 

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